“Poema azul”, de Italo Diblasi

eu reconheço a distância
calada de um coração

essa distância-oceano
que é a distância dos anos,
dos autos, dos atos de fé

do labirinto tecido
à fina seda do sonho
que sonda o poente

eu reconheço a distância
forçada do exílio

do suicídio coroado
nas laudas do tempo,
do vento, do corpo que amei

eu atravessei o grito
dos seus olhos quando até
a palavra tempo cessou
e o relâmpago profetizou,
na escuridão, o retorno

e você diz que eu fiquei mais azul

 

Do livro O limite da navalha (2016)

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“Pobres contra o aborto, ricos a favor das armas: as classes dividem os conservadores”, por Talita Bedinelli

Extraído do jornal El País [via Mídia Ninja]:

Para 57% dos brasileiros, uma mulher que pratica aborto deveria ir para a cadeia. A maconha deveria continuar proibida na opinião de 66%. Quase seis entre dez brasileiros acreditam que o país deveria adotar a pena de morte e oito de cada dez declaram que a maioridade penal deveria ser rebaixada para 16 anos. E há ainda 42% que creem que a posse de arma de fogo deveria ser legalizada no país. Estes são os resultados de uma pesquisa Datafolha sobre temas polêmicos realizada no final de novembro passado e divulgada na íntegra nesta semana. Se, por um lado, ela mostra que o apoio a temas conservadores é grande no Brasil, quando olhada mais de perto revela que nem todos os temas apelam aos mesmos perfis. Os conservadores brasileiros não são todos iguais. E esta ponderação é importante em um ano eleitoral.

A pesquisa mostra que temas conservadores relacionados aos costumes apelam mais a uma população mais pobre, menos escolarizada e mais velha. E muito menos aos estratos opostos. Quando os entrevistados foram questionados se, independentemente da situação, a mulher que interrompe a gravidez deveria ser processada e ir para a cadeia, tema bastante em voga no Congresso brasileiro, 57% declararam que sim. O apoio à criminalização do aborto é ainda maior entre os que estudaram apenas até o ensino fundamental (71%), têm renda familiar de até dois salários mínimos (67%) e entre 45 e 59 anos (61%). E é muito menor entre os que estudaram até o ensino superior (34%) e ganham mais de dez salários mínimos (26%).

Vê-se uma tendência similar quando o tema é a legalização do consumo de maconha. Se os dados globais mostram que 66% dos brasileiros acreditam que a droga deveria continuar proibida, os que estudaram até o fundamental são mais apoiadores disso (74%), assim como os que ganham até dois salários (71%) e os que têm mais de 60 anos (73%). Cai consideravelmente entre os que fizeram ensino superior (55%), os que ganham mais de dez salários mínimos (45%) e os que têm entre 16 e 24 anos (57%). “A população mais pobre é mais exposta a um conjunto maior de vulnerabilidades. O efeito das drogas é visto de forma mais negativa por elas, já que costumam viver mais perto do tráfico, por exemplo. Por isso, há uma diferença na maneira como as classes percebem essas questões”, afirma Carlos Savio Gomes Teixeira, chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.

Este abismo entre classes já não é visto de forma tão acentuada quando os temas conservadores se relacionam com a violência. Enquanto 57% das pessoas afirmaram que se houvesse uma consulta à população votariam favoravelmente à pena de morte, a taxa, a maior dos últimos anos, cresce um pouco entre os que cursaram ensino médio (60%) e entre os que ganham até dois salários (58%) ou de dois a cinco salários (58%). Ainda que seja menor entre os que cursaram o superior (50%) e os que ganham mais de dez salários (42%), a diferença entre os dois estratos sociais não é tão latente como nos temas relacionados aos costumes. Quando se trata de reduzir a maioridade penal para 16 anos, há um consenso mais bem distribuído. Para 84% da população, isso deveria acontecer. E aumenta mais entre os que têm ensino médio (88%) e os que ganham entre 2 e 5 salários mínimos (87%) —ainda que caia, mas não bruscamente, entre os de nível superior (79%) e entre os que ganham mais de 10 salários (73%).

E quando se questionou se possuir uma arma de fogo legalizada deveria ser um direito do cidadão para se defender, 42% concordam, mas a taxa aumenta justamente entre os mais escolarizados (43%, entre os que têm ensino médio e superior) e ricos (47%), algo que faz sentido por ser uma questão bastante interligada a posses patrimoniais.

Mas como esses posicionamentos influenciam as eleições? Para Teixeira, eles causam menos impacto nas campanhas majoritárias, como a de presidente da República, do que nas proporcionais, como a de deputados. “Na eleição majoritária, primeiro o eleitor faz um cálculo de se vale a pena participar. Se considera que sim, ativa muitas variáveis, como seus próprios interesses e valores, mas também o momento pelo qual passa o país. Neste ano, por exemplo, os componentes desta escolha devem girar especialmente em torno de dois grandes temas: a economia e a moral, por conta da corrupção”, aponta. “Já um voto de deputado é mais personalista. O cálculo é: quero eleger alguém que me represente e que dê atenção prioritária a temas que me parecem importantes. Se acho que violência é o que me afeta muito, voto no que fala de violência”, completa. E isso se reflete no grau de conservadorismo do Congresso. “Basta ver a Bancada da Bala, que a cada eleição cresce no Congresso Nacional”.

Para o professor, os dados da pesquisa também são importantes para que os candidatos reflitam sobre seus posicionamentos em relação à temática da violência. “Esse tema não pode ficar nas mãos da direita brucutu, que traz respostas simples, como armar as pessoas. É uma grande oportunidade para se tematizar isso. A esquerda precisa complementar a defesa dos direitos humanos com uma agenda prática que responda a essa ansiedade que boa parte da população brasileira tem com o tema da criminalidade, da violência, que é real.”

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“f. digita o barulho das teclas enquanto j. fala”, de Frederico Klumb

não durmo
tampouco penso
na estranha morte
de Ana Mendieta
tua filha que não nasceu
nem no deus desnudo
debaixo da cama
estou aqui
não faz frio
há poucas coisas
que garantiriam
minha melancolia
mas estou aqui
estou
a meio metro de distância
por trás da luz
da tela
enquanto você
segura minha queda
e caso a água inunde a cena.

 

Publicado nos Cadernos do CEP
volume 7, outubro de 2017

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“Consummation”, de Nina Simone

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Poema de Golgona Anghel

Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.

Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões nm UMM.

As grandes emoções
vinham das palavras longas:
astralopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windowns XP.

 

Do livro Nadar na piscina dos pequenos (2017)

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Feira de Publicações de Poesia

Extraído do Facebook:

a terceira feira, primeira destinada a publicações de poesia no rio de janeiro, reúne coletivos, iniciativas e diversos selos editoriais em quatro dias:

de quinta 25/01 a domingo 28/01
____________de 16h às 22h

P R O G R A M A Ç Ã O :

QUINTA 25

17h _ ZINEXPOSIÇÃO: 27 ANOS DE CEP 20.000
________vernissage da exposição que bebe da estética dos fanzines e publicações independentes para apresentar às novas gerações um pouco do legado de 27 anos de existência do Centro de Experimentação Poética. Curadoria de Santiago Perlingeiro e Vitor Paiva, com parceria do Paginário e Vidi Descaves.

19h _ CEP 20.000 DE VERÃO
________os poetas publicados nos Cadernos do CEP em 2017 se reúnem para celebrar o fim deste primeiro ciclo de trabalho com a leitura de poemas + shows surpresa.

**

SEXTA 26

17h _ REVISTAS IMPRESSAS DE LITERATURA: NOVAS EDIÇÕES
________lançamento das revistas e conversa com as editoras / Marília Garcia, grampo canoa #4 / Thais Medeiros, rébus #8 // mediação: Juliana Travassos

18:30h _ EDITORE / TRADUTTORE / TRADITORE
________conversa com os editores / Marcelo Reis de Mello, Editora Cozinha Experimental / Marcelo Lotufo, Edições Jabuticaba / Luiza Leite, fada inflada

20h _ POETAS DE DOIS MUNDOS
________os autores trazem poemas autorais, inéditos ou não, e textos de poetas mortos que marcaram sua trajetória // Catarina Lins / Leonardo Marona / Gabriel Gorini / Rita Isadora Pessoa / André Gravatá / Amora Pêra / Liv Lagerblad

21:30h _ NOSSA ARTE É POSTAR
________performance / kza1

**

SÁBADO 27

17h _ Oficina Experimental de Poesia e Sarau do Escritório
________conversa com alguns dos articuladores dos coletivos / Rafael Zacca / Ana Carolina Assis / Alex Teixeira / Luiz Fernando Pinto // mediação: Miguel Jost

19h _ MULHERES QUE ESCREVEM E ILUSTRAM
________conversa com as poetas e ilustradoras / Bruna Mitrano / Priscilla Menezes // mediação: Estela Rosa

21h _ SARAU DAS MULHERES CONVIDA SLAM DAS MINAS
________finalistas do Slam das Minas RJ / Natasha Felix / Valeska Torres / Letícia Brito / +++

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DOMINGO 28

17h _ OUTRA POESIA: POEMA & ARTES, PENSAMENTO, MEMÓRIA, CINEMA, ENSINO ETC.
________conversa com os poetas / Manoel Ricardo de Lima / Leïla Danziger // mediação: Luiz Guilherme Barbosa

19h _ QUASE TODAS AS POSTAGENS
________conversa com os poetas / Carlito Azevedo / Simone Brantes // mediação: Stephanie Borges

20:30h _ ENCERRAMENTO

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e mais:
nanica I exposição portátil
________nanica é uma exposição portátil com trabalhos de 15 artistas e escritores numa escala em torno de 10x10x10 cm

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entrada gratuita
a casa de pedra tem bar com quitutes e acepipes!
rua redentor, n. 64 – próximo ao metrô nossa senhora da paz

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editoras presentes: fada inflada, Rébus, Luna Parque Edições, Coletivo Garupa, Editora 7Letrass, Azougue, Editora Circuitoo, Editora Cozinha Experimental, Edições Jabuticaba, Dantes Editora e kza1.

apoio: Casa de Pedra 64, Mulheres que escrevem e Coletivo Garupa

realização: Juliana Travassos e Santiago Perlingeiro

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DECRETO Nº 9.262, DE 9 DE JANEIRO DE 2018

Extingue cargos efetivos vagos e que vierem a vagar dos quadros de pessoal da administração pública federal, e veda abertura de concurso público e provimento de vagas adicionais para os cargos que especifica.” Alguns desses cargos: secretário executivo, tradutor, intérprete, técnico em arquivo, enfermeiro do trabalho, pesquisador, médico veterinário, técnico em planejamento administrativo, tec. em produção cultural, médico, técnico em segurança do trabalho, radiologista, técnico de enfermagem, técnico em contabilidade, técnico de laboratório, técnico em cartografia, analista de sistema, engenheiro de segurança do trabalho, economista, pedagogo, geógrafo, técnico educacional, biomédico, bibliotecário, arquivista, zootecnista, estatístico, odontólogo, psicólogo, sociólogo, nutricionista, farmacêutico, administrador, assistente social, auditor, técnico em assuntos educacionais, fisioterapeuta, professor assistente, titular e auxiliar, analista de informação e muitos outros… Cf. site da Presidência da República, Casa Civil.

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