Atualidades atlânticas (1979), de Bernardo Vilhena

Poema de Bernardo Vilhena que abre o livro Atualidades atlânticas (1979), reunido em Vida bandida e outras vidas (2014), pela editora Azougue:

 

É preciso viver
atualidades
reconhecer códigos
revirar noites
ser todas as raças
todas as épocas
entrar em todas
as barras
e não sujar
em nenhuma
falando o que querendo
ouvindo o que não querendo
perseguindo a realidade
e a fantasia aí

poesia é como o momento
em que a gente se encontra
sendo
não por dom
pelo entorpecente trabalho
de pensar no tempo
nos contemporâneos
obstinadamente
feito um tubarão

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Brasilírica, de Nicolas Behr

Em 2017, completaram-se 40 anos da publicação de Iogurte com farinha, o primeiro dos livrinhos mimeografados de Nicolas Behr. Um pouco desses 40 anos de criação se encontra nos poemas selecionados de 1977-2017, com o título Brasilírica. O projeto gráfico é muito bonito, assinado por Gabriel Menezes e pelo próprio poeta. Apresentação de Marcelino Freire. Na metade do livro há uma linda foto de Nicolas em 1978, rodando livrinhos no mimeógrafo elétrico da marca Gestetner.

Segue aqui um dos seus poemas, “Aconteceu na 103”, seguido da capa do livro e da foto de Nicolas em 1978:

 

o porteiro do bloco I
da 103 sul pegou
a filha do síndico
do bloco O da 413 norte
com o cara da 302
do bloco D da 209 sul
dentro do carro
do zelador do bloco L
da 517 norte

 

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“Buracos no céu”, de Chacal

quando tempo e espaço se cortam
quando nosso corpo se encontra
diga que eu perdi a cabeça
diga que eu sou uma bolha de alka seltzer

quando chove meteoro
quando os buracos se cruzam
caem fagulhas na terra
correm agulhas no sangue

desorganizado saio de casa
com um guarda-chuva de cheeseburger
com uma capa de amianto
e não me espanto

entretanto descobri:
a loucura é um sopro no ouvido

 

de América, 1975

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“Pergunte a ele”, de Raymond Carver

 

Pergunte a ele

 

Relutante, meu filho me acompanha
através dos portões de ferro
do cemitério de Montparnasse.
“Mas que jeito de passar um dia em Paris!”,
é o que ele gostaria de dizer. E, de fato, diz.
Ele fala francês. Começou uma conversa
com o guarda de cabelos brancos que se ofereceu
para ser nosso guia informal. E então, lentamente, os três
nos movemos ao longo de fileiras e fileiras de túmulos.
Todo mundo, pelo visto, está aqui.

Está quente e calmo, e não se ouvem
os sons das ruas de Paris. O guarda quer nos levar
ao túmulo do homem que inventou o submarino
e ao de Maurice Chevalier. E ao túmulo
da cantora Nonnie, de 28 anos,
coberto por um monte de rosas vermelhas.

Eu quero ver os túmulos dos escritores.
Meu filho suspira. Ele não quer ver nada disso.
Já viu o bastante. Passou do tédio
para a resignação. Guy de Maupassant; Sartre; Saint-Beuve;
Gautier; os Goncourt; Paul Verlaine e seu velho camarada,
Charles Baudelaire. Onde nos detemos.

Nenhum desses nomes, ou túmulos, tem qualquer coisa a ver
com as vidas sem problemas do meu filho e do guarda.
Que podem, nesta manhã, conversar e fazer piadas em francês
debaixo de um belo sol.
Mas há outros nomes gravados na lápide de Baudelaire,
e eu não entendo por quê.
O nome de Charles Baudelaire está entre o de sua mãe,
que lhe emprestava dinheiro e a vida toda se preocupou
com sua saúde, e o de seu padrasto, um militar
que ele odiava e que odiava a ele e a tudo que ele representava.
“Pergunte ao seu amigo”, digo. Então meu filho pergunta.
É como se agora ele e o guarda fossem velhos amigos
e eu estivesse ali para ser tolerado.
O guarda diz alguma coisa e depois coloca
uma mão sobre a outra. Desse jeito. Faz isso
de novo. Uma mão sobre a outra. Rindo. Zombando.
Meu filho traduz. Mas eu entendi.
“Como um sanduíche, pai”, diz meu filho. “Um sanduíche de Baudelaire.”

Então nós três seguimos adiante.
O guarda tanto poderia estar fazendo isso como qualquer outra coisa.
Ele acende o cachimbo. Olha o relógio. Está quase na hora
do seu almoço, e de uma taça de vinho.
“Pergunte a ele”, digo, “se ele quer ser enterrado
neste cemitério quando morrer.
Pergunte onde ele quer ser enterrado.”
Meu filho é capaz de dizer qualquer coisa em francês.
Eu reconheço as palavras tombeau e mort
em sua boca. O guarda para.
É evidente que seus pensamentos estavam em outro lugar.
Guerra submarina. A sala de concertos, o cinema.
Algo para comer, sua taça de vinho.
Não em decomposição, não em apodrecimento.
Não em aniquilação. Não em sua morte.

Ele nos olha, para um e para o outro.
Estamos brincando? Aquilo é uma piada sem graça?
Ele nos saúda e se afasta caminhando.
Em direção a uma mesa na calçada de um café.
Onde ele pode tirar o boné, correr os dedos
pelos cabelos. Ouvir vozes e risadas.
O tilintar pesado dos talheres. O retinir
sonoro das taças. O sol nas janelas.
O sol nas folhas e na calçada.
O sol encontrando o caminho até sua mesa. Sua taça. Suas mãos.

 

Tradução de Cide Piquet

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Lançamento – A poesia e a crítica, de Antonio Cicero

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17/06/2017 · 19:50

João Paulo Cuenca e Godofredo de Oliveira Neto no Polo Literário

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Demarcação já!

 

Extraído do site da Articulação de Povos Indígenas do Brasil – APIB:

Um protesto pacífico de mais de três mil indígenas foi atacado com bombas de efeito moral e gás pela policia na frente do Congresso, na tarde de hoje (25/4). Os manifestantes foram dispersados após tentarem deixar quase 200 caixões no espelho de água do Congresso. Vários manifestantes passaram mal por causa do gás. No protesto, havia centenas de crianças, idosos e mulheres.

Um gigantesco cortejo fúnebre tomou conta da Esplanada dos Ministérios por volta das 15h. Os manifestantes saíram do acampamento onde estão, ao lado do Teatro de Nacional de Brasília, levando os caixões e um banner com a expressão “Demarcação Já”. Eles seguiram tranquilamente até o Congresso.

Os caixões representavam líderes indígenas assassinados por causa dos conflitos de terra em todo país – 54 indígenas foram assassinados em todo o país por causa de conflitos de Terra, só em 2015, segundo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

“São nossos parentes assassinados pelas políticas retrógradas de parlamentares que não respeitam a Constituição Federal”, explica a liderança Sônia Guajajara, da coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Até o fechamento desta notícia, os manifestantes seguiam cantando e dançando em frente ao Congresso. Eles prometem permanecer até um pouco mais tarde no local.

Os indígenas participam da 14ª edição do Acampamento Terra Livre, a maior mobilização indígena dos últimos anos. O evento vai até esta sexta (28/4) e protesta contra a paralisação das demarcações de Terras Indígenas, a nomeação do deputado ruralista Osmar Serraglio (PMDB-PR) com ministro da Justiça, o enfraquecimento da Fundação Nacional do Índio (Funai) e as várias propostas em tramitação no Congresso contra os direitos indígenas.

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