Istambul, de Orhan Pamuk

Qualquer que seja a quantidade de carros que caíram no Bósforo ao longo dos anos, a história é sempre a mesma: os passageiros acabam arrastados para as profundezas, de onde não existe volta. Não só já ouvi e li essas histórias como já vi alguns carros caindo com meus próprios olhos! Não importa quem sejam os passageiros – crianças aos berros; um casal de amantes brigando; um bando de bêbados incovenientes; um marido que volta para casa às pressas; um velho que não enxerga bem no escuro; um motorista sonolento que parou no cais para tomar chá com os amigos e depois saiu de primeira em vez de engatar a marcha a ré; Sefik, o velho tesoureiro, com a sua linda secretária; policiais que contavam os navios singrando o Bósforo; um motorista aprendiz que saiu com a família no carro da fábrica sem permissão; um fabricante de meias de nylon que por acaso é conhecido de um parente distante; um pai e um filho usando capas de chuva idênticas; um famoso gângster de Beyoglu e a sua amante; uma família de Konya que estava vendo pela primeira vez as pontes do Bósforo – quando os carros voam para dentro d’água, nunca afundam direto como pedras. Por um momento oscilam, como que pousados na superfície. Pode ser à luz do dia, ou a única iluminação pode ver de uma meyhane próxima, mas quando as pessoas do lado vivo do Bósforo olham para o rosto daqueles que estão a ponto de afundar, veem um terror consciente. Um instante depois o carro afunda devagar no mar profundo, escuro e cortado por rápidas correntezas.

Istambul, de Orhan Pamuk, tradução de Sergio Flaksman

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Ohad Naharin e Caetano Veloso

Trecho do documentário biográfico de Tomer Heymann sobre o coreógrafo Israelense Ohad Naharin, que teve grande influência na dança moderna com o seu próprio movimento, intitulado GAGA. Música: Caetano Veloso – “It’s a Long Way”, do álbum Transa [via Lula Arraes]:

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Malasartes, 1975 – Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto

 

Já sabemos que a civilização está em boas mãos,
que a economia está em boas mãos, que o poder passa
de boas em boas mãos. E a poesia, está em boas mãos?
Esperamos que não.

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“Cardiograma” – Marcos Siscar

 

as ruas não eram mais argumentos recusavam-se
desiguais ou em lascas emudecidas e sem segredo
no melhor dos casos me dizia já sem convicção
essas ruas áridas oblíquas avaras seriam
um ritmo de falhas sobre as quais
se debruçam velhas quaresmeiras
em flor

 

De Manual de flutuação para amadores, 7Letras

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“O Ângelo de Lima que nos olha” – Jorge Fernandes da Silveira

Uma linda análise feita pelo professor Jorge Fernandes da Silveira, em diálogo com o artigo “O Lima Barreto que nos olha”, da professora Beatriz Rezende:

SONETO

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado

Na doida correria em que levado

Ia em busca da paz, do esquecimento…


Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára m cavalo alucinado

Ante um abismo súbito rasgado…

Pára e fica e demora-se um momento.


Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora

E mergulha na noite escura e fria


Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria

E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima. “Porto, 30 de Julho de 1872Lisboa, 14 de agosto de 1921 (49 anos), pintor e poeta louco da revista Orpheu.

Conhecido como o soneto da entrada na loucura, transcrevo-o quase imediatamente à leitura do bem achado e informado texto de pesquisa de Beatriz Resende sobre o nosso Lima Barreto (1881 – ­1922). Também nosso é o outro Lima, não sem a ironia de certas coincidências, o louco “de verdade” da revista Orpheu, de Pessoa & Cia, em cujo segundo número publica o soneto. Não me proponho, é claro, a nenhuma comparação entre os dois escritores. Nem avançar na biografia do “alienado do manicómio de Rilhafoles”, filho de pai suicida, retornado de África, alcoólatra, de passagens pelo Colégio Militar (é expulso) e pela Academia de Belas-Artes, internado com o diagnóstico de “delírio de perseguição”, e mantido preso até o fim da vida, declarado esquizofrênico paranóide pelo psiquiatra Miguel Bombarda. Reitero, sim, o elogio ao comovente documento do que Beatriz nos dá a ler, a ver (com prazer, hélas!): a busca de uma foto imaginariamente existente. Os traços de parecença nas fotos dos limas impressionam: pronunciados menos no nariz grande, mais alto num, mais largo noutro, têm eloquencia igual no olhar e na boca de ambos, onde o que é fixidez inquiridora nos olhos de Lima Barreto parece estar a ponto de expressar perturbadora pergunta em lábios de Angelo de Lima. Vindos do século XIX, coexistentes em vida – ambos morrem aos 40 anos no início dos novecentos, do Modernismo –, deixam uma história da loucura associada à miséria, ao preconceito, ainda por investigar entre os nossos homens de letras, ou, perdão, como bem diz a ensaísta e pesquisadora, entre os contemporâneos, em que “ao crítico literário, ao pes­quisador, cabe, ao que me parece, sobretudo um trabalho de cartografia que atravessa todas essas formas de manifestação, formando um sistema de possíveis.”

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“Gerações, analogias e golpes” – José Almino de Alencar

O artigo “Gerações, analogias e golpes”, de José Almino de Alencar, foi publicado na Revista Ciência Hoje [via Lula Arraes]:

“Minha geração”: quase toda gente que pertence à camada de letrados recorre à expressão, muitas vezes com um travo de sentimentalismo ou de orgulho Refere-se assim não apenas a um agrupamento circunscrito pela estatística, sua coorte demográfica, mas a uma comunidade feita de percepções, de subjetividade ativa, composta por homens que compartilham de maneira distinta dos dilemas políticos, ideológicos, culturais, dos valores comportamentais, no horizonte de uma mesma contemporaneidade. Nela, algo de marcante que foi experimentado em comum a caracterizaria.

Esses traços distintivos não são adquiridos no curso de toda uma vida. Aparecem, sobretudo, durante o período de formação dos indivíduos envolvidos, à época da primeira juventude, digamos assim, em que algo da circunstância reinante – acontecimento ou mudança – veio a servir de meio de identificação para aquele grupo.

Poderia ser uma coisa trivial – uma moda, um preconceito; ou, mais significativa: um evento traumático, como o golpe militar de 1964, a ferida narcísica de ‘minha geração’ e com a qual tenho, bem ou mal, de conviver. Foi provavelmente esse recalque ou simples ranço que me levou a implicar sobremodo com duas analogias proclamadas e repetidas durante os conflitos recentes em torno do impeachment.

A primeira é a que vê ali um eco remanescente das antigas batalhas pelo socialismo contra as forças do capital quando o que se tem – nos seus momentos mais nobres – é uma oposição entre duas linhas de gestão e, eventualmente, de reforma do capitalismo vigente e internacionalizado, no âmbito de um país da América Latina.

Somos cientes: a administração petista (com muito mais sucesso, aliás, do que as suas aparentadas na Venezuela, no Equador e na Argentina) implementou uma política de distribuição de renda de amplitude excepcional na história recente do país. Para isso, fez uso de algumas vantagens surgidas no bojo do desenvolvimento do capitalismo internacional, amplamente identificadas: o boom de exportação das commodities (com a ajuda da demanda induzida pelo crescimento do capitalismo chinês), a relativa vantagem comparativa de nossos mercados financeiros frente à depressão do valor dos juros na banca internacional etc. Portanto, teve o seu dia de partido social democrata bem-sucedido no continente americano. Em contrapartida, a reforma do Real, feita no governo Itamar Franco, consistiu em um exemplo original de intervenção estatal para debelar a inflação, com efeito similar na melhoria da renda das classes assalariadas.

A outra analogia é a que compara o momento atual com o golpe de 64.

As esquerdas brasileiras, que nunca tiveram presença hegemônica em governo nacional algum durante o período da vigência plena da Constituição de 1946, começaram timidamente a crescer à sombra da democracia do segundo governo [Getúlio] Vargas e da presidência de Juscelino Kubitscheck, durante a década de 1950. Períodos, aliás, permanentemente ameaçados pelo veto militar, com levantes e intervenções diretas das forças armadas em várias ocasiões. Naquele contexto, a posse de João Goulart, impedida momentaneamente por um golpe de estado, nasce de um compromisso com as forças conservadoras, e a sua permanência no poder (sempre precária) não chegou a completar um quatriênio.

Ora, o controle do Poder Executivo pelo PT durou 13 anos, um dos mais longevos situacionismos em nossa história republicana. Durante esse tempo, formulou e executou políticas, investiu, subvencionou, distribuiu recursos, nomeou e demitiu; enquanto transacionava, se compunha e se aliava com uma vasta gama de políticos e partidos convencionais (para não dignificá-los com a denominação de conservadores), muitos dos quais se transformaram em algozes durante o impeachment. Procurar caracterizar-se como um governo indefeso, tal qual o de Jango, constitui mais do que uma impropriedade. É praticamente uma confissão de incompetência.

Portanto, se a primeira analogia subestima a inteligência daqueles de “minha geração”, que pensavam que a política seria um lugar de elaboração de alternativas mais amplas e generosas à sociedade capitalista, a segunda ofende a memória dos que foram testemunhas de 1964.

Em 9 de abril de 1964, o novo regime depois de ter deposto o presidente, governadores, encarcerado centenas de pessoas, espancado e matado outras tantas, baixa um ato legislativo que traz essa fórmula capaz de fazer inveja a Carl Schmitt: “[…] a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória”.

Isto sim é um golpe de estado.

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Concurso: bolsas de Iniciação Científica

Extraído do site da Fundação Casa de Rui Barbosa:

A Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) lançou edital oferecendo bolsas de iniciação científica para estudantes de graduação. As áreas disciplinares incluem um largo espectro das ciências humanas e das sociais aplicadas, além de letras e artes, arquivologia, biblioteconomia e museologia.

As inscrições para o Programa de Iniciação Científica da FCRB só podem ser feitas pelo correio, até 14 de junho de 2016, valendo a data de expedição contida no carimbo da empresa prestadora do serviço de encomenda expressa (Sedex ou similar). O envelope contendo todo material solicitado e a ficha de inscrição impressa deve ser enviado para Fundação Casa de Rui Barbosa – Programa de Iniciação Científica – Rua São Clemente, nº 134, Botafogo, Rio de Janeiro/RJ, CEP: 22260-000.

As entrevistas ocorrerão de 13 a 28 de julho. O resultado será publicado até 1º de agosto. Os novos bolsistas começarão seus trabalhos no dia 1º de setembro de 2016, ou de acordo com o cronograma de execução do respectivo projeto.

:: Conheça o detalhamento de todas as etapas do concurso no Edital para Seleção de Bolsistas de Pesquisa. (pdf. 401 KB).
:: Ficha de inscrição (Doc. 33 KB).

Informações: tel. 21 3289-8642 ou e-mail pic@rb.gov.br.

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