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“Sobre o ombro esquerdo”, de Jorge Fernandes da Silveira

A partir da leitura de “É”, poema de Eucanaã Ferraz, Jorge Fernandes da Silveira escreveu os versos de “Sobre o ombro esquerdo”, também dialogando com Carlos Drummond de Andrade e Carlos de Oliveira:

Da vida dos livros
há muito ele nos vê.
Fita-nos com o olhar maravilhado e fatal
qual o Gigante mira.
Descolado
tem a medida justa dos olhos em que a humanidade cabe
em cena. Metamorfoses.
E porque insiste nele
o desejo absurdo de Ocidente não tem idade.
Está onde estiver.
Calado é nave homem cavalo ângelus ân
fora. Vozes. Pedra de lida (lida delida deslida) de lira.
Dadivoso da sestra mão sobre o ombro esquerdo funda
Davi tenro e novo ramo florescente o mundo.

19 de março de 2016

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“Água significa ave” – Homenagem a Jorge Fernandes da Silveira

Na próxima terça-feira, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a partir das 9h, será realizada a homenagem ao professor Jorge Fernandes da Silveira, recém-aposentado. A homenagem não podia ser mais justa e pertinente, pois trata-se de um professor brilhante, um notável leitor de poesia e uma figura humana das mais encantadoras. Muitos professores de Literatura portuguesa de diversas universidades brasileiras foram alunos e orientandos de Jorge da Silveira. Além disso, graças a ele muitos poetas portugueses tornaram-se conhecidos no Brasil e estão sendo estudados em cursos de pós-graduação, como Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge. Fui aluno de Jorge apenas recentemente, na pós-graduação, quando tratou da poesia de Fiama Hasse Pais Brandão. Um curso inesquecível, sem qualquer dúvida.

Cartaz Jorge 1

Programa

 

 

Abertura / 9h00

Eleonora Ziller Camenietzki (Faculdade de Letras)

Claudia Fátima Morais Martins (Faculdade de Letras)

Monica Figueiredo (Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas)

Mônica Genelhu Fagundes (Setor de Literatura Portuguesa)

 

Mesa 1« Sou cúmplice da minha mutação » / 9h20

Teresa Cristina Cerdeira

Luci Ruas

Ângela Beatriz de Carvalho Faria

Sofia de Sousa Silva

Apresentação: Maria Elizabeth Graça de Vasconcellos

 

Coffee-break

 

Memória Breve: Água Significa Águeda /11h20

Jorge Fernandes da Silveira

Apresentação: Maria Lucia Guimarães de Faria

 

Mesa 2« Rosas terás em redor » / 12h00

Cleonice Berardinelli

Marlene de Castro Correia

Margarida Alves Ferreira

Simone Monteiro de Oliveira

Terezinha Val

Apresentação: Clécio Quesado

 

Encerramento – Recital/ 13h00

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“Entre todas as presenças, eu esperei”, de Fiama Hasse Pais Brandão

O livro Cenas vivas, de Fiama Hasse Pais Brandão, é um dos mais belos livros de poesia que já li. Agradeço aos professores e amigos Jorge Fernandes da Silveira, especialista entre especialistas em sua obra, e Carlos Mendes de Sousa, que me ofereceu o referido livro. A eles devo esta forma eterna de alegria, a beleza, como descreveu John Keats. Abaixo, um fragmento da seção “Elegíacos”:

 

Entre todas as presenças, eu esperei
a do leitor. Quis ver-lhe os cílios
tremerem com a mancha poética.
Na cena doméstica que hoje vi,
a pequena cria abocanhada pelo cachaço,
levada pela gata, se puder, até ao Infinito,
é como o poema que o autor prende na boca.
Mas quem até aqui virá condoído da tortura
de ter um peso morto entre os meus dedos,
poemas que não existem, autor sem som?

 

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De Hannah Arendt a Manuela Carneiro da Cunha (via Jorge Fernandes da Silveira)

Transcrevo aqui a bela associação de textos que me foi enviada pelo professor Jorge Fernandes da Silveira. A associação não apenas é muito pertinente, como deixa evidente a inteligência crítica de Jorge da Silveira:

A única atividade que Jesus Cristo ensinou, por palavras e atos, foi a atividade da bondade, e a bondade abriga obviamente uma tendência de evitar ser vista ou ouvida. A hostilidade cristã em relação ao domínio público, a tendência pelo menos dos primeiros cristãos de levar uma vida o mais possível afastada do domínio público, pode também ser entendida como uma consequência evidente da devoção às boas obras, independentemente de qualquer crença ou expectativa. Pois é claro que, no instante em que uma boa obra se torna pública e conhecida, perde o seu caráter específico de bondade, de não ter sido feita por outro motivo além do amor à bondade. Quando a bondade aparece abertamente já não é bondade, embora possa ainda ser útil como caridade organizada ou como ato de solidariedade. Daí: “Não dês tuas esmolas perante os homens, para seres v isto por eles”. A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom: seria, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro da Igreja. Daí: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.”

HANNAH ARENDT A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. 11ª ed. revista, 3ª tiragem, 2012. p. 91-92

* * *

Neste governo a mão direita e a mão esquerda parecem se ignorar. A esquerda promove uma maior justiça social; a direita promove um chamado desenvolvimento sem qualquer limite. O problema não é o desenvolvimento em si, mas seu caráter selvagem:

MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (grifo de Jorge da Silveira), Folha, A8, 14/07/13

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“La gloria literaria gracias a los demonios familiares y a los secretos íntimos”

Artigo publicado no caderno de cultura de El País e generosamente enviado por Jorge Fernandes da Silveira:

Cada escritor tiene un campo en cuyas tierras ha enterrado sus secretos más oscuros y preciados que no cesan de refulgir en las noches como guacas, como enterramientos indígenas que ellos saquean a su antojo. La gran literatura suele estar enraizada en crímenes artísticos, estar levantada sobre desdichas propias y ajenas.

¡Benditas infelicidades! ¡Benditos guaqueros!

Uno de esos guaqueros es Colm Tóibín, escritor irlandés hoy convertido en explorador de guacas ajenas. Ha rastreado los campos de los demonios tutelares de 20 grandes autores y puesto sus tesoros a los ojos de todos en Nuevas maneras de matar a tu madre (Lumen). Cuatrocientas y un páginas con joyas secretas de toda índole: incestos, traiciones, duelos sentimentales y económicos, envidias, amores frustrados o vanidades diversas, cuyos fulgores suelen ser de tres clases: poder, reconocimiento y sexualidad. “Las obras de los genios surgen de fuentes insólitas”, afirma el autor de títulos como Crónica de la noche, El faro de Blackwater, El maestro y Brooklyn. El escritor desvela cómo conflictos con la madre, el padre u otros miembros de la familia influyen en la decisión de alguien a la hora de convertirse en escritor.

Hoy es un día de guacas. Hoy el recorrido es por los campos sagrados, de sagrados secretos de Jane Austen, Henry James, W. B. Yeats, Thomas Mann, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, Tennessee Williams, John Cheever o V. S Naipaul. El libro es un asomo a la vida y a sus semillas de autores. “Ellos son como todos nosotros. Son una muestra pequeña de cualquier familia”, aclara Tóibín, profesor de la Universidad de Columbia. Todo a través de diarios, cartas, autobiografías y biografías que conforman una especie de predio literario de El jardín de las delicias, de El Bosco.

El joven Jorge Luis Borges junto a su madre Leonor, su padre y su hermana. / EL PAÍS

Tóibín arroja luz sobre la humanidad de los autores y ayuda a entender mejor sus obras. Narra vidas, conecta lazos, escarba y encuentra semillas, se asoma al origen del big bang de algunos maestros. Muestra la necesidad que tienen ellos de dar forma a sus verdades sobre el mundo.

¡Benditas infelicidades! ¡Benditos guaqueros!

De las tías a la soledad

Lo primero que surge en el libro es que las madres fueron prácticamente desaparecidas en las novelas de los siglos XVIII y XIX. James y Austen son dos de los autores que más desconfían de ellas en la ficción, y en su reemplazo pusieron a las tías, incluso en el papel de malas y/o como guías de los protagonistas-héroes o heroinas que debían enfrentarse al mundo y conquistar libertades. Un personaje sustituido, hasta hoy, por la soledad del individuo y su mundo interior, porque, según Tóibín, “estar solo es fundamental, al igual que sentirse solo en un grupo. La mitad de tu vida eres un solitario, hay una mitad en sombra, no necesitas a nadie que te guíe porque ya eres libre, las novelas contemporáneas hablan de la conquista de sí mismo”.

Madres para olvidar

Si la madre de Borges podría ser el prototipo de mujer controladora, las de J. M. Synge y Samuel Beckett eran conflictivas y su semilla está esparcida en sus obras porque ellos las utilizaron como fuente de material creativo. Pero hay una decisiva en lo personal y creativo: May Roe, la madre de Beckett. El Nobel irlandés tenía, según Tóibín, “un problema, simple y nada fácil de resolver: consistía en cómo vivir, qué hacer y quién ser”. Llegó a tener dos psicoanalistas que visitaba hasta tres veces por semana, en busca del origen de todas sus sombras. En una carta escribió: “con un dolor específico acudí a Geoffrey, y luego a Bion, para averiguar ‘el temor y el dolor específicos’, los síntomas menos importantes de una enfermedad que se inició en una época que no podía recordar, en mi ‘prehistoria’. Beckett sabe dónde está el origen de todo y lo plasma en otra carta de 1937, cuando su madre lo dejó solo en la casa familiar: “Y no podría desearle nada mejor que la posibilidad de sentir lo mismo cuando no estoy. (…) soy lo que su amor salvaje ha hecho de mí, y está bien que uno de los dos lo acepte por fin. (…) Sencillamente no quiero verla ni escribirle ni saber de ella.”

Padres para retar

Varios escritores surgen o se hacen fuertes gracias al duelo sostenido con sus padres que un día quisieron ser escritores pero fracasaron. Es el caso de lo vivido por Henry James, Borges, Yeats y Naipaul. Un duelo soterrado. Padres que nunca acababan las cosas que empezaban, y, tal vez, aventura Tóibín, precisamente eso es lo que llevó a que sus hijos fueran perfeccionistas.

Si los hermanos James, Henry y William, cometieron el parricidio literario enmascarado de generosidad permitiendo la publicación del libro de su padre que no valía nada, el protagonizado por los Yeats es de novela:

En una carta John, el padre, le dice a su hijo William Butler: “Nunca eres más feliz ni son más oportunas tus palabras que cuando en la conversación describes la vida y haces comentarios sobre ella. Pero cuando escribes poesía es como si te pusieras el frac, por así decirlo, y te obcecaras y olvidaras qué resulta vulgar en un hombre con frac. Estoy seguro que algún día escribirás una obra sobre la vida real donde la poesía será la inspiración”. Luego le pedía opinión a su hijo, ya famoso, sobre un libro suyo, a lo que este respondía con silencio e indiferencia. Y, poco a poco, se produce el asesinato más humillante: “El anciano es como un niño, todo inocencia con su orgullo y su esperanza, y el hijo se muestra distante, endiosado y todopoderoso, dispuesto a ignorar, criticar y machacar discretamente. El hijo es frío y despiadado; el anciano está desesperado por que lo asesinen. Es como si Edipo, Herodes y alguna tercera fuerza salida del oscuro laboratorio de Freud se hubiesen unido”.

William Butler Yeats y su mujer. / EL PAÍS

Cómo malograr a la familia

Ser insensibles con los tuyos para crear sensibilidad en las obras. Esa parece ser la premisa de algunos autores, quienes utilizan la vida de sus familias como fuente y material de inspiración. “A veces”, reconoce Tóibín, “ser escritor es como ser un niño con un lápiz. Juegas con fuego, con la vida de otros, pero más importante porque lo haces con los sueños de tu vida. El proceso es lento, los autores no son malos ni buscan hacer daño adrede, pero si conocen o descubren un secreto familiar que les pueda servir para la obra eso es como el diablo”. Lo utilizan en función de crear una obra, de crear belleza.

Eso lo han hecho casi todos. Pero él habla aquí de Tennessee Williams, J. M Synge o de John Cheever, que muestra su vida emocional cotidiana porque “su obra es la sombra de su vida, o con más vida, destilada, y malogra a su familia”.

Aunque el ejemplo por antonomasia es el de la familia Mann. Un ecosistema único en el cual convergen múltiples tipos de familias: el padre, Thomas, poderoso dentro de la casa y admirado fuera y con un secreto inspirador para su obra: su homosexualidad; la madre, Katia, que quiere rodearlo todo pero bajo la sombra del marido; la hija mayor, Erika, favorita del padre (veló por él sus últimos años), escritora, homosexual; el segundo hijo, Klaus, el favorito de mamá y quien despertó en el padre una atracción sexual, se haría escritor con obras clave como Mephisto, aunque sin llegar a eclipsar al padre, muy unido a su hermana Erika a quienes se acuso de incesto, y que al final se suicidó; luego están Golo (homosexual), Monika y Michael, que también se suicidó. Son solo hebras de luz en una familia de miembros muy talentosos, pero como recuerda Tóibín, citando un pasaje de Muerte en Venecia, de Thomas Mann: “Es, sin duda, positivo que el mundo solo conozca la obra bella y no sus orígenes”.

Desveladas o no las semillas que forjan a un autor, con sus diversas sombras, demonios y traumas, los escritores, en el fondo, quieren que se sepa todo, de lo contrario, dice el escritor irlandés, no dejarían los diarios o cartas al alcance de sus familiares.

Escondan las guacas lo que sea, con sus enterramientos de los tesoros más oscuros, secretos y preciados de dolores familiares, y escondan sus fulgores los verdaderos motivos de los escritores, para Tóibín, “la imaginación es más grande que la familia y el mundo, porque los genios ven lo que los demás no vemos”.

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“O comedor de Salamanca”, de Jorge Fernandes da Silveira, e “Os três desejos de Octávio C.”, de Pedro Eiras

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01/12/2012 · 19:56