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“O Ângelo de Lima que nos olha” – Jorge Fernandes da Silveira

Uma linda análise feita pelo professor Jorge Fernandes da Silveira, em diálogo com o artigo “O Lima Barreto que nos olha”, da professora Beatriz Rezende:

SONETO

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado

Na doida correria em que levado

Ia em busca da paz, do esquecimento…


Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára m cavalo alucinado

Ante um abismo súbito rasgado…

Pára e fica e demora-se um momento.


Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora

E mergulha na noite escura e fria


Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria

E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima. “Porto, 30 de Julho de 1872Lisboa, 14 de agosto de 1921 (49 anos), pintor e poeta louco da revista Orpheu.

Conhecido como o soneto da entrada na loucura, transcrevo-o quase imediatamente à leitura do bem achado e informado texto de pesquisa de Beatriz Resende sobre o nosso Lima Barreto (1881 – ­1922). Também nosso é o outro Lima, não sem a ironia de certas coincidências, o louco “de verdade” da revista Orpheu, de Pessoa & Cia, em cujo segundo número publica o soneto. Não me proponho, é claro, a nenhuma comparação entre os dois escritores. Nem avançar na biografia do “alienado do manicómio de Rilhafoles”, filho de pai suicida, retornado de África, alcoólatra, de passagens pelo Colégio Militar (é expulso) e pela Academia de Belas-Artes, internado com o diagnóstico de “delírio de perseguição”, e mantido preso até o fim da vida, declarado esquizofrênico paranóide pelo psiquiatra Miguel Bombarda. Reitero, sim, o elogio ao comovente documento do que Beatriz nos dá a ler, a ver (com prazer, hélas!): a busca de uma foto imaginariamente existente. Os traços de parecença nas fotos dos limas impressionam: pronunciados menos no nariz grande, mais alto num, mais largo noutro, têm eloquencia igual no olhar e na boca de ambos, onde o que é fixidez inquiridora nos olhos de Lima Barreto parece estar a ponto de expressar perturbadora pergunta em lábios de Angelo de Lima. Vindos do século XIX, coexistentes em vida – ambos morrem aos 40 anos no início dos novecentos, do Modernismo –, deixam uma história da loucura associada à miséria, ao preconceito, ainda por investigar entre os nossos homens de letras, ou, perdão, como bem diz a ensaísta e pesquisadora, entre os contemporâneos, em que “ao crítico literário, ao pes­quisador, cabe, ao que me parece, sobretudo um trabalho de cartografia que atravessa todas essas formas de manifestação, formando um sistema de possíveis.”

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Arquivado em Ficção, Fotografia, Poesia

“O Lima Barreto que nos olha” – Beatriz Rezende

Extraído do site da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles:

O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha.

GEORGES DIDI-HUBERMAN

Lima Barreto em sua última passagem pelo hospital (1919)

Noite de Natal de 1919. O escritor Lima Barreto (1881 – ­1922) é levado, delirante, ao Hospício Nacional de Alienados, o antigo Hospício Pedro II que mudara de nome com a República. Recebe um uniforme, na verdade um pijama, é iden­tificado e fotografado.

Por uns bons 20 anos procurei por essa foto, mesmo não sabendo se ela realmente existia. Nunca percebi bem o porquê, mas, como parte de minhas pesquisas sobre o autor, parecia ser preciso ver o registro oficial dessa entrada no mundo da loucura, descrita por ele mesmo no grande momento de sua obra que é o Diário do hos­pício. Talvez porque nunca me recuperara completamente da emoção experimentada ao ler, na Biblioteca Nacional, escrito a lápis, no verso das folhas já usadas que conseguira da dire­ção do hospício, o relato dos três meses que o autor passou entre os loucos, desvalidos ou criminosos recolhidos ao edi­fício que mais se assemelhava a um palácio, na praia da Sau­dade, antigo nome da praia Vermelha, naquele tempo em que o prédio ficava bem em frente ao mar. As referências feitas ao recolhimento em A vida de Lima Barreto,1 preciosa biografia de Francisco de Assis Barbosa, não se mostravam suficientes. Ainda faltavam peças.

Em 2004, depois de acabar o trabalho de organização e comentário do conjunto de crônicas do autor, enquanto a edi­tora preparava os dois volumes de Toda crônica,2 tentei mais uma vez encontrar o livro de registros do hospício no Insti­tuto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no campus da praia Vermelha. Deve fazer algum sentido que o prédio do século XIX, construído para ser o Hospício Pedro II, tenha passado a abrigar em meados do século XX a reitoria da Universidade do Brasil e depois parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituições totais?

Ainda não seria daquela vez que encontraria a prova material do que tinha sido relatado no diário, que me defrontaria com o registro da época, com documentos que se pretendiam, por pertencerem ao mundo da ciência, objeti­vos. Os livros tinham, ao que parece, saído em viagem. Pouco depois, no entanto, uma servidora da biblioteca do Insti­tuto de Psiquiatria, para onde o material tinha sido levado, entrou em contato comigo dizendo que encontrara o que eu procurava. Peças da memória da Psiquiatria, como máquina de eletrochoques, negativos em vidro e os livros de registro começavam a se organizar, ainda bastante precariamente naquele ano, na biblioteca.

Lima Barreto em sua primeira internação, em 1914

Fui correndo, ansiosa, como que atendendo a algum tipo e chamado. E lá estavam, o registro e a foto, que nunca tinham aparecido diante dos olhos de alguém fora da insti­tuição. Por alguma razão, nem mesmo o biógrafo tivera acesso à imagem em suas vastas pesquisas. Em seguida, chamei um fotógrafo, que não só registrou a imagem do interno como, inoculado também pelo que de mágico parecia haver naque­les livros mantidos como secretos, reproduziu outras páginas – incluindo a anamnese feita pelo médico e outros documentos de internação, além da imagem de outros internos, fotos que seriam também importantes para compreendermos o pro­cesso de recolhimento.

Seis anos depois, em setembro de 2010, a pesquisadora Daniela Birman voltou ao mesmo espaço da instituição e con­seguiu encontrar o livro de registro anterior, de 1914, com a documentação da primeira entrada do escritor no Hospício Nacional e a foto dele aos 33 anos.

Completava-se, assim, a parca iconografia de um dos maio­res escritores da literatura brasileira.

NAS OBRAS COMPLETAS, A CONSTRUÇÃO DE UM AUTOR

O reconhecimento em vida da importância do escritor foi, como se sabe, escasso e polêmico. Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em folhetins do Jornal do Commer­cio entre agosto e outubro de 1911. Em livro só apareceu em 1916, editado pela Revista dos Tribunais, graças à boa vontade e Félix Pacheco e pago pelo próprio autor: “Tomei dinheiro aqui e dali, inclusive do Santos (Noronha Santos), que me emprestou 300 mil-réis, e o Benedito imprimiu-o”.3 Parte do dinheiro fora obtida em empréstimos de agiotas do Ministério da Guerra, onde trabalhava.

Os contos iam sendo publicados em revistas diversas; as crônicas, responsáveis pelo reconhecimento que recebe sobretudo como jornalista, enviadas para jornais diversos. A colaboração no A.B.C., fixa entre 1918 e 1919, foi interrom­pida depois de o semanário publicar um artigo ofensivo aos negros. As crônicas de mais forte teor político frequen­temente eram escritas a convite de editores de publicações menores e efêmeras, como Astrojildo Pereira. Nos últimos anos de vida, manteve uma intensa colaboração para a Careta.

Lima Barreto em 1909, ano de lançamento de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”

Afonso Henriques de Lima Barreto só será mesmo incorpo­rado à chamada história da literatura brasileira, ao elenco de escritores brasileiros tidos como dignos de serem estudados e, assim, ao cânone da literatura brasileira, a partir da publicação, em 1956, pela editora Brasiliense, das Obras completas, orga­nizadas por Francisco de Assis Barbosa com a colaboração de Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença. Em 1952, Assis Barbosa publicara a primeira edição da biografia, realizada após vários anos de pesquisa.

É importante refazer esse percurso por sua relevância, já naquela época, como método de estudo, como abordagem de uma obra na perspectiva multidisciplinar, hoje reconhecida como fundamental. Ao biógrafo de Lima, historiador de origem, juntaram-se filólogos, críticos literários e jornalistas na leitura e preparação dos textos. O conjunto do que, naquele momento, foi considerado “obras completas” – na verdade, pouco se pôde acrescentar a ele entre descobertas e resgates de textos de lá para cá – abarcava romances (inclusive o inacabado Cemitério dos vivos), contos, crônicas (algumas delas sob a forma de resenhas de livros) e editoriais, mas também escritos de origem diversa, como o Diário do hospício, transcrito do original manuscrito, e o Diário íntimo, com­pilado a partir de cadernetas variadas. Os manuscritos foram encontrados na casa do escritor alguns anos após sua morte, sob a guarda amorosa da irmã.

Vale notar, a propósito, a absoluta convicção de Lima Barreto sobre a importância de sua própria obra. Organizara pessoalmente todo o material, incluindo a listagem dos livros de sua biblioteca – nada acanhada para uma pequena casa de subúrbio, com títulos em inglês e francês – e os amarrados de recortes a que chamou “Retalhos” – reunindo material tirado de revistas e jornais, inclusive os que chegavam a Todos os Santos vindos do exterior.

No processo de legitimação do autor de que aqui tratamos, três aspectos merecem destaque e podem ser ativados como formas desejáveis de pesquisa no campo literário. Primeiro, a noção de arquivo, hoje tão importante para os estudos literários. É do arquivo do escritor que parte a pesquisa inicial e se torna possível a edição dos volumes das Obras completas. Por arquivo de escritor, entendemos hoje, além dos textos literários em si, elementos de uma rede tex­tual mais ampla, registros de contextos discursivos que envolvem produção e recepção, acervo privado e documentos de circulação pública. Fazem parte ainda do acervo fotografias e, em certos casos, objetos e pertences diversos.

Em seguida, o cruzamento de saberes e a troca de metodologias discipli­nares que resultaram no deslocamento de um historiador de seu campo ori­ginal e possibilitaram seu encontro com outros especialistas e intelectuais de atuação profissional diversa todos mobilizados em torno de um mesmo obje­tivo, a produção de um autor, aqui resultado desses múltiplos olhares que se voltaram para os textos.

Finalmente, a concepção tão contemporânea da não hierarquização de gêneros e práticas literárias, um conceito aberto para além dos limites que, durante tantos anos, reduziram o conceito de literatura. Apresentava-se ao público, assim, uma obra em que, como afirma Jacques Rancière, “tudo fala”, abolindo-se hierarquias da ordem representativa.

“Não existem temas nobres e temas vulgares, muito menos episódios nar­rativos importantes e episódios descritivos acessórios”, escreve Rancière. “Porque não há coisa alguma que não carregue em si a potên­cia da linguagem. Tudo está em pé de igualdade, tudo é igual­mente importante, igualmente significativo.”4

Essa forma de pensar a arte, que assume a destruição de categorias, fronteiras e hierarquias, constitui um regime esté­tico definido pelo conjunto de relações entre ver, fazer e dizer. É essa transformação que permite combinações inéditas, a partir da ruptura de um certo número de fronteiras como as que separam as artes entre si, as formas de arte, as formas de vida, a arte pura da arte aplicada, a arte da não arte, o narra­tivo do descritivo e do simbólico. Ao crítico literário, ao pes­quisador, cabe, ao que me parece, sobretudo um trabalho de cartografia que atravessa todas essas formas de manifestação, formando um sistema de possíveis.

Para pesquisadores de gerações posteriores, dentre os quais se destacam Nicolau Sevcenko e Antonio Arnoni Prado, ficou logo claro que era impossível conhecer realmente o escritor, perceber sua importância no quadro da literatura brasileira e na formação mesma da República que vivemos, se não relacionássemos sua obra de ficção a seus outros escritos como as crônicas, diários, registros íntimos.

Essa noção de arquivo, para a qual as pesquisas de Georges Didi-Huberman têm sido contribuição provocadora, se impõe, portanto, como proposta de pesquisa evocando novas tarefas, inclusive as de recuperação, ordenação e classificação nada fáceis entre nós, no Brasil de curta memória. Trata-se de “uma história que já podemos dizer fantasmal”, conforme escreve Didi-Huberman sobre Aby Warburg, “no sentido de que nela o arquivo é considerado o vestígio material do rumor dos mortos”.5

 

UMA TRAJETÓRIA PRECARIAMENTE DOCUMENTADA

Ao menos até recentemente, antes da difusão massiva da fo­tografia digital e de sua circulação nas redes sociais, a situação familiar e econômica de um escritor poderia ser avaliada a partir do seu álbum de retratos. As fotobiografias são, por isso, quase sempre reveladoras: nelas temos o autor criança, no co­légio, ao se formar, casando-se, recebendo prêmios. Cerimô­nias e diversos rituais burgueses revelam origem e formação do escritor, e são mais frequentes quando se referem àqueles que foram destinados a encontrar, sem maiores dificuldades, a fama. A falta desse tipo de fotos pode evidenciar pobreza, dificuldades encontradas, escassez de apoios que costumam alavancar uma carreira. No campo da literatura, se quisermos avaliar a posição de um autor no cânone de uma época, nada melhor do que visitar sua fotobiografia.

Órfão de mãe desde muito pequeno, criado por um pai que cedo enlouquece, não há qualquer registro fotográfico da infância ou da juventude de Lima Barreto, personagem que logo deixa a zona sul da cidade onde nascera, muda-se para um bairro que à época era quase um não-lugar, a Ilha do Gover­nador, para finalmente ir viver a maior parte da vida em uma chácara em Todos os Santos, acessível ao centro da cidade uni­camente pelos trens da Central.

A mais agradável das fotos que se conhece é identificada por seu biógrafo como sendo de 1909, ano da edição de Recor­dações do escrivão Isaías Caminha, primeiro romance do autor que vai a público, impresso em Portugal, também à custa do autor. A imagem é de um jovem simpático, sentado com as pernas cruzadas, um meio sorriso no rosto bem escanhoado, vestindo terno completo, com colete, gravata e colarinho engomado. Quase elegante, não fosse um botão do colete que se abre na altura da cintura.

A foto seguinte, publicada em jornal em 1910, o surpreende, atento e devidamente engravatado, como integrante do júri a chamada Primavera de Sangue, conflito entre estudantes e a brigada policial no largo de São Francisco, que resultou na morte de dois jovens assassinados pelo militar conhecido como tenente Wanderley. A mão no queixo e o rosto erguido e desafiante o distinguem dos demais membros do júri. Da par­ticipação neste e em outros júris, o escritor falará em diversas de suas crônicas.

A terceira e última das fotos até há pouco conhecidas, reproduzida ad nauseam, saiu na edição comemorativa de um ano de A Estação Teatral, publicação com a qual contri­buía com certa regularidade. Em texto veiculado na edição e 15 de julho de 1911, com o título “Alguns reparos”, o autor comenta a edição e a foto: “Dessa forma, não foi possível dar-lhes um medíocre artigo; entretanto, viram meu retrato, não foi? Tirei-o de surpresa, senão teria cortado o cabelo e pedido emprestada uma outra pigmentação para que a cousa saísse mais decente.”6

A essas fotos pouco conhecidas juntam-se algumas caricaturas ou desenhos, inclusive um feito pelo irmão, Carlindo. Das realizadas em vida até as mais recen­tes, como a de Cássio Loredano para os volumes de Toda crônica, variam a representação do cabelo, mais ou menos crespo, e a do nariz, que vai de afilado a exagera­damente largo.

As fotos de Lima Barreto não só são poucas como dei­xam de existir justamente a partir do momento em que começa a se impor, ainda que a duras penas, como escri­tor e como jornalista. É como se houvesse uma desistên­cia da imagem, o que vai ser retomado ao lermos as fotos do hospício.

Se as fotos são escassas, as imagens que o escritor cons­trói de si mesmo são frequentes em crônicas, na corres­pondência e nos diários, mas também nas obras de ficção.7 Nas muitas identificações que faz de si próprio, são quatro os temas dominantes, sem que haja exatamente uma hie­rarquia entre eles.

Constante é a discussão de sua identidade de escritor, inclusive a relação conturbada com o meio literário em que vive. Em crônica de 28 de junho de 1911, afirma: “Eu quero ser escritor porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei os meus navios, deixei tudo, por essa coisa de letras.” E, mais adiante, no mesmo texto da Gazeta da Tarde, escreve: “Não quero aqui fazer minha biografia; basta, penso eu, que lhes diga que abandonei todos os caminhos, por esse das letras; e o fiz conscien­temente, superiormente, sem nada de mais forte que me desviasse de qualquer outra ambição”.8

Desde o início do diário até o final da vida, em tex­tos diversos, com repercussões em sua ficção, aparecem a cor e as discriminações por racismo de que é vítima. “Eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo”, anota ele no Diário íntimo. “Entretanto, não me agasto, minha vida será sem­pre cheia desse desgosto, e ele far-me-á grande. […] É triste não ser branco.”9

Visto como consequência das dificuldades objeti­vas da vida e do contraste entre os sonhos e a realidade vivida com sofrimentos diversos, o alcoolismo e seu efeito devastador aparecem desde cedo. No mesmo diário, são os retratos mais dolorosos que de si pinta: “Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei porco, imundo. […] Se não deixar de beber cachaça, não tenho vergonha.”10

No canto inferior direito da foto, Lima Barreto, com a mão no queixo, participa do júri da chamada Primavera de Sangue, em 1910

À bebida se liga, assim, o tema da loucura. Ainda que lou­cos frequentem sua ficção – e em especial Triste fim de Policarpo Quaresma –, nesses autorretratos a loucura está associada, com razão, ao alcoolismo.

Lima sempre viveu entre loucos, ele mesmo chegou a dizer isso, o que terá certamente inspirado o interesse e a simpa­tia por esses excluídos. Ainda menino, foi viver no entorno o hospício da ilha do Governador, onde o pai, João Henri­ques, trabalhou por anos, até enlouquecer. A família se muda, então, para a casa de Todos os Santos, onde o pai, sempre emente, morre dois dias depois de Lima Barreto. É assim que o hospício da praia Vermelha surgirá em sua obra anos antes da primeira internação.

Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em 1911, três anos antes, portanto, de Lima ter sido recolhido pela pri­meira vez ao hospício – em agosto de 1914. Toda a narrativa em torno da internação do personagem merece destaque e impressiona a quantos se dedicam ao estudo do autor, por ser dos melhores exemplos de que, por vezes, é a vida que imita a arte.

É minuciosa a descrição do suntuoso prédio construído para abrigar loucos e outros rejeitados pela sociedade. As escadarias, as estátuas que ladeiam a entrada, as colunas, os azulejos do interior, a tristeza dos internos, o terror mesmo que o ambiente infundia nos que entravam no hospício da praia da Saudade, tudo parece familiar ao autor. Mas ainda não era, de fato.

No romance, é tão assustadora aquela casa “meio hos­pital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas gradea­das, a se estender por uns centos de metros, em face ao mar imenso e verde”, que poucos tinham coragem de visitar o major. Não parecerá menos assustadora quando o autor lá der entrada, levado à força.

Chegamos, então, na primeira internação no hospício. Em 1914, Lima Barreto já publicara Recordações do escrivão Isaías Caminha, editara a revista Floreal, escrevera contos como “A Nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês” e tinha o Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá pronto. No jornal A Voz do Trabalhador, defendera publicamente o anarquismo em crônica na qual criticava duramente a política brasileira, vendo nos anarquistas os que falavam “da humanidade para a humanidade, do gênero humano para o gênero humano”. Mas nem a fama nem o reconhecimento da crítica tinham chegado.

A primeira página do livro de “observações clínicas” traz a identificação o interno junto com a foto. Quando estive na biblioteca do Instituto de Psiquiatria pela primeira vez, espantei-me com a sequência de fotos de alta qualidade, material que ainda merece pesquisa e estudo, que podem ren­der muito. Cheguei a pensar que a decisão de fotografar os que davam entrada à casa fosse iniciativa iluminada de Juliano Moreira, que dirigiu o hospício por tantos anos. Juntaria, assim, técnica e ciência. Pode até ser, mas folheando o livro logo constatei que a fotografia era instrumento de identificação quase indispensável, já que muitos não sabiam quem eram, ou se atribuíam outras identidades. A foto servia, então, para o posterior reconhecimento do interno.

No registro de Lima Barreto, logo depois do nome, a identificação que se segue é a cor, revelando a importância perversa que se atribuía a essa infor­mação. E a cor anotada é “branca”. Fica aí evidenciado o quanto a questão da cor é discursiva, construída, mais do que natural. A cor branca lançada parece ser uma espécie de cerimônia ou deferência do médico que o recebe diante da informação seguinte, profissão: empregado público. A idade vem corrigida, de 34 para 33 anos. A anamnese é longa, relatando o protesto do interno contra o “sequestro” que sofrera, a afirmação de que tinha dois livros publicados, os comentários sobre autores de sua preferência, como Chateaubriand – e o médico anota o comentário irônico do depoente – “católico elegante” e outros, como Balzac e Taine.

Os tremores constatados, na língua e nas extremidades digitais, confir­mam o diagnóstico lançado na mesma primeira folha: alcoolismo. Consul­tando os diversos livros, constata-se uma recorrência entre a identidade e o diagnóstico. Dentre os recolhidos havia crianças, às vezes tão pequenas que precisavam subir num banco para serem fotografadas. São portadoras de “idiotice”. Os velhos apresentam “demência senil”, as mulheres, quase todas, são histéricas, e os que mais frequentemente recebem o diagnóstico de “alcoolismo” são operários.

Pouco antes da internação, abrindo o diário de 1914 em 20 de abril, Lima anota: “Hoje, pus-me a ler velhos números do Mercure de France. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro. Publiquei-o em 1909. Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver quotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos.”11

Olhemos a foto.

Diante do rosto ainda moço e saudável de Lima Barreto, não sentimos pena. Mesmo chocados – o registro foto­gráfico de uma violência cometida contra alguém choca sempre, mesmo que não seja essa a intenção da foto –, não sentimos comiseração ou dor. É mais provável que partilhemos com o interno de uma raiva surda, impotente. O longo caminho percorrido desde Guaratiba, onde fora recolhido, até a praia Vermelha parece ter curado a bebe­deira. Não há traços de delírio, exceto talvez pelos olhos com dificuldade em se abrir completamente, num olhar sampaco. Mesmo assim, Lima olha firme para a câmera, com os lábios duros. Mais que um paciente, pode parecer um revolucionário diante do pelotão incumbido de fuzilá­-lo. Lembremos do campo semântico que cerca a palavra “câmera”, como mostra Susan Sontag: máquina que aponta e dispara. Mesmo o traje que lhe fora entregue ao recolhe­rem suas roupas tem, na foto, um ar antes de uniforme do que de pijama de hospital.

Na fotografia, o autor que narrara a loucura de Policarpo Quaresma está mais magro e talvez pareça mesmo mais moço do que na imagem divulgada anos antes pela Estação Teatral. Há beleza nesse mulato claro carregado de mágoa contra todos, de raiva pelos que se encontram diante dele. A escura barba por fazer e os cabelos bastante crespos discor­dam da cor branca anotada.

Logo em seguida aos dois meses que passa no hospício, a produção de crônicas sofrerá um intervalo expressivo. Pouco será escrito neste ano, e quando volta a escrever para jornais os temas são especialmente cidade e política nacional. Das humilhações sofridas na ocasião só falará no relato da segunda permanência, feito no diário que man­teve no hospício. Produz, porém, o conto longo, um de seus melhores, “Como o ‘homem’ chegou”, narrativa alegórica de um jovem que tinha a mania de astronomia, trocando a terra pelo céu, passando a se dedicar ao estudo da matemá­tica, dos cálculos, com tal afinco que só podia ser doido. Os homens de juízo decidem que deve ser levado ao hospício. Esse tipo de narrativa, beirando o fantástico, é incomum na obra de Lima.

Outro raro exemplo é o também excelente “Dentes negros e cabelos azuis”. No conto, para transportar o manso Fernando desde Manaus, onde olhava as estrelas, ao hospí­cio da praia da Saudade, no Rio de Janeiro, os “doutores” servem-se de um carro-forte, masmorra de ferro. Por qua­tro anos o carro se arrasta com o homem dentro. Como não havia autorização para abrir a prisão ambulante, o aviso dos urubus é ignorado e o exame do paciente só irá acon­tecer no necrotério.

Na noite de Natal de 1919, Lima Barreto está de volta ao hospício da praia da Saudade. Em 25 de dezembro, os médicos de plantão parecem estar menos disponíveis que os colegas de 1914. O registro é breve e lacônico. A cor é parda e a profissão declarada, “jornalista”. Ser funcio­nário público não adiantara grande coisa na primeira experiência, quem sabe ser jornalista não lhe garanti­ria melhor sorte? De todo modo, em 1918, em razão das sucessivas internações por razões psiquiátricas, fora con­siderado inválido para o serviço público e aposentado. A situação não lhe parecera de todo ruim e, em crônica do início do ano, escreve: “Aposentado como estou, com relações muito tênues com o Estado, sinto-me completa­mente livre e feliz, podendo falar sem rebuços sobre tudo o que julgar contrário aos interesses do país”.12

Olhemos a fotografia colada ao registro, tendo em mente a epígrafe de Georges Didi-Huberman: “Cada coisa a ver, por mais exposta, por mais neutra de aparência que seja, torna-se inelutável, quando uma perda a suporta – ainda que pelo viés de uma simples associação de ideias, as constrangedoras, ou de um jogo de linguagem – e desse ponto nos olha, nos concerne, nos persegue”.13 Persegui­dos e comovidos pela imagem de sofrimento – a imagem nunca é uma realidade simples –, não é difícil imaginar o pote até aqui de mágoas que o interno carregava, e por que vai intitular Marginália ou Bagatelas os livros que deixa organizados reunindo contos e artigos.

O jovem disposto a enfrentar o mundo na internação anterior se fora. É difícil identificar no homem diante do fotógrafo alguém com apenas 38 anos. A roupa de hospital parece mais pobre, indigente. A cabeça se inclina, caída de lado, impedindo o olhar frontal e desafiante de quem resistira ao sequestro policial anos antes. O cabelo está crescido, mos­trando um desleixo anterior ao internamento. Do todo emana um desalento doloroso, abandono, desistência.

Se houvesse uma legenda para a foto, esta seria o regis­tro que faz ao iniciar as anotações do diário do hospício que mantém durante esse período de reclusão, no dia 4 de janeiro, lembrando-se da internação anterior, as duas motivadas pela mesma razão, o delírio causado pelo abuso do álcool: “Estou seguro de que não voltarei a ele pela terceira vez; senão saio dele para o São João Batista, que é próximo”, escreve, refe­rindo-se ao cemitério do bairro carioca de Botafogo.

NO FIM DA VIDA, O OLHAR PARA DENTRO

Difícil ler uma fotografia que nos impacta sem se lembrar de A câmara clara.14 Naquele que seria seu último livro publicado em vida, Roland Barthes ressalta que seu ponto de vista é o de um amador, para quem é impossível tratar da experiência fotográfica “como fotografia-segundo-o-fotográfo”, só dis­pondo de duas experiências: “A do sujeito olhado e a do sujeito que olha”. Nas fotos que analisa, Barthes reco­nhece sempre um punctum, um pormenor que chama a atenção, um objeto parcial. “O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala).” E, mais, “o punctum é um suplemento: é aquilo que acrescento à foto e que, no entanto, já está lá”. Na foto de Lima, o punctum é talvez o olhar perdido, recu­sando-se, ao contrário da foto de 1914, a olhar quem o foto­grafa. É para dentro que o interno parece olhar, olha e não vê. É um olhar que não mira adiante, mas olha para dentro, refugiando-se daquela mesma realidade de que obsessiva­mente costumava se ocupar.

O que se vê na foto identificadora é também descrito na curta anamnese: “É um indivíduo precocemente enve­lhecido, de olhar amortecido, fáceis de bebedor, regular­mente nutrido. Perfeitamente orientado no tempo, lugar e meio, confessa desde logo fazer uso, em larga escala, e parati: compreende ser um vício muito prejudicial, porém, apesar de enormes esforços, não consegue deixar a bebida.”15 É dura a observação que se segue: “Indivíduo de cultura intelectual, diz-se escritor, tendo já quatro roman­ces editados, e é atual colaborador da Careta”. A palavra o recolhido ao hospício não merece crédito, e o desco­nhecimento de sua obra pelo médico coloca em dúvida a própria condição revelada de escritor. Em A ordem do dis­curso, Michel Foucault nos lembra que o louco é aquele cujo discurso não pode circular como os outros, não tem verdade nem importância, não pode testemunhar em jus­tiça, embora o pior dos criminosos possa fazê-lo.

Durante suas pesquisas sobre o escritor, Francisco de Assis Barbosa pediu, diversas vezes, informações a quem com ele tivera a oportunidade de conviver. O escritor Ribeiro Couto envia por carta depoimento emocionante sobre Lima Barreto, tão importante que, mesmo longo, merece ser reproduzido.

Meus contatos com ele foram, sobretudo, na Associação de Im­prensa (em frente ao teatro Lírico), na livraria Schettino e na rua, à porta de outras livrarias ou de um botequim. Isso entre 1918 e 1920. (Na Associação de Imprensa o amigo do Lima era o Noronha Santos.) Eu, com 20 anos, tendo lido o Isaías Caminha, Policarpo Quaresma e o Gonzaga de Sá, não podia compreender como aquele grande escritor, de tão puro estilo, tão natural, pre­cisamente o “antimulato” em matéria de estilo, fosse o mesmo “Lima” – “O Lima, não sabe?” – de barba por fazer, chapéu de palhinha encardida, camisa suja e manchada no peito, roupa coçada, mal cheirosa, com morrinha que não se sabia se era de vômitos da véspera ou suor azedo. Como tanta grandeza e tanta pureza podiam viver sob aquela crosta áspera de mulataço ver­melho? A vermelhidão do Lima impressionava-me também; eu ficava sem saber se era álcool ou febre. E, no andar, uma calma perfeita, como para dominar a tendência do cambaleio. “Então, Lima Barreto, como vai?” Na verdade, ele me dava pouca con­fiança, salvo quando estava bêbedo.16

 

Nessa última foto de sua vida, comparada às ante­riores, Lima Barreto traz mais fortes as marcas atribuí­das ao mulato: o cabelo maior está mais crespo, o nariz mais largo, mas os lábios são finos. É como um pardo que, entre delírios, declara ser escritor que o interno é rece­bido. A essa segunda internação, mais longa, documen­tada no diário escrito no hospício, é frequentemente atri­buída uma recepção melhor. No dia seguinte à entrada, é transferido para a seção Calmeil, enfermaria onde fora criado um sistema de open door, ou seja, os pacientes tinham mais liberdade de circular pela instituição, o que foi importante para Lima no uso da biblioteca. No diário, Lima registra a simpatia do diretor, em quem destaca a doçura, a paciência e a simplicidade. Não menciona, porém, que uma das razões da simpatia poderia estar no fato de Juliano Moreira ser, também ele, mulato de origem pobre. Quanto aos outros médicos, lhe parecem todos de “ciência muito curta”, arrogantes. Mesmo o sofisticado Humberto Gotuzzo, introdutor da psicanálise no Brasil, o fez “arrepiar de medo”.

Dentre a correspondência reunida por Chico Barbosa, consta uma carta datada de 1º de outubro de 1952 do então diretor da Colônia Juliano Moreira, instituição que sucedeu ao Hospício Nacional. O racismo implícito nas observações do diretor, 30 anos depois, ao tratar do “caso Lima Barreto”, mostra bem o que o escritor deve ter vivido em 1919. Diz o dr. Heitor Pérez:

Pode o estudioso chegar a interpretação diversa da sua para explicar o “caso Lima Barreto”, deixando de lado o conceito nitidamente adleriano do sentimento de inferioridade (racial, de cor) que o sr. adota, e seguir a exegese freudiana, buscando na impotência sexual de Lima Barreto o “primum movens” do seu fracasso, da sua toxicomania; a doença, o alcoolismo, assim considerando, seria a “cobertura” para mascarar a sua reali­dade: a sua timidez sexual, a sua incapacidade de amar concre­tamente. O sentimento de “cor”, esse ele o superou através da literatura, onde se desforra de várias maneiras, sentimento que leva mesmo a exibir aquilo que é proibido do mulato – uma atitude paranoide (supervalorização dos seus dotes intelec­tuais, egofilia, autojulgamento megalômano, ressentimento etc.). Assim, a interpretação psicanalítica global definiria o bi­fronte Lima Barreto: alcoolismo como “fuga” da timidez, da incapacidade sexual, amorosa, e, literatura, agressiva, irônica, “brutal”, cheia de “charges”, como superação do sentimento de inferioridade étnico-social.

Ao final da carta, a mesma convicção da inferioridade dos não brancos se estende a Juliano Moreira, apesar da admiração que tinha pelo mestre, quando comenta: “Foi o mesmo Juliano, cuja grandeza de caráter e cuja grandeza de espírito resistiram à pobreza, à inferioridade de cor, à doença e ao ostracismo”.17

Ao sair do hospício, pouco tempo de vida resta ao escri­tor, que morre jovem, aos 41 anos. O trabalho como cro­nista, colaborando regularmente para a Careta, se intensi­fica. A combatividade dos textos tratará dos limites a que a noção de pátria pode levar na percepção de quem afirma: “Não sou nacionalista”. A vida no centro da cidade, as articu­lações políticas, o papel do congresso continuam ocupando sua atenção. De sua própria imagem ocupa-se pouco, mas exibe certo orgulho por seu esbodegado figurino.

O que há de novo neste momento em que o abalo sofrido pela saúde provoca frequente confinamento em Todos os Santos é o surgimento de uma simpatia pela vizinhança suburbana anteriormente pouco tolerada. Até mesmo o carnaval começa a ser visto com alguma simpatia. Os bailes e divertimentos suburbanos merecem sua atenção.

O autor tenta recriar ficcionalmente a experiência que vivera no romance Cemitério dos vivos, que fica, porém, inacabado. Talvez tenha preferido deixá-lo assim. Nenhuma ficção narraria o período de internação como o fizeram as anotações redigidas no próprio espaço da dor.

Ao final da vida quer retomar o que teria sido o grande projeto de vida, o Germinal negro. Contenta-se em finalizar o romance Clara dos Anjos.

A primeira versão de Clara dos Anjos é o conto publicado em Histórias e sonhos, coletânea organizada pelo próprio autor em 1920. O romance só sairá como folhetim após sua morte, de janeiro de 1923 a maio de 1924. A primeira edição em livro é de 1948.

De toda a vasta obra de Lima Barreto, Clara dos Anjos, romance que a cada leitura me agrada mais, me parece ser o que mais equívocos provocou. A forma mais livre, mais moderna, mais coloquial, influenciada talvez pela linguagem do jornalismo que praticava intensamente, foi considerada falha de estilo ou rigor. Foi também a que mais fortemente fez surgir preconceitos, alguns ocultos sob a força da inteligência de críticos que, no entanto, não podiam fugir completamente às ideias de seu tempo em relação não apenas ao tema da raça, mas também ao comportamento de mulheres.

A narrativa passa-se, com exceção de um único capítulo, nos subúrbios do Rio de Janeiro, para além dos limites traçados pela linha férrea dos trens da Central. Algumas são áreas mais próximas do centro da cidade, o Méier e o Engenho de Dentro, onde habita uma classe média próxima ao operariado, formada por funcionários públicos ou pequenos negociantes. Em outras, mais distantes, ficavam as moradias de operários, funcionários ainda mais subalternos ou simplesmente aqueles que a modernização do país introdu­zida pela República tornara pobres. É onde Lima Barreto vai morrer.

O final do romance é o diálogo entre “a jovem mulata de porte elegante e sonhadora” e a mãe, que se encerra com a frase: “– Nós não somos nada nesta vida”. Uma despedida.

Muito poderia ter sido feito, mas a morte precoce o surpreende com um colapso quando, deitado, lia a Revue des Deux Mondes. Também de sua des­pedida não haverá qualquer imagem. As fotos do hospício são realmente as últimas.

Essa carência de registro lembra, por contraste, as diversas fotos do enterro de Machado de Assis, em setembro de 1908. Dessas, a mais impressionante é a que registra a saída do corpo da sede da Academia Brasileira de Letras, fun­dada por ele. À porta do Petit Trianon, os acadêmicos acompanham o caixão, circundados pela multidão. A imagem de Euclides da Cunha, ao fundo, com um olhar perdido em outra direção, é um punctum. Transtornado ou enlou­quecido, parecia preparar-se para buscar a morte no ano seguinte.

Morto, Lima Barreto fará a última viagem de trem, deixando o subúrbio para dirigir-se a Botafogo. O caixão terá que parar na estação da Central e dali ser levado para o cemitério de São João Batista, um dos poucos luxos de sua vida. Consta que o empréstimo feito pelos amigos para cus­tear o enterro foi pago com a venda da biblioteca do escritor.

Se não ficaram fotos, fica, ainda uma vez, uma crônica, a de Eneias Ferraz para O País, publicada em 20 de novem­bro de 1922. Mais um documento precioso do arquivo do escritor, texto que vale, certamente, por uma foto.

Ao longo das ruas suburbanas, de dentro dos jardins modestos, às esquinas, à porta dos bote quins, surgia, a cada momento, toda uma foule anônima e vária que se ia incorporando atrás do seu caixão, silenciosamente. Eram pretos em mangas de camisa, rapazes estudantes, um bando de crianças da vizinhança (mui­tos eram afilhados do escritor), comerciantes do bairro, carre­gadores em tamancos, empregados da estrada, botequineiros e até borrachos, com o rosto lavado em lágrimas, berrando, com o sentimentalismo assustado das crianças, o nome do compa­nheiro de vício e de tantas horas silenciosas, vividas à mesa de todas essas tabernas.18

Voltemos ainda uma vez às duas fotos, por tanto tempo desconhecidas, esquecidas, rejeitadas, guardadas talvez em algum carro-forte destinado a transportar loucos. Estiveram elas realmente perdidas por todo esse tempo ou nós é que não as suportamos olhar?

Beatriz Resende é ensaísta e pesquisadora de vasto espectro de interesses. Professora titular da Faculdade de Letras da uFRJ, é autora de Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos (Autêntica, 2015), Apontamentos de crítica cultural (Aeroplano, 2000) e Contemporâneos – Expressões da literatura brasi­leira no século XXI (Casa da Palavra, 2008). Organizou, dentre outras, as cole­tâneas Cocaína, literatura e outros companheiros de viagem (Casa da Palavra, 2006) e Possibilidades da nova escrita literária no Brasil (Revan, 2014).

NOTAS:

  1. Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
  2. Lima Barreto, Toda crônica. Organização de Beatriz Rezende e Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
  3. Lima Barreto, Diário íntimo, in: Obras completas, v. xiv. São Paulo: Brasiliense, 1956, p. 181.
  4. Jacques Rancière, O inconsciente estético. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 37.
  5. Georges Didi-Huberman, A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto/MAR, 2013, p. 35.
  6. Lima Barreto, Impressões de leitura, in: Obras completas, op. cit., p. 277.
  7. Ver: Antonio Arnoni Prado, “Autorretrato”, in Lima Barreto: uma autobiografia literária. São Paulo: Editora 34, 2012. Nesse texto, Arnoni faz uso não apenas dos trechos de diários e cartas, mas também de obras de ficção.
  8. Lima Barreto, “Esta minha letra”, in: Lima Barreto, Toda crônica, cit., p. 90.
  9. Idem, Diário íntimo, op. cit., p. 52.
  10. Ibidem, p. 193.
  11. Ibidem, p. 171.
  12. “Quem será afinal”, in: Lima Barreto, Toda crônica, cit., p. 450.
  13. Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 33.
  14. Roland Barthes, A câmara clara. Lisboa: Edições 70, 1981.
  15. Lima Barreto, Diário íntimo, op. cit., p. 52.
  16. Coleção Francisco de Assis Barbosa, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Agradeço a Cristina Antunes pela ajuda gentil e competente na pesquisa e por disponibilizar as cartas aqui citadas.
  17. Documento da Coleção Francisco de Assis Barbosa, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
  18. Crônica de Eneias Ferraz que faz parte da coleção Lima Barreto da Fundação Biblioteca Nacional e é citada por Francisco Assis Barbosa em A vida de Lima Barreto, op. cit., p. 359.

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“Corpos diversos” – Lançamento

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25/08/2015 · 14:42

Minicurso – Relações entre literatura, imagem e cinema no período das vanguardas históricas

MINICURSO2015

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11/05/2015 · 17:21

“Por que estudos literários?” – Mirhiane Mendes de Abreu

Mirhiane Mendes de Abreu é professora de Literatura Brasileira da Unifesp. Publicou Ao pé da página – A dupla narrativa em José de Alencar, que sem dúvida alguma é uma das obras mais importantes sobre o mais notável romancista do romantismo brasileiro. Na revista Pessoa, ela inaugura uma coluna, que aqui reproduzo:

O título deste artigo é um pretexto para iniciar uma série na revista Pessoa sobre questões literárias. E, para começá-la, decidi ir ao início. O meu início.

Eu estava com 17 anos quando, ao se aproximar o período de inscrição do vestibular, escolhi o curso de Letras, provocando certo alvoroço no ambiente familiar. Talvez por ser de uma família de professores, de vida espartana, sugeriam-me profissões de retorno financeiro mais provável quando comparadas com as carreiras ligadas ao magistério. Entretanto, movia-me por uma exclusiva razão: gostava de literatura e do universo dos livros e queria me especializar nisso. É provável que esse gosto tenha se desenvolvido justamente por ser de família de professores e ter vivido numa casa cercada por livros, que iam da Bíblia até as Mil e uma noites, passando por inúmeros clássicos. Educação e cultura, assim, construíram os pilares da minha formação e talvez tenha sido isso que me levou a bater o martelo de forma definitiva e assinalar o X no curso de Letras.

Bem, nem tão definitiva assim…

Estudar literatura é estar sempre às voltas com o anúncio do fim. Profetas do caos a todo o tempo anunciam a agonia da literatura. O incrível é reconhecer que, muitas vezes, os portadores das más notícias sejam… críticos literários! De início, na universidade, deparei-me com um desajuste: não havia lugar para os desafios mentais tais como eu havia vivenciado com O homem que calculava, de Malba Tahan; nem mesmo para a experiência com o ritmo envolvente dos poemas de Cecília Meireles. As aventuras propostas por Lewis Carrol e sua Alice, por Huckleberry Finn e até pela Coleção Vaga-Lume, da Ática, soavam pueris. Comecei a reconhecer, no interior dos Estudos Literários, que a literatura é revestida de outras propostas e perspectivas, o que torna a crítica algumas vezes imprescindível e, outras, dispensável, especialmente quando muito atada quer às fórmulas da moda, quer à nostalgia nociva.

Não quero propor um meio de facilitação, nem estimular um simples impressionismo subjetivo. Nada disso. Trata-se de chamar a atenção para o fato de que, do ponto de vista de quem produz e consome literatura, uma crítica obscura e/ou com chaves prévias parece um contra-senso. A complexidade crítica, que conjuga elementos objetivos e subjetivos, não pode ser reduzida a atos estéreis, seja tudo aceitando, seja tudo negando.

De todo modo, a questão da abordagem é sempre exposta à pessoa dedicada profissionalmente à literatura, tanto ao professor da Educação Básica, quanto ao professor universitário. Assim, retomamos com frequência o problema do ensino da literatura (que, diga-se de passagem, está sempre envolto por preconceitos), o qual incide diretamente sobre vivências subjetivas como as que relatei, mas que também apresenta questões de escopo teórico, como o conceito e a função do texto e o problema do cânone. Some-se à docência o autor contemporâneo. Alvo preferencial dos mais raivosos e, simultaneamente, rodeado por festivais e premiações, o escritor se envolve com editores, professores e críticos a quem anseia por agradar, embora seu objeto seja exigente e, algumas vezes, impopular.

O professor – sempre o professor – vê-se às voltas com novos parâmetros curriculares e conteúdos que a ele cabe rotinizar. Movimenta-se entre o obsoletismo metodológico e as missões salvíficas que lhe imputam. Afinal, a literatura – seu objeto de estudo e ensino – é portadora de um capital simbólico, linguístico e afetivo. E cabe a ele o papel de levar o aluno a concluir isso, aferir seu conhecimento por meio de avaliações e perpetuar o estudo desse objeto-fetiche. Se também aspirante a crítico, o indivíduo se depara com múltiplos impasses, dentre os quais a própria tarefa da crítica e sua funcionalidade, bem como a operacionalidade da interpretação da obra literária, atividades que dissocia da sala de aula.

Há ainda outro ingrediente. A literatura, partícipe da cultura que é, se espalha por vários outros campos. Isto não é exatamente uma novidade, basta mencionarmos a relação intrínseca entre o romance e o jornal fortemente alimentada no século XIX. Debate para outra ocasião, limito-me a um exemplo para nos fazer lembrar que a literatura coaduna-se com um conjunto maior da produção cultural e da produção do belo e hoje se alimenta muito das redes sociais, particularmente dos blogs e dos perfis de Facebook. Nesses veículos, ela se desveste do caráter escolar e se apresenta de forma amigável, direta e dinâmica.

Se a literatura pode enriquecer a vida e o pensamento, estimulando forças expressivas no leitor e se ela se imiscui por múltiplos canais de circulação, não seria bom nos despirmos por um instante dos jargões acadêmicos e enfrentarmos as questões diretamente com os envolvidos? Não tenho respostas prontas, nem quero trazer para esse espaço receitas, menos ainda teorias mirabolantes. O objetivo desta coluna é sair da esfera universitária e, erguendo pontes, convidar a todos a construirmos aqui um debate público sobre o tema, através de ensaios e entrevistas, aproveitando a abertura que a Revista Pessoa nos concede para isso.

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ESC:ALA #4

Editorial extraído do site da revista ESC:ALA [via Rosa Martelo]:

O quarto número da revista conta, novamente, com um vasto conjunto de autores cujas colaborações vão do ensaio (Catarina Simão, José Capela, Paula Januário, Pedro Boléo Rodrigues e Rita Novas Miranda) à fotografia (Henrique Bento, José Carlos Duarte, nuno ventura barbosa e Teresa Carvalho de Sousa), passando pelo vídeo (Luca Argel, Mathilde Ferreira Neves, Renata Sancho e Sofia Marques Ferreira), o formato videomusical (Joana Matos Frias e Nuno Morão), a prosa (Diogo Bento), os GIFs (João Pedro da Costa), o argumento cinematográfico (Mathilde Ferreira Neves) e a poesia (Evelyn Blaut-Fernandes e Manuel Gusmão).

No seu conjunto, os diversos contributos não apenas abordam ou evocam a obra de uma vasta galeria de criadores e pensadores (Adília Lopes, Anne-Marie Miéville, Herberto Helder, Jacques Derrida, Jean-Luc Godard, José Tolentino Mendonça, Man Ray, Maria Velho da Costa, Paul Virilio, Peter Sloterdijk, Rimbaud, Samuel Beckett, Solveig Nordlund, Walter Benjamin e William Blake entre outros) e temas como o feminismo, a guerra colonial, o 25 de Abril, a censura, o exorcismo, o erotismo e a música popular, como problematizam questões como o papel da música na estética cinematográfica, as interfaces gráficas, a relação entre política e estética, a importância da interdisciplinaridade na criação artística, os limites dos recursos dramatúrgicos e as práticas intertextuais.

A ESC:ALA está, como sempre, extremamente grata a todos os que possibilitaram a existência do seu quarto número.

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XV Jornada Corpolinguagem / VII Encontro Outrarte

Sem Título10

Extraído do site do evento, onde é possível encontrar outras informações, como eixo temático, programação etc.:

No ano de 2015, o Centro de Pesquisa Outrarte se propõe interrogar a história/ histeria, a poesia com a qual se faz a história.

No seminário 3, Lacan fala que a obra de Freud está cheia de enigmas, de “pedras de espera”, que a releitura de seus textos sempre trazem algo a mais, diferente daquilo que se aguardava. A historicidade é uma dessas pedras de espera.

Quando Lacan afirma que o sujeito da psicanálise é o sujeito cartesiano do cogito, ele inscreve a psicanálise como um saber moderno, abrindo o espaço para a questão de sua historicidade. Porém, quando procuramos a sua inscrição nos textos psicanalíticos, a historicidade parece difratar-se, estilhaçar-se, fragmentando-se em uma multiplicidade de termos: na rememoração – o próprio terreno de partida da psicanálise -, na regressão e na repetição; na representação e no representante-da-representação; na interpretação e na construção; na distinção freudiana entre acontecimento histórico e verdade histórica, presente no Moisés; nas escansões do tempo lógico e nos tempos da estrutura; na narrativa, no mito, no romance, na “pequena história” do sujeito.

O ponto de fragmentação, do estilhaçamento, é o inconsciente. Lacan inventava a etimologia – a historicidade – das palavras a partir das vizinhanças homofônicas – história, histeria, estória…-, como formações do inconsciente. A poesia estilhaça a linguagem, e a historicidade se escreve com fragmentos, com pedras de espera, com letras inscritas em uma lógica da escansão e da antecipação:

O fato de [Freud] ter enunciado a palavra inconsciente, não é nada mais que a poesia com a qual se faz a história. Mas a historia, como eu o digo algumas vezes, a história é a histeria. Freud, se experimentou seguramente o que é da histérica, se fantasiou em torno da histérica, isso não é evidentemente mais que um fato de história.
Marx era igualmente um poeta, um poeta que tem a vantagem de ter conseguido fazer um movimento político. Por outra parte, se qualifica o seu materialismo de histórico, isso não carece certamente de intenção. O materialismo histórico é o que se encarna na história. (Lacan, O momento de concluir, lição de 20/12/1977).

Existem várias formas de contar, narrar, relatar uma história. E há formas e formas de iluminar ou alienar um texto pela fala, “mas a história do humano prossegue no texto” (Lacan, A ética da psicanálise, lição de 4 de maio de 1960).

O caso clínico constitui o gênero discursivo privilegiado para a transmissão da/ na psicanálise, e é a unidade mínima que caracteriza seu método de investigação. Nesse sentido, cabe perguntar: Podemos fazer da escrita do caso clínico o ponto de cruzamento entre esses fragmentos constitutivos de historicidade?

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O arquivo de Eduardo Lourenço

Publicado no jornal Público, de Lisboa [via Blogtailors]:

Ninguém sabe ainda ao certo quantos documentos integram o arquivo de Eduardo Lourenço adquirido pela Biblioteca Nacional (BN) em Janeiro passado por cem mil euros, mas enchem “102 caixas e 431 dossiers”, precisou ao PÚBLICO a presidente da BN, Inês Cordeiro.

 A informação, divulgada em vários jornais, de que o acervo se comporia de cerca de 11 mil documentos está errada, sendo provável que o equívoco se tenha ficado a dever a uma confusão entre a totalidade dos documentos e a parcela que diz respeito à correspondência do autor.

As cartas conservadas por Lourenço é que já foram inventariadas e ultrapassarão as 11 mil, constituindo um valioso testemunho dos diálogos que o autor de Pessoa Revisitado (1973), O Labirinto da Saudade (1978) ou O Canto do Signo (1994) foi mantendo ao longo de décadas com escritores portugueses de várias gerações, e também com autores estrangeiros.

“No total, poderão ser cem mil ou 120 mil documentos”, arrisca João Nuno Alçada, grande responsável pela vinda para Portugal deste impressionante acervo que Eduardo Lourenço foi acumulando ao longo de décadas na sua casa de Vence, em França. Foi também Alçada que deu início à organização e catalogação do arquivo, um trabalho que começou a ser feito há já alguns anos, com o apoio da Gulbenkian, do Centro Nacional de Cultura e da Fundação EDP, nos vários lugares que foram provisoriamente acolhendo estes papéis: a própria Gulbenkian, a Torre do Tombo e, finalmente, a Biblioteca Nacional.

A directora da BN não tem dúvidas de que este é um dos mais extensos núcleos documentais a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, e observa ainda que a sua “integralidade”, a “garantia de que está ali praticamente tudo”, lhe confere um valor muito particular.

E basta pensar nas Obras Completas de Eduardo Lourenço em curso de publicação pela Gulbenkian – com coordenação científica de João Tiago Pedroso de Lima e Carlos Mendes de Sousa – para se perceber a vantagem que representa para os responsáveis do projecto o acesso ao arquivo integral. A julgar pelos volumes já divulgados, a lógica tem sido a de agregar a cada título originalmente publicado por Lourenço um extenso conjunto de outros textos seus que partilham o mesmo universo temático, um critério que deveria implicar percorrer todo o acervo para garantir que não fica de fora nenhum ensaio ou artigo relevante.

Ainda que esse propósito de exaustividade esteja sempre potencialmente ameaçado pela própria vitalidade intelectual de Lourenço, que aos 91 anos mantém a sua proverbial dificuldade em recusar solicitações para colóquios e afins e continua a escrever ou improvisar oralmente sobre os mais diversos temas e autores.

Mas nem tudo o que está no acervo poderá ser publicado de imediato. Neste momento, o acesso à documentação está aliás limitado à equipa que trabalha na sua inventariação e organização e aos investigadores envolvidos quer no projecto das obras completas em curso de publicação pela Gulbenkian, quer na preparação dos novos títulos de Lourenço que vêm sendo editados pela Gradiva, onde saiu já este ano Do Brasil: Fascínio e Miragem, um livro que compreende textos dispersos e inéditos de diversa natureza e redigidos ao longo de quase 70 anos, entre 1945 e 2012.

No total, e segundo a directora da BN, há apenas 27 pessoas autorizadas por Eduardo Lourenço a consultar esta documentação. Uma restrição habitual em acervos deste tipo, e que é fácil de compreender se pensarmos que a BN conserva agora milhares de cartas que Lourenço trocou com autores como Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa, José Cardoso Pires ou António Lobo Antunes, para citar apenas um pequeno número dos seus correspondentes, que inclui ainda muitos dos mais importantes investigadores estrangeiros da obra de Pessoa.

Tendo em conta as características do meio literário português, que não serão muito diferentes das de qualquer outro, e o presumível grau de intimidade que Lourenço manteria com alguns destes seus correspondentes, não é difícil imaginar-se a trapalhada que adviria da divulgação imediata e irrestrita de todas estas cartas. Numa entrevista publicada esta semana no Jornal de Letras, João Nuno Alçada conta que Eduardo Lourenço permitiu, por exemplo, o estudo e posterior publicação da correspondência com Casais Monteiro ou José-Augusto França, mas interditou a consulta do seu diálogo epistolar com Vergílio Ferreira e foi avisando que há alguns textos que “nem daqui a 30 anos” poderão ser publicados.

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“Seguindo o rasto de Houellebecq, um escritor genial de pena envenenada” – Jan Le Bris de Kerne

Extraído do jornal Público de Lisboa:

É o grande homem dos franceses e da sua literatura, comparado a Balzac, Zola ou Flaubert. É um choque a sua omnipresença há 15 anos — a densidade do seu pensamento, a força do seu estilo. Um choque, também, a polémica que desencadeia. Eis o mais recente: Submissão, que fala da França, do islão, de política, de vencedores e vencidos.

Todos conhecemos pessoas doces, indolentes, transparentes ou que se fazem de simpáticas que, com o uso e o tempo, se revelam, sob o verniz, heróis, tiranos, loucos, sectários ou génios. Sofremos então um choque: como nos tínhamos enganado em relação à pessoa que temos agora à nossa frente e que está já a anos-luz daquela que olhávamos ainda há instantes.

Michel Houellebecq é um choque permanente. Não é possível ignorá-lo. É o grande homem dos franceses e da sua literatura, comparado a Balzac, Zola ou Flaubert. É um choque a sua omnipresença há 15 anos — a densidade do seu pensamento, a força do seu estilo. Um choque, também, a polémica que desencadeia de cada vez que aparece, obrigando-nos a questionar-nos.

E eis o mais recente choque: Soumission, que fala da França, do islão, de política, de vencedores e vencidos, e que se dirige a uma França já esgotada por 20 anos de debates e de incompreensões sobre o islão, a política, os vencedores e os vencidos. O livro será editado em Portugal neste primeiro semestre pela Alfaguara, com o título Submissão.

Antes de Submissão, havia Houellebecq. Um físico estranho. Uma voz átona e hesitante. Um olhar de uma intensidade desconcertante, gestos suaves e desajeitados. E um passado atípico para quem pretende ter assento entre os grandes da literatura contemporânea.

Os seus primeiros anos são à imagem das personagens que privilegia: incertos, difusos, parecendo deslizar entre os obstáculos da vida. Tem uma data de nascimento oficial (1958) e uma falsa (1956). Foi a mãe que, pressentindo-lhe o génio, o envelheceu dois anos para o inscrever na escola, ou foi ele que, para rejuvenescer, a falsificou? Há controvérsia, logo mistério. Deverá o seu nome ao acaso de um passeio ao Monte Saint-Michel. A família parece disfuncional, não muito atenta a ele. A mãe publicará, de resto, um livro disparatado onde responde violentamente ao filho (que se inspirou nela para diversas personagens femininas).

Quantas estradas secundárias terá de percorrer antes de nascer verdadeiramente para o que será a sua vida: a escrita? A sua superioridade intelectual leva-o a ingressar num curso de preparação para as Grandes Écoles d’Ingénieur, onde se selecciona, explora, tria e forma a nata da nata da elite francesa. Entra numa célebre escola de Agronomia — tão longe do escritor. Afasta-se ainda um pouco mais ao trabalhar em informática, durante 13 anos, para diversas empresas e instituições. Ao longo desse tempo, armazena, sem dúvida, uma matéria em bruto inestimável aonde vai buscar mais tarde a sua panóplia de personagens incrivelmente reais, esculpidas no barro da fabulosa mediocridade do francês médio. E, sobretudo, vive, sobrevive, ganha a vida.

Claro que publicou, de vez em quando, revistas e poemas. Gosta de ler, ama as mulheres, fuma e adora beber. As grandes bebedeiras de então ainda não o marcaram. Os seus grandes olhos azuis ora espantados, ora fugidios, que de repente se fixam intensamente, iluminam um rosto juvenil com uns lábios finos de fino observador, emoldurado por cabelos que já vão rareando, bem penteados e de uma cor indecisa.

Não há boa literatura com bons sentimentos
É raro que se faça boa literatura com bons sentimentos. Tragédias, policiais, poesia, ensaio ou romance: todos os géneros carregam a sua massa de sofrimento, mal-estar, dramas a exorcizar. E Houellebecq é um mestre na arte de fazer zoom sobre o quotidiano de personagens perdidas e algo desinteressantes para, logo de seguida e num movimento inverso, oferecer um panorama particular do mundo e uma relação entre factos aparentemente insignificantes.

Em 1994 publica Extensão do Domínio da Luta. O romance é marcante, mas não ultrapassa suficientemente a norma nas suas tomadas de posição para o transformar numa estrela. Nele descobrimos, no entanto, os alicerces das obsessões que marcarão os romances seguintes, bem como o estilo único que contribuirá para tornar a sua escrita tão singular. Narra a existência obscura de um solteirão neurasténico. De uma banalidade atroz, a personagem não deixa de ter parecenças com Houellebecq: informático, fortemente obcecado pelo sexo, mergulhado numa vida solitária enquanto, à sua volta, se agita uma sociedade de consumo obscena que engendra um combate financeiro e sexual implacável entre classes e indivíduos.

O virtuosismo de Houellebecq é notável, nomeadamente nas suas litanias descritivas de factos insignificantes, do ordinário mais sórdido ou de coisas aparentemente enfadonhas. Instruções de electrodomésticos, sociologia de uma empresa, descrição pelo rótulo de um prato ultracongelado, funcionamento do Minitel, relatório detalhado dos ruídos produzidos por uma velha caldeira. Irá mesmo descrever com extremo pormenor uma espécie de mosca em O Mapa e o Território, e aproveitará para agradecer à Wikipédia por tê-lo ajudado nas suas diligências! Houellebecq sabe tornar fascinante um aspirador.

Mas é em 1998, com As Partículas Elementares, que as portas da fortaleza dos media e da celebridade tóxica vão estilhaçar-se. Entra no circo, ele, o imodesto, tão absolutamente seguro da sua superioridade. Bebe com volúpia o cálice da agitação e das primeiras controvérsias. E o falso tímido explode nos ecrãs.

As Partículas Elementares é uma narrativa prolífica e multiforme. Trata-se de um simples romance? De um ensaio? De um estudo biológico ou sociológico? De um manifesto político? Digamos que é uma narrativa quase clínica, isto é, sem projecção emocional do autor nos factos que relata da vida de dois meios-irmãos, um dos quais, Michel, possui muitos pontos em comum com Houellebecq. No livro desenvolvem-se de novo as suas obsessões breteastonellisianas: o sexo, necessariamente orgiástico, obsessivo, cru, um pouco perverso, no limiar da pedofilia; a mulher, necessariamente objecto, consolidado com o plástico da cirurgia, atraída pelo dinheiro dos machos e também pelo seu sexo, claro. O diálogo impossível entre as pulsões permanentes do macho e as aspirações da fêmea, causa de frustração sexual, inibições e inaptidões sociais.

Para além destes temas, o romancista desfia outras linhas narrativas: a doença, o suicídio, o divórcio, o abandono, a crise dos 40, a clonagem, para concluir com um epílogo que gela: a personagem de Michel, geneticista, vê o seu trabalho resultar, após a sua morte, em 2029, na criação de uma raça de sobre-humanos desumanizados, liberta das angústias com que se debatiam as personagens do livro. Os homens desaparecem da terra, dando lugar a super-homens estéreis e eternos, podendo assim consagrar-se, sem consequências, ao perpétuo prazer sexual.

Não há fenómenos sem polémicas e sem estilo
Em 1998, torna-se, portanto, um fenómeno. Ora, poderá alguém reivindicar o título de “fenómeno” sem polémicas? Em França, certamente que não. Escandalosamente pornográfico, lamentavelmente misógino, forçosamente reaccionário: está sob fogo, mas o falso simpático, o doce, o indolente distende-se como uma mola e transforma-se em demónio para escapar aos detractores. É astuto, é jogador. Borrifa-se nas críticas, multiplicando as teorias futuristas (modificar a espécie humana, recriar o matriarcado, readquirir sentido através da religião), desmultiplicando as suas obediências: um dia, diz-se comunista; no dia seguinte, amigo dos católicos tradicionalistas anti-aborto, apologista da sociedade do consumo ou, pelo contrário, em busca do misticismo laico.

O mundo da edição dava-o como grande vencedor do Prémio Goncourt, mas nada. A decepção será tão amarga quanto o homem é orgulhoso e ciente do seu valor.

Em 2000, tendo enriquecido, expatria-se na Irlanda, terra apaziguante para todos os tipos de problemas de dinheiro. Ei-lo exilado fiscal, o grande escritor que, não satisfeito em pôr a França a ferro e fogo com a sua mania de a questionar e de a voltar a ensinar a ler, desertou, o traidor, para aí esconder a sua fortuna. Nova tempestade, novo assalto da cavalaria político-mediática. Desta vez, tentará aliviar as tensões, regressando ao país em 2012.

Mas voltemos atrás: ficámos no duche frio que se abate sobre Houellebecq quando falha o Goncourt em 1998. Seis anos depois, ei-lo de novo. A Possibilidade de uma Ilha é publicado em 2005. Os temas caros são novamente convocados, de forma espantosa. Enquanto seguimos a vida de Daniel1, comediante de sucesso no século XX, o romance intercala a história das vidas de Daniel2 e Daniel3 até Daniel25, clones que vivem vários séculos depois do primeiro Daniel. Este comediante cínico, mestre dos mecanismos do humor e do sucesso mediático, não deixa de lembrar um Dieudonné, controversa vedeta do humorismo que conjuga perigosamente a provocação anti-semita, o conflito israelo-palestiniano e a história colonial e africana de França.

Como sempre em Houellebecq, o desastre sentimental é um tema maior, bem como a inexorável queda na depressão dos seus heróis. Não se esquece o sexo, o incesto, o desejo pedófilo, as seitas e a espécie humana melhorada pela manipulação genética e pela clonagem. A Possibilidade de uma Ilha é o desejo de outro lugar, mal endémico da nossa sociedade contemporânea. Um outro lugar que Daniel1 não alcançará ou, pelo menos, não em vida, uma vez que se suicida no fim, dando assim vida aos seus clones, que herdam o relato escrito da vida de Daniel1 e a completam, um após outro, para ir melhorando a linhagem. O livro é um calhamaço: 500 páginas. Que deixa o leitor perturbado, tão denso e ambicioso é o seu objectivo. Este trabalho notável merecerá o Prémio Interallié. Gaita, ainda não é o Goncourt.

Como é que consegue manter os seus numerosos leitores fascinados de fio a pavio pela sua obra magistral? Porque o seu público vai bem além dos círculos intelectuais rodados no exercício da leitura de obras imponentes. O escritor é fracturante e exigente, mas popular. É lido por todo o lado. E se é lido por todo o lado e por toda a gente, e com uma tal avidez, é porque tem estilo.

Jean Birnbaum, jornalista no Le Monde e editor do suplemento literário do diário francês, admite ao Ípsilon: “É alguém que existe de forma muito forte, tem muito talento. Tem a capacidade de identificar aquilo que a sociedade precisa que lhe digam de mais abjecto, o discurso que a sociedade precisa que lhe façam.”

O homem e o estilo são reconhecíveis por todos e, além disso, assemelham-se. Clínicos, fluidos, neutros. Economia de palavras. Ausência de efeitos. Linguagem clara. Prosódia sem floreios. Claro que tem um prazer indissimulado quando se lança em explicações técnicas exageradas, em cursos de física especializados que até um engenheiro-cromo teria dificuldade em seguir. Evidentemente, rejubila quando, inesperadamente, se torna crítico literário e disseca um autor célebre com a desenvoltura erudita do especialista. Mas consegue dar uma espantosa unidade aos seus livros com gavetas que não param de se abrir. E cada vez se quer mais simples. No programa Boomerang da France Inter, diz, a 7 de Janeiro de 2015: “Não quero de maneira nenhuma que se veja como as coisas são escritas. Isso torna-se obsessivo. Tento minimizar os efeitos, enfim, não fazer efeitos, ser muito fluido, muito fácil de ler.”

O génio do escritor está também em ter sabido escolher temas que parecem improváveis, nocivos, fracturantes, com a ideia de federar, de ser acessível ou consensual. Fez, portanto, sucessos comerciais e críticos falhados.

O fenómeno é também o homem
É imodesto ao ponto da vaidade. É incontável o número de declarações em que se admira a si mesmo e elogia o seu talento. Representa, aliás, o seu próprio papel em 2014, no improvável telefilme L’enlèvement de Michel Houellebecq. É um fracasso, o que não o impede de declarar: “Continua a surpreender-me muito que me considerem um actor. Embora o resultado não seja mau.” Tanto que reproduz a experiência com a estreia, no mesmo ano, do improvável Near Death Experience, no qual é… o único actor. Narcisismo.

Houellebecq é também um físico que se parece com uma personagem de pesadelo saída de uma tela de Hieronymus Bosch, com uma criatura de BD americana, com o assassino em série e o imperador Palpatine da Guerra das Estrelas. Felizmente, possui uma qualidade maior: o humor e a autocrítica. Deixemo-lo falar de si próprio. Eis um extracto de O Mapa e o Território, onde coloca em cena uma miríade de personagens reais do mundo das artes, incluindo — e sobretudo — ele mesmo:

“Reconhecerá facilmente a casa, é o relvado mais desleixado das redondezas”, dissera-lhe Houellebecq. ‘E talvez de toda a Irlanda’, acrescentara.”

“Bateu pelo menos dois minutos à porta, sob chuva forte, antes de Houellebecq abrir. O autor d’As Partículas Elementares envergava um pijama com riscas cinzentas que o fazia parecer-se vagamente com um presidiário de uma telenovela; o cabelo estava despenteado e sujo, o rosto vermelho, quase afogueado, e cheirava um pouco mal. A incapacidade de fazer a higiene pessoal é um dos sinais mais seguros de um estado depressivo, recorda Jed.”

“Com efeito, restos de tostas e de fatias de mortadela juncavam os lençóis, manchados de vinho e queimados, aqui e ali, por cigarros.? “Voltei a recair… Voltei a recair completamente ao nível da charcutaria”, prossegue Houellebecq sombriamente. Realmente, a mesa estava repleta de embalagens de chouriço, de mortadela, de salame. Estende a Jed um saca-rolhas e, logo que a garrafa é aberta, engole um primeiro copo de um só trago, sem cheirar o bouquet do vinho, sem sequer se entregar a um simulacro de degustação. Jed tira uma dúzia de grandes planos, tentando variar os ângulos.”

Houellebecq, o homem, até então incompleto, acede à completude. Entra para o panteão, conquistando o seu graal, o seu Goncourt, em 2010, com O Mapa e o Território. O seu quinto romance. O Goncourt é atribuído no muito chique e mítico Restaurante Drouant, em Paris. Nesse dia, a agitação em torno do frágil Houellebecq é considerável. Ei-lo cercado pelas objectivas, sacudido como uma palha, um pouco esgazeado e perdido, mas exultante. Acaba de entrar na História.

Na vida, em torno de Houellebecq gravita a galáxia Houellebecq. Já não está tão solitário, o escritor goncourtizado: esquerdistas intelectuais de aparência igualmente desleixada e suja, mas também celebridades, escritores famosos e outras personagens mais controversas ou dificilmente classificáveis de que a França possui o segredo. Detenhamo-nos um instante num extraordinário jantar. A 14 de Novembro de 2010, dia de remodelação ministerial, o presidente Nicolas Sarkozy e a sua mulher, Carla Bruni, convidam, em honra de Houellebecq, algumas personalidades das artes e dos media. Por seu lado, Houellebecq convocou a editora-executiva da Playboy, que lhe inspirou uma personagem em A Possibilidade de Uma Ilha. Inapropriado. Convidou também o enigmático e muito direitista David Serra, que dirige uma revista on-line, Ring, e publica escritores como Laurent Obertone, autor de uma obra sobre a delinquência intitulada La France Orange Mécanique (o que lhe valeu ser classificado como de extrema-direita por certos editorialistas). A tendência na Ring é crítica em relação ao islão, pró-Bush e anti-sistema, com posições de direita, portanto. E Houellebecq afirma que “a Ring é o melhor site de informação”. Super-inapropriado… E porque não? O homem é inapropriado em todos os aspectos. As suas relações com personalidades ambíguas já não surpreendem muita gente.

Podem escrever-se coisas más com maus sentimentos
Dissemos que não se faz boa literatura com bons sentimentos. Mas, no momento em que é lançado Submissão, a ideia de que se podem escrever coisas más com maus sentimentos impõe-se. Quase ninguém ainda leu o livro que eclipsa todos os outros nesta rentrée (como frequentemente acontece com Houellebecq), mas o fragor surdo da polémica já se faz ouvir ao longe. Já um mês antes se levantavam as primeiras vozes a denunciar um livro que qualificam de râncido, nauseabundo, islamofóbico, assustador — em suma, perigoso e indigno de um grande escritor.

O primeiro problema é que Submissão vem colocar-se no cimo de uma pilha de livros que batem na mesma corda: a do declínio francês face ao perigo muçulmano. Há 15 anos que esta ideia regressa inabalavelmente ao primeiro plano. O último escândalo até à data é o livro do editorialista Eric Zemmour, muito famoso em França, intervindo na rádio, na TV, na imprensa e nos seus livros. Embora se considere eternamente censurado pelos bem-pensantes do “sistema”, vemo-lo por todo o lado, de manhã à noite. Zemmour publicou Le Suicide Français. Vendas recorde para este livro que traça um retrato arrasador da França e aponta sem hesitar os responsáveis pelo declínio: os imigrantes, os homossexuais, as mulheres (ou, pelo menos, as feministas) e, depois, a esquerda, e também, um pouco, a direita, todos os políticos e, claro, os jornalistas e os censores — em suma, tudo o que não é branco, sexagenário, católico e heterossexual.

Temos, então, um Houellebecq que cavalga esta onda salobra da islamização da França com o cenário da chegada ao poder de um Presidente da República muçulmano, chamado Mohammed Ben Abbas, e a poligamia, e a exclusão das mulheres do mundo do trabalho, e o estabelecimento de uma sharia light — tudo isto sob o olhar desolado de franceses ultrapassados e apáticos. E tudo isto é muito. Cá estamos, é o choque de Submissão. Coloca-se então a questão da responsabilidade das elites e dos intelectuais. Porque, se nos apraz designar como causa dos nossos males responsáveis saídos do povo (imigrantes, professores, minorias), porque não interrogarmo-nos sobre a responsabilidade dos responsáveis pelo país, os líderes de opinião, as elites: os políticos, os media e os intelectuais.

A escolha, por Houellebecq, deste tema candente que esgota os franceses há 15 anos pode ser considerada unicamente artística? Houellebecq é demasiado sensível ao ar do tempo e ao jogo mediático para ignorar a onda de indignação e a ressaca de aprovação que se vão seguir. Teve de prever e desejar o (bad) buzz. Aliás, no dia do lançamento do livro — 7 de Janeiro —, aos microfones da Radio France Inter, o crítico Augustin Trapenard leu uma passagem de Submissão em que Houellebecq fala do gosto do escritor Huysmans pela discórdia. O jornalista lê o que Houellebecq escreveu: “Huysmans tem, antes do mais, necessidade de causar escândalo, de chocar o burguês, naquilo que se parece bastante com um plano de carreira.”

“– Quer dizer que isso se aplica a mim?”, pergunta Michel Houellebecq.

“– Estou a colocar-lhe a questão. Você também choca o burguês”, responde Trapenard.

“– OK, aparentemente, sim.”

“– Trata-se de um plano de carreira?”

“- Hum… enfim, sim”, admite Houellebecq.

“– Ah, uma cacha, o plano de carreira de Michel Houellebecq: chocar o burguês.

“- Não mais do que Huysmans, mas também não menos.”

É claro que ninguém sonha associar Houellebecq aos últimos e trágicos acontecimentos em França. Cronologicamente, é impossível. Embora tenha pronunciado estas frases cheias de nuances em 2001, na revista Lire: “A religião mais estúpida é, apesar de tudo, o islão. Quando lemos o Corão, ficamos abismados. abismados! (…). O islão é uma religião perigosa, e isto desde que apareceu. Felizmente, está condenado. Para já, porque Deus não existe e, mesmo que sejamos estúpidos, acabamos por perceber isso. A longo prazo, a verdade triunfa. Depois, o islão está minado internamente pelo capitalismo. O que mais podemos desejar é que triunfe rapidamente. O materialismo é um mal menor. Os seus valores são desprezíveis mas, apesar de tudo, menos destrutivos, menos cruéis do que os do islão.”

É nessa altura que o advogado parisiense Emmanuel Pierrat encontra Houellebecq: “Michel Houellebecq tinha recusado o advogado da editora Flammarion, que queria que se fosse pedir desculpa publicamente, se possível, diante da Grande Mesquita de Paris. Ora, Houellebecq queria defender a sua liberdade de expressão e explicar-se. Procurou-me e falámos todos os dias durante esse Verão. Veja como ele é: não pode responder a uma pergunta sem fazer uma longa pausa e inalar profundamente o fumo de um cigarro. No tribunal, isso era impensável. Portanto, desabituei-o à força de adesivos e treinei-o para responder com voz forte e de forma clara e rápida. Foi uma loucura. Tínhamos contra nós o islão francês, a Liga Islâmica Mundial (um órgão da Arábia Saudita), a Federação Nacional dos Muçulmanos em França, as grandes mesquitas de Paris e Lyon, e a Liga dos Direitos do Homem, que o acusava de racismo. Durante um ano elaborámos uma lista de intelectuais que chamámos a apoiá-lo. Foi a debandada geral. Acabámos com cinco testemunhas, entre as quais o escritor Philippe Sollers e Fernando Arrabal, que fora perseguido sob a ditadura de Franco por blasfemar contra Cristo. Depois, era a indignação de jornalistas do mundo inteiro. Tínhamos o mundo intelectual contra nós ou à distância. Tinham acontecido os atentados do 11 de Setembro (as vendas do livro Plataforma caíram a pique). E depois, na altura do julgamento, houve outro atentado em Bali, contra uma discoteca. Ora esse era exactamente o cenário que Houellebecq descrevia em Plataforma. Pela minha parte, decidi invocar o ‘direito à blasfémia’. A audiência durou nove horas, a tensão era muita. Mas senti que a sala, a pouco e pouco, reflectia. No fim do dia, saímos do tribunal: tínhamos dado a volta ao assunto, Houellebecq tinha razão. Como por magia, os apoios que nunca tínhamos conseguido desataram a telefonar: ‘Já agora, lamento não ter estado presente, mas se precisares…’”

Jean Birnbaum, o chefe de redacção do Le Monde des Livres, mostrou-se severo no site do Monde.fr sobre Submissão. “Um livro que suscita a náusea, a revolta.” Confirma-nos ao telefone o seu ponto de vista, simultaneamente intransigente em relação ao aspecto puramente estilístico, mas igualmente em relação ao conteúdo: “Do ponto de vista literário, este livro não é um acontecimento. Somos muitos a dizê-lo: imita os seus imitadores, é bastante preguiçoso na sua construção, tem facilidades. Sente-se que ele pega nos mesmos truques, em temas que antes tratava com virtuosismo mas desta vez com um tom ‘já conhecem esta cantiga’.”

E sobre a noção de responsabilidade dos autores: devemos considerá-los puros escritores ou eles são outra coisa? “Não se pode exigir a um escritor que seja moderado ou prudente”, prossegue. “Mas como dizia Sartre: ‘As palavras são armas carregadas’. É preciso ter mesmo curta memória para não se ser reenviado a períodos muito obscuros da nossa História quando se lê em Submissão sobre a cobardia, sobre a pertença de todas as personagens a um grupo religioso por puro oportunismo, como isco para o dinheiro e para o sexo. Nunca por espiritualidade. Não há ninguém no livro que se converta ao islão por convicção. É incrível, Michel Houellebecq joga tudo no facto de que haverá um público amnésico, bastante desinvolto ideologicamente para se sair com o argumento estúpido ‘oh, afinal de contas não é mais do que um romance’. Houellebecq sabe muito bem quais as consequências políticas da linguagem e da literatura. Imagine-se o que um jovem da cultura muçulmana sente perante isto, é de chorar.”

Consequências do ruído mediático anti-árabe: à força de repetir, contribui para instalar uma atmosfera que permite validar uma desconfiança generalizada em relação aos muçulmanos: -> estigmatização -> discriminação -> exclusão -> retracção comunitária da população visada -> risco de recuperação por extremistas islamistas-> risco de radicalização dos indivíduos mais frágeis -> violência -> nova desconfiança generalizada, etc.

No dia em que foi lançado Submissão, 7 de Janeiro de 2015, a revista satírica Charlie Hebdo saiu também, com uma caricatura de Houellebecq na capa. E estas palavras sobre a figura do escritor: “As previsões do mago Houellebecq: em 2015 vou ficar sem dentes… Em 2022 observarei o Ramadão!”

Muito bad timing, o dia do lançamento de Submissão, que foi o dia da capa da Charlie Hebdo satirizando Houellebecq, e também o do ataque terrorista contra a revista que conduziria ao balanço dramático de 17 mortos. É difícil não nos sentirmos afectados por esta funesta carambola de acontecimentos, entre os quais sentimos existir uma ligação difusa.

É então que Houellebecq desaparece da confusão. Fazem-no sair de Paris, para sua segurança, e também, dizem-nos, porque precisava de descansar antes de retomar a promoção do livro. Outros fazem o mesmo, prudentemente, depois de terem defendido veementemente a tese de Houellebecq. Alain Finkielkraut, por exemplo, filósofo famoso, conhecido pelas suas posições de direita e anti-imigracionistas: o seu assessor de imprensa explica ao Ípsilon que doravante não dará mais entrevistas sobre Houellebecq, tendo em conta o que acaba de acontecer. Três dias antes, a 4 de Janeiro, ainda dizia no programa de Élisabeth Levy na rádio RCJ: “Michel Houellebecq é o nosso grande romancista do possível. Entre a clonagem generalizada e o futuro turístico da França, compraz-se no romance de antecipação. Soumission não foge à regra mas, desta vez, Houellebecq toca na ferida, e os progressistas de quem era a coqueluche, apesar do seu pessimismo, soltam ais (…). A grande preocupação daqueles que se apresentam como rebeldes, refractários, resistentes, é que nada obste às reivindicações do islão e à sua progressão, e essa é, a meu ver, a mistificação da esquerda actual, a sua suprema mentira: quando diz ‘mudança” quer dizer ‘submissão’.”

O seu amigo Emmanuel Carrère, também ele um escritor maior, Prémio Renaudot por Le Royaume, declara à propósito de Submissão: “Um livro profético, na linha de 1984 e de Admirável Mundo Novo, mas mais poderoso.”

Fouad Zeraoui está numa posição privilegiada para avaliar o impacto destes discursos na juventude muçulmana de França. Fundador da associação Kelma (“palavra”, em árabe), de uma revista gay e étnica, e promotor das noites Black Blanc Beur que organiza em Paris, tem como alvo uma população apanhada entre dois fogos: os muçulmanos homossexuais. Confrontados com o racismo fora de casa, são vítimas de homofobia dentro dela. Eis uma população de origem imigrante que poderia, dada a sua homossexualidade, sentir-se próxima de publicações antimuçulmanas. “Os muçulmanos sentem que são atacados sem terem a possibilidade de ripostar”, diz Zeraoui. “Mesmo que pudessem fazê-lo, torna-se muito difícil, na medida em que defrontam pugilistas profissionais que usam de má-fé e, por vezes, de verdades que carecem de respostas precisas e complexas. É difícil criticarmos a nossa comunidade numa altura em que a palavra de ordem é a união.” Para Zeraoui, não é possível deixar de se alinhar pela imagem viril do irmão ou do pai quando esta é atacada pelo mundo exterior. “A exacerbação, por parte dos muçulmanos, da virilidade (de que os radicais são a encarnação: o super-homem, o combatente, o homem que não sofre de nenhuma tara ocidental), é uma resposta a esse ataque à virilidade. E os gays saídos dessa comunidade muçulmana não têm remédio se não associar-se a essa palavra de ordem implícita: não haverá degenerados a manchar a nossa unidade, a nossa postura, o nosso orgulho singular. Há que ser masculino.” É a lei do silêncio, não se participa no debate.

Para Frédéric Pichon, licenciado em Árabe, professor de Geopolítica e consultor de comunicação social que contacta via Internet com jihadistas, se é evidente que alguns líderes de opinião instrumentalizam este filão antimuçulmano, não é isso que leva à radicalização. De resto, considera o romance de Houellebecq irrealista. Não seria possível eleger um presidente muçulmano “pela simples razão de que não existe uma comunidade muçulmana em França”: “Há muitas correntes no islão: a francesa, a magrebina, a turca, etc. Não conseguiriam chegar a um consenso sobre um presidente.” Em contrapartida, avança uma explicação curiosa. Há muito que a nossa cultura ocidental deixou de oferecer um modelo espiritual interessante. “Ela esqueceu o sagrado, já não é capaz de transmitir valores. O que uma parte da juventude muçulmana vai procurar noutro lado remete para o nosso vazio.” À força de ver vídeos de jihadistas, distinguiu três noções importantes, três elementos que, involuntariamente, são demonstrados pelos jovens que se filmam, por vezes, antes de abraçar a violência: “1) A regeneração: a nossa radicalização vai fazer-nos mudar de vida. Metro, trabalho, dormir, metro, trabalho: isso já eu rejeitava em França. Acabou-se o haxe e os desacatos, encontrei um sentido para a minha vida. 2) A emoção: os indivíduos choram de emoção antes de passar ao acto, manifestam o seu amor pelos ‘irmãos’ que encontraram. 3) A ascese: o aspecto marcial, sacrificial, são a sua nova vida.” De um lado, portanto, os líderes de opinião que estigmatizam; do outro, um vazio espiritual que nada vem preencher… até que se têm maus encontros.

O último problema é que Houellebecq finge não compreender bem o que querem dele. Ser responsável? Responsável por quê? Por nada, uma vez que, quando questionado, esquiva-se, faz-se de ingénuo. Na véspera do lançamento do livro, Houellebecq está no telejornal da noite da France 2: o pivô, David Pujadas, interroga-o sobre o quadro geral apresentado no livro, que alimenta o medo, e sobre a responsabilidade subjacente do autor no seu alastramento. Por três vezes Pujadas regressa à pergunta, por três vezes Houellebecq responde ao lado. O jornalista conclui: “Parece minimizar a questão.”

Então mostra reacções de leitores, entre as quais a de Malek Chebel, filósofo argelino, tradutor do Corão, antropólogo das religiões. E cita-o: “Quando se é um grande escritor, têm-se mais responsabilidades. Sente isso?” Resposta de Houellebecq: “Não me lembro de nenhum caso em que um romance tenha alterado o curso da História.” Seguem-se várias não-respostas, como “Nem uma coisa nem outra”, “Não sei, já não sei mesmo”, “Então não aprovo nem condeno [a personagem principal, que se converte ao islão por facilitismo]”.

Esta questão da responsabilidade dos intelectuais e da comunicação social dá azo a viva discussão no programa C à vous da France 5. Edwy Plenel, politicamente de esquerda, director do site Médiapart e ex-director do Le Monde, atira: “Nós, os media, alguns media, fazemos desta ficção o acontecimento do dia, fazemos de um escritor, que tem o direito de pensar o que quiser, o acontecimento político da rentrée. Após três meses de zemmouradas (…), consideramos normal, nós, jornalistas, fazer eco disto, promover isto (…). A que é que damos relevo? A que o islão é um problema, que os muçulmanos são um problema. Há 15 anos que somos um país que promove a discriminação em bloco de uma população devido à sua origem, ao seu credo, à sua cultura quando falamos dos muçulmanos, do islão… Dá-se conta da violência que isto exerce sobre as pessoas em causa? Michel Houellebecq é islamofóbico, reivindica isso mesmo há 15 anos, basta ler as suas entrevistas, e vocês fornecem-lhe um púlpito.”

Contactámos David Serra, director da revista Ring, que se mostra, pelo contrário, bastante entusiasta: “Para encontrar o espírito de uma época não mergulhamos nas notícias dos jornais, procuramos o escritor que ‘agarrou o século pela garganta’. Um autor autêntico atira sobre a multidão, rasga o espaço público, e eu fico contente por reencontrar um pouco o Michel Houellebecq de Plataforma, que me dá, desta vez, lições de política, de teologia, de moral e de economia (…). Não conheço as forças actualmente em jogo na cabeça de Michel Houellebecq, mas sinto que ainda é, na sua solidão genuína, uma força em acção num turbilhão de escritores com plásticas, com rostos idênticos (…). A identidade é o tema central, aquele que está em todas as cabeças, incluindo aquelas que parecem desprezá-lo. O seu público habitual desejava esse tema, mas já não o esperava. Michel Houellebecq parecia domesticado depois do Goncourt. Aparecia na comunicação social do entretenimento e já não parecia suscitar mais do que uma estranha unanimidade. Finalmente, mostrou que faz o que quer e que continua a ser, em última instância, o único senhor de si mesmo.”

Os acontecimentos actuais replicam os de 2001. Um livro polémico, declarações islamofóbicas então, um livro sensível hoje, e a coincidência de atentados hediondos. Catorze anos depois, o advogado Emmanuel Pierrat pensa como pensava e não hesita em afirmar: “Entre aqueles que desfilaram no domingo, em Paris, com a sua boa consciência, há quem tenha sido dos primeiros a dizer que a Charlie Hebdo estava a pedi-las e dos primeiros a atiçar o fogo nos subúrbios. O escritor não tem de estar preocupado com uma parte da população. Se assim for, entra-se numa lógica que vai contra os nossos princípios. Houellebecq é um escritor, não um panfletário ou um jornalista como Zemmour. A literatura é um território sagrado, temos o direito de forçar a nota. Temos direito ao mau gosto e à blasfémia. Se os escritores deixaram de ter direito a isso, então acabe-se já com a literatura.”

François Samuelson, agente e amigo de longa data de Houellebecq, toma também a defesa do escritor. Leu Submissão há oito meses, mas há uma semana que é solicitado por todos os órgãos de comunicação. Tem tempo para nos responder: “Constato a irresponsabilidade daqueles que censuram uma alegada islamofobia, que são os mesmos que denunciavam a islamofobia e o mau gosto das caricaturas da Charlie Hebdo. Faz-se como o pirómano que, depois de atear um incêndio, chama os bombeiros! O escritor escreve um livro, trata-se de uma fábula política, como Voltaire poderia ter escrito. Infelizmente, por um terrível acaso, a realidade foi ao encontro da ficção. É como se disséssemos a uma rapariga violada que foi bem feito porque se veste de forma provocante. Peço desculpa, estou um pouco exaltado, mas isto deixa-me louco.”

Samuelson acrescenta, por fim, que “está tudo bem”, Michel Houellebecq regressou a Paris. Não vamos jogar ao Rapto de Michel Houellebecq parte 2! “Está sobretudo consternado com a morte do seu amigo Bernard Maris [jornalista e economista que escreveu Michel Houellebecq économiste, retomando as análises económicas do autor que considerava pertinentes]. Foi isso que o atingiu. Está-se nas tintas para a matilha!”

Houellebecq vai sair-se bem. Sai-se sempre bem. Não será um Dorian Gray do avesso, trazendo no rosto os sulcos tortuosos da decadência de um pensamento ultra-sedutor que se corrompeu na busca de mais, de melhor, de sempre ainda mais forte. Acrobata de equilíbrio insolente mesmo quando o vento sopra, encontrará a forma de aterrar de pé. Afinal de contas, trata-se do grande homem das letras francesas. A sua produção romanesca cifra-se em seis livros. Seis livros apenas, uma obra imensa. Tivemos Houellebecq, temos agora Submissão, aguardamos a continuação.

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“Poesía y geografia”, de Antonio Muñoz Molina

Texto de Antonio Muñoz Molina publicado no caderno Babelia:

En aquel austero comedor no estaban aún el televisor y el frigorífico que ocuparían lugares de honor unos años más tarde. Había una ventana enrejada, una mesa camilla, una repisa de obra en un rincón donde estaba la radio, un reloj de péndulo colgado de la pared encalada. El tictac del mecanismo murmuraba en la caja de madera. Los cuartos y las horas resonaban nítidos como golpes de gong. Yo leía sentado en una silla de anea, apoyando los codos en la mesa, arrimado al brasero, abrigándome con las faldillas, en la casa donde reinaba el frío durante los meses de invierno. No había un sillón ni un sofá donde echarse a leer. De noche, los mayores se quedaban dormidos apoyando la cabeza sobre los brazos cruzados. El único sitio para descansar era la cama, y la cama estaba en un dormitorio helado. Cuando yo leía en ella se me quedaban frías las manos. Sostenía el libro con una mano mientras calentaba la otra debajo del embozo.

Leía en el comedor, unas veces rodeado de la familia y otras, las menos, yo solo. Leía y estudiaba, hacía los deberes. Aprendí a aislarme en el barullo que me envolvía casi siempre: conversaciones, juegos de cartas, seriales en la radio, más tarde programas en la televisión, concursos, películas, espectáculos de variedades. Sumergido en el libro lograba un aislamiento perfecto. Cuando estaba solo tenía de fondo los sonidos de la calle y el tictac y los golpes del reloj.

Una mañana, mi abuelo materno me trajo un libro de regalo, Veinte mil leguas de viaje submarino. Conservo de él una memoria perfecta: visual, olfativa, táctil. Era uno de aquellos libros providenciales de la editorial Ramón Sopena que se encontraban hasta en las papelerías más modestas. El papel era malo, la impresión defectuosa. Las portadas se descolgaban o se despegaban muy fácilmente. Pero la editorial Ramón Sopena parecía que publicaba toda la literatura universal, a precios tan bajos que ni siquiera para nosotros eran prohibitivos. En la portada del libro de Verne se veía la silueta negra del Nautilus en las profundidades de un mar verde oscuro. La luz de su faro era un círculo amarillo. Era como estar viendo el cartel de una película, una promesa absoluta de algo, la inminencia de la lectura. Abrí el libro, me acodé sobre la mesa, sentado en la silla rígida, la espalda fría y las rodillas calentadas por las ascuas del brasero. Debía de ser una mañana laboral porque nadie entró en el comedor. Cuando levanté los ojos del libro y miré el reloj en la pared me di cuenta de que habían pasado varias horas, las once, las doce, y yo no había oído los golpes del péndulo.

En ese silencio primordial de las grandes lecturas resplandecieron para mí las novelas de Jules Verne. Lo sentimos tan cercano que se nos hace raro no traducir su nombre de pila. Veinte mil leguas de viaje submarino es su novela perfecta porque resume las dos metáforas centrales no solo de su literatura, sino de cualquier literatura: la inmersión, el viaje. No hay lectura que no requiera una completa inmersión ni historia que de algún modo no trate de un viaje.

De Jules Verne se dice, distraídamente, que fue un precursor de la ciencia-ficción y un visionario de las tecnologías del futuro. Pero las fantasías arbitrarias o alegóricas, a la manera de H. G. Wells, no le interesaban, y sus máquinas voladoras o submarinas unas veces carecían de fundamento y otras, más que futuristas, resultaban anticuadas para las tecnologías de su tiempo. Jules Verne, que de muy joven imitó los dramones románticos de Victor Hugo, cultivó siempre un romanticismo menos de la ciencia en sí que del descubrimiento, un entusiasmo por lo nuevo, por las maravillas tangibles que él mismo estaba viendo irrumpir en la realidad. Nacido en 1828, perteneció a la primera generación que experimentaba el ruido, el humo, la velocidad de los trenes, y luego el prodigio del telégrafo, la navegación a vapor, la fotografía, el teléfono, el fonógrafo, la impresión masiva y barata, gracias a la cual una revista ilustrada podía contener al mismo tiempo el relato de una expedición en busca de las fuentes del Nilo y los grabados que la hacían visible, o la crónica de una exposición universal en la que se mostraban maquinarias prodigiosas y danzas y tocados de los pueblos primitivos descubiertos por los exploradores y sometidos colonialmente por ellos, traídos a la metrópolis en veloces buques de vapor.

Quizá Jules Verne amaba sobre todo los mapas: la geografía era la aventura suprema del conocimiento. Lo cuenta el geógrafo Eduardo Martínez de Pisón en su último libro, La tierra de Jules Verne, que es una meditación sobre los mundos y los viajes que se contienen en todas esas novelas que él también empezó a leer de niño. La geografía es un saber que linda lo mismo con la literatura que con la ciencia, y que muchas veces se ha mezclado con la ficción, porque ha habido grandes viajeros que han sido también grandes mentirosos, y porque el impulso de la aventura y por tanto de la fábula puede ser más poderoso que el del conocimiento. Por eso atraen tanto a niños fantasiosos que quieren evadirse y quieren comprender, que sienten la misma curiosidad por lo que existe y por lo que no existe.

Leíamos a Verne siguiendo sobre un mapamundi los itinerarios exactos de sus viajeros y calculando sobre el ancho azul del Pacífico la longitud y la latitud de sus islas inventadas. Nuestro sedentarismo forzoso alimentaba la pasión por aquellos viajes que conducían a los límites del mundo, a lo más hondo de las fosas oceánicas, a la órbita de la Luna, al centro de la Tierra, a las distancias del sistema solar. Leyendo a Verne nos seducían por igual, y sin que nos diéramos cuenta, la ciencia y la literatura, el romanticismo de la precisión y la poesía de los nombres: en nuestro mundo de topónimos sabidos y presencias siempre familiares las novelas de Jules Verne nos suministraron catálogos de nombres resplandecientes, nombres de islas reales o ficticias, de ríos, de desiertos, de continentes, de plantas, especies animales, de buques, de personajes que eran más memorables en virtud de los nombres que Verne había elegido para ellos.

Dónde hay en la literatura un personaje que tenga un nombre tan misterioso y definitivo como el Capitán Nemo. Y qué novelista ha inventado títulos que ofrezcan tan tentadoramente lo que nos atrae de la literatura, la promesa de una revelación. Hay títulos y nombres que han estado siempre conmigo, tan fértiles en el recuerdo lejano como en la primera lectura. Muchos otros he vuelto a encontrarlos en el libro de Eduardo Martínez de Pisón. Él no lo dice, pero yo intuyo que gracias a Jules Verne descubrió su vocación de geógrafo. Yo le debo la mía de novelista, y quizá más todavía la vocación de lector. El gusto por el viaje inmóvil, la afición y la destreza para sumergirme muy hondo en las palabras de un libro, en mi silencio de lector submarino al que no llegan los golpes sonoros del reloj.

La tierra de Jules Verne. Geografía y aventura. Eduardo Martínez de Pisón. Fórcola. Madrid, 2014. 440 páginas. 24,50 euros.

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