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Fechamento da editora Cosac & Naify

Conforme noticiado no jornal Estado de S. Paulo, a editora Cosac & Naify fechará as portas. É uma grande perda: sob a chancela da Cosac foram publicados alguns autores importantes que revisam a poesia moderna, além de crítica brasileira, como o excelente Passos de Drummond, de Alcides Villaça; diversos clássicos da literatura universal, como O vermelho e o negro, de Stendhal, e a nova tradução de Guerra e Paz, de Tolstoi. Fora os artistas plásticos, os infanto-juvenis, a poesia recente.

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João Cabral de Melo Neto – Uma fala só lâmina, de Antonio Carlos Secchin – Lançamento

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07/04/2015 · 15:09

“De Boccaccio a Proust num único fôlego”

Texto de Kelvin Falcão Klein para o blog da Cosac:

Introdução aos estudos literários, que Erich Auerbach escreve em francês, durante a II Guerra, em seu exílio na Turquia, é um livro que impressiona por conta de dois fatores que raramente vão juntos: a vastidão e complexidade de seu conteúdo e a clareza e objetividade de sua exposição. Auerbach vai da cultura greco-romana a Marcel Proust num único fôlego, mas o faz pacientemente, salientando pontos de contato, frisando aspectos técnicos, da formação de palavras a partir do latim vulgar até o encontro entre arte e sociedade durante a “civilização burguesa”. Assim como em A novela no início do Renascimento, nessa Introdução Auerbach nunca fala “apenas” de literatura, mas de um contexto cultural de apoio que pode ser definido em quatro esferas: a esfera divina (práticas e discursos da religiosidade), a esfera terrena (práticas, discursos e condutas referentes à convivência em comunidade), a esfera da técnica (uso, transmissão e transformação da linguagem) e, finalmente, a da sociedade (aspectos econômicos e históricos considerados na passagem do tempo).

As quatro esferas estão em constante contato e permutação, e é precisamente essa dinâmica de relacionamento que Auerbach se propõe a esclarecer. Nesse ponto é possível perceber, na argumentação do autor, a importância do conhecimento íntimo dos textos literários da tradição ocidental – pois é esse conhecimento que permite a seleção e o ajuste dos melhores exemplos para cada situação. Introdução aos estudos literários apresenta um fluxo argumentativo coeso e teleológico – da Idade Média ao século XIX – , reforçado e enriquecido por uma série de “estudos de caso”. No que diz respeito ao seu livro anterior, A novela no início do Renascimento, título que marca sua estreia na crítica literária, o foco está restrito ao Decameron de Giovanni Boccaccio; mas na Introdução, por outro lado, vemos Auerbach buscar cenas de análise em autores como Goethe, Racine, Cervantes e Camões (método que alcança seu ápice em Mimesis).

Em geral, cada caso leva a uma reflexão referente tanto à condição específica de produção de tal texto quanto ao contexto posterior, ou seja, um trajeto histórico de leitura e interpretação dentro do qual Auerbach é o último elemento. Sobre a Canção de Rolando – um poema épico francês do século XI –, por exemplo, Auerbach fala do desnível de intenções e percepções que existe entre o período histórico retratado no poema (uma batalha dos exércitos de Carlos Magno ocorrida em agosto de 778) e o período em que foi escrito, auge das Cruzadas. A expedição de 778, escreve ele, foi enviada “não contra os muçulmanos, mas contra os bascos cristãos que assaltaram a retaguarda dos francos”, “não foi, de modo algum, uma espécie de Cruzada tal como a pinta a Canção de Rolando; Carlos Magno manteve excelentes relações com os príncipes muçulmanos, e a ideia da guerra santa contra os infiéis não é de seu tempo”. E conclui: “a Canção de Rolando introduz, na história dos séculos passados, o espírito de sua própria época, o espírito da época das Cruzadas; ele narra uma história antiga, mas com os costumes e as concepções de seu próprio tempo”.

Com isso, Auerbach mostra que toda tática de escritura pode levar, potencialmente, a uma ampla gama de táticas de leitura – mais ou menos atentas aos processos velados de configuração do sentido. Trata-se, portanto, de um procedimento de leitura crítica que permita a exploração das camadas temporais que constituem todo texto literário, que às vezes miram o passado, mas revelam, no processo, muito mais sobre o presente que ainda lhes é invisível.

 

*Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br

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“Vontade”, de Laura Liuzzi

 

Entrar em casa sem que a porta
rangesse, sem que o cachorro
da vizinha farejasse minha vinda
sem que o sofá conservasse as
formas do meu corpo, sem que
eu precisasse tomar aquele copo
de água que toca o azulejo e emite
um som rouco, sem que houvesse
corpo. Entrar em casa como
a música entra nos ouvidos.

 

[De Desalinho, Cosac & Naify, 2014]

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“Vidas opostas de Cristo e dum homem”, de Murilo Mendes

Senhor do mundo,
cada vez que ressuscitas um homem, me destruo a mim mesmo.
Enquanto o demônio te tenta no deserto
eu sonho com os corpos que a terra criou.
Enquanto passas fome e sede quarenta dias
os meus sentidos se desalteram.

Cada vez que cais ao peso da tua cruz
eu caio com uma mulher de última classe.

Enquanto te multiplicas na humanidade
não saio dos limites da minha pessoa.

Depois da morte voltas pra absolver o justo e o pecador,
eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo.

Senhor do mundo,
me tira de mim pra que eu possa olhar os outros e eu mesmo.

 

De Poemas, 1930

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“O avô descobre analogias”, de Murilo Mendes

A cabeça da minha nora que morreu
está no corpo da minha neta.
Às vezes meu filho olha pro corpo da sua filha
e revê a cabeça da mulher,
pensa na morte da mulher,
na vida dos dois,
no nascimento da filha,
na noite do casamento,
na marcha nupcial
e no primeiro encontro.

 

de Poemas, 1930

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Murilo Marcondes lê “Os dois lados”, de Murilo Mendes

[Via Marcos Alconchel]

 

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David Copperfield, de Charles Dickens

Trecho do prefácio à edição de 1867 de David Copperfield, de Charles Dickens (edição Cosac & Naify, com tradução de José Rubens Siqueira):

Pouco interessaria ao leitor, talvez, saber como senti pena de deixar a caneta de lado ao encerrar uma tarefa imaginativa de dois anos; ou como um autor se sente ao lançar uma parte de si mesmo no mundo de sombras quando uma multidão de criaturas de sua cabeça sai dele para sempre. No entanto, eu nada mais tinha a dizer; a menos, de fato, que fosse confessar (o que pode ser ainda menos importante) que ninguém jamais poderá acreditar nesta narrativa, ao lê-la, mais do que eu acreditei ao escrevê-la.

Tão verdadeiros são esses sentimentos no presente que agora só posso fazer ao leitor mais uma confidência. De todos os meus livros, este é o de que gosto mais. É fácil acreditar que sou pai afetuoso de todos os filhos de minha fantasia, e que ninguém jamais amará essa família mais do que eu. Mas, assim como muitos pais afetuosos, tenho no fundo do meu coração um filho predileto. E seu nome é DAVID COPPERFIELD.

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“Cem anos de Marguerite Duras”

Extraído do blog da Cosac & Naify:

Nascida no dia 4 de abril de 1914, a escritora nascida em Saigon (hoje Ho Chi Minh) e radicada na França completaria hoje 100 anos. Autora de uma obra multifacetada que percorre gêneros tão diversos quanto o teatro, o romance e o roteiro de cinema, foi considerada um dos principais nomes do movimento nouveau roman.

O catalão Enrique Vila-Matas narra em Paris não tem fim o início de sua carreira de escritor, quando foi para a capital francesa e alugou um quarto com ninguém menos que Marguerite Duras. A escritora foi marcante – para não dizer fundamental – na formação literária de Vila-Matas, e o mesmo podemos dizer acerca de uma legião de autores que foram inspirados pela prosa única de Duras. Em um ensaio traduzido ao português pela Folha de S. Paulo, Vila-Matas diria:

“Com a escrita de Duras acontece o que ocorre com a primeira frase de A Metamorfose de Kafka. Quando lemos que um jovem funcionário acorda em sua cama transformado num inseto, só temos duas opções: fechar o livro incrédulos e não continuar ou crer nessa estranha verdade de Kafka e continuar lendo. Creio que a escrita de Duras só permite aos leitores duas opções: amar essa escrita ou odiá-la profundamente. Não há meio-termo com ela. Eu a adoro. Tem a beleza do literariamente infinito. A poesia de sua escrita me fascina e por vezes me levou à emoção e ao choro”.

É em homenagem ao centenário de Duras – e aos inícios fortes e impactantes – que transcrevemos abaixo o começo de O amante, obra capital da escritora que foi relançado pela Cosac Naify em edição portátil e e-book:

“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: ‘Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado’.

Penso com frequência nessa imagem que sou a única ainda a ver e que nunca mencionei a ninguém. Ela continua lá, no mesmo silêncio, fascinante. Entre todas as imagens de mim mesma, é a que me agrada, nela me reconheço, com ela me encanto.

Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Não sei se isso acontece com todo mundo, nunca perguntei”.

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Hamlet e o filho do padeiro, de Augusto Boal – Lançamento

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22/04/2014 · 9:57