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“porto alegre, 2016” – Angélica Freitas

quando você viu na tv
aquelas pessoas em fila na chuva
à noite numa estrada
na fronteira de um país que não as deseja

e quando você viu as bombas
caírem sobre cidades distantes
com aquelas casas e ruas
tão sujas e tão diferentes

e quando você viu a polícia
na praça do país estrangeiro
partir pra cima de manifestantes
com bombas de gás lacrimogêneo

não pensou duas vezes
nem trocou o canal
e foi pegar comida
na geladeira

não reparou o que vinha
que era só uma questão de tempo
não interpretou como sinal a notícia
não precisou estocar mantimentos

agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos

 

50 poemas de revolta, 2017

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A antologia “Poesia.br”

Transcrevo resenha sobre Poesia.br (organização de Sergio Cohn) publicada originalmente em minha coluna da revista Ler de maio de 2013:

A editora Azougue lançou, sob organização de Sergio Cohn, a antologia Poesia.br, que reúne dez volumes acondicionados em uma caixa. Em ordem cronológica, eles reúnem dos cantos ameríndios à poesia contemporânea. Cada volume se inicia com uma apresentação do organizador; no primeiro livro, há também considerações acerca do projeto, onde esclarece sua gênese.

O projeto original foi desenvolvido por iniciativa da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, em 2010, durante o governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Havia a proposta de criação de um portal na internet, com poemas de autores brasileiros. Seu lançamento seria “acompanhado de eventos presenciais, debates e entrevistas com poetas contemporâneos de diversas regiões do país”. “Contudo”, afirma o organizador, “as mudanças da política cultural ocorridas com a troca ministerial do novo governo [da presidente Dilma Rousseff] levaram ao cancelamento do projeto, datado de 17 de janeiro de 2012, sem que este tenha se efetivado ou algum desembolso financeiro ocorrido”.

Como o cancelamento foi legitimado após a realização da pesquisa e da conquista de direitos de publicação de muitos poemas, Sergio Cohn decidiu publicar a antologia em forma de livro, “por conta própria”. A seleção dos poemas se deu pela “representatividade” de seus autores e, conforme o organizador, “como é de se esperar numa antologia”, na seleção “se traduz um olhar pessoal”.

Trata-se sem qualquer dúvida da antologia da poesia brasileira de maior alcance diacrônico já publicada, além de reservar aos seus leitores o panorama de alguns períodos até então pouco examinados, como os cantos ameríndios e a poesia dos anos 1980, que trazem boas surpresas.

Esta antologia só não apresenta um panorama mais completo da poesia brasileira porque algumas autorizações de reprodução de poemas não foram conquistadas. É um motivo que tem levado regularmente as antologias a apresentar significativas lacunas. Em Portugal, Seria uma rima, não seria uma solução: poesia modernista, organizada por Abel Barros Baptista e Osvaldo Silvestre, sofreu do mesmo mal, o que, no seu prefácio, foi discutido com propriedade pelos organizadores.

No volume da Azougue sobre o modernismo, para suprir a falta de alguns autores importantes, Sergio Cohn se valeu muito bem da apresentação para fazer considerações sobre suas obras, aproveitando o espaço para citar poemas, o que é permitido pela Constituição brasileira. Encontram-se nessa situação Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Cecília Meireles, entre outros.

A qualidade das apresentações varia, conforme o volume e seu período histórico. No caso da poesia colonial, há imensa simplificação; muitas tensões da literatura dessa época não são nem mesmo referidas. Exemplo notável disso é a consideração de que a poesia de Cláudio Manuel da Costa é de “alto teor bucólico, sendo alguns de grande beleza”. Sabemos por diversos estudos, como a Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, ou Destes penhascos, de Sérgio Alcides, que sua poesia está marcada por intenso dilaceramento do sujeito e pela natureza em processo de devastação decorrente da extração do ouro. Já na apresentação sobre o modernismo, as análises revelam maior domínio do organizador, apesar de alguns equívocos de ordem histórica, como a data da realização da Semana de Arte Moderna de 1922; há também citações errôneas, como a de “Poética”, de Manuel Bandeira, desestrurando o uso hábil do verso livre.

Outro problema da antologia pode ser aqui apontado – e um problema grave em se tratando da possiblidade de ela ser adota no ensino de todos os níveis: a falta de bibliografia indicando de onde os poemas foram reproduzidos, de modo que não há qualquer garantia da qualidade das edições adotadas para a fixação dos textos.

Avaliando a antologia num todo, ela é importantíssima para um reconhecimento panorâmico da poesia brasileira sob perspectiva diacrônica e permite aos leitores examinar suas transformações. Como toda antologia, também pode dar aos leitores a oportunidade de conhecer alguns poetas de menor circulação, como Solano Trindade. Contudo, a edição revela alguns problemas relevantes, que devem pôr os estudiosos em alerta. Caso seja adotada para qualquer nível do ensino, é recomendável checar dados, conferir a fidedignidade da reprodução dos poemas e buscar maiores informações sobre os autores selecionados em outras fontes mais especializadas. Além disso, para alguém interessado em fazer um trabalho hercúleo dessa natureza (uma antologia das origens ao contemporâneo), seria interessante a inclusão de alguns cordelistas, cuja literatura é muito representativa sobretudo da cultura nordestina.

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Alguna poesía Brasileña

O professor de literatura Rodolfo Mata, mexicano, e a historiadora Regina Crespo, brasileira, acabam de publicar Alguna Poesía Brasileña, no México. A antologia reúne trabalhos de 25 autores para o público de língua espanhola. Segundo Manuel da Costa Pinto, no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo, “o critério de escolha foi geracional: compreende autores que surgiram entre os anos 60 e 80”. Ainda conforme resenha do jornalista, “os organizadores não levaram em conta a estreia dos poetas em livro, mas seu período formativo”. Encontram-se na antologia, entre outros, Adélia Prado, Arnado Antunes, Sebastião Uchoa Leite e Waly Salomão.

Luis Dolhnikoff, da revista Sibila, já havia resenhado a antologia mexicana.

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