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Atualidades atlânticas (1979), de Bernardo Vilhena

Poema de Bernardo Vilhena que abre o livro Atualidades atlânticas (1979), reunido em Vida bandida e outras vidas (2014), pela editora Azougue:

 

É preciso viver
atualidades
reconhecer códigos
revirar noites
ser todas as raças
todas as épocas
entrar em todas
as barras
e não sujar
em nenhuma
falando o que querendo
ouvindo o que não querendo
perseguindo a realidade
e a fantasia aí

poesia é como o momento
em que a gente se encontra
sendo
não por dom
pelo entorpecente trabalho
de pensar no tempo
nos contemporâneos
obstinadamente
feito um tubarão

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“Buracos no céu”, de Chacal

quando tempo e espaço se cortam
quando nosso corpo se encontra
diga que eu perdi a cabeça
diga que eu sou uma bolha de alka seltzer

quando chove meteoro
quando os buracos se cruzam
caem fagulhas na terra
correm agulhas no sangue

desorganizado saio de casa
com um guarda-chuva de cheeseburger
com uma capa de amianto
e não me espanto

entretanto descobri:
a loucura é um sopro no ouvido

 

de América, 1975

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“Pergunte a ele”, de Raymond Carver

 

Pergunte a ele

 

Relutante, meu filho me acompanha
através dos portões de ferro
do cemitério de Montparnasse.
“Mas que jeito de passar um dia em Paris!”,
é o que ele gostaria de dizer. E, de fato, diz.
Ele fala francês. Começou uma conversa
com o guarda de cabelos brancos que se ofereceu
para ser nosso guia informal. E então, lentamente, os três
nos movemos ao longo de fileiras e fileiras de túmulos.
Todo mundo, pelo visto, está aqui.

Está quente e calmo, e não se ouvem
os sons das ruas de Paris. O guarda quer nos levar
ao túmulo do homem que inventou o submarino
e ao de Maurice Chevalier. E ao túmulo
da cantora Nonnie, de 28 anos,
coberto por um monte de rosas vermelhas.

Eu quero ver os túmulos dos escritores.
Meu filho suspira. Ele não quer ver nada disso.
Já viu o bastante. Passou do tédio
para a resignação. Guy de Maupassant; Sartre; Saint-Beuve;
Gautier; os Goncourt; Paul Verlaine e seu velho camarada,
Charles Baudelaire. Onde nos detemos.

Nenhum desses nomes, ou túmulos, tem qualquer coisa a ver
com as vidas sem problemas do meu filho e do guarda.
Que podem, nesta manhã, conversar e fazer piadas em francês
debaixo de um belo sol.
Mas há outros nomes gravados na lápide de Baudelaire,
e eu não entendo por quê.
O nome de Charles Baudelaire está entre o de sua mãe,
que lhe emprestava dinheiro e a vida toda se preocupou
com sua saúde, e o de seu padrasto, um militar
que ele odiava e que odiava a ele e a tudo que ele representava.
“Pergunte ao seu amigo”, digo. Então meu filho pergunta.
É como se agora ele e o guarda fossem velhos amigos
e eu estivesse ali para ser tolerado.
O guarda diz alguma coisa e depois coloca
uma mão sobre a outra. Desse jeito. Faz isso
de novo. Uma mão sobre a outra. Rindo. Zombando.
Meu filho traduz. Mas eu entendi.
“Como um sanduíche, pai”, diz meu filho. “Um sanduíche de Baudelaire.”

Então nós três seguimos adiante.
O guarda tanto poderia estar fazendo isso como qualquer outra coisa.
Ele acende o cachimbo. Olha o relógio. Está quase na hora
do seu almoço, e de uma taça de vinho.
“Pergunte a ele”, digo, “se ele quer ser enterrado
neste cemitério quando morrer.
Pergunte onde ele quer ser enterrado.”
Meu filho é capaz de dizer qualquer coisa em francês.
Eu reconheço as palavras tombeau e mort
em sua boca. O guarda para.
É evidente que seus pensamentos estavam em outro lugar.
Guerra submarina. A sala de concertos, o cinema.
Algo para comer, sua taça de vinho.
Não em decomposição, não em apodrecimento.
Não em aniquilação. Não em sua morte.

Ele nos olha, para um e para o outro.
Estamos brincando? Aquilo é uma piada sem graça?
Ele nos saúda e se afasta caminhando.
Em direção a uma mesa na calçada de um café.
Onde ele pode tirar o boné, correr os dedos
pelos cabelos. Ouvir vozes e risadas.
O tilintar pesado dos talheres. O retinir
sonoro das taças. O sol nas janelas.
O sol nas folhas e na calçada.
O sol encontrando o caminho até sua mesa. Sua taça. Suas mãos.

 

Tradução de Cide Piquet

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Malasartes, 1975 – Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto

 

Já sabemos que a civilização está em boas mãos,
que a economia está em boas mãos, que o poder passa
de boas em boas mãos. E a poesia, está em boas mãos?
Esperamos que não.

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“Cardiograma” – Marcos Siscar

 

as ruas não eram mais argumentos recusavam-se
desiguais ou em lascas emudecidas e sem segredo
no melhor dos casos me dizia já sem convicção
essas ruas áridas oblíquas avaras seriam
um ritmo de falhas sobre as quais
se debruçam velhas quaresmeiras
em flor

 

De Manual de flutuação para amadores, 7Letras

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De A teus pilotis, de Nicolas Behr

 

e deus criou o mundo
(brasília)
o homem (jk)
e a mulher
(dona sarah)
em 6 dias
entre 1956 e 1961 a.c.

(naqueles tempo bíblicos
o ano tinha apenas 1 dia)

no sétimo dia
um domingo
deus descansou

no rio de janeiro

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“Romance XIX ou Dos maus presságios”, de Cecília Meireles

Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha Santa Ifigênia
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres…

Sobre o tempo vem mais tempo.
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios…
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo…
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!

 

Romanceiro da Inconfidência, 1953

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