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“Só, como Franz Kafka” – António Guerreiro

Texto de António Guerreiro extraído do jornal Público:

A edição dos Diários de Kafka, pela Relógio D’Água, traduzidos com enorme competência por Isabel Castro Silva, é um acontecimento editorial recente, que tem de ser salientado.

É certo que já em 1986 a Quetzal tinha publicado os Diários do escritor checo (numa tradução de Maria Adélia Silva Melo), mas essa edição não era integral. Devemos ter em conta que os Diários completos, mesmo na edição alemã, só surgiram no plano da edição da Obra Completa de Kafka, iniciada em 1982. Até aí, o que se conhecia dos Diários era o que Max Brod tinha editado, com muitos cortes e omissões. Como é sabido, Brod foi o executor testamentário de Kafka, no que diz respeito ao seu espólio literário, e, embora lhe seja reconhecido um grande mérito (antes de mais, o de não ter cedido ao  pedido que lhe fez o seu amigo, nas vésperas de morrer: que queimasse quase tudo o que estava inédito, e que era a maior parte do que hoje conhecemos como a sua obra), não deixou de se comportar muitas vezes como se Kafka fosse a sua propriedade privada.

Esta escrita diarística que Kafka alimentou desde 1909 a 1923 (ou seja, o ano anterior à sua morte) tem a característica de nem sempre se distinguir do resto da sua obra, e não apenas por uma grande parte dos fragmentos não ser datada. Neles, encontramos partes que entram directamente nos seus romances, contos e parábolas, mas também, evidentemente, muitas anotações da sua vida trivial, em Praga: a relação difícil com os pais (sobretudo, com o pai), o obstáculo que o seu emprego, numa companhia de seguros, colocava à tarefa da escrita, a relação com o judaísmo, as suas hesitações e inabilidades nas relações amorosas, etc. Leia-se, por curiosidade, o que escreveu a 20 de Agosto, uma semana depois de ter conhecido Felice Bauer, de quem haveria de fugir quando o contrato de casamento, em 1917, lhe pesou como uma ameaça: “Fräulein Felice Bauer. Quando cheguei a casa dos Brod, no dia 13.VIII, ela estava sentada à mesa e, no entanto, pareceu-me ser uma criada. Também não senti qualquer curiosidade em saber quem era, em vez disso, resignei-me de imediato à sua presença. Rosto vazio, de ossos salientes, que exibe abertamente o seu vazio. O pescoço à mostra. Blusa amarrotada. Parecia vestir roupa de trazer por casa, ainda que, como mais tarde percebi, não fosse esse o caso”.

Há um momento, em Outubro ou no princípio de Novembro de 19913, em que profere a pergunta que se tonará a questão kafkiana por excelência, aquela a que um exército de exegetas e biógrafos (a começar por Max Brod) irá tentar responder: “’Quem sou eu, afinal?’, gritei a mim mesmo”. Sabemos muito bem que esta pergunta teve muitas respostas completamente diferentes, de tal modo que nunca faltou Kafka para todos os gostos e ele acabaria por ser nome de legião: o santo, o culpado, o funcionário renitente, o escritor que viu na sua obra uma ameaça tão grande que pediu para ela ser queimada, o homem que tinha “um mundo tremendo na sua cabeça”, tão tremendo que houve quem dissesse que o pior do século XX foi “kafkiano” (um atributo que entrou na linguagem corrente), mas que no dia 2 de Agosto de 1914, quando deflagrou a Primeira Guerra Mundial, se limitou a registar, laconicamente: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. – À tarde, natação”. A essa pergunta, “Quem sou eu, afinal”, que viria a mobilizar tanta gente, não respondem os diários com muito mais segurança do que o resto da sua obra.

O mistério chamado Kafka está coberto pela película espessa de uma vida banal. Walter Benjamin disse que o escritor checo tudo fez para tornar inacessível a resposta a essa questão e «ter-se-ia confrontado toda a vida com o quebra-cabeças que consistia em saber com o que é que se parecia, sem nunca ter percebido que existem espelhos». Benjamin escreveu isto antes de Max Brod ter contado que este gostava de sublinhar a sua aparência juvenil (as fotografias que dele conhecemos comprovam), tendo chegado a afirmar: “Nunca viverei a idade adulta, passarei subitamente de criança a um velho de cabelos brancos”. Elias Canetti , por sua vez, disse que “Kafka teve a habilidade de se transformar no homem mais insignificante”. A narrativa da sua vida é de facto trivial, passa-se quase toda (ou seja, os 41 anos que vão de 1883 a 1924) no centro histórico de Praga, onde nasceu, estudou Direito e trabalhou durante 14 anos (de 1908 a 1922), numa companhia de seguros. Exceptuando o Inverno de 1923/24, em que viveu com a sua última namorada em Berlim, Dora Diamant, nunca passou mais do que alguns dias no estrangeiro nem vivido com uma mulher; permaneceu solteiro toda a vida, apesar de ter estado noivo por três vezes (duas delas, com Felice Bauer), e só aos 31 anos saiu de casa dos pais. Conheceu apenas as cidades de Berlim, Munique, Paris, Viena, Zurique e Budapeste, mais a região do Norte da Itália. O mar, só o viu três vezes.

Eis então a situação paradoxal de um escritor singularmente pobre em biografia, que continua a lançar um enorme desafio no plano biográfico. Este foi o ponto de partida de Reiner Stach, autor de uma monumental biografia de Kafka em três volumes (o primeiro, referente aos “anos decisivos” de 1910 a 1915 — Kafka. Die Jahre der Entscheidungen; o segundo, de 1916 até ao fim da vida — Kafka. Die Jahre der Erkenntnis, o terceiro, sobre os primeiros tempos – Kafka. Die frühen Jahre, publicados respectivamente em 2002, 2008 e 2014). Reiner Stach segue uma via que abre uma «dimensão vertical», seguro de que a riqueza da existência de Kafka se desenvolve essencialmente num plano psíquico, invisível, e nada tem a ver com o plano horizontal dos acontecimentos e a paisagem social. O escritor que provocou grandes considerações de ordem moral e política, o escritor que provocou a intempestiva pergunta: “Faut-il brûler Kafka?” (numa revista literária francesa, em 1946), o escritor que foi objecto de um longo e elaboradíssimo “processo” — Kafka, Pró e Contra (de Günther Anders, primeiro marido de Hannah Arendt, em1951) que o relacionava com a lógica fascista do século XX, forneceu indicações suficientes para que os seus biógrafos não seguissem os caminhos tradicionais: quando falou do «mundo tremendo», que tinha na sua cabeça; ou quando escreveu a Felice: «O romance sou eu, as minhas histórias sou eu»; ou quando registou no seu diário: «Eu não sou senão literatura, e não posso nem quero ser outra coisa». Reiner Stach encontra aqui razões suficientes para ver Kafka como uma personagem literária. E para quebrar radicalmente com o mito Kafka.

O mito Kafka nasceu muito cedo, pela pena de Max Brod, que publicou em1937 uma biografia de Kafka cuja tese fundamental era a de que a obra e a vida daquele que lhe tinha confiado a responsabilidade de executor testamentário se encontravam no caminho da santidade. O Kafka de Brod é o santo, a boa alma, o profeta, o inatingível, o puro. E, por último — peça essencial da mitificação —, aquele que à beira da morte lhe pede que queime todos os escritos que ficaram inacabados e também — ou sobretudo — os diários e as cartas. O mito Kafka comportava assim a dimensão heróica e abnegada de quem quer poupar a posteridade a uma herança carregada de profecias sinistras. Walter Benjamin, que no momento da publicação dessa biografia a criticou duramente, foi ao ponto de dizer que Kafka tinha confiado a tarefa de destruir os seus escritos a quem ele sabia que jamais cumpriria a sua última vontade. Reiner Stach trata, também ele, de desfazer este mito do espólio literário destinado a ser queimado, mostrando que Kafka poderia ter cumprido essa tarefa e não o fez. E limita essa última vontade de Kafka às cartas e aos diários.

Max Brod fixou durante muito tempo a imagem de Kafka transmitida à posteridade. Mas não evitou que outras imagens fossem surgindo: anarquista, teólogo, cabalista, metafísico, ironista – muitos têm reivindicado o «seu» Kafka e, coisa espantosa, sempre houve Kafka para todos. E havia a imagem da solidão, que Reiner Stach reforça ao mostrar que há sempre uma não-sincronia em relação aos que foram amigos e contemporâneos. Essa solidão essencial foi formulada numa daquelas frases, típicas de Kafka, que parecem ao mesmo tempo dotadas de uma enorme leveza e de toda a gravidade do mundo. Foi quando o amigo Janouch lhe perguntou se ele se sentia só como Kasper Hauser e ele respondeu:«Muito pior do que Kasper Hauser, sinto-me só como Franz Kafka». Para todos os amigos, foi sempre um ser misterioso. Lemos numa carta a Felice: «Sou incompreensível para Max, e naquilo que ele me acha compreensível, engana-se».

Um dos episódios mais atribulados da sua vida  foi a relação com Felice, uma empregada berlinense a quem prometeu duas vezes o casamento, e das duas vezes fugiu à promessa. De uma das vezes, teve que passar pela cerimónia do noivado em casa dos pais dela. Do horror que foi para ele essa cerimónia, dá conta numa página do diário. Mal também se sentiu Felice quando soube que os pais dele tinham mandado detectives investigar a família dela. E pior ainda se sentiu ele quando foi chamado a Berlim, ao Hotel Askanische Hof, a 12 de Julho de1914, onde foi submetido ao «tribunal» por causa da pouco inocente relação epistolar que mantinha com Grete Bloch, amiga de Felice. Com alguma ambiguidade, Grete tinha alimentado a correspondência, mas agora estava ali, no hall do hotel, com Felice e a irmã desta, Erna, para o julgar, enquanto ele permaneceu sempre em silêncio.

A relação com Felice foi reatada em Maio de 1916, em Marienbad, onde esteve por uns dias em trabalho. Foi aí que deve ter ultrapassado algumas barreiras com que se tinha protegido de qualquer relação física. Escreveu então a Max Brod: “Mas agora vi o olhar de confiança de uma mulher e não me pude fechar”. Dois anos antes, os dois já tinham estado num hotel numa pequena cidade de fronteira da Áustria com a Alemanha, mas o que Kafka fez foi ler-lhe, do manuscrito de O Processo, o episódio intitulado Perante a Lei. Em Agosto de 1917 sofreu uma hemorragia, na sequência da qual é-lhe diagnosticada uma tuberculose pulmonar. Estava então a viver em casa da irmã preferida, Ottla, na Rua dos Alquimistas. Nesse momento inicial, diz-nos Stach, ele chega a encarar a doença como um «alívio», pois ela liberta-o da obrigação do casamento com Felice. Em 1919, há a relação com Julie Wohryzek, de Praga, de quem também esteve noivo, mas o pai também tratou de envenenar a relação. A célebre Carta ao Pai teria nascido daí.

Vem depois a relação com Milena, em 1920, e, já no último ano de vida, a relação com a judia de Leste Dora Diamant, com a qual viveu em Berlim durante seis meses, em condições muito precárias, por causa da saúde e de dificuldades financeiras. Nos seus últimos dias, no sanatório de Kierling, na Áustria, Kafka esteve sempre acompanhado por Dora (que terá sido o único amor feliz da sua vida) e por um dos seus amigos, o médico Robert Klopstock, a quem solicitou a morfina que pôs termo ao sofrimento que se tinha tornado insuportável. Terminava assim uma existência marcada por um grandioso falhanço em todos os combates a que se viu obrigado: com o pai (cuja autoridade o assustava tanto que nem sequer era capaz de permanecer em pé diante dele), com a literatura (não acabou nenhum dos seus romances), com o mundo das mulheres.

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“O ponto negro”, de Gérard de Nerval

Quem quer que tenha olhado o sol bem fixamente
Crê ante seus olhos ver, a voar teimosamente,
Ao redor, uma nódoa algo lívida, no ar.

Assim bem moço ainda e muito petulante
Ousei fixar na glória os olhos um instante:
Ficou-me um ponto negro em meu voraz olhar.

Depois, mesclado a tudo, em sinal de algum luto,
Por toda parte, onde o olho eu ponho ou mais perscruto,
Vejo-a também pospor-se assim, a negra escória!

Que coisa, sempre! Está entre mim e qualquer ventura!
Ó, é que apenas a águia – ai dessa desventura! -Contempla impunemente os dois, o sol e a glória!

 

[Do livro Cinquenta poemas, de Gérard de Nerval,
São Paulo, Ateliê Editorial. Tradução de
Mauro Gama]

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A LA PÚA, de Oliverio Girondo

– Cenáculo fraternal – com a certeza reconfortante de que, em nos-
sa  condição  de  latino-americanos, possuímos o melhor estômago
do mundo, um estômago eclético, libérrimo, capaz de digerir, e de
digerir  bem,   tanto  uns  arenques  setentrionais  ou  um  cuscuz
oriental  como  uma  narceja  grelhada  ou  um daqueles chouriços
épicos de Castela,

OLIVERIO

[Do livro 20 poemas para ler no bonde,
São Paulo, Editora 34.
Tradução de Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr.]

 

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David Copperfield, de Charles Dickens

Trecho do prefácio à edição de 1867 de David Copperfield, de Charles Dickens (edição Cosac & Naify, com tradução de José Rubens Siqueira):

Pouco interessaria ao leitor, talvez, saber como senti pena de deixar a caneta de lado ao encerrar uma tarefa imaginativa de dois anos; ou como um autor se sente ao lançar uma parte de si mesmo no mundo de sombras quando uma multidão de criaturas de sua cabeça sai dele para sempre. No entanto, eu nada mais tinha a dizer; a menos, de fato, que fosse confessar (o que pode ser ainda menos importante) que ninguém jamais poderá acreditar nesta narrativa, ao lê-la, mais do que eu acreditei ao escrevê-la.

Tão verdadeiros são esses sentimentos no presente que agora só posso fazer ao leitor mais uma confidência. De todos os meus livros, este é o de que gosto mais. É fácil acreditar que sou pai afetuoso de todos os filhos de minha fantasia, e que ninguém jamais amará essa família mais do que eu. Mas, assim como muitos pais afetuosos, tenho no fundo do meu coração um filho predileto. E seu nome é DAVID COPPERFIELD.

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Poemas inéditos de Juan Gelman

O caderno “Babelia” do jornal El País publicou poemas inéditos de Juan Gelman, autor argentino que faleceu recentemente, em janeiro deste ano. No Brasil, a editora da UNB publicou um dos seus livros, Isso.

Abaixo, encontram-se os seus poemas em prosa inéditos extraídos de El País:

La vida que se va deja un soplo en medio de la mano que es inútil besar. Trátelo bien, señora, no equivoque los platos que calentó y sirvió, sueños, abrigos, oscuridades, claridad, la fe que se repite, dolores en la mitad del día, bellezas que se deben quedar.

La eternidad es una idea violenta / capitalista / acumular futuro. La conciencia se libra de sí misma cuando vira su luz en las respiraciones del rocío. Fulgor de las almohadas en las que el tiempo se desnuda y el orden del amor se pierde. La noche madura / las verdades del cuerpo conocen el cortejo / las horas que se van.

Llegan los ruidos de la muerte cotidiana / México / Irak / Pakistán / Afganistán / Yemen / Somalia. Me miro sin explicaciones / soy el asesino y el asesinado. Adiós, candor, los restos de la infancia están pálidos / no hay qué darles de comer. La belleza de un pájaro dormido me trae agonías y ruego al pájaro que duerma. Sin árboles de hermosura corpórea, sin largos días de mayo.

La cárcel de la feria no tiene puertas de diamante ni candados de oro. La pena, el hambre, la guerra, la infamia, la tristeza, hasta la misma muerte / se pasean a dedos del jilguero que cae malherido. Te olvidaste del odio, la resignación, la furia, Baltasar. Las disciplinas de la humillación enfrían la vía pública y no soplan vientos de salud, los contratos posibles del encuentro entre los miedos del espíritu y los colores de una garza. La dignidad canta músicas flacas / párpados de arena / le clavan la fuente de la sangre. La indignación olvida sus fulgores. Vida, qué te hacen, vida, sola ahí, sin techo ni parábolas, en la evaporación de cualquier sueño.

A Tomás Segovia

El dolor cuece con alquimias. Los planetas empujan las ruedas de la naturaleza / Mercurio es un dragón esposo y esposa de sí mismo / fecunda en un día el veneno que mata lo que aún vive. ¿Su parte femenina se le va como quien abandona su placenta? ¿Neptuno cuida cenizas de la muerte en Ciudad Juárez, Puerto Príncipe, Sana, Veracruz? ¿El poema de la Luna y el Sol se disfraza de nube sin corona? Los ministros del ojo retoman su trabajo con bestias calculables.

Sirven un plato con porciones de belleza y veneno. La locura ocupa muchas partes en límites del plato / la deuda con lo que no somos / el tiempo fijo en su pasar / odios sin ámbar que los sacie. Tienen ojos de lince / violencias en su cultivo enfermo. Desean abrir la maravilla a pie, apenas un chorrito de la noble pasión, la que buscaba el blanco de un nenúfar en la estación más breve / a tiros si es preciso.

Los caminos del duelo eluden el deber cumplido, tienen audacias para sobrevivir / países / escondrijos de estar. La imposibilidad de borrar huellas ancla en el real con péndulos indetenibles / su semejanza con la muerte es un escándalo.

A ver, pedazos míos, hagan asamblea y decidan. Pónganse sombreros blancos y tiradores rojos, haya color para que el viejo buey se vaya. Mis muertos ponen sombras porque no tienen más remedio. Clavan dientes de jabalí, señora, besos helados en representación de otoños idos, naves que buscan algún mar.

Hay escondrijos donde el amor se pudre. Libertad, libertad, grita el camino caminado. Ninguna brisa a medianoche limpia el ojo perdido o brazo o pie que se rompió anduviéndolo. Recortaron el cuerpo del aullido, avanza en plena destrucción. Una mujer alza los brazos para reemplazar a la piedad. La pasión pedigüeña escribe lo que se va de su escritura a otras desolaciones, otros pagos y la memoria es un papel en fuego seco.

La muerte no interpreta sus textos, no lee lo que se va a llevar. Si alguna prisionera en Campo Mayo recién nacida a madre con los ojos tapados que ni a su hijo vio. Si un petirrojo que tenía deseos. Si un joven que tocaba entrañas de la música. Si el que transforma el tiempo en un qué es. Si la dolor de un hombre que llora para adentro.

¿Adónde se fueron extravagancias del paisaje / parientes del todo y de la nada / vida y muerte del toro / lágrimas en el cerebro? La diferencia última cantaba ciega en la evaporación del sí como ocultarse y el ojo intercambiable con trampas de doctrina. El sacrificio era barato y escribió cartas que arden en silencio. Las leen los prohibidos, sus furias sin amparo, aves sin pico, rosas detenidas en lo que no vinió.

A Juan Marsé

El poema que te quiero escribir, amoramor, no tiene palabra todavía. Viaja en sus negaciones y desastres como el ayer en hoy y su argumento es una llama. Nadie puede apagarla y guarda su secreto cuando tu rostro es plena maravilla. Abre todas las puertas del sujeto, sacrificios del cuándo, los círculos de dos sin redactor original.

El rebozo fue al río donde se quiere más / crecieron plantas de irse. Apagaron la rosa y su consuelo / la sombra de la rosa / cubre rincones de la cuna / pieles vírgenes / caballos de aire que se quedan. Aromas del pensamiento líquido tocan oídos ciegos. La que llora de cruz inalterable carga con besos rotos / gana batallas que perdió.

A Chavela Vargas

In memoriam. Ciudad de México, 5 agosto 2012

Me cavo para no encubrirte más con visiones de tu abrigo largo. Un parpadeo dura mucho cuando se aparta el ser de sí en vuelos sin rumor. Libre aún entre muros de cemento y cal viva / arrojado a que nunca fueras certidumbre.

A Marcelo

¿Y si la poesía fuera un olvido del perro que te mordió la sangre / una delicia falsa/ una fuga en mí mayor / un invento de lo que nunca se podrá decir? ¿Y si fuera la negación de la calle / la bosta de un caballo / el suicidio de los ojos agudos? ¿Y si fuera lo que es en cualquier parte y nunca avisa? ¿Y si fuera?

 

Hoy. Juan Gelman. Visor. Madrid, 2014. 318 páginas.

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“Eu e a Rússia”, de Khliébnikov – Lançamento

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30/05/2014 · 7:23

Entrevista com João Guimarães Rosa (audiovisual)

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