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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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O volume do silêncio

Extraído do blog da Cosac & Naify:

A literatura brasileira contemporânea tem ido cada vez mais longe. A revista literária chinesa Book Town publicou uma resenha de O volume do silêncio, de João Anzanello Carrascoza, publicado pela Cosa Naify em 2006. A jornalista Yen Min Ju conheceu Carrascoza em uma residência literária na Suíça, leu os contos do brasileiro em inglês e escreveu sobre eles em mandarim.

Premiado pela Câmara Brasileira do Livro em 2007 e 3º lugar na categoria ‘Contos e Crônicas’ do 49º Prêmio Jabuti, O volume do silêncio reúne 17 contos de Carrascoza, selecionados pelo escritor Nélson de Oliveira. Carrascoza também é autor de novelas e livros para o público infanto-juvenil.

A obra, atualmente indisponível, será relançada em meados de fevereiro.

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La sustancia de lo trivial

A editora Mandadori de Barcelona publicou o livro Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de Antonio Lobo Antunes. Francisco Solano fez a sua resenha para o caderno Babelia do El País:

Esta novela de Lobo Antunes viene editorialmente publicitada por esta declaración del autor: “Un libro ideal para dar trabajo a los críticos. Yo quería escribir una novela a la manera clásica, que destruyese todas las novelas hechas de esta manera”. También Joyce, con Finnegans Wake, se propuso mantener ocupados a los críticos trescientos años. Estas desmesuras delatan una patología de la ambición literaria. Faulkner, otro gigante, decía que había que juzgar a un novelista por el esplendor de su fracaso. Para los tres la literatura es un arte de exploración que incluye recelar de los descubrimientos, no dar nada por acabado. Esta cualidad predomina en la escritura de Lobo Antunes. Al lector que se haya asomado a su extensa obra no le serán extraños esos monólogos obsesivos, voces que se cruzan urdiendo un entramado cuyo dibujo se resiste a aparecer con claridad. Nada es del todo preciso, y no obstante se diría que contemplamos el magma de una memoria que bulle revelándose con la máxima transparencia que permiten las palabras, que en la obra de Lobo Antunes tratan de decir lo que ellas no pueden decir. En algún lugar de estas páginas una voz reconoce: “Cuáles son los recuerdos de un cerebro que se descompone”.

A diferencia de otros libros, impregnados de un sustrato dramático que pone la obra en movimiento, no hay en ¿Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar? ningún motivo medular que tiña la urdimbre que tejen las distintas voces. Y si hubiera que buscarlo tal vez se trate de la familia misma, en tanto que institución cuarteada, compuesta de numerosas tensiones, incomprensiones, humillaciones y dolencias. Y como la familia, la prosa adquiere un desmembramiento semejante. No hay aquí, en efecto, nada a lo que pueda aferrarse el lector. Cada voz, cuando es reconocida (aunque ella nunca se reconoce a sí misma), tiende a solaparse por la irrupción de otra voz que se mezcla con ella cambiando la perspectiva, de modo que los personajes se evaporan en su pretensión de construirse al contrastarse con los demás, y los múltiples saltos que desmenuzan la sintaxis obligan al estilo a recurrir a estribillos y ritornelos que apenas significan otra cosa que una alusión que los identifica. Hay que abandonar, por tanto, ese empeño -legítimo, por otro lado- de comprender lo que se lee, al menos a la manera que impone la lectura tradicional. Lobo Antunes propone una lectura despojada de lo interesante; disipa ese espejismo para que no veamos, complaciéndonos en la distancia, al personaje en una vitrina, sino la efervescencia que lo concreta, donde lo no dicho y desconocido (“siempre somos otra cosa y bajo la otra cosa otras cosas ocultas”) emerge con la misma pertinencia que lo sustancialmente narrativo: la discordia entre los hermanos, el envilecimiento del padre, la criada como portadora de secretos (que todos conocen) de los miembros de la familia, los desastres amorosos que fecundan la leyenda familiar, la madre resignada al olvido.

No es posible extraer un aspecto de esta novela sin violentar su dinamismo. Alguna vez Lobo Antunes ha declarado: “El libro es un organismo vivo, que nada tiene que ver conmigo, con su propio temperamento, su propia fisonomía”. Más que de una novela, parece la descripción de un personaje. También ha repetido que sus novelas no son polifónicas, sino una voz con diferentes tonos. La combinación de ambas declaraciones suscita la figuración de que la novela, antes que una estructura, se constituye finalmente en personaje. Acaso, si no estamos demasiado errados, esto pueda servir para transitar por estas intrincadas páginas cuyos capítulos siguen el orden de una corrida de toros, con sus precedentes, los diferentes tercios, la faena, la suerte suprema y el regusto amargo que deja la conclusión de la ceremonia.

La novela reclama al lector que mantenga un desasosiego a la altura exigida por Lobo Antunes, un autor que, por decirlo de alguna manera, hace tiempo que ha roto los vínculos entre la enunciación y el significado. Ha creado un estilo mitad de índole psicológico, autorreferencial, y la otra mitad imprevisible. Aquí lo imprevisible domina todas las incidencias de esas voces que se desvanecen para no destruirse. Esta voz, aquella voz, esas voces quebrándose, nunca antes, hasta la escritura de Lobo Antunes, habían sido registradas en la literatura. Para acceder a esa sonoridad hay que leer de otro modo. Tal vez escuchar.

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Coletânea expõe variedade da produção literária anarquista

Resenha de Manuel da Costa Pinto extraída do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo deste sábado, 27 de agosto:

Os autores de “Contos Anarquistas” não aspiram às ambiguidades da literatura. A própria noção de autoria é estranha às matrizes de um movimento que pensava a arte como tomada de consciência coletiva.
Tampouco podemos falar em “contos”. O volume (cobrindo o período 1890-1935) inclui parábolas, crônicas e diálogos enfeixados por uma “moral da história”.
Seus autores são anarcossindicalistas e intelectuais militantes, muitas vezes escondidos sob pseudônimos.
Ao final do volume, há biografias dos poucos autores conhecidos, como Astrojildo Pereira (1890-1965) e José Oiticica (1882-1957).
Podemos ler “Contos Anarquistas” como registro da produção ideologicamente orientada de um Brasil em vias de industrialização.
Mais interessante, porém, é percorrer a zona em que palavras de ordem (contra o Estado, a igreja, o Exército), estereótipos que igualam o patrão ao ladrão e quimeras sobre o amor livre produzem anarquias narrativas.

DIDATISMO
Agrupados em núcleos, os contos de “Formação Militante” têm um didatismo catequético e as “Projeções da Utopia Libertária” trazem utopias que remetem aos “falanstérios” (as comunidades do socialista utópico Fourier), como em “Acraciápolis”, a civilização sem dinheiro e governo imaginada por Vicente Carreras.
Nas seções “Cotidiano Operário” e “Miséria Urbana”, o catecismo se converte em denúncia do adulador servil ao patronato, em sátira do desprezo burguês (“As Reivindicações da Canalha”, de Everardo Dias) e no retrato gótico-naturalista do destino dos desvalidos (“Na Morgue”, de Mota Assunção).
É em “Negação do Estado e da Ordem Burguesa” e “Moral Anarquista” que encontramos contos efetivamente anárquicos, dentro da paródia do parnasianismo em que Arnoni Prado e Foot Hardman, organizadores do livro, identificam a apropriação da linguagem das elites.

FOLHETIM
Se “Maluquices” mostra o despautério dos símbolos nacionais, escarnecendo um mote precursor da era Lula (“Não há coisa melhor do que ser brasileiro!”), caso à parte é “No Circo”.
Ao final dessa história de Avelino Fóscolo sobre um artista circense que, ao receber uma herança, contempla com histrionismo sua dupla exclusão (da família burguesa e da trupe libertária), ficamos sabendo que o conto é o último capítulo de um romance publicado na forma de folhetim -o que coloca em xeque a premissa da antologia.
Pois, se a instantaneidade do conto possibilita o “registro da opressão cotidiana” (frase dos organizadores), o distanciamento proporcionado pela amplitude do romance permite ambiguidades que incluem a crítica da própria cartilha anarquista.


CONTOS ANARQUISTAS
AUTORES vários
ORGANIZAÇÃO Antonio Arnoni Prado, Francisco Foot Hardman e Claudia Leal
EDITORA Martins Fontes
QUANTO R$ 49,80 (344 págs.)
AVALIAÇÃO bom

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António Lobo Antunes – New York Times

No The New York Times, Larry Rohter resenhou a tradução de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes. O romance foi traduzido por Margaret Jull Costa e publicado pela W.W. Norton & Company.

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Geração zero zero

 

 

 

No blog de Ana Paula Maia, encontra-se a matéria do caderno Prosa & Verso sobre a antologia Geração zero zero: fricções em rede, lançada pela editora Língua Geral.

 

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Leite derramado, de Chico Buarque, por Carlos Galilea (Babelia)

O caderno Babelia do jornal El País publicou crítica de Carlos Galilea sobre Leite derramado, de Chico Buarque. O texto do Babelia foi recomendado por Jorge Fernandes da Silveira:

“Cuando salga de aquí nos casaremos en la hacienda de mi feliz infancia, al pie de la montaña. Te pondrás el vestido y el velo de mi madre, y no lo digo porque me haya puesto sentimental, no es por la morfina”. Desde la cama del hospital de Río de Janeiro en la que está postrado, Eulálio Montenegro d’Assumpção, cuyo tatarabuelo desembarcó en Brasil con la corte portuguesa, rememora su vida y la de sus antepasados.

En tiempos en que Francisco Buarque de Holanda se dedicaba sólo a componer y cantar canciones memorables se ganó la admiración de los brasileños. Basta su nombre, sin el apellido, para que todos sepan de quién se está hablando. Pero desde que le dio por escribir (y publicar) novelas algunos compatriotas le tratan con desdén. Esos conversos suelen tener intereses en el negocio literario y probablemente no soporten que un cantautor les birle el Jabutí, el premio literario de mayor prestigio en Brasil. En 1992 lo obtuvo con su primera novela, Estorbo; en 2004, con Budapest y, ahora, con Leche derramada. La primera vez, en más de cincuenta ediciones, que alguien gana tres veces en la misma categoría. No importa: nunca le considerarán un escritor.

Leche derramada, que se lee de un tirón, es un soliloquio en el que el hijo de un senador de la República cuenta en sistemático desorden cronológico una vida centenaria. Entre quejas, arrebatos de furia y momentos en los que se ríe de sí mismo, se dirige a su hija octogenaria, al tataranieto metido en turbios negocios y su amiguita con barriga al aire y aro perforándole el ombligo que le ofrecen unas rayas el día que cumple cien años -“fue mucho más fácil aspirar la coca que soplar las velas del pastel”- y a las enfermeras rencorosas -“salvo esa chica, ahora mismo no recuerdo su nombre”- que le duermen con la jeringa. Cuenta lo mismo, una y otra vez, con digresiones, omisiones, dudas… Los ancianos repiten las historias vividas para contárselas a ellos mismos y a Chico le interesa esa memoria selectiva -“es como si algunos recuerdos todavía me llegaran en barco y otros ya por correo aéreo”-.

En una antigua canción suya un liberto deliraba en un asilo inventándose un pasado glorioso. Eulálio d’Assumpção enumera las pérdidas, materiales y afectivas, sin asumirlas del todo: la mansión neoclásica del barrio de Botafogo, el chalet en la playa de Copacabana o la hacienda de doscientas hectáreas al pie de la montaña vuelven a hacerse presentes, reales. Muchas son las letras de canciones de Chico en las que el sujeto es femenino y, en Leche derramada, está Matilde, vital y espontánea -“salía de la iglesia como quien sale del cine Pathé”-, vista por los ojos de un marido represor -“sentí que la ira ciega que me producía su alegría era anaranjada”-.

Sus palabras radiografían el derrumbe familiar -hasta de esa cama de hospital amenazan despojarle- desde los tiempos en que los Assumpção poseían fortuna y buen nombre. Decadencia de una élite económica, clasista y reaccionaria, que Chico conoce bien. “Aquí no gozo de privilegios, grito de dolor y no me dan mis opiáceos, todos dormimos en camas chirriantes, sería incluso cómico, yo aquí, con los pañales todos cagados, presumiendo de buena cuna”.

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Coetzee, a arte de resumir

Extraído do blog de Daniel Piza:

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, consagrado autor de romances como Desonra, tem todas as características do bom resenhista. Lê com a maior atenção, descreve fielmente características e enredos, contextualiza o livro na obra, no lugar e na época do autor, não faz prejulgamento de forma ou ideologia e, mais importante, diz claramente o que admira e não admira. Como tem vasta leitura, é poliglota e um hábil ficcionista, percebe e resume nitidamente os Mecanismos Internos de cada narrativa – para usar o título de sua coletânea recém-lançada no Brasil. São 21 “ensaios sobre literatura”, dos quais 16 apareceram originalmente na New York Review of Books, mais prestigiosa publicação sobre livros dos EUA.

O que chama a atenção é a presença de autores europeus da primeira metade do século 20, quase todos com um senso de decadência muito acentuado: do italiano Italo Svevo ao irlandês Samuel Beckett, do polonês Bruno Schulz ao húngaro Sándor Márai, passando pelos alemães Walter Benjamin (e sua crítica aos “adoradores enfeitiçados” das modas) e Paul Celan (cujas traduções para o inglês examina em detalhes). E é em alguns desses textos que Coetzee atinge os melhores momentos, como ao lembrar que a vocação de Robert Walser está nas formas breves ou comparar Robert Musil e Freud (“Não gostava da moda da psicanálise, reprovava sua reivindicação de ampla abrangência”).

O gosto por esse modernismo algo melancólico não o impede, por exemplo, de lembrar que Schulz não é um Kafka e que na ficção de Márai falta desenvolvimento das personagens. Tampouco o impede de dedicar alguns bons textos à literatura americana: Walt Whitman, William Faulkner, Saul Bellow, Arthur Miller e, sobretudo, Philip Roth – em cujos romances, como O Teatro de Sabbath, destaca uma “eloquência desesperada” e um “humor aguçado” que se aproximam de Shakespeare. Coetzee ainda comenta livros da conterrânea Nadine Gordimer, de quem nunca foi entusiasta, e de García Márquez, elogiando em Memórias de Minhas Putas Tristes a estratégia com que aborda o desejo pedófilo de um velho.

Apesar de tantas observações pertinentes, o mecanismo interno das resenhas de Coetzee se articula como um resumo comentado – com muita propriedade, mas sem muita novidade. Elas não fazem voos críticos que lancem luz sobre autores tão conhecidos; funcionam muito bem como introduções às obras, não mais que isso. Mas de quantos resenhistas atuais se pode dizer o mesmo?

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Na quinta incursão em romance, Michel Laub volta o olhar para o judaísmo

Resenha de Raquel Cozer publicada no Estado de S. Paulo a 15 de março de 2011, em que trata do novo romance de Michel Laub (Companhia das Letras), Diário da queda:

Aos 13 anos, um garoto judeu participa de uma brincadeira que deixa um colega gói (sem origem judaica) machucado e humilhado em sua própria festa de aniversário. Mais ou menos na mesma época, toma conhecimento de detalhes cruciais sobre a história do avô, que chegou ao Brasil após sobreviver ao Holocausto.

“Se na época perguntassem o que me afetava mais, ver o colega daquele jeito ou o fato de meu avô ter passado por Auschwitz, e por afetar quero dizer sentir intensamente, como algo palpável e presente”, pondera, passadas algumas décadas, o narrador desses acontecimentos, “eu não hesitaria em dar a resposta.”

O cenário a partir do qual se desenrola o romance Diário da Queda permite entrever os temas delicados sobre os quais o autor gaúcho Michel Laub discorrerá nas quase 150 páginas seguintes – um tratamento ficcional, como explica, “no limite do questionamento ético que a ficção pode e muitas vezes deve fazer”. O narrador é um escritor de 40 anos, casado pela terceira vez, na iminência de ver o relacionamento seguir o mesmo caminho dos anteriores e que, entre recordações sobre o avô, o pai e aquele colega que ajudou a humilhar, tenta unir as pontas da própria identidade.

Em sua quinta incursão nas narrativas longas, Laub aborda pela primeira vez a temática judaica. “Até uns anos atrás, achava que nunca escreveria sobre isso. Na minha vida pessoal, esse é um tema muito pouco presente. Em algum ponto devo ter percebido que, mesmo sem aparecer na superfície, era algo essencial”, diz o filho de judeus, nascido e criado na mesma Porto Alegre de seu protagonista, e ex-jornalista assim como ele – as coincidências com seus personagens, diz, já viraram costume, uma aproximação capaz de causar no leitor a sensação de que tudo na ficção pode ter um fundo de verdade.

O narrador apresenta seu universo numa espécie de fluxo de memórias, em pequenas notas numeradas e aparentemente aleatórias, que vão e voltam no tempo, espalhadas por partes que recebem títulos como Algumas Coisas Que Sei Sobre o Meu Avô e Algumas Coisas Que Sei Sobre Mim.

O leitor logo fica sabendo que o avô, ao desembarcar no Brasil, começou a escrever uma estranha enciclopédia, ou algo que o valha, que mais parece se referir ao mundo como ele deveria ser do que ao mundo como ele é – e na qual, portanto, não se encontrará nenhuma referência aos tempos do Holocausto. No passado, ao mesmo tempo em que toma conhecimento dessas anotações, o narrador se aproxima de João, o colega ferido. A essas duas memórias se une a descoberta, esta já no presente, de que o pai sofre de mal de Alzheimer – e cabe ao narrador dar essa notícia a ele.

Memória. O interesse de Michel Laub pelo tema da memória se manifesta em toda a sua obra, com semelhanças como o narrador único, em primeira pessoa, que relaciona fatos de um passado relativamente distante com o presente, seja uma relação entre irmãos, caso de O Segundo Tempo (2006, finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti), seja um casamento, caso de O Gato Diz Adeus (2009). Em Diário da Queda, o escritor se deu conta de que tinha em mãos duas manifestações muito contundentes dessa característica.

“Em algum momento, percebi que não há assuntos mais ligados ao tema que os deste romance: a doença de Alzheimer, que encerra em si a questão da memória individual, biológica, e o Holocausto, que é uma espécie de símbolo da questão da memória histórica, coletiva”, avalia Laub, que aborda também, como nos livros anteriores, a manipulação possível nas recordações: “Se eu falar hoje com qualquer dos colegas envolvidos na queda de João, é possível que nenhum deles lembre dos detalhes da festa, dos motivos que nos levaram a planejar aquilo, que nenhum deles faça relação entre o desfecho do plano e o fato de João não ser judeu, porque as conveniências sociais (…) e a autoimagem que cada um construiu ao longo dos anos posteriores criaram os mecanismos de defesa que impedem a memória de registrar algo do gênero”, analisa, implacável, o narrador.

DIÁRIO DA QUEDA
Autor: Michel Laub
Editora: Companhia das Letras (152 páginas, R$ 38,50)

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Entrevista de James Wood/Resenha sobre Como funciona a ficção

Entrevista de James Wood ao caderno Prosa & Verso do jornal O Globo de 12 de março de 2011, disponível no blog Prosa Online. A editora Cosac & Naify está lançando Como funciona a ficção. O mesmo blog ainda disponibiliza a resenha sobre o livro recém-lançado, assinada por Flora Süssekind:

Há uma dimensão quase farsesca no pragmatismo crítico de James Wood. Se é que se pode chamar de “crítica” uma reaplicação anacronizante e redutora (em geral, sem qualquer crédito) de categorias e perspectivas analíticas alheias como a que move o livro “Como funciona a ficção”. Algo, de fato, soa falso desde a epígrafe auto-irônica, evocando culinária (mas, com nobreza, via Henry James), e a introdução tratando o próprio ensaio de “manual” e “livrinho”. Pois, geminada a esse topos da despretensão, ao didatismo do guia de apreciação literária, que se deseja, em (condescendente) linguagem terra-a-terra, de algum uso para o leitor comum, há uma primeira pessoa fortemente impositiva, e incapaz de autoproblematização, conduzindo tanto a exibição de uma espécie de florilégio do cânone moderno, quanto um elogio pouco velado à própria capacidade de distinguir o “engenhoso” do “realmente interessante” e de resolver “de forma prática” as questões teóricas fundamentais sobre a ficção a que a “teoria literária e a crítica acadêmica”, a seu ver, não teriam chegado a responder “muito bem”.

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