Arquivo da tag: Resenha

Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

1 comentário

Arquivado em Coluna

O volume do silêncio

Extraído do blog da Cosac & Naify:

A literatura brasileira contemporânea tem ido cada vez mais longe. A revista literária chinesa Book Town publicou uma resenha de O volume do silêncio, de João Anzanello Carrascoza, publicado pela Cosa Naify em 2006. A jornalista Yen Min Ju conheceu Carrascoza em uma residência literária na Suíça, leu os contos do brasileiro em inglês e escreveu sobre eles em mandarim.

Premiado pela Câmara Brasileira do Livro em 2007 e 3º lugar na categoria ‘Contos e Crônicas’ do 49º Prêmio Jabuti, O volume do silêncio reúne 17 contos de Carrascoza, selecionados pelo escritor Nélson de Oliveira. Carrascoza também é autor de novelas e livros para o público infanto-juvenil.

A obra, atualmente indisponível, será relançada em meados de fevereiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Notícia

La sustancia de lo trivial

A editora Mandadori de Barcelona publicou o livro Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de Antonio Lobo Antunes. Francisco Solano fez a sua resenha para o caderno Babelia do El País:

Esta novela de Lobo Antunes viene editorialmente publicitada por esta declaración del autor: “Un libro ideal para dar trabajo a los críticos. Yo quería escribir una novela a la manera clásica, que destruyese todas las novelas hechas de esta manera”. También Joyce, con Finnegans Wake, se propuso mantener ocupados a los críticos trescientos años. Estas desmesuras delatan una patología de la ambición literaria. Faulkner, otro gigante, decía que había que juzgar a un novelista por el esplendor de su fracaso. Para los tres la literatura es un arte de exploración que incluye recelar de los descubrimientos, no dar nada por acabado. Esta cualidad predomina en la escritura de Lobo Antunes. Al lector que se haya asomado a su extensa obra no le serán extraños esos monólogos obsesivos, voces que se cruzan urdiendo un entramado cuyo dibujo se resiste a aparecer con claridad. Nada es del todo preciso, y no obstante se diría que contemplamos el magma de una memoria que bulle revelándose con la máxima transparencia que permiten las palabras, que en la obra de Lobo Antunes tratan de decir lo que ellas no pueden decir. En algún lugar de estas páginas una voz reconoce: “Cuáles son los recuerdos de un cerebro que se descompone”.

A diferencia de otros libros, impregnados de un sustrato dramático que pone la obra en movimiento, no hay en ¿Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar? ningún motivo medular que tiña la urdimbre que tejen las distintas voces. Y si hubiera que buscarlo tal vez se trate de la familia misma, en tanto que institución cuarteada, compuesta de numerosas tensiones, incomprensiones, humillaciones y dolencias. Y como la familia, la prosa adquiere un desmembramiento semejante. No hay aquí, en efecto, nada a lo que pueda aferrarse el lector. Cada voz, cuando es reconocida (aunque ella nunca se reconoce a sí misma), tiende a solaparse por la irrupción de otra voz que se mezcla con ella cambiando la perspectiva, de modo que los personajes se evaporan en su pretensión de construirse al contrastarse con los demás, y los múltiples saltos que desmenuzan la sintaxis obligan al estilo a recurrir a estribillos y ritornelos que apenas significan otra cosa que una alusión que los identifica. Hay que abandonar, por tanto, ese empeño -legítimo, por otro lado- de comprender lo que se lee, al menos a la manera que impone la lectura tradicional. Lobo Antunes propone una lectura despojada de lo interesante; disipa ese espejismo para que no veamos, complaciéndonos en la distancia, al personaje en una vitrina, sino la efervescencia que lo concreta, donde lo no dicho y desconocido (“siempre somos otra cosa y bajo la otra cosa otras cosas ocultas”) emerge con la misma pertinencia que lo sustancialmente narrativo: la discordia entre los hermanos, el envilecimiento del padre, la criada como portadora de secretos (que todos conocen) de los miembros de la familia, los desastres amorosos que fecundan la leyenda familiar, la madre resignada al olvido.

No es posible extraer un aspecto de esta novela sin violentar su dinamismo. Alguna vez Lobo Antunes ha declarado: “El libro es un organismo vivo, que nada tiene que ver conmigo, con su propio temperamento, su propia fisonomía”. Más que de una novela, parece la descripción de un personaje. También ha repetido que sus novelas no son polifónicas, sino una voz con diferentes tonos. La combinación de ambas declaraciones suscita la figuración de que la novela, antes que una estructura, se constituye finalmente en personaje. Acaso, si no estamos demasiado errados, esto pueda servir para transitar por estas intrincadas páginas cuyos capítulos siguen el orden de una corrida de toros, con sus precedentes, los diferentes tercios, la faena, la suerte suprema y el regusto amargo que deja la conclusión de la ceremonia.

La novela reclama al lector que mantenga un desasosiego a la altura exigida por Lobo Antunes, un autor que, por decirlo de alguna manera, hace tiempo que ha roto los vínculos entre la enunciación y el significado. Ha creado un estilo mitad de índole psicológico, autorreferencial, y la otra mitad imprevisible. Aquí lo imprevisible domina todas las incidencias de esas voces que se desvanecen para no destruirse. Esta voz, aquella voz, esas voces quebrándose, nunca antes, hasta la escritura de Lobo Antunes, habían sido registradas en la literatura. Para acceder a esa sonoridad hay que leer de otro modo. Tal vez escuchar.

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha

Coletânea expõe variedade da produção literária anarquista

Resenha de Manuel da Costa Pinto extraída do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo deste sábado, 27 de agosto:

Os autores de “Contos Anarquistas” não aspiram às ambiguidades da literatura. A própria noção de autoria é estranha às matrizes de um movimento que pensava a arte como tomada de consciência coletiva.
Tampouco podemos falar em “contos”. O volume (cobrindo o período 1890-1935) inclui parábolas, crônicas e diálogos enfeixados por uma “moral da história”.
Seus autores são anarcossindicalistas e intelectuais militantes, muitas vezes escondidos sob pseudônimos.
Ao final do volume, há biografias dos poucos autores conhecidos, como Astrojildo Pereira (1890-1965) e José Oiticica (1882-1957).
Podemos ler “Contos Anarquistas” como registro da produção ideologicamente orientada de um Brasil em vias de industrialização.
Mais interessante, porém, é percorrer a zona em que palavras de ordem (contra o Estado, a igreja, o Exército), estereótipos que igualam o patrão ao ladrão e quimeras sobre o amor livre produzem anarquias narrativas.

DIDATISMO
Agrupados em núcleos, os contos de “Formação Militante” têm um didatismo catequético e as “Projeções da Utopia Libertária” trazem utopias que remetem aos “falanstérios” (as comunidades do socialista utópico Fourier), como em “Acraciápolis”, a civilização sem dinheiro e governo imaginada por Vicente Carreras.
Nas seções “Cotidiano Operário” e “Miséria Urbana”, o catecismo se converte em denúncia do adulador servil ao patronato, em sátira do desprezo burguês (“As Reivindicações da Canalha”, de Everardo Dias) e no retrato gótico-naturalista do destino dos desvalidos (“Na Morgue”, de Mota Assunção).
É em “Negação do Estado e da Ordem Burguesa” e “Moral Anarquista” que encontramos contos efetivamente anárquicos, dentro da paródia do parnasianismo em que Arnoni Prado e Foot Hardman, organizadores do livro, identificam a apropriação da linguagem das elites.

FOLHETIM
Se “Maluquices” mostra o despautério dos símbolos nacionais, escarnecendo um mote precursor da era Lula (“Não há coisa melhor do que ser brasileiro!”), caso à parte é “No Circo”.
Ao final dessa história de Avelino Fóscolo sobre um artista circense que, ao receber uma herança, contempla com histrionismo sua dupla exclusão (da família burguesa e da trupe libertária), ficamos sabendo que o conto é o último capítulo de um romance publicado na forma de folhetim -o que coloca em xeque a premissa da antologia.
Pois, se a instantaneidade do conto possibilita o “registro da opressão cotidiana” (frase dos organizadores), o distanciamento proporcionado pela amplitude do romance permite ambiguidades que incluem a crítica da própria cartilha anarquista.


CONTOS ANARQUISTAS
AUTORES vários
ORGANIZAÇÃO Antonio Arnoni Prado, Francisco Foot Hardman e Claudia Leal
EDITORA Martins Fontes
QUANTO R$ 49,80 (344 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha

António Lobo Antunes – New York Times

No The New York Times, Larry Rohter resenhou a tradução de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes. O romance foi traduzido por Margaret Jull Costa e publicado pela W.W. Norton & Company.

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha

Geração zero zero

 

 

 

No blog de Ana Paula Maia, encontra-se a matéria do caderno Prosa & Verso sobre a antologia Geração zero zero: fricções em rede, lançada pela editora Língua Geral.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento, Resenha

Leite derramado, de Chico Buarque, por Carlos Galilea (Babelia)

O caderno Babelia do jornal El País publicou crítica de Carlos Galilea sobre Leite derramado, de Chico Buarque. O texto do Babelia foi recomendado por Jorge Fernandes da Silveira:

“Cuando salga de aquí nos casaremos en la hacienda de mi feliz infancia, al pie de la montaña. Te pondrás el vestido y el velo de mi madre, y no lo digo porque me haya puesto sentimental, no es por la morfina”. Desde la cama del hospital de Río de Janeiro en la que está postrado, Eulálio Montenegro d’Assumpção, cuyo tatarabuelo desembarcó en Brasil con la corte portuguesa, rememora su vida y la de sus antepasados.

En tiempos en que Francisco Buarque de Holanda se dedicaba sólo a componer y cantar canciones memorables se ganó la admiración de los brasileños. Basta su nombre, sin el apellido, para que todos sepan de quién se está hablando. Pero desde que le dio por escribir (y publicar) novelas algunos compatriotas le tratan con desdén. Esos conversos suelen tener intereses en el negocio literario y probablemente no soporten que un cantautor les birle el Jabutí, el premio literario de mayor prestigio en Brasil. En 1992 lo obtuvo con su primera novela, Estorbo; en 2004, con Budapest y, ahora, con Leche derramada. La primera vez, en más de cincuenta ediciones, que alguien gana tres veces en la misma categoría. No importa: nunca le considerarán un escritor.

Leche derramada, que se lee de un tirón, es un soliloquio en el que el hijo de un senador de la República cuenta en sistemático desorden cronológico una vida centenaria. Entre quejas, arrebatos de furia y momentos en los que se ríe de sí mismo, se dirige a su hija octogenaria, al tataranieto metido en turbios negocios y su amiguita con barriga al aire y aro perforándole el ombligo que le ofrecen unas rayas el día que cumple cien años -“fue mucho más fácil aspirar la coca que soplar las velas del pastel”- y a las enfermeras rencorosas -“salvo esa chica, ahora mismo no recuerdo su nombre”- que le duermen con la jeringa. Cuenta lo mismo, una y otra vez, con digresiones, omisiones, dudas… Los ancianos repiten las historias vividas para contárselas a ellos mismos y a Chico le interesa esa memoria selectiva -“es como si algunos recuerdos todavía me llegaran en barco y otros ya por correo aéreo”-.

En una antigua canción suya un liberto deliraba en un asilo inventándose un pasado glorioso. Eulálio d’Assumpção enumera las pérdidas, materiales y afectivas, sin asumirlas del todo: la mansión neoclásica del barrio de Botafogo, el chalet en la playa de Copacabana o la hacienda de doscientas hectáreas al pie de la montaña vuelven a hacerse presentes, reales. Muchas son las letras de canciones de Chico en las que el sujeto es femenino y, en Leche derramada, está Matilde, vital y espontánea -“salía de la iglesia como quien sale del cine Pathé”-, vista por los ojos de un marido represor -“sentí que la ira ciega que me producía su alegría era anaranjada”-.

Sus palabras radiografían el derrumbe familiar -hasta de esa cama de hospital amenazan despojarle- desde los tiempos en que los Assumpção poseían fortuna y buen nombre. Decadencia de una élite económica, clasista y reaccionaria, que Chico conoce bien. “Aquí no gozo de privilegios, grito de dolor y no me dan mis opiáceos, todos dormimos en camas chirriantes, sería incluso cómico, yo aquí, con los pañales todos cagados, presumiendo de buena cuna”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção, Resenha