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“Adonais”, de Shelley, porque Victor Heringer morreu

O poeta John Keats morreu aos 25 anos, no dia 23 de fevereiro de 1821, em Roma. Sua morte inspirou Shelley a escrever o poema “Adonais”, que figura entre os mais belos do romantismo inglês. Conforme Fernando Guimarães, seu tradutor, “Adonais é uma forma híbrida de Adonai (designação do Senhor nos textos bíblicos) e Adonis (que representa, nomeadamente na mitologia grega, a incarnação da beleza masculina)”. Nesse poema, amigos aparecem, como Byron (“o Peregrino da Eternidade”), Thomas Moore (“o mais delicado poeta”) e o próprio Shelley. Transcrevo algumas estrofes do poema “Adonais”, tendo em mente Victor Heringer, que morreu ontem, dia 7 de março de 2018, aos 29 anos. É por Victor Heringer que choro – ele está morto!

Um trecho desse poema foi lido por Mick Jagger num show realizado em Londres, logo após a morte de Brian Jones:

 

ADONAIS

Elegia à morte de Keats

 

1

É por Adonais que choro – ele está morto!
Chorai por Adonais, ainda que as lágrimas
não libertem do gelo essa cabeça amada!
E tu, Hora tão triste, a única escolhida
para nela chorarmos, desperta as tuas obscuras irmãs,
ensina-lhes essa dor e diz: “Comigo
morreu Adonais, e sempre que o Futuro
não esqueça o passado, o seu destino, a glória
como um eco e uma luz chegam, eternamente.”

[…]

5

Tu, cujo pranto é o mais suave, chora de novo!
Nem todos assim tão alto ousaram erguer-se;
e mais felizes são os que conhecem a sua felicidade,
cuja chama ainda brilha pela noite dos tempos
onde os sóis morreram; outros, mais sublimes,
feridos pela inveja dos homens e dos deuses,
caíram, e extinguem-se no brilho da sua juventude;
outro vivem ainda, cruzando os ásperos caminhos
que os conduzem à glória, através de ódios e fadigas.

6

Mas agora, o mais amado e jovem está morto!
– aquele que criaste na tua viuvez, o que cresceu
como uma flor cultivada por uma virgem triste,
alimentado por lágrimas de amor, e não pelo orvalho;
tu, cujo pranto é o mais suave, chora de novo!
Tua última esperança, a mais querida e derradeira,
a flor, cujas pétalas se crestaram antes de florir,
acabou por morrer na promessa do seu fruto;
a tempestade já passou, o lírio quebrado dorme.

[…]

9

Chorai por Adonais! As ligeiras formas do sonho,
as asas em que as paixões transportam o pensamento
no seu voo, alimentadas junto da pura fonte
desse espírito jovem, às quais ele ensinou
o amor, que era a sua música, não divagam
mais à aventura, inflamando o entendimento,
e aqui regressam, aonde nasceram, e choram
junto deste coração gelado, sem que possam
receber o seu poder, ou encontrar asilo.

10

Uma delas pousa as mãos trêmulas sobre esta fronte gelada,
refresca-a com as suas asas lunares, e clama:
“Não, não morreu o nosso amor, a nossa esperança…
Vede! Sobre as pálpebras dos seus olhos exaustos,
como o orvalho numa flor adormecida, jaz uma lágrima
que um sonho fez desprender da sua alma.”
Anjo perdido dum Paraíso em ruínas!
Não sabia que era sua esta lágrima
extinta, qual uma nuvem que chorasse a sua chuva.

11

Outra inclinou a luminosa urna de orvalho
e espargia-lhe os membros, como para o embalsamar;
cortou uma outra os cabelos caídos, e lançava
essa grinalda sobre ele, um diadema
engastado com as suas geladas lágrimas;
e ainda, na sua dor, outra veio quebrar
o arco e as setas, como para assim deter
uma perda imensa com outra perda menor,
apaziguando tal chama de encontro a este frio rosto.

12

E desceu outra luz em direção à sua boca,
aquela boca onde encontrou a respiração
que veio penetrar no espírito receoso
e alcançar o coração, aí chegando
com canções e o seu esplendor: úmida, a morte
apagou as carícias nos seus lábios gelados;
como um meteoro, cujo o derrareiro brilho atravessa
uma grinalda de neblina presa à fria noite,
coloriu os seus pálidos membros, e a seguir extinguiu-se.

[…]

14

Tudo o que amou e foi tocado pelo pensamento,
formas, cores, perfumes, ou sons harmoniosos,
chorava por Adonais. A manhã procurou
a sua torre, a oriente, e os cabelos soltos
e molhados pelas lágrimas que deviam embelezar a terra,
obscureceu os olhos celestes que iluminam o dia;
ao longe, gemia a melancólica tempestade,
o pálido Oceano jazia num inquieto sonho,
e soluçavam à volta os ventos com temor.

15

Perdida entre as montanhas emudecidas,
alimenta Eco a sua dor com a recordação dos cantos,
não respondendo mais aos ventos ou às fontes,
nem às aves amorosas pousadas em verdes ramos,
nem à trompa do pastor, aos sinos, no fim do dia,
porque não pode imitar os seus lábios, mais queridos
que os de Narciso, quando definha a amada
numa sombra de sons: um triste murmúrio
entre canções é tudo o que escutamos pelos bosques.

[…]

19

Através dos bosques, colinas, rios, campos, mares,
uma vida mais intensa irrompe do coração terrestre,
nele imprimindo a transformação e o movimento,
desde a grande manhã do mundo, quando pela primeira vez
Deus amanheceu sobre o Caos; imersas nessa corrente,
as lâmpadas do céu brilham com uma luz mais suave;
os seres mais humildes palpitam com a divina sede da vida;
procuram-se uns aos outros, e gastam nas delícias do amor
a beleza e a alegria da sua força renovada.

[…]

25

Por um instante, a Morte, na câmara mortuária,
quando irrompeu esta Força tão viva,
ficou aniquilada, e a respiração
voltou de novo aos lábios, e a luz pálida da Vida
brilhou pelos seus membros, há pouco tempo
amados. “Não me deixes assim, desesperada, triste,
como um raio silencioso deixa a noite sem estrelas!
Ah, não me deixes…” – disse Urânia e com a dor tocou
a Morte, que se ergueu, e aceitou a sua vã carícia.

26

“Espera um pouco… Ah! fala-me outra vez;
beija-me, apenas pelo tempo que pode durar um beijo;
e no meu peito vazio, neste rosto febril
que palavra, que beijo podem sobreviver
alimentados pelas mais dolorosas recordações,
agora que morreste, como se fossem uma parte
de ti, meu Adonais! Daria tudo o que sou
para me transformar no que tu és agora!
Mas estou presa ao Tempo, e não posso partir!

27

“Meu filho amado, se eras assim tão belo
porque deixaste os caminhos seguidos pelos homens
tão cedo, e com mãos débeis (mas forte o coração)
desafiaste no seu antro esse monstro cruel?
Ai, indefeso como estavas? Da prudência
onde ficara o límpido escudo, e do desprezo a lança?
Se esperasses que terminasse o ciclo da vida,
ao completar o teu destino, como velozes cervos
já teriam fugido os monstros que te ferem.

[…]

29

“O sol ergue-se, e geram os répteis a sua descendência;
ela põe-se, e todos os insetos efêmeros
se reúnem numa morte sem aurora,
e as imortais estrelas de novo se levantam;
também assim acontece no mundo em que vivemos:
começa a voar uma alma divina e, em seu júbilo,
desnuda a terra e vem cobrir o céu; depois desaparece
e os enxames que obscurecem ou partilham a luz
às lâmpadas familiares deixam a enorme noite do espírito.”

30

Assim falou Urânia; e os pastores chegaram,
rasgados os seus mantos, já secas as grinaldas.
O Peregrino da Eternidade, cuja fama se estende
sobre a sua fronte, como o círculo do céu
– um tão recente, mas imperecível momento -,
chegou também, quando o esplendor do canto
se cobre de tristeza; e para o lamentar, de ermos longínquos
o mais delicado poeta viera, quando o Amor ensina
o Sofrimento a desprender-se dos lábios, como a música.

[…]

44

No firmamento, o esplendor do tempo
pode ficar oculto, mas jamais é extinto;
ergue-se à sua própria altura, como as estrelas,
e a morte é uma bruma que não poderá apagar
o brilho que velava. Quando um puro pensamento
eleva um jovem coração, e a vida e o amor
dentro de si lutam para assim decidir
qual era o seu destino, ali, vivem os mortos
e, nas noites tempestuosas, chegam como ventos de luz.

[…]

46

E ainda outros, cujos nomes na Terra se apagaram
mas cuja invisível influência não se perdeu ainda
– como o fogo sobrevive do primeiro esplendor onde irrompe –
levantaram-se, vestidos duma ofuscante imortalidade.
“És agora como cada um de nós”, exclamam.
“Era para ti que, há tanto tempo, aquele astro
girava cegamente, na sua inacessível majestade,
sozinho, tranquilo, num céu cheio de cânticos.
Ocupa esse trono alado, tu, nossa Estrela da Tarde!”

47

Quem lamenta Adonais? Oh, vem, tu que o amaste
com tanta dor! Conhece-o melhor, a ele e a ti mesmo.
Abraça com a tua cansada alma a oscilante Terra;
projeta além de todos os mundos a luz
do espírito, até que o vasto poder sacie
o vazio círculo que te envolve; depois, concentra-te
num único ponto dos nossos dias e das nossas noites; e conserva
livre a alma para que não soçobres, quando a esperança
despertando a esperança te fascinou até onde tudo acaba.

[…]

54

Esta Luz cujo sorriso incendeia o Universo,
esta Beleza de que todos os seres recebem movimento, vida,
esta Graça que não pode extinguir a obscura
maldição do nascimento, este Amor tutelar
que, através da teia de cada ser cegamente tecida
arde, crepitante ou quase extinto, conforme se reflete
a chama que ansiavam, agora é em mim que brilha,
consumindo as nuvens perdidas da fria mortalidade.

55

O poderoso alento que nestes versos invocara,
sobre mim desce; o barco da minha alma é levado
para longe da margem, das tímidas multidões
cujos barcos nunca foram entregues à tempestade;
fendidas estão a própria terra e a esfera dos céus!
Sou arrebatado pelas trevas e pelo assombro
enquanto a alma de Adonais, a arder através do último véu
do Firmamento, como se fosse uma estrela,
vem guiar-nos, e brilha onde estão os Imortais.

 

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“Morre Gabriel García Márquez” – Antonio Gonçalves Filho

Publicado no site do Estadão:

Morreu nesta quinta-feira, 17, aos 86 anos, o escritor colombiano Gabriel García Marquez, ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1982. García Márquez viveu na Cidade do México por mais de 30 anos e enfrentava sérios problemas de memória, embora a família, com exceção do irmão Jaime García Márquez, evitasse publicamente vincular seus problemas de saúde ao mal de Alzheimer. A última aparição pública de García Márquez, ou Gabo, como era conhecido dos amigos íntimos, foi em seu aniversário, em 6 de março. Ele sorriu para os jornalistas, mas não falou com a imprensa.

Figura mais popular da literatura hispânica desde Cervantes, García Márquez ficou conhecido como um dos pais do realismo mágico, gênero literário desenvolvido nos anos 1960 e 1970 e caracterizado pela inclusão de elementos fantásticos no cotidiano ordinário.

De todos os seus livros, cujas vendas alcançaram mais de 50 milhões de cópias, o mais lido certamente é Cem Anos de Solidão (1967), épico sobre uma família fictícia, Buendía, numa cidade imaginária, Macondo. Nele, o escritor mescla lembranças pessoais a acontecimentos extraordinários, antevendo o próprio drama pessoal que enfrentaria na velhice (uma cidade inteira perde a memória no livro).

Além de Cem Anos de Solidão, ele é autor de O Outono do Patriarca, Ninguém Escreve ao Coronel, Crônica de Uma Morte Anunciada e O Amor nos Tempos do Cólera, seus romances mais populares. Gabo também é associado aos nomes mais representativos do chamado “new journalism”, corrente do jornalismo marcada pela liberdade com que são retratados fatos reais, à qual pertence o norte-americano Tom Wolfe.

Aos 20 anos, Gabo mudou-se para Bogotá, onde estudou Direito e Ciências Políticas sem, no entanto, obter o diploma, começando a trabalhar um ano depois como repórter do jornal El Heraldo, em Barranquilla. Ele também foi crítico do El Espectador, antes de partir para a Europa, em 1961, como correspondente estrangeiro. Sua obra jornalística completa foi publicada no Brasil pela editora Record.

Novo gênio. No El Espectador, publicou seu primeiro conto, em 1947, La Tercera Resignación, sendo anunciado pelo editor do suplemento literário do jornal, Eduardo Zalamea Borda, como o “novo gênio da literatura colombiana”. Foi exatamente nessa época que García Márquez se uniu a um grupo de estudos de Barranquilla, que se reunia diariamente na livraria de um grande intelectual, Ramón Vinyes.

Gabo assinava uma coluna no El Heraldo e discutia literatura com os colegas, em especial as obras de Albert Camus, John dos Passos e William Faulkner, esse último a grande influência literária do escritor, assumida na autobiografia, Viver para Contar, e mesmo antes, no discurso que fez ao receber o Nobel, em 1982.

A década de 1940 foi marcada pela boemia e pouco dinheiro. Ele morava em pensões baratas de bairros pouco recomendáveis. Em 1950, quando escrevia seu primeiro romance, provisoriamente chamado La Casa, voltou ao povoado onde viveu os primeiros anos, Aracataca, para vender a casa dos avós, com quem passou parte da infância. Lá, teve uma espécie de epifania, ao perceber que o povoado sonolento e empoeirado que conheceu quando criança não guardava semelhanças com o que via. Mudou o título do romance e criou, então, a cidade fictícia de Macondo, da mesma forma que Faulkner inventara o condado de Yoknapatawpha, microcosmo que representa uma alegoria do profundo Mississipi.

Os anos 1950 foram difíceis para Gabo. Como correspondente de El Espectador na Europa, recebia atrasado e passou por sérias dificuldades. Já havia escrito Ninguém Escreve ao Coronel (1958) quando sua situação ficou parecida com a do oficial do livro, à espera de uma carta que finalmente garantisse seu sustento até o fim da vida.

Já casado e com dois filhos, nos anos 1960, errou pelo sul dos EUA, mas não conseguiu visto de permanência por ser filiado ao Partido Comunista. Ele só retornou aos EUA em 1971, para receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Columbia.

Fiel ao comunismo e aliado dos cubanos, criou em Cuba um curso de cinema pelo qual passaram alguns realizadores brasileiros. Ele mesmo teve experiências na área, assinando a adaptação cinematográfica de O Galo de Ouro, de Juan Rulfo, feita em 1963 em parceria com Carlos Fuentes. Quatro anos depois, com Cem Anos de Solidão, ele conquistaria o mundo literário, recebendo do poeta chileno Pablo Neruda seu maior elogio: “É o melhor romance escrito em castelhano desde Cervantes”. Seu último livro foi publicado em 2004, Memória de Minhas Putas Tristes

 

OBRA PUBLICADA NO BRASIL

1955 – O Enterro do Diabo: A Revoada
1961 – Ninguém Escreve ao Coronel; A Má Hora; O Veneno da Madrugada
1962 – Os Funerais da Mamãe Grande
1967 – Cem Anos de Solidão; Isabel Vendo Chover em Macondo
1970 – Relato de um Náufrago
1972 – A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e sua Avó Desalmada; Olhos de Cão Azul
1975 – O Outono do Patriarca
1981 – Crônica de uma Morte Anunciada
1985 – O Amor nos Tempos do Cólera
1986 – A Aventura de Miguel Littín; Clandestino no Chile
1989 – O General em Seu Labirinto
1992 – Doze Contos Peregrinos
1994 – Do Amor e Outros Demônios
1996 – Notícia de um Sequestro; O Verão Feliz da Senhora Forbes
2002 – Viver Para Contar
2004 – Memória de Minhas Putas Tristes

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