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“Cem anos de Marguerite Duras”

Extraído do blog da Cosac & Naify:

Nascida no dia 4 de abril de 1914, a escritora nascida em Saigon (hoje Ho Chi Minh) e radicada na França completaria hoje 100 anos. Autora de uma obra multifacetada que percorre gêneros tão diversos quanto o teatro, o romance e o roteiro de cinema, foi considerada um dos principais nomes do movimento nouveau roman.

O catalão Enrique Vila-Matas narra em Paris não tem fim o início de sua carreira de escritor, quando foi para a capital francesa e alugou um quarto com ninguém menos que Marguerite Duras. A escritora foi marcante – para não dizer fundamental – na formação literária de Vila-Matas, e o mesmo podemos dizer acerca de uma legião de autores que foram inspirados pela prosa única de Duras. Em um ensaio traduzido ao português pela Folha de S. Paulo, Vila-Matas diria:

“Com a escrita de Duras acontece o que ocorre com a primeira frase de A Metamorfose de Kafka. Quando lemos que um jovem funcionário acorda em sua cama transformado num inseto, só temos duas opções: fechar o livro incrédulos e não continuar ou crer nessa estranha verdade de Kafka e continuar lendo. Creio que a escrita de Duras só permite aos leitores duas opções: amar essa escrita ou odiá-la profundamente. Não há meio-termo com ela. Eu a adoro. Tem a beleza do literariamente infinito. A poesia de sua escrita me fascina e por vezes me levou à emoção e ao choro”.

É em homenagem ao centenário de Duras – e aos inícios fortes e impactantes – que transcrevemos abaixo o começo de O amante, obra capital da escritora que foi relançado pela Cosac Naify em edição portátil e e-book:

“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: ‘Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado’.

Penso com frequência nessa imagem que sou a única ainda a ver e que nunca mencionei a ninguém. Ela continua lá, no mesmo silêncio, fascinante. Entre todas as imagens de mim mesma, é a que me agrada, nela me reconheço, com ela me encanto.

Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Não sei se isso acontece com todo mundo, nunca perguntei”.

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“O Brasil na rua (5): coronel Ibis é retirado da Academia de Polícia Militar, mas vê bem nova missão”

Texto de Alexandra Lucas Coelho publicado em seu blog, Atlântico-Sul:

Até fim do ano haverá uma mudança na polícia que está nas ruas do Rio de Janeiro, garante o coronel Ibis. O comando da PM acaba de o tirar da direcção da Academia. Ele encara com optimismo a mudança para o QG.

O coronel Ibis Silva Pereira tem uma visão positiva dos próximos tempos no Rio de Janeiro: “Eu ousaria dizer que até ano que vem vamos assistir a uma grande transformação na polícia que está nas ruas, te garanto, pode me cobrar.” Soube há 48 horas que a 23 de Agosto deixará a direcção da Academia de Polícia Militar (PM), onde liderava uma formação inovadora, e irá coordenar a Direcção de Ensino da PM, no Quartel General (QG), como sub-director. Uma surpresa, para ele e para os alunos, mas que Ibis está a encarar como “promoção”.

Esta conversa ao telefone aconteceu ontem à tarde. De manhã, saíra no PÚBLICO o texto sobre a visão de Ibis como formador da nova polícia do Rio. Logo depois a repórter recebia a informação de que o coronel fora retirado do cargo na terça-feira, dia em que estreava na academia um inédito ciclo de palestras com 12 pensadores convidados pelo curador Adauto Novaes, e proposto pela FLUPP (festa literária nas favelas com UPP, Unidades de Polícia Pacificadora).

A notícia de que Ibis fora chamado ao QG correu entre os oficiais e praças que ouviam o filósofo francês Francis Wolff, na primeira palestra. O ambiente era de apreensão, conta ao PÚBLICO Júlio Ludemir, da FLUPP. “Percebi que a resposta à palestra não fora tão participada. Quando perguntei porquê ao coronel Ibis, ele respondeu que todos estavam sabendo que ele iria ao QG, que quando se vai ao QG é para subir ou descer, e que todos os cargos acima dele já tinham sido preenchidos pelo novo comando.” Há 10 dias, no meio de múltiplas críticas à acção da polícia, foi nomeado um novo comandante-geral da PM no Rio de Janeiro, o coronel José Luís Castro Menezes.

Quarta à noite, quando Ludemir conseguiu falar com Ibis para saber o que acontecera no QG, ele estava “abatido” com o afastamento da academia: “Mas o tempo inteiro preocupado em garantir o ciclo de palestras, garantindo que o sucessor era um seu amigo de escola e que iria trabalhar [na Direcção de Ensino] com uma pessoa por quem tem imenso respeito.”

Ontem, quando o PÚBLICO falou com o coronel, Ibis confirmou que lhe custará o afastamento. “Confesso que demorou a cair a ficha [tomar consciência]. Tenho uma ligação muito afectuosa com os meus alunos. Acredito numa pedagogia do amor. Cuido daqueles meninos como se fossem meus filhos, então o meu coração ficou estremecido. Senti como um pai que se vai separar dos filhos.” Mas quando a ficha caiu, a sua conclusão foi: “É uma chance que o comando está dando de a gente transformar a polícia militar, implementar esse processo de pacificação [nas favelas].”

O que ouviu no QG?: “Que o meu trabalho era muito reconhecido e me convidavam para a Direcção de Ensino. Como é a cúpula nessa área, eu não estava preparado, não esperava um convite tão honroso.” Será sub-director do coronel Antonio Carballo, oficial com quem tem “uma afinidade há 30 anos”. Em suma, crê que a sua visão para uma nova polícia será reforçada? “Sem dúvida. E a sociedade vai verificar isso concretamente nas ruas. Pensamos ampliar a formação actuando na cultura policial: os símbolos, o ideário, repensar o próprio papel da instituição.”

Não teme que estar no QG o afaste do terreno? “Não. Nunca me afasto da sala de aula. Serei um sub-director muito presente na academia.” Onde o novo director será outro parceiro seu, o coronel Cristiano Gaspar. “É um dos oficiais mais brilhantes que conheço, há 28 anos, um dos grandes amigos que tenho, formado em Direito, espírito democrático, brilhante orador, um intelectual. Na quarta-feira vou apresentá-lo ao Adauto, ao pessoal da FLUPP. A escola não vai perder com a minha saída. É só a questão dos afectos.”

O ciclo de pensadores “é um compromisso da instituição”, o próprio comando o encarregou de continuar à frente desse projecto, até Outubro. “A intelectualidade dentro da polícia é uma coisa que a gente precisa de espalhar.” E no novo cargo terá outra amplitude: “Dialogamos com as direcções de ensino de outros estados.” Em Dezembro sai para a rua a primeira leva de 167 oficiais formados por ele, “com um currículo que já dialoga com uma filosofia de polícia de proximidade”.

Entretanto, Ibis continuará a ser o presidente do inquérito sobre as nove pessoas mortas pelo BOPE (tropa de elite da PM) na favela da Maré durante as manifestações de Junho.

 

A ascensão do BOPE

Nas movimentações que neste momento acontecem dentro da PM, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, grande conhecedor de segurança pública, alerta para o “deslocamento de oficiais do BOPE para posições-chave na nova estrutura”. Esse é um dos factores que o leva a manter um “cepticismo”. Outro é “o deslocamento de um ex-porta-voz, o coronel Frederico Caldas, para uma posição central, a de comandante das UPP”. Este antropólogo vê-o como “uma figura identificada com a instituição, incapaz de palavras contrárias à orientação oficial”, uma espécie de “político da PM”, que traduzirá uma visão das UPP como “marketing e relações públicas”.

Ou seja há sinais contrários à visão de Ibis. Entretanto, Ibis declara-se optimista. “Vamos ver se o optimismo vai se justificar”, acautela Luiz Eduardo. “Se há um respaldo político sufiente. Tomara que sim. O Ibis e o Carballo são as duas estrelas do pensamento crítico na PM. Mas eu conheço a marca conservadora da instituição, que é muito forte. É prudente mantermos uma reserva de cepticismo. E a gente não deve iludir-se quanto a isto: os avanços no Rio não substituem uma profunda transformação da polícia em todo o Brasil, o que implica mudanças na Constituição.”

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“O Brasil na rua (4): a polícia tem que deixar de ser militar”

Texto de Alexandra Lucas Coelho publicado em seu blog, Atlântico-Sul:

É pela descriminalização de todas as drogas. Acha que a polícia abusou da força nos protestos. Quer acabar com a lógica do inimigo. E acabava hoje com a caveira do BOPE. O coronel Ibis está a formar a nova polícia do Rio de Janeiro.

O letreiro diz: “Aqui nascem os Pacificadores!” É a entrada da Academia de Polícia Militar D. João VI, na periferia do Rio de Janeiro, relvados entre quartéis. Daqui saem há décadas os polícias militares (PM’S) do estado. E nunca a polícia foi tão discutida como nos actuais protestos, com mortos, feridos, detidos e desaparecidos. “No fim do século XIX isto era uma fazenda de café”, diz o coronel Ibis Silva Pereira, 50 anos, algo de escoteiro já sem cabelo e com anel de tucumã, como os católicos dos movimentos sociais. Dirige a academia desde fins de 2011. Os resultados ainda não estão na rua.

Sol da manhã na varanda, ele convida a entrar no gabinete, mesa cheia de papéis, CD’s e livros junto a uma TV. Os CD’s são gravações de Beethoven. A pilha dos livros começa com Henrich Heine e segue com “Pequeno Manual de Inestética”, de Alain Badiou. Um poeta alemão que estava na cabeceira de Marx e um filósofo francês de esquerda. “Ah, adoro o Badiou”, comenta o coronel. Outros livros da pilha: “Borges no Brasil”, Mário de Andrade, Alberto Manguel, psicanálise. Quem espera confirmar aqui o que já sabe sobre a PM, espere para ouvir.

Há um crucifixo de madeira na parede. As duas portas estão abertas. Entra Alaíde Rodrigues, pedagoga. Trabalha com a PM no incentivo à leitura. “Eu e o coronel acreditamos que só terá educação com literatura”, diz, enérgica. “Isso humaniza, muda o clima”, reforça o coronel. E vão por aí fora:

— A nova polícia tem de mostrar que respeita os direitos humanos, porque a polícia começa nos actos de socialização, para não chegar à punição.

— Estamos começando isso para uma nova geração.

— Se você não lê, não pensa, se não pensa não tem democracia.

— A gente quer formar cidadãos.

Alaíde despede-se, o coronel mostra à repórter o salão contíguo, onde várias mulheres preparam um “atelier” de ikebanas, a arte floral japonesa. A repórter combinou a visita na véspera à noite, ao saber que Ibis seria anfitrião de palestras sobre violência. Depois da guerra na rua, pôr oficiais a fazer ikebanas parece humor negro, mas Ibis leva-o muito a sério: “É uma forma de diminuir o gosto pelas armas.” Inspirada na polícia do Japão.

 

Banalidade do mal

 

Sentamo-nos na outra ponta do salão. A estreia do filme “Hannah Arendt” coincidiu com os protestos. A repórter esteve num concorrido debate pós-exibição, que discutiu o comportamento da polícia brasileira a partir da “banalidade do mal” teorizada pela filósofa alemã. Ao cobrir o julgamento do nazi Eichmann, Arendt concluiu que o mal extremo não é diabólico, é banal. Vem do momento em que o indivíduo, integrado numa máquina, deixa de pensar.

“Acredito que a melhor maneira de não reproduzir a banalidade do mal é o pensamento”, diz Ibis. “Não vi o filme mas li Arendt. A tragédia do mal é que se insinua, e o pensamento pode impedir que se manifeste. Estamos tentando fazer os alunos pensar, trabalhar os afectos.” Uma nova prática “para sustentar a filosofia das UPP’s”, as Unidades de Polícia Pacificadora que se estão a instalar nas favelas do Rio. “Vim para humanizar a formação. Não dá para pensar esse projecto UPP sem repensar a formação. Não se trata só de saberes do direito criminal e civil, porque o policial vai lidar com pessoas e com situações-limite.”

Que avaliação faz do comportamento policial no Rio nestes protestos? “Excedemos o uso da força. Havia um conjunto de subjectividades na rua, a polícia não estava preparada.”

No debate do filme, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que conhece a fundo questões de segurança pública, falou da obsessão com o “inimigo” na lógica policial. “Concordo”, diz Ibis. “A sociedade brasileira tem um autoritarismo socialmente admitido, que vem de um passado trágico. O Brasil tem 500 anos de história e 400 de escravidão. Isso explica o sucesso de um personagem fascista como o Capitão Nascimento [do maior êxito do cinema brasileiro, “Tropa de Elite”]. Aquele filme é uma denúncia do fascismo e a fantasia do BOPE [tropa de elite da PM] foi a mais vendida no carnaval de 2010. Esse é o nó que a gente precisa desatar.”

A propósito: durante os protestos, o BOPE entrou pela favela da Maré a matar avulso, segundo múltiplos testemunhos de moradores. Morreram nove pessoas. Retaliação, tudo indica, pela morte de um polícia. Ibis acena enquanto a repórter relembra o caso. “O presidente do inquérito sou eu”, anuncia. “Vou até pedir prorrogação.” Então, como tem sido o diálogo com o Observatório das Favelas, dirigido por Jailson de Souza e Silva na Maré? “Maravilhoso. E com a REDES [outra organização importante da Maré] também.”

Não podendo falar deste inquérito, Ibis comenta: “Há um passado de violência nas ruas todos os dias. E a ditadura militar trouxe a ideologia da defesa nacional, com o militante comunista como inimigo interno. O pensamento foi colonizado por essa lógica de combate. Daí a olhar a favela como um território a ser conquistado, e o tráfico como inimigo, é um passo. O belicismo atravessa todo o sistema da polícia militar e civil, os presídios, o sistema jurídico.”

Não começa no nome, Polícia Militar? “Devia ser mudado para Guarda Civil, ou Guarda Nacional Republicana, como em Portugal”, atalha Ibis. “Mas não adianta pensar a reforma da polícia sem pensar o sistema criminal. Já visitou um presídio? É um verdadeiro horror. Aí você vê a actualidade do processo de que fala Hannah Arendt. Se dá mais valor a uma granada no Leblon [o bairro chique do governador Sérgio Cabral, onde manifestantes partiram lojas e bancos] do que a nove pessoas que morrem na Maré. Como é actual que esse filme esteja passando.” Podia ser o próprio Luiz Eduardo Soares a falar. “Um grande intelectual, nunca trabalhei com ele mas admiro-o muito. Talvez seja dos grandes conhecedores da violência no Brasil.”

Quem teve a ideia deste ciclo sobre “Violência interior”, que permitirá aos futuros oficiais e praças ouvir 12 pensadores escolhidos por Adauto Novaes, curador reputadíssimo? “O Júlio Ludemir [da FLUPP, feira literária das favelas com UPP] veio aqui um dia. Depois trouxeram o professor Adauto Novaes, que eu só conhecia desse trabalho maravilhoso de reunir pensadores há 30 anos. Tenho capacidade para 450 pessoas em cada palestra”. A primeira, 13 de Agosto, com o francês Francis Wolff, já terá acontecido quando esta reportagem sair. O ciclo vai até Novembro. “Isto é inédito, a gente nunca fez nada desse tamanho.”

E como é que um formador assim vê o caso Amarildo, ajudante de predreiro que nunca mais foi visto desde que a polícia da UPP da Rocinha o levou, há um mês? Num país em que quase 100 mil pessoas desapareceram nos últimos 20 anos, “Cadê o Amarildo?” passou a ser pergunta-lema dos protestos. “Tem que ter essa pergunta e a polícia tem que dar conta dela.” A polícia diz que tanto o seu GPS como as suas câmaras, que podiam conter dados importantes, coincidiram em não funcionar essa noite. Que pensa Ibis disso? “Ou é uma tremenda coincidência ou é má fé. O inquérito policial tem que dar conta disso.”

E o que está a acontecer nas UPP? Em favelas como a Rocinha, o Vidigal, o Complexo do Alemão, a polícia não está a conseguir segurar o que implantou. Há tiros, mortes, ataques. Visto como crucial na preparação para Copa e Olimpíadas, o projecto das UPP está a desmoronar? “Não sei dizer o que está acontecendo. É um momento chave desse processo, que começou de maneira eufórica e depois caiu no lugar comum. Temos de entender como mudou a vida nas comunidades, quem está no asfalto não imagina como essas comunidades sofriam.” Ibis refere-se à lei do tráfico. E diz: “Não acredito que a polícia possa dar conta da repressão do tráfico. Só se a gente apostar em prevenção. Sou favorável à descriminalização de todas as drogas, o que não quer dizer liberalização, quer dizer que o estado vai ter de enfrentar isso de outra forma que não o direito penal.”

 

Teologia da Libertação

Porquê o anel de tucumã? “Nasci dentro da igreja, fã ardoroso da Teologia da Libertação.” Nas periferias do Rio, primeiro Penha, depois Anchieta. “Até hoje sou ligado na militância cristã. A gente tem de construir o Reino de Deus na terra.” As suas duas filhas adolescentes não foram a manifestações. “Se me tivessem pedido eu deixaria.” Mas adolescentes como elas foram encurralados por gás e balas de borracha. Polícia a lançar gás para bares, até hospitais? “Um excesso.” Balas de borracha contra o tronco e a cabeça? Ibis acena. “Foi um fenómeno de massa, ninguém esperava, estamos fazendo a crítica de tudo, repensando o currículo.”

As manifestações reforçaram a imagem de uma polícia violenta, que além disso é vista como corrupta. A “banda podre” da PM tornou-se expressão comum para os polícias metidos em tráfico, extorsão, execução. “É uma boa expressão, adequada. A corrupção policial é consequência da violência. O problema é esse autoritarismo instituído. Além de melhorar a selecção e formação, temos de investir em controle externo da polícia e numa legislação que dê conta das investigações internas. Eu acredito que pela humanização se reduz a violência. Aquele que se corrompe usa a força.”

Entretanto, já houve uma mudança importante de paradigma na polícia, diz. “É uma decisão da secretaria de segurança: quanto mais vítimas, pior a polícia será avaliada. Durante os anos 90, premiava-se o enfrentamento com letalidade. Isso é uma política de bárbaros e hoje a compreensão é outra.” Quanto mais letal, pior. Mas não é um problema quando os números de mortos pela polícia baixam e sobem os desaparecidos? Ibis concorda: “Seria um bom passo que no índice de letalidade sejam contemplados os desaparecidos.” O ideal, resume, “é que o polícia use a força sem gostar dela”.

O símbolo do BOPE é a caveira, e está no blindado que sobe o morro: o caveirão. “Acho um horror. Inaceitável, acabava com ela já. Entendo o símbolo, esses profissionais trabalham em situações-limite e a caveira representa a vitória sobre a morte. Mas aí temos um grande problema: quando a gente forma um profissional que não pode ter medo, que tem suportar o drama da morte no seu limite, o que sobra de humano?”

Ibis conta que na sua formação viu um colega cair com um tiro na cabeça. “Como impedir que isso se transforme em chacina? Que embruteça? Eu tenho de apostar tudo nas paixões alegres, para usar a linguagem de Espinoza. A caveira trabalha a dimensão do medo por contraponto à amizade, ao respeito, ao amor. Só há um jeito de contrapor as paixões tristes, as paixões alegres. Porque não é a razão que escolhe entre o bem e o mal.” Ou seja, não basta trabalhar a razão. E o coronel Ibis remata com mais uma fuga ao cliché: “Esta nossa alegria esconde um lado triste, raivoso, que não gostamos de mostrar. Não foi por acaso que o Lévi-Strauss baptizou o seu livro de ‘Tristes Trópicos’. O Carnaval esconde uma imensa tristeza, e para combater isso só as paixões alegres.”

Formado em Direito, com pós-graduação em Filosofia e mestrado em História, Ibis está a escrever uma biografia do coronel Cerqueira, “o primeiro negro comandante da PM, assassinado em 1999”. Fala de “esquizofrenia” na política de segurança do Rio, ao longo das décadas, consoante os governantes. “E a polícia na rua é o resultado dessa esquizofrenia.” Então um novo conceito de segurança “tem de ser um projecto do Brasil, porque o problema da violência policial é muito profundo, e encontra a violência da sociedade, e o cliché do povo pacífico de bem com a vida.”

Dias depois desta visita, a repórter pediu a Luiz Eduardo Soares que comentasse o que a acção de Ibis pode significar. “É um homem extraordinário, não apenas um profissional fora da curva mas um ser humano muito especial, com essa coragem para reflectir sobre a sua própria instituição, a despeito de cálculos de carreira. Não me parece disposto a sacrificar as suas convicções a favor de uma estratégia.” O problema, diz, é o quanto ele está isolado. “Até onde vai o poder individual num posto desse tipo? A qualquer momento é substituído e esse trabalho cai, por não haver uma compreensão global dentro da polícia.” O próprio Luiz Eduardo, ex-secretário de segurança, viveu uma experiência de “derrota e estagnação”.

Mas o contexto das manifestações é favorável a discutir direitos humanos e questões de segurança pública, tal como o horizonte político do Rio, a tender para a esquerda, crê Luiz Eduardo. “A conjuntura aponta para uma desmilitarização, e esse será o momento do coronel Ibis.”

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“Brasil na rua (3): como os ninja vão sobreviver à convulsão” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Caloteira? Ditatorial? Seita? Quando a Mídia NINJA, canal online dos protestos no Brasil, teve destaque nos media brasileiros, a Fora do Eixo, sua base, foi alvo de denúncias. Segunda parte da história iniciada ontem

 São Paulo, 1 de Agosto. Sem aviso, a repórter vai à Casa Fora do Eixo (base da Mídia NINJA, fenómeno dos protestos no Brasil, 170 mil seguidores no Facebook). A porta está literalmente aberta. O líder Pablo Capilé foi em missão ao Rio de Janeiro. Quem fala em nome da casa é Gabriel Ruiz. No episódio de ontem, ele acabava a dizer que a eleição de Lula permitiu um colectivo como o Fora do Eixo (FdE), no começo dedicado à música alternativa. Mas “o advento” desse “governo popular” não foi factor único, a crise da indústria fonográfica e a massificação da Internet foram decisivos, ressalva. E sem Internet não haveria Mídia NINJA a transmitir as manifestações.

Já vamos ao quintal onde está a base-ninja. Antes, a ideia é ver algo da casa onde 25 pessoas de várias partes do Brasil vivem e trabalham, a mais nova com 20, a mais velha com 34 (Capilé). Há algumas vagas por concurso. “No último tivemos 400 inscritos, a gente seleccionou seis.” Existe um estágio em que se é “vivente”. Quem chega pode trazer móveis, objectos, roupas, para somar ao colectivo. “Menos a roupa interior, ou uma ou outra peça que a pessoa goste mais. Mas 95 por cento todo o mundo pode usar.” E os computadores? “A maioria já tem o seu.” Ninguém recebe salário, as despesas são pagas com a caixa colectiva dos projectos FdE.

Neste momento, 55 por cento dos moradores são homens, diz Gabriel. Houve nascimentos? “Sim, o Benjamim, nosso bebé colectivo.” Entretanto os pais “mudaram para a casa FdE de Brasília e não há outras crianças aqui”. Mas alguns moradores têm filhos de relações anteriores, há grávidas em outras casas FdE e por tudo isso foi criada “uma frente para a gurizada”.

Continuando, átrio com escada: em cima, quartos; em baixo, casa de banho e copa-cozinha. As casas de banho são unisexo, os quartos não — só quando recebem hóspedes ou há casais na casa. De resto, concluíram que era mais eficaz separar homens e mulheres. Não há gays na casa? Gabriel parece surpreendido, como se precisasse de pensar. “Tem, tem. Mas a maioria é hetero, com certeza. Tem… dois gays.”

A repórter pede para ver o guarda-roupa colectivo. Gabriel vai verificar se o espaço está livre. Nas escadas, um vitral. À direita, um quarto com armário de parede. Lá dentro, tudo organizado em cabides e gavetas. “Cada um escolhe o que quer.” Horários diferentes não são um problema? “Não, todo o mundo levanta entre 9h e 11h e vai dormir depois das 2h.” A vida amorosa e sexual não fica limitada? Surpresa de novo, como se a questão fosse remota: “Não.” Pausa. “Não é uma preocupação. Estou mais preocupado com o momento.” E não é passageiro, garante. “Encaro isto como a minha vida. Não me imagino fora do FdE. Todos os dias são ‘inputs’ novos. Isso me estimula.”

Descemos. Além dos graffiti, há intervenções artísticas pela casa, e a cozinha-copa está coberta de autocolantes, ímans, cartazes. Uma babel visual entre restos do almoço: arroz, feijão, carnes, farofa, lasagna. Dois cartazes por cima: “Lave os utensílios usados por você em cada refeição.” E “Antes de repetir certifique-se de que todos já comeram.”

Um grupo cuida de “logística, hospedagem, alimentação, manutenção”, mas existe um “cronograma de revezamento” e “todo o mundo cozinha, ou a maioria”. Além disso, “tem uma faxineira, duas vezes por semana, das 8h às 17h, para limpar, cozinhar”. Contíguas, ficam “a sala da TV e a sala do rap”, Gabriel abre as portas. “Tem vários rappers na casa.”

E a roupa? “Quando sai o sol a gente faz uma força-tarefa para lavar tudo, em turnos.” No pátio das traseiras estão duas máquinas, tão grafitadas como as paredes. O pátio abre para o quintal, plantinhas, espaço para o Domingo na Casa, com concertos e debates.

E, finalmente, num anexo, o “estúdio” base da Mídia NINJA: alto pé direito; uma parede branca com um sofá para cenário; uma parede coberta por fotos dos protestos; outra cheia de panfletos (“Não haverá retorno ao normal”, “Nossa confiança é explosiva”, “Estamos na rua porque os políticos estão no ar condicionado”); outra com um ninja pintado, máscara negra, olhos de fora; a agenda da semana num quadro; duas mesas-cavalete cobertas de cartazes, dois rapazes e uma rapariga de capuz iluminados pelo écrã dos portáteis, totalmente imersos. Reflexo da casa, onde a repórter só viu gente a trabalhar.

A FdE já fundara a Pós-TV, também online, quando criou a Mídia Fora do Eixo, depois Mídia NINJA, co-idealizada com um conhecido jornalista de São Paulo, Bruno Torturra, 34 anos. Tudo isso serviu os ninja, mas hoje é arqueologia, porque eles simplesmente ficaram maiores.

 

Fogo sobre o eixo

Dias depois, uma doutoranda de Columbia que pesquisou a FdE, Shannon Garland, escreve online que será “um erro muito grande” achar “que um jornalista ou qualquer um possa chegar lá, observar, até passar umas semanas, e sair conhecendo como funciona” a FdE. É um dos testemunhos críticos que “pipocam” nas redes desde que o “Roda Viva”, clássico da TV Cultura, convidou Pablo Capilé e Bruno Torturra para falarem da Mídia NINJA, a 5 de Agosto.

A maior parte das perguntas do programa incidia no financiamento e ligações políticas da FdE, e por inerência da Mídia NINJA. Não era novo: há músicos insatisfeitos com falta de pagamento da FdE há anos e, à direita, acusações de aparelhagem ao PT. Mas o que se segue ao “Roda Viva” é uma catarse, curto-circuito entre um Brasil em convulsão e a cacofonia global, nunca tendo sido tão verdade que uma verdade são muitas.

O primeiro depoimento com impacto no Facebook é o de Beatriz Seigner, autora de um filme que a FdE fez circular: acusa a rede de lhe dever dinheiro, absorver patrocínios sem dizer ao autor, estar obcecada em se alimentar como rede, não consumir cultura.

A jornalista Laís Bellini prossegue, também no Facebook, com um longo e vívido relato da sua experiência a viver com a FdE. Se o colectivo “fosse pagar tudo o que deve poderia fatalmente decretar falência”, diz. Mas o “escravismo” da FdE também é “mental”: “Quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo.” Os moradores, diz, são encorajados a cortar laços: “Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede.” A não ser como “ferramenta”, de “catar e cooptar”, porque acontecem reuniões “dentro da cúpula” para definir “quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”. O “sexismo” é “forte”: as meninas tratam da universidade, os meninos da política. A horizontalidade um mito: Laís nunca viu Pablo Capilé lavar um prato. A cobrança do trabalho é “24h”, tal como partilhar “o que o Pablo e mais outros por lá escrevem no facebook é demanda diária”. Entretanto, “ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo”. Em suma: “Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida, ditatorial diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem auto-intitulado rei-mor da bancada.” Noutra passagem ela usa mesmo o termo “seita”. E explica que não é tão fácil sair pela porta: “Tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia.”

Seguem-se outros testemunhos emotivos, a que se contrapõem moradores FdE. Entretanto, à esquerda, surgem críticas básicas de direito do trabalho na FdE: jornadas excessivas, ausência de salário, de contrato, de segurança social, de plano de saúde. Há quem aponte a FdE como novo modelo de negócio que extrai a mais-valia em vez de ser alternativa à exploração.

“Eles começaram a articular formas independentes e acabaram a criar um eixo paralelo, uma máquina de ganhar editais [concursos]”, resume André Aquino, 23 anos, finalista de Geografia da USP. A repórter entrevistou-o no bairro de Butantã, em São Paulo, onde André e camaradas têm no ar, em 107.1 FM, a rádio pirata Várzea Livre, exemplo de mídialivrismo que incentiva comunidades a fazerem a sua própria rádio. Simpatizante do Movimento Passe Livre, responsável pelos primeiros protestos de Junho, André é da “esquerda libertária”, cita o presidente Mujica do Uruguai como inspiração e não confia na FdE: “A [ministra da Cultura] Marta Suplicy tem gente da FdE como assessor. São eles que escrevem os editais e sabem como ganhá-los. Então, toda a grana para a mídia independente acabou centralizada na FdE.” Que pensa de Capilé? “Começou numa posição difícil por ser fora do eixo Rio-SP [do Mato Grosso], mas hoje tudo passa por ele. Então esse cara controla a arte independente.” E a Mídia NINJA? “Eles foram superimportantes nas manifestações”, reconhece André. “Mas se têm o aparato técnico é por causa da FdE. Sabem usar as redes sociais. Surgiram num momento carente de alternativa à grande mídia. Tinha um vácuo muito grande que souberam preencher.”

Quanto à direita brasileira, que alimenta a pior revista do mundo em português, a “Veja”, “catou e cooptou” as críticas da esquerda que convinham e arremessou contra o PT, manipulando fotos de Capilé com Dilma, Lula e Dirceu.

Defensores da FdE citaram esse aproveitamento para desqualificar as críticas, o que só irritou os críticos. Capilé reconheceu erros (pagamentos a acertar, falhas na horizontalidade, experiências individuais que não funcionaram), mas insistiu que não tem uma política de calote, que não é contra cachê para artistas, que a FdE é uma experiência inédita em processo, que dialoga com todos os partidos interessados em movimentos sociais, que nenhuma organização é tão transparente. Abriu um portal para mostrar contas. E garantiu que a Mídia NINJA vai caminhar pelo próprio pé.

 

A vida fora da FdE

Bruno Torturra, que é co-fundador da Mídia NINJA mas vive fora da FdE, já elencou os meios de autonomia para os ninja: crowdfunding (equipamento, estúdios, um site), assinatura mensal (custos do dia-a-dia), doações (reportagens específicas) e micro-doações (por texto, foto, vídeo). O momento é de despedimentos na imprensa brasileira. Há 1500 inscritos de mais de 150 cidades. Torturra vai montar equipas.

Entretanto, quem pesquisar sobre os últimos meses nas ruas já encontra nos ninja um arquivo crucial. Só estarem na rua fez diferença, revelando o quanto o jornalismo brasileiro está fora da rua. De resto, os ninja não visam a imparcialidade, antes “um mosaico de parcialidades”. Não há dúvida que fazem informação. Mas essa informação é jornalismo?

“É pré-jornalismo, é pós-jornalismo, é jornalismo militante”, atalha o decano Alberto Dines, director do Observatório da Imprensa. A repórter entrevistou-o por telefone no dia a seguir ao “Roda Viva”, em que ele, com os seus 81 anos, fez a Capilé e Torturra as perguntas mais interessantes. “É um uso muito inventivo das novas plataformas. E eles vêem isso não como um modelo de negócio mas de convivência, algo que me toca muito. Também participei de colectivos socialistas no Brasil e de repente encontro esses jovens, com esse projecto de viverem juntos, de uma nova relação com o trabalho, os meios de produção.”

Onde irá dar? “Acho que não se vão deixar levar pela ideologia, sabem que têm a perder. E o PT não vai querer se entregar a um grupo realmente autónomo. Eles [ninja] estão muito abertos. São um pouco marginais mas não são arrogantes. Querem ouvir, pedem conselhos, muitos. Nesses anos todos não vi surgir um projecto tão interesssante.”

Houve aquele momento em que o sistema se curvou: quando o “Jornal Nacional” da Globo “reproduziu informação que a Mídia NINJA tinha veiculado”, lembra Dines. “Isso é um dos saltos mais extraordinários. Um bando de Flintsones com um carrinho de supermercado [onde os ninja levam a estrutura mínima] consegue produzir informação que evitou uma tremenda injustiça.” A polícia detivera um manifestante, acusando-o de atirar “cocktails molotov”. As imagens fora do eixo mostravam outra verdade.

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“Brasil na rua (2): o canal que nasceu Fora do Eixo” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Ao transmitir os protestos pela Net, a Mídia NINJA tornou-se um fenómeno, mostrando como os media brasileiros estavam aquém da realidade. Entretanto, a sua base, a Fora do Eixo, ficou sob fogo. Hoje, a primeira parte da história.

Já não há uma cadeira livre quando o rapaz ao fundo começa a falar: “O momento que estamos vivendo é de mais perguntas que respostas. Nunca na história desse país tanta gente fez análise de conjuntura. Tem muita gente querendo produzir conteúdo e muita gente querendo absorver.” A voz é gutural, rápida, incisiva, e todo o corpo a reforça, braços, mãos, caracóis em desalinho, mancha vermelha na cara, algo singular na boca. Uma figura imediatamente magnética, mesmo avistada da última fila.

Os jovens mais próximos da repórter nem sabem como ele se chama mas parecem tão captados como os que enchem as filas da frente. Estamos em pleno Inverno carioca, noite de chuva e neblina no terreiro do palácio que já foi um hospício e hoje é campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um corropio de vultos continua a atravessar os portões oitocentistas, em busca deste pré-fabricado da Escola de Comunicação (ECO), porque é aqui que acontece a reunião aberta da Mídia NINJA, maior fenómeno mediático dos protestos no Brasil.

Quando o chão fica cheio ainda sobram caras na janela, lá fora: toda uma plateia de estudantes, pelo meio curiosos, activistas, membros da Ordem dos Advogados que acabam de conseguir a libertação de manifestantes. É terça-feira, 23 de Julho, noite seguinte à da carga policial contra o protesto junto ao palácio do governo do Rio, depois do Papa sair da recepção em sua homenagem.

“Se alguém perdeu a pouca credibilidade que tinha, foi a grande imprensa”, diz o orador. Está a sintetizar o que aconteceu desde Junho, quando as manifestações contra o aumento nos transportes explodiram em reivindicações pelo Brasil, levando um milhão à rua.

Em “streaming”, horas a fio na Net, a Mídia NINJA mostrou no chão, entre os manifestantes, o que não estava na grande media: a emoção em tempo real, o engrossar do levantamento, a repressão da polícia, as consequências. A esmagadora maioria da classe média nunca levara com gás lacrimogéneo, bala de borracha, cassetete e quem nem estava na rua nunca vira gente assim apanhar. Em geral concentrada sobre a favela e a periferia, a violência agora acontecia entre brancos, jovens, desarmados, com a polícia a lançar gás em becos, em bares, até dentro de hospitais.

 

Revolta contra os media

Ao longo das semanas, a página da Mídia NINJA no Facebook ganhou dezenas de milhares de seguidores, e a revolta contra o jornalismo tradicional, simbolizado pela Globo, associado a valores conservadores, com passado de apoio à ditadura, somou-se à revolta geral, incluindo cercos a jornais e televisões. Quando manifestações partiram lojas e bancos nas ruas chiques do Leblon — bairro do governador Sérgio Cabral, responsável pelo comando policial e por isso alvo de protestos —, os media relevaram os actos de vandalismo, o que reforçou a indignação dos manifestantes. É que entretanto nove moradores da favela da Maré eram mortos a eito pela polícia, que também levara um ajudante de pedreiro da Rocinha, Amarildo, nunca mais visto. A pergunta passou a ser: os vidros do Leblon valem mais do que as vidas dos Amarildos? Do ponto de vista de quem estava na rua, a media tradicional era o Leblon, a Mídia NINJA era o Amarildo.

E para muitos a reunião de hoje, convocada pelo Facebook, será a revelação do líder por trás dos ninja: Pablo Capilé. Ele está a explicar agora que a origem de tudo isto tem 10 anos, lá em Cuiabá, capital do Mato Grosso, centro geodésico da América Latina, o “lugar mais longe de tudo”, onde ele próprio nasceu, há 34 anos.

Só ouvi-lo uns minutos já dá um glossário, pontuado a cada frase pelo tique “saca?” Uma das novas palavras é mídialivrismo, ou seja, o exercício de meios independentes. Não é invenção dos ninja, tem anos de prática, mas nunca com o impacto que eles ganharam.

“Já não precisamos de veículos, somos os veículos”, dizia o manifesto inicial no Facebook, meses antes da grande convulsão, a 26 de Março de 2013. Uma “tropa de comunicadores independentes”, “reduzindo os filtros entre os fatos e o público”, “contrariando, na guerrilha, a narrativa oficial”, “transformando a audiência passiva em difusores de informação”. NINJA em caixa alta por ser uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. A primeira missão em directo pelo Facebook foi cobrir o Fórum Social Mundial na Tunísia, com os enviados Felipe Altenfelder e Bruno Torturra, também presentes na reunião desta noite.

Mas não há como contar a história dos ninja sem contar a da casa-mãe, que é a Fora do Eixo (FdE). E é o que Capilé está a fazer, dando ao Rio de Janeiro um contexto até agora mais conhecido noutros pontos do Brasil: a de um colectivo que começou como uma rede alternativa de festivais de música e hoje conta com 2000 pessoas no país, espalhadas por casas colectivas, mistura rara de vida e trabalho.

A FdE é a estrutura que permitiu o impacto da Mídia NINJA, base, meios e gente, e tornar-se-á o seu maior problema nas semanas que se seguem. No fecho desta edição, poucas figuras estarão a ser tão discutidas no Brasil urbano como Pablo Capilé.

 

Vida colectiva

São Paulo é a base central da FdE. As casas colectivas FdE definem-se como permanentemente abertas. Por isso, a 1 de Agosto a repórter atravessa o bairro paulistano da Liberdade sem ter marcado visita. A morada que estava na Net revela-se um casarão grafitado. No portão, um papel diz “Aqui tem amor”. Não há cão, alarme, nem porteiro. Pondo a mão na maçaneta, é simples: o portão abre.

Assim, sem pré-aviso, qualquer visitante desce o pátio, entra na porta, também aberta, que dá para uma sala de entrada cheia de cartazes e pinturas nas paredes. A estética é “hip hop”, mas a organização é de escritório criativo: estantes com CD’s e livros catalogados; um organigrama de post-its com a estrutura de funcionamento do FdE em vários círculos de cores, do núcleo para as radiais; um cartaz com a Universidade Fora do Eixo, projecto nacional do colectivo; uma mesa de trabalho com cadeiras avulso; um aviso a dizer que os vasos de flores não são cinzeiros; outro a pedir que cada um leve a loiça que trouxer e limpe o que sujar; uma rapariga a recortar papéis vestindo a t-shirt de um festival de cinema independente em Minas Gerais.

A repórter apresenta-se, ela vai chamar o líder que neste momento responde pela casa. Capilé e Altenfelder moram ambos aqui, mas continuam em missão no Rio de Janeiro. Na sala contígua, dezenas de post-its enumerando festivais de música alternativa no Brasil, mais mobiliário avulso, impressora e scanners junto à janela, cores alegres nas paredes, computadores portáteis com jovens a trabalhar, ao som do rapper Criolo, que se tornou conhecido nos festivais FdE.

O líder-no-momento é um rapaz de fato de treino e barba, casaco Adidas como Capilé na reunião do Rio. Chama-se Gabriel Ruiz, tem 29 anos, como todos deixou tudo para morar-trabalhar aqui. “Esta casa é o bunker da rede”, resume, a abrir. Porquê bunker? “A gente utiliza toda a linguagem que se aproxima da guerrilha. Já tinhamos experiência de colectivos em cidades de médio porte, e a gente sabia que se decifrasse São Paulo decifrava todas.”

Assim nasceu esta casa, em 2011, na sequência já de “15 ou 20 colectivos” FdE, incluindo o de Bauru, interior do estado de São Paulo, fundado por Gabriel. “Há uma política desterritorial, a gente entende que pode se formar e ir para outro lugar, então esta casa reuniu lideranças muito fortes: Cuiabá, Recife, Uberlândia, São Carlos, São Paulo.”

Gabriel estudou comunicação em Bauru. “Foi essa faculdade que me deu as bases para eu escolher uma vida alternativa. Conheci a rede [FdE] em festivais de música, comecei a mandar mensagens, dizendo que queria trabalhar com eles.” Um rapaz de calções, barba e caracóis vem tirar uma dúvida sobre como vai agir “no acto”. O acto é a manifestação desta noite (ver reportagem ontem).

“Num espaço muito curto a gente cresceu muito, começou a fazer parcerias com o poder público, no sector cultural, música, teatro, dança, artes, economia criativa, hip hop”, retoma Gabriel, que mora na casa de São Paulo há ano e meio. Por ela, pagam entre “quatro a cinco mil reais de renda”, o que seria o aluguer de um pequeno apartamento, não de um enorme casarão como este, com pátio e quintal. “O dono gosta da gente, vem sempre aqui, se identifica”, explica Gabriel. Não é um japonês, como se podia esperar neste bairro tradicionalmente japonês, mas um chinês.

“A gente se preparou durante um ano, cobrindo ocupações, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Passeata Gay, bicicletadas, sem saber que tudo isso eclodir.” Os protestos de Junho. E isso fez com que toda a casa passasse a trabalhar para isso. “Estamos exclusivamnente voltados para as ruas, acompanhando assembleias, movimentos, gente que está produzindo conteúdos.” Dito de outra forma: “Todo o mundo agora virou ninja. Eu que sou do núcleo da música comecei a montar som, estruturas, para que assembleias aconteçam. A gente vive como se fosse a equipe de produção da revolução.”

Então trata-se de uma revolução?

“Não no sentido de tomar o poder, mas no sentido de mudar as coisas, tomando consciência de que as ruas são para ser ocupadas, que têm um poder de negociação muito forte.” Uma nova etapa depois das ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, e da transição democrática que se seguiu. “Nos anos 90 houve um movimento muito grande de liberalização, de entrada do capital, de abertura do mercado. O Brasil vendeu tudo o que era nosso. Depois a partir dos anos 2000 temos o advento de governos populares. No Brasil isso é claro com Lula e o PT, que foi muito inteligente ao colocar o Gilberto Gil e o Juca Ferreira no Ministério da Cultura. Foi um avanço muito forte: o programa de cultura digital, colocar na mão das pessoas a maquinaria para fazerem elas, políticas com Pontos de Cultura. Foi isso que permitiu o surgimento do FdE.”

E no fogo cruzado que vai chover sobre o FdE, uma das questões é o quanto eles, e consequentemente a Mídia NINJA, são um braço do PT, sendo que eles negam qualquer filiação partidária, e têm diálogo com vários movimentos, dos pós-comunistas do PSOL à rede de Marina Silva.

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Martín Chambi

Extraído do blog do Instituto Moreira Salles. Conforme informação abaixo, as 88 fotografias de Martín Chambi podem ser visualizadas no site do IMS:

Martín Chambi (1891-1973), de origem camponesa, nasceu no povoado de Coaza, província de Puno, às margens do lago Titicaca, no Peru. Iniciou-se na fotografia ainda jovem, ao obter uma colocação como assistente de fotógrafo na Mineradora Santo Domingo, na cidade de Cambaya, para onde seus pais se mudaram impulsionados pelo ciclo do ouro na região.

Já em Arequipa, em 1908, teve como mestre Max T. Vargas, célebre fotógrafo local, com quem trabalhou até montar seu próprio estúdio em Sicuani, nove anos depois. Na ocasião, publica de forma pioneira no Peru seus primeiros cartões postais.

Também de origem indígena, Chambi se dedicou a registrar a população nativa do Peru, principalmente as etnias Quéchua e Aymará, com uma abordagem diferente da forma exótica comum à época. Registrou a humildade da vida andina sem desrespeitá-la, tornando seu trabalho reconhecido mundialmente tanto pelo caráter etnográfico quanto pelo aspecto artístico.

Primeiro a fotografar Machu Picchu, a cidade sagrada dos incas, descoberta em 1911, Chambi ficou também conhecido como fotojornalista, tendo trabalhado nos jornais locais de Cusco. Teve também fotos publicadas em outros países, como no jornal argentino La Nación e na revista National Geographic.

Em 1977, quatro anos após sua morte, os filhos, Victor e Julia Chambi, e o fotógrafo e antropólogo americano, Edward Ranney, catalogaram as 14 mil placas de vidro do fotógrafo. A pesquisa resultou em uma grande exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA), em 1979. A forte repercussão internacional levou essa mostra a circular por museus e universidades americanas, passando pelo Canadá e terminando na Photographer’s Gallery, de Londres.

Na década de 1980 foram organizadas importantes mostras sobre a obra de Chambi, como a de 1981, que passa por Zurique, Berlim, Madrid e Roterdã, e a de 1984, com curadoria de Juan Carlos Belón, apresentada em Veneza. Desde então várias exposições vêm sendo exibidas em diversos países, inclusive no Brasil, como no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba, em 2010.

Atualmente os originais de Chambi encontram-se no Archivo Fotográfico Martín Chambi, em Cusco, instituição fundada e dirigida por seu neto Teo Allain Chambi, que prima pela preservação e difusão da obra do avô. Em suas apropriadas palavras, Martín Chambi é o primeiro fotógrafo de sangue indígena a retratar seu próprio povo com altivez e dignidade somadas a um altíssimo nível técnico, um olhar excepcional e um magistral domínio da luz.

As 88 imagens que agora podem ser vistas no site do IMS, fotografadas entre 1919 e 1948, são provenientes dessa fundação, e foram selecionadas e ampliadas a partir de seus negativos originais de vidro, nos anos 1980, por Teo Chambi.

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“O Brasil que existe nos jornais” – Luis Nassif

Texto de Luis Nassif, publicado em seu blog:

Existe um jornalismo fast-food que se limita a seguir todo movimento de manada, a apresentar visões extraordinariamente simplistas da realidade ou a exercitar a opinião (leiga) sobre assuntos da maior profundiade.

Em todos esses casos, valem-se do expediente da “autoridade” – no caso, a possibilidade de sua opinião, por mais primária que seja, saia publicada em jornais de alta circulação ou em jornais de TV.

Esse movimento teve início no pós-redemocratização e está estreitamente ligado ao florescimento dos âncoras de rádio de TV e seus bordões de fácil alcance – tipo “isto é uma vergonha”.

Sempre valeu para rádio e TV, mas não tinha espaço entre formadores de opinião – categoria na qual se enquadravam os jornais, antes da deblacle dos últimos anos.

Um dos mais fáceis recursos de marketing consiste em juntar um conjunto de temas negativos para concluir que tudo está negativo – ou o inverso.

Por exemplo, junto a tortura a quatro réus acusados de um crime aqui, com um ato de vandalismo ali, algumas tragédias sanitárias acolá e passo ao leitor a percepção de que aqueles fragmentos de realidade se constituem no todo.

Ora, países, estados, cidades, grandes empresas, são organizações complexas, das quais se pode extrair centenas de exemplos positivos e negativos.

Poderia falar do evento da SBPC em Recife, da euforia dos jovens com a redescoberta da política, da ascensão da nova música brasileira, dos resultados da indústria naval, do trabalho excepcional de ONGs e OSCIPs em parceria com o setor público, da universidade do MST, da recuperação pontual das bolsas e dizer que o país é uma maravilha.

O tal país terminal ou pujante não é o país real: é aquele que existe na cobertura da mídia, na cabeça do jornalista, no cérebro de quem não consegue enxergar além do retrato em branco e preto do momento.

É o marketing da notícia, uma opção que os jornais escolheram para se tornarem irrelevantes junto à opinião pública que conta.

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“Jango, Hitler, Berlusconi – política é o fim?” – José Geraldo Couto

Texto de José Geraldo Couto publicado no blog do Instituto Moreira Salles. Trata dos filmes Dossiê Jango, Hannah e A bela que dorme, que se encontram em cartaz:

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no intuito de desqualificar os protestos diante de sua casa, disse dias atrás que eles tinham “caráter político”. Descobriu a pólvora. Da missa do papa à parada gay, da marcha das vadias ao show de funk, da passeata evangélica ao passeio ciclístico, tudo é política, pois revela uma posição dos indivíduos e grupos no convívio com o outro, com os outros, com a polis.

Nestes tempos conturbados, nem o cinema é um refúgio seguro para quem quiser escapar da política. Se, ao menos virtualmente, todo filme é político, há aqueles em que a política é o cerne, o nervo, a substância. É o caso de três títulos em cartaz nos cinemas: Dossiê Jango, Hannah Arendt e A bela que dorme.

O primeiro é um documentário brasileiro dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil. Essa origem televisiva é responsável pelo formato de grande reportagem do filme, e talvez explique também a escalação de Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto e Zelito Vianna – figurões do referido canal – para dizer platitudes logo no início da narração.

Mas depois o documentário engrena, com preciosas imagens de arquivo e depoimentos de quem de fato tem o que dizer sobre o assunto: parentes do biografado (em especial o filho, João Vicente Goulart, verdadeiro condutor da reportagem), assessores, jornalistas que cobriam o centro do poder e até agentes clandestinos da famigerada Operação Condor, tenebrosa ação conjunta dos governos militares do Cone Sul para eliminar opositores.

O objetivo expresso do filme é forçar a reabertura das investigações sobre a morte do ex-presidente João Goulart, a partir da suspeita de que ele pode não ter morrido “de morte morrida” em sua fazenda na Argentina, mas sido vítima de um meticuloso assassinato, digno de um filme de detetive. Missão cumprida: saímos do cinema no mínimo com a pulga atrás da orelha.

O clímax do documentário é a confrontação, numa prisão brasileira, entre João Vicente Goulart, sob o disfarce de repórter da TV Senado, e o ex-agente uruguaio da Operação Condor Mario Barreiro Neira, que participou da espionagem e do cerco a Jango na Argentina. A surpresa constrangida de Barreiro quando João Vicente revela sua identidade é um momento de alta densidade dramática, daqueles que a ficção raramente alcança.

No mais trata-se de uma produção bastante convencional, na linha dos documentários políticos de Silvio Tendler, com uma condução unívoca (de todos os depoimentos, só um, o do historiador Moniz Bandeira, refuta a tese do assassinato) e o uso abusivo da música para induzir emoção.

Banalidade do mal

Mais sóbrio e problematizado, paradoxalmente, é o retrato ficcional que Margarethe von Trotta faz da pensadora alemã Hannah Arendt no filme que leva o nome desta.

A narrativa se desloca entre dois polos: a reflexão de Hannah (a extraordinária Barbara Sukowa) sobre a banalidade do mal, feita a partir de sua observação do julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann em Israel, e sua controvertida relação amorosa com o filósofo Martin Heidegger (Klaus Pohl), ele próprio simpatizante do nazismo.

É admirável o modo como a veterana diretora de Rosa Luxemburgo e Os anos de chumbo concilia a expressão da sutileza e da ambiguidade dos personagens com um estilo narrativo sólido e inexorável, daqueles em que um plano parece “exigir” o plano seguinte – numa espécie de teleologia narrativa que tem raízes em Fritz Lang.

Do íntimo ao político

O também veterano Marco Bellocchio, que sempre buscou o lugar geométrico entre Eros e a polis, ou entre o sexo e a política, atinge o ápice da maturidade ética e artística com o esplêndido A bela que dorme. Em torno do episódio real da jovem italiana Eluana Englaro, que levou durante 17 anos uma vida vegetativa, até que os aparelhos que a alimentavam foram desligados, o cineasta tece uma teia de situações-limite nas quais se trata sempre de decidir sobre a vida ou a morte de uma pessoa.

Além da polêmica religiosa, o caso Eluana produziu uma crise político-institucional profunda na Itália, pois o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi tentou mudar a constituição para passar por cima da decisão da Suprema Corte de permitir o desligamento dos aparelhos, solicitado pelo pai da moça.

Se a questão saiu do foro íntimo para a esfera pública, provocando uma conflagração que dividiu a Itália e repercutiu em todo o mundo, o que Bellocchio faz, de certo modo, é devolvê-la ao âmbito privado, que é por definição o espaço da ética e das convicções pessoais.

A proeza do cineasta é concentrar suas múltiplas ações em dois dias e duas noites, tendo como fio condutor a cobertura onipresente da mídia do caso Eluana e como pano de fundo a sombra opressiva do Vaticano. As diversas situações paralelas apresentadas permitem-lhe examinar quase como um entomólogo o sentimento da compaixão, sem perder de vista o que ele contém de vaidade e, eventualmente, de sadomasoquismo. Um grande filme, em suma.

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“Antonio Candido indica 10 livros para conhecer o Brasil”

O blog da editora Boitempo publicou as dez recomendações de Antonio Candido para conhecer o Brasil [via Roberto Bozzetti]:

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”. 

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc. 

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Candido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

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