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“Direita, volver” – Bernardo Mello Franco

Extraído da Folha de S. Paulo:

BRASÍLIA – A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o marechal Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto. O eleitor não foi consultado sobre as mudanças.

O cavalo de pau fica claro na escalação do ministério, que sugere desprezo à representação política das minorias. Ao substituir a primeira presidente mulher, Temer montou uma equipe só de homens, o que não acontecia desde a era Geisel. Os negros também foram barrados na Esplanada.

O Ministério da Educação foi entregue ao DEM, partido que entrou no Supremo contra as ações afirmativas. A pasta do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, acabou nas mãos de um deputado do PMDB que já se referiu ao benefício como uma “coleira política”.

Para a Justiça, Temer escolheu o secretário de Segurança de São Paulo. Ele assume com explicações a dar sobre violência policial e maquiagem de estatísticas de criminalidade.

A fauna do Planalto também mudou radicalmente em poucas horas. Além dos políticos que restaram ao seu lado, Dilma Rousseff se despediu cercada por gente de esquerda, como sindicalistas, ex-presos políticos e militantes de movimentos sociais.

A chegada de Temer encheu o palácio de representantes da direita brucutu do Congresso, como os deputados Alberto Fraga e Laerte Bessa, da bancada da bala, e o ruralista Luis Carlos Heinze, que já se referiu a quilombolas, índios e homossexuais como “tudo que não presta”.

Depois do pronunciamento de estreia, o presidente interino se reuniu a portas fechadas com líderes religiosos e parlamentares evangélicos. Estavam presentes os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, que defendem ideias como o projeto da “cura gay”. Eles voltaram para casa entusiasmados com o novo regime.

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“Nós acusamos” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle de 13 de maio de 2016, no jornal A Folha de S. Paulo:

Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:

Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.

Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.

Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.

Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de “austeridade” na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de “democracia”.

Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.

De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.

Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.

Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.

Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa “conciliação nacional” pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.

Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.

Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.

Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.

Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.

Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.

Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.

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“O suicídio da Lava Jato” – Vladimir Safatle

Coluna de Vladimir Safatle publicada no dia 18 de março de 2016 na Folha de S. Paulo. Até o momento, parece a análise mais precisa e menos polarizada já feita sobre o atual contexto político brasileiro:

O juiz Sergio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.

A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.

Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.

Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.

Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.

Lembremos que “obstrução de Justiça” é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser “obstrução” se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da “Justiça”.

A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.

Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.

A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.

Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há “vazamentos” contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.

Reitero o que escrevi nesta mesma coluna, na semana passada: não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.

O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.

Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.

Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.

O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.

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“Fritz Lang e o impeachment” – Vladimir Safatle

Na coluna de Vladimir Safatle, Folha de S. Paulo [via André Vallias]: “[…] quem acusa o governo é, em grande parte, uma oposição envolvida até o pescoço no mesmo mar untuoso de lama. O que não poderia ser diferente, já que ela partilha exatamente as mesmas práticas políticas, chega até a usar os mesmos agentes corruptores, embora seja um pouco mais esperta na arte da blindagem e da fala dura.” Leia o texto completo no site da Folha.

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“Brasil, o país das maravilhas” – Luiz Ruffato

Coluna de Luiz Ruffato publicada no El País:

O escritor e jornalista Juan Arias, comentando meu artigo “O nosso fundamentalismo”, indaga se o conservadorismo da sociedade brasileira não estaria fundamentado em nosso precário sistema educacional. Talvez esse seja o ponto essencial para podermos refletir sobre esse colosso territorial chamado Brasil, não só em relação ao reacionarismo da população em geral, mas também à nossa incapacidade de concebermo-nos como nação, ou seja, conjunto de pessoas que se vinculam visando a atingir um objetivo comum.

Em entrevista ao jornal Zero Hora do dia 1º de março, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), especialista no assunto, faz uma série de considerações a respeito do estado da educação no Brasil e diagnostica: se começássemos um trabalho sério nas escolas de base hoje, o país alcançaria um ponto de excelência apenas daqui a 20, 30 anos… No entanto, do jeito que vamos, conclui, estamos ficando para trás. Permanece no ar um questionamento singelo, como devem ser as indagações mais profundas: se eu sei, se você sabe, se todos sabemos que não iremos a lugar algum sem uma radical transformação do sistema educacional, por que nos contentamos em afundar no pântano da ignorância?

Cristovam Buarque constata, desolado, que “por algum motivo” não damos importância à educação. “Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto. Você é considerado rico pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro, mas não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá”. Infelizmente, essa assertiva é verdadeira e crucial para tentarmos entender o nosso desprezo pela cultura letrada.

O Brasil sempre aparece nos últimos lugares do ranking de avaliação de educação. Convivemos com um atraso atávico neste setor. Até 1808, quando a família real portuguesa se refugia no Brasil, sequer possuíamos imprensa e a entrada de livros esbarrava num rigoroso crivo da censura.

Enquanto nossos vizinhos latino-americanos contavam com universidades desde os primórdios da colonização (séculos XVI e XVII), as nossas primeiras instituições de ensino superior datam do começo do século XX.

Até a década de 1950, metade da população adulta era analfabeta – índice que encontra-se hoje em torno de 9%, embora o analfabetismo funcional, ou seja, a incapacidade de interpretar textos simples e de fazer operações matemáticas corriqueiras, ainda atinja um em cada cinco brasileiros.

O quadro mudou, certamente, por conta do compromisso do Estado em ofertar ensino gratuito obrigatório a todos os brasileiros entre 4 e 17 anos (alicerçado na Lei de Diretrizes e Bases de 1996) e de garantir cotas raciais e sociais em universidades públicas para afrodescendentes, indígenas e alunos oriundos de escolas públicas (baseado na Lei de Cotas, de 2012). Mas se melhorou em relação à possibilidade de acesso, e isso é um ganho inegável e indiscutível, piorou bastante no que concerne à qualidade da educação disponível.

Infelizmente, nosso sistema educacional continua sendo um instrumento de segregação social e, por consequência, de manutenção no poder de uma elite econômica, que é também política e cultural. A alfabetização e os ensino fundamental e médio, essenciais para a formação do aluno para o resto da vida, definem a que classe você pertence e na qual permanecerá. Segundo dados do IBGE, metade da população com mais de 25 anos não concluiu sequer o ensino fundamental; 15% não concluíram o ensino médio; e apenas 11% concluíram o universitário – desenho nítido da pirâmide social brasileira.

As famílias pobres, sem opção, matriculam os filhos em escolas públicas, que funcionam em prédios obsoletos, com infraestrutura mínima, sem segurança, sem biblioteca, administrados por professores, em geral, mal formados e sem incentivo, acossados pela baixa remuneração e falta de segurança e desrespeitados por pais e alunos. O resultado é que, segundo relatório da Unesco, o estudante está na sala de aula, mas não aprende – 22% se formam sem capacidades elementares de leitura e 39% não têm conhecimentos básicos de matemática. Por outro lado, a maioria dos pais não se sente responsável pelo desempenho dos filhos na escola, ignorando assim que a educação, embora inclua a instrução, a ultrapassa. Essa visão utilitária e limitada impede que a comunidade interfira na resolução dos problemas da escola.

Já as famílias ricas conduzem seus filhos para escolas privadas, que contam com boa infraestrutura, regimes pedagógicos diferenciados, bibliotecas, ambiente adequado, professores bem remunerados, etc. Mais tarde, esses alunos ocuparão a maioria das vagas das melhores universidades públicas – aos alunos pobres restam as universidades privadas, de duvidosa reputação. Em suma: os alunos ricos estudam de graça em boas instituições, sem nenhuma contrapartida social, enquanto os pobres pagam para assistir aulas em estabelecimentos deficientes.

Somos um país, mas não somos uma nação. A ignorância é o terreno fértil para a propagação de ideias conservadoras – o escritor sérvio Danilo Kis, em seu romance Um túmulo para Boris Davidovich, afirma que quem lê vários livros busca a sabedoria, quem lê um único, busca a ignorância. O desdém pela cultura, que atinge o Brasil de alto a baixo, envenena nossa percepção: aqui, o que é de todos, não é de ninguém. Todos nos aferramos às nossas pequenas conquistas e, para não perdê-las, abraçamo-nos a qualquer discurso reacionário, que ao fim e ao cabo, prega sempre o egoísmo, o cinismo, a mediocridade.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista

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“Por que estudos literários?” – Mirhiane Mendes de Abreu

Mirhiane Mendes de Abreu é professora de Literatura Brasileira da Unifesp. Publicou Ao pé da página – A dupla narrativa em José de Alencar, que sem dúvida alguma é uma das obras mais importantes sobre o mais notável romancista do romantismo brasileiro. Na revista Pessoa, ela inaugura uma coluna, que aqui reproduzo:

O título deste artigo é um pretexto para iniciar uma série na revista Pessoa sobre questões literárias. E, para começá-la, decidi ir ao início. O meu início.

Eu estava com 17 anos quando, ao se aproximar o período de inscrição do vestibular, escolhi o curso de Letras, provocando certo alvoroço no ambiente familiar. Talvez por ser de uma família de professores, de vida espartana, sugeriam-me profissões de retorno financeiro mais provável quando comparadas com as carreiras ligadas ao magistério. Entretanto, movia-me por uma exclusiva razão: gostava de literatura e do universo dos livros e queria me especializar nisso. É provável que esse gosto tenha se desenvolvido justamente por ser de família de professores e ter vivido numa casa cercada por livros, que iam da Bíblia até as Mil e uma noites, passando por inúmeros clássicos. Educação e cultura, assim, construíram os pilares da minha formação e talvez tenha sido isso que me levou a bater o martelo de forma definitiva e assinalar o X no curso de Letras.

Bem, nem tão definitiva assim…

Estudar literatura é estar sempre às voltas com o anúncio do fim. Profetas do caos a todo o tempo anunciam a agonia da literatura. O incrível é reconhecer que, muitas vezes, os portadores das más notícias sejam… críticos literários! De início, na universidade, deparei-me com um desajuste: não havia lugar para os desafios mentais tais como eu havia vivenciado com O homem que calculava, de Malba Tahan; nem mesmo para a experiência com o ritmo envolvente dos poemas de Cecília Meireles. As aventuras propostas por Lewis Carrol e sua Alice, por Huckleberry Finn e até pela Coleção Vaga-Lume, da Ática, soavam pueris. Comecei a reconhecer, no interior dos Estudos Literários, que a literatura é revestida de outras propostas e perspectivas, o que torna a crítica algumas vezes imprescindível e, outras, dispensável, especialmente quando muito atada quer às fórmulas da moda, quer à nostalgia nociva.

Não quero propor um meio de facilitação, nem estimular um simples impressionismo subjetivo. Nada disso. Trata-se de chamar a atenção para o fato de que, do ponto de vista de quem produz e consome literatura, uma crítica obscura e/ou com chaves prévias parece um contra-senso. A complexidade crítica, que conjuga elementos objetivos e subjetivos, não pode ser reduzida a atos estéreis, seja tudo aceitando, seja tudo negando.

De todo modo, a questão da abordagem é sempre exposta à pessoa dedicada profissionalmente à literatura, tanto ao professor da Educação Básica, quanto ao professor universitário. Assim, retomamos com frequência o problema do ensino da literatura (que, diga-se de passagem, está sempre envolto por preconceitos), o qual incide diretamente sobre vivências subjetivas como as que relatei, mas que também apresenta questões de escopo teórico, como o conceito e a função do texto e o problema do cânone. Some-se à docência o autor contemporâneo. Alvo preferencial dos mais raivosos e, simultaneamente, rodeado por festivais e premiações, o escritor se envolve com editores, professores e críticos a quem anseia por agradar, embora seu objeto seja exigente e, algumas vezes, impopular.

O professor – sempre o professor – vê-se às voltas com novos parâmetros curriculares e conteúdos que a ele cabe rotinizar. Movimenta-se entre o obsoletismo metodológico e as missões salvíficas que lhe imputam. Afinal, a literatura – seu objeto de estudo e ensino – é portadora de um capital simbólico, linguístico e afetivo. E cabe a ele o papel de levar o aluno a concluir isso, aferir seu conhecimento por meio de avaliações e perpetuar o estudo desse objeto-fetiche. Se também aspirante a crítico, o indivíduo se depara com múltiplos impasses, dentre os quais a própria tarefa da crítica e sua funcionalidade, bem como a operacionalidade da interpretação da obra literária, atividades que dissocia da sala de aula.

Há ainda outro ingrediente. A literatura, partícipe da cultura que é, se espalha por vários outros campos. Isto não é exatamente uma novidade, basta mencionarmos a relação intrínseca entre o romance e o jornal fortemente alimentada no século XIX. Debate para outra ocasião, limito-me a um exemplo para nos fazer lembrar que a literatura coaduna-se com um conjunto maior da produção cultural e da produção do belo e hoje se alimenta muito das redes sociais, particularmente dos blogs e dos perfis de Facebook. Nesses veículos, ela se desveste do caráter escolar e se apresenta de forma amigável, direta e dinâmica.

Se a literatura pode enriquecer a vida e o pensamento, estimulando forças expressivas no leitor e se ela se imiscui por múltiplos canais de circulação, não seria bom nos despirmos por um instante dos jargões acadêmicos e enfrentarmos as questões diretamente com os envolvidos? Não tenho respostas prontas, nem quero trazer para esse espaço receitas, menos ainda teorias mirabolantes. O objetivo desta coluna é sair da esfera universitária e, erguendo pontes, convidar a todos a construirmos aqui um debate público sobre o tema, através de ensaios e entrevistas, aproveitando a abertura que a Revista Pessoa nos concede para isso.

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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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A antologia “Poesia.br”

Transcrevo resenha sobre Poesia.br (organização de Sergio Cohn) publicada originalmente em minha coluna da revista Ler de maio de 2013:

A editora Azougue lançou, sob organização de Sergio Cohn, a antologia Poesia.br, que reúne dez volumes acondicionados em uma caixa. Em ordem cronológica, eles reúnem dos cantos ameríndios à poesia contemporânea. Cada volume se inicia com uma apresentação do organizador; no primeiro livro, há também considerações acerca do projeto, onde esclarece sua gênese.

O projeto original foi desenvolvido por iniciativa da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, em 2010, durante o governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Havia a proposta de criação de um portal na internet, com poemas de autores brasileiros. Seu lançamento seria “acompanhado de eventos presenciais, debates e entrevistas com poetas contemporâneos de diversas regiões do país”. “Contudo”, afirma o organizador, “as mudanças da política cultural ocorridas com a troca ministerial do novo governo [da presidente Dilma Rousseff] levaram ao cancelamento do projeto, datado de 17 de janeiro de 2012, sem que este tenha se efetivado ou algum desembolso financeiro ocorrido”.

Como o cancelamento foi legitimado após a realização da pesquisa e da conquista de direitos de publicação de muitos poemas, Sergio Cohn decidiu publicar a antologia em forma de livro, “por conta própria”. A seleção dos poemas se deu pela “representatividade” de seus autores e, conforme o organizador, “como é de se esperar numa antologia”, na seleção “se traduz um olhar pessoal”.

Trata-se sem qualquer dúvida da antologia da poesia brasileira de maior alcance diacrônico já publicada, além de reservar aos seus leitores o panorama de alguns períodos até então pouco examinados, como os cantos ameríndios e a poesia dos anos 1980, que trazem boas surpresas.

Esta antologia só não apresenta um panorama mais completo da poesia brasileira porque algumas autorizações de reprodução de poemas não foram conquistadas. É um motivo que tem levado regularmente as antologias a apresentar significativas lacunas. Em Portugal, Seria uma rima, não seria uma solução: poesia modernista, organizada por Abel Barros Baptista e Osvaldo Silvestre, sofreu do mesmo mal, o que, no seu prefácio, foi discutido com propriedade pelos organizadores.

No volume da Azougue sobre o modernismo, para suprir a falta de alguns autores importantes, Sergio Cohn se valeu muito bem da apresentação para fazer considerações sobre suas obras, aproveitando o espaço para citar poemas, o que é permitido pela Constituição brasileira. Encontram-se nessa situação Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Cecília Meireles, entre outros.

A qualidade das apresentações varia, conforme o volume e seu período histórico. No caso da poesia colonial, há imensa simplificação; muitas tensões da literatura dessa época não são nem mesmo referidas. Exemplo notável disso é a consideração de que a poesia de Cláudio Manuel da Costa é de “alto teor bucólico, sendo alguns de grande beleza”. Sabemos por diversos estudos, como a Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, ou Destes penhascos, de Sérgio Alcides, que sua poesia está marcada por intenso dilaceramento do sujeito e pela natureza em processo de devastação decorrente da extração do ouro. Já na apresentação sobre o modernismo, as análises revelam maior domínio do organizador, apesar de alguns equívocos de ordem histórica, como a data da realização da Semana de Arte Moderna de 1922; há também citações errôneas, como a de “Poética”, de Manuel Bandeira, desestrurando o uso hábil do verso livre.

Outro problema da antologia pode ser aqui apontado – e um problema grave em se tratando da possiblidade de ela ser adota no ensino de todos os níveis: a falta de bibliografia indicando de onde os poemas foram reproduzidos, de modo que não há qualquer garantia da qualidade das edições adotadas para a fixação dos textos.

Avaliando a antologia num todo, ela é importantíssima para um reconhecimento panorâmico da poesia brasileira sob perspectiva diacrônica e permite aos leitores examinar suas transformações. Como toda antologia, também pode dar aos leitores a oportunidade de conhecer alguns poetas de menor circulação, como Solano Trindade. Contudo, a edição revela alguns problemas relevantes, que devem pôr os estudiosos em alerta. Caso seja adotada para qualquer nível do ensino, é recomendável checar dados, conferir a fidedignidade da reprodução dos poemas e buscar maiores informações sobre os autores selecionados em outras fontes mais especializadas. Além disso, para alguém interessado em fazer um trabalho hercúleo dessa natureza (uma antologia das origens ao contemporâneo), seria interessante a inclusão de alguns cordelistas, cuja literatura é muito representativa sobretudo da cultura nordestina.

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Coluna da revista Ler – abril de 2011

Não quero entrar para a Academia”

Após a morte do ficcionista Moacyr Scliar, que ocupou a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, cogitou-se na candidatura do poeta Ferreira Gullar: “Fui consultado por alguns amigos meus da Academia, perguntando se eu aceitaria me candidatar, desde que um número muito grande de acadêmicos me enviasse um documento pedindo que me candidatasse. Diante disso, me senti constrangido de dizer não. Seria arrogante”, relatou o poeta ao site Terra Magazine. Gullar, que tanto recusara convites de candidatura à Casa de Machado de Assis, parecia finalmente ceder. No dia seguinte, porém, amanheceu angustiado: “Quando acordei, me senti muito mal porque aquilo não correspondia ao que sou. Não quero entrar para a Academia. Então, eu acordei: ‘Estou fazendo uma coisa contra o que eu sou.’ Liguei para os amigos e desfiz. Nunca pretendi entrar para a Academia.” A vaidade de Ferreira Gullar expirou em menos de 24 horas.

 CULTURA MARGINAL

Frederico Coelho é um jovem ensaísta e pesquisador carioca, mestre em história pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica, onde leciona; curador assistente de artes plásticas do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e DJ. Foram quatro os seus livros publicados em 2010: Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado (Civilização Brasileira); DJs (Editora Sinergia), com Joca Vidal; Museu de Arte Moderna Rio de Janeiro – arquitetura e construção (Cobogó) e Livro ou livro-me (Eduerj). O repertório de Fred, como é conhecido no meio acadêmico e artístico, tem vasta mobilidade: caminha com desenvoltura pelas artes plásticas, cinema, literatura e música popular brasileira.

Gostaria aqui de destacar Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado (336 p.), pois trata-se de sua obra que compreende a maior variedade de manifestações artísticas e pela qual melhor observamos a consistência de seu pensamento. Este livro destina-se à análise da formação da cultura marginal dos anos de 1960 e 1970, no Brasil, delimitando os seus espaços de atuação, bem como os seus principais atores. No entanto, Fred também desconstruirá a história canônica e estabelecerá novos diálogos entre obras da contracultura. É quando revela a existência de um movimento marginal na arte e na sociedade muito mais amplo do que se costuma pensar. Por meio de uma leitura ao mesmo tempo extensa e minuciosa, Frederico Coelho mostra então os “deslocamentos” de alguns personagens da contracultura brasileira, como Glauber Rocha, Hélio Oiticica, Jorge Ben e Torquato Neto.

Um ponto a destacar é a sua tentativa de comprovar “o surgimento de uma cultura marginal no bojo do tropicalismo musical”. Aqui se torna mais visível a habilidade de Fred Coelho como pesquisador, trabalhando com depoimentos de diversos artistas desse período, material de imprensa ou de arquivos, além das próprias obras marginais. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado serve aos interessados que buscam se iniciar nos estudos da contracultura brasileira dos anos 1960 e 1970, mas também aos já iniciados que pretendem conhecer uma pesquisa original e rigorosa, com um texto muito bem redigido, exemplar e esclarecedor.

 Com a faca e o queijo na mão

Dirigida por Nuno Barros e Rui Gomes Araújo, a Babel Brasil já ganhou pontos antes mesmo de seu lançamento no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a 14 de março: contratou o ficcionista Luiz Ruffato para o cargo de curador de catálogo. Um dos mais notáveis autores contemporâneos da lusofonia, Ruffato conhece como poucos tanto o mercado editorial brasileiro quanto a produção de jovens escritores. Com o montante de R$ 6 milhões para investir nessa nova editora, o grupo editorial português sob o comando de Paulo Teixeira Pinto tem meios de formar a longo prazo um dos melhores catálogos de autores brasileiros.

LANÇAMENTOS DO MÊS

Cláudio Manuel da Costa – o letrado dividido, de Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras. 272 p.

Mediante uma pesquisa rigorosa em acervos brasileiros e portugueses, a professora de história da Universidade de São Paulo preenche uma série de lacunas da biografia do poeta Cláudio Manuel da Costa.

Mário de Andrade. Seus contos preferidos. Organização e apresentação de Luiz Ruffato. Rio de Janeiro: Tinta Negra. 312 p.

Reunião dos contos selecionados por Mário de Andrade em uma das enquetes da Revista Acadêmica, em 1938: “Quais os dez melhores contos brasileiros?” Esta antologia revela de maneira surpreendente alguns aspectos centrais da ficção marioandradiana.

Bibliographia brasiliana: livros raros sobre o Brasil publicados desde 1504 até 1900 e obras de autores brasileiros do período colonial, de Rubens Borba de Moraes. São Paulo: Edusp. 2 vol. 1232 p.

Obra de referência de bibliotecários e pesquisadores brasileiros, com verbetes e dados relevantes sobre os títulos selecionados.

 CHUTES E PONTAPÉS

A bola já rolou na Copa de Literatura Brasileira 2011, que pode ser acompanhada pelo seu blog (http://copadeliteratura.com.br/) ou twitter (http://twitter.com/copaliteratura/). A regra é simples e clara: “Dezesseis livros, escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros lançados no período definido, disputam o prêmio em quatro rodadas”, explica Lucas Murtinho, organizador dos confrontos. Trata-se de uma iniciativa admirável, que fixou um canal para estimular anualmente debates sobre a literatura brasileira contemporânea.

Um dado interessante pode ser observado: nas edições anteriores, sobram farpas contra a crítica da literatura, talvez o alvo mais frequentemente combatido nos cinco anos da copa. No primeiro jogo das oitavas de final de 2011 – entre Como desaparecer completamente, de Andre de Leones (Rocco, 2010), e Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg (Rocco, 2009) –, o jurado Marcos Vinícius Almeida também já lançou críticas à função da crítica da literatura. Ao ler seus argumentos, no entanto, sobressalta um exame frágil, conservador e sistemático, que parece acompanhar os sumários dos manuais de teoria da literatura e justificar o seu descontentamento.

Quando voltaremos a contar, na Copa de Literatura, com a argúcia de um André Sant’Anna (edição de 2008), que selecionou O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, “para ficar bem com todo mundo”? Ali sim havia uma crítica severa ao apadrinhamento nas letras contemporâneas – e de modo atípico, distante dos instrumentos da própria crítica.

Espero jurados mais ousados!

 O EMIR

No segundo turno das eleições presidenciais de 2010, a então candidata Dilma Roussef contou com o apoio de Chico Buarque de Hollanda num encontro com intelectuais cariocas. Há quem afirme tratar-se do ponto alto de sua campanha à presidência da República. Poucos meses depois, já empossada, a presidente Dilma nomeou Ana de Hollanda para o cargo de Ministra da Cultura. Sua nomeação foi relacionada ao apoio oferecido pelo irmão à Dilma Roussef e provocou de imediato algumas reações contrárias. Em seguida, a Ministra indicou o sociólogo Emir Sader para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, um dos principais órgãos da Cultura. Mal sabia quem estava nomeando.

Entrevistado a 5 de fevereiro pelo jornalista Miguel Conde do jornal O Globo, Sader, que ainda não contava com a sua nomeação publicada no Diário Oficial, manifestou plano de “incentivar a intelectualidade a produzir”, na Casa de Rui Barbosa, “uma reflexão mais contemporânea sobre o Brasil”. “Pretendemos fazer ciclos mensais de grandes conferências. O Slavoj Zizek vai fazer o lançamento do livro dele lá. O Istvan Meszaros. Vamos trazer o Eduardo Galeano, a Maria Rita Kehl, a Marilena Chauí, o José Luís Fiori, o Carlos Nelson Coutinho”, afirmou.

A lista do sociólogo Emir Sader e seu interesse em discutir o Brasil contemporâneo soaram como aparelhamento, com um pensamento de esquerda, de uma instituição de natureza liberal. A discussão a partir daí ganhou todo o país, o que foi intensificado com a segunda entrevista de Sader, agora para Paulo Werneck, jornalista d’A Folha de S. Paulo, publicada a 27 de fevereiro: “Tem o corte, o orçamento é menor, e tem dívidas. Desde março não se repassou nada aos Pontos de Cultura. Teve uma manifestação em Brasília. Está estourando na mão da [ministra] Ana [de Hollanda] porque ela fica quieta, é meio autista”, comentou ao tratar da situação orçamentária do Ministério da Cultura.

Emir Sader desmentiu seu comentário no dia seguinte, referindo-se então à manipulação de sua entrevista pela imprensa. Foi quando o jornalista Paulo Werneck divulgou a gravação da entrevista no site da Folha, em que era possível confirmar outra observação desagradável e indecente (“Quem diria que aquele nego baiano [Gilberto Gil, ex-Ministro da Cultura] tem muito mais articulação do que o Caetano?”), além de comentários de baixo calão não divulgados na matéria impressa.

No dia 2 de março, na coluna de Ancelmo Góis, podia se ler que Ana de Hollanda desistiu da nomeação do sociólogo Emir Sader para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, o que veio a ser confirmado em seguida no próprio site do Ministério. Se Ana de Hollanda foi nomeada por merecimento ou não, é um fato a se constatar; de antemão, porém, conseguiu fazer com que o Ministério da Cultura se tornasse o centro das atenções do país durante duas semanas.

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Coluna A voz do Brasil – outubro

EDNEY, DE OLHOS BEM ABERTOS

O romance Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, ganhou o prêmio São Paulo de Literatura na categoria revelação e encontra-se entre os 10 finalistas do Jabuti, na categoria romance. Depois do lançamento de A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, trata-se da estreia mais bem-sucedida na ficção brasileira contemporânea da última década.

Jornalista renomado, Edney foi correspondente internacional d’O Globo e da TV Globo, vivendo em Nova York de 1991 a 2002. Entre os seus trabalhos mais marcantes na imprensa destacam-se a cobertura do atentado às torres do World Trade Center e uma série de reportagens sobre o Iraque. Desde 2003 apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News. Ao contrário de sua atividade jornalística, sempre em frente das câmeras, Edney, como escritor, manteve-se “escondido” por seis anos, criando a trama de Se eu fechar os olhos agora.

Foram muitas as manifestações a favor de sua estreia. Luiz Ruffato destacou que “Edney Silvestre autopsia, com a fina sensibilidade de um raro prosador, a essência da nossa sociedade”. Para Lya Luft, ele não foi uma surpresa, pois “sua penetração psicológica, respeito e visão aguda das questões literárias ao entrevistar autores demonstravam que ali havia um escritor de primeira”. Já Lívia Garcia-Roza observou que seu romance é um “thriller envolvente, que vai em busca da infância de suas criaturas”.

Eduardo e Paulo, dois amigos de 12 anos, são os protagonistas de Se eu fechar os olhos agora. Certo dia saem de casa para nadar na lagoa, mas na volta topam com uma fatalidade, o corpo de uma mulher, Anita, está no chão. Ela foi assassinada e seu corpo traz diversas marcas de esfaqueamento. Os dois vão à delegacia de polícia, tornam-se suspeitos, mas o marido da mulher assume a culpa. O aparente desvendamento do crime, no entanto, não aquieta os garotos. Eles, a partir de então, desconfiados, começam a fazer uma investigação por conta própria, recebendo o auxílio de um ex-preso político. Daí em diante a tensão só vai aumentando.

O que há de mais atraente nesse romance sombrio é o entrelaçamento de ficção com fatos históricos. Ora estes adquirem função quase ilustrativa, ora ganham densidade e tornam-se até mesmo parte estrutural da narrativa. Se os jornalistas são historiadores do calor das circunstâncias, o romancista pode depurá-las, com a calma de quem calcula a medida e o peso dos acontecimentos. E é justamente o que ele soube fazer, com habilidade indiscutível, sobretudo quando escapa das referências universais, tocando no dado histórico que se revela no discurso cotidiano, na impressão de um personagem ou num comentário aparentemente trivial. Em seu romance de estreia, Edney Silvestre soube extrair, da História, fios de distintas espessuras para a construção do literário, compondo uma linguagem instigante e singular.

 

ENFIM, INDÉDITO

A editora Record já anunciou que Adélia Prado, sem inéditos de poesia desde 1999, vai lançar um novo livro, previsto para este mês de outubro. “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis”, declarou Carlos Drummond de Andrade em 1975, logo após o lançamento de Bagagem, livro de estreia da autora.

 

GAUCHÃO DE LITERATURA

Desde junho o Campeonato Gaúcho de Literatura, mais conhecido como Gauchão de Literatura, promove partidas entre escritores gaúchos ou radicados no Rio Grande do Sul. A ideia reproduz o formato criado por Lucas Murtinho na Copa de Literatura, cujo sucesso tem sido maior a cada ano. A comissão organizadora desse web-encontro regional é composta por Ana Mello, Carlos André Moreira, Daniel Weller, Fernando Ramos, Luciana Thomé, Marcelo Spalding e Rodrigo Rosp. Livros como Escuro, claro, de Luis Augusto Fischer (L&PM), e Play, de Ricardo Silvestrin (Record) disputam o campeonato. Para acompanahar as partidas, basta acessar o site gauchaodeliteratura.com.br.

 

E ONDE FICA PORTUGAL?

Os finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2010 foram anunciados no dia 31 de agosto, no Consulado de Portugal em São Paulo, provocando de imediato uma série de questionamentos não propriamente em relação aos livros selecionados, mas aos que foram excluídos. A lista contempla as seguintes obras: A passagem tensa dos corpos, de Carlos de Brito Mello (Companhia das Letras); AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki (Companhia das Letras); Caim, de José Saramago (Companhia das Letras); Lar,, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras); Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras); Monodrama, de Carlito Azevedo (7Letras); O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras); Olhos secos, de Bernardo Ajzemberg (Rocco); Outra vida, de Rodrigo Lacerda (Objetiva/Alfaguara), e Pornopopeia, de Reinaldo Moraes (Objetiva).

As discussões em torno desse prêmio dizem respeito sobretudo ao número de livros de autores portugueses entre os finalista, apenas 1, Caim, romance de José Saramago. Foram excluídos da finalíssima os romances O meu nome é legião e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, ambos de Antonio Lobo Antunes, além de Poemas do Brasil, de Maria Teresa Horta, e Boa noite, senhor Soares, de Mário Cláudio. Não havia, entre os pré-finalistas, qualquer livro de conto.

Essa redução não me parece alarmante diante do número inicial de 5 livros portugueses na lista dos 54 pré-finalistas, embora tanto Antonio Lobo Antunes quanto Mário Cláudio pudessem estar, com folga, entre os 10 selecionados da última etapa. Mais alarmante, porém, é que pouquíssimos poetas portugueses contemporâneos (apenas 2) tenham sido publicados no Brasil em 2009. (Gastão Cruz, com seu A moeda do tempo e outros poemas, organizado por Jorge Fernandes da Silveira, não pôde concorrer ao Telecom de Literatura, por não se encaixar nos parâmetros do edital.)

Alarmante é que entre os 54 pré-finalistas estivessem apenas 4 livros de autores portugueses, numa lista em que, sem qualquer dúvida, só não havia mais por falta de livros, embora o Diretório-Geral de Livros e Bibliotecas, o DGLB, venha apoiando no Brasil, sempre com atenção e eficiência, a publicação de livros de autores de Portugal ou de outros territórios da língua portuguesa, trabalho que, por sinal, deve ser reconhecido e louvado. É mais fácil no Brasil publicar um autor português do que um brasileiro, graças ao esforço do DGLB e seus funcionários, como a excelente e competentísima Ana Castro, mas não há, da parte das editoras brasileiras, muito interesse em lançar autores portugueses, mesmo com o sucesso de Antonio Lobo Antunes e Inês Pedrosa nos últimos três anos. Mesmo a Leya Brasil, que poderia fazer com mais facilidade o trânsito de autores portugueses para cá, não os tem publicado, e a Língua Geral, especializada em escritores lusófonos, reduziu sua publicação nos últimos dois anos por causa de uma crise já superada, felizmente. Espera-se agora, com a sua revitalização, com alguns novos livros previstos até o fim do ano, como Três vidas, de João Tordo, que no Telecom 2011 haja maior presença dos portugueses na finalíssima.

O outro motivo de discussão está relacionado com a falta de autoras na finalíssima. Contudo, não há razões para fazer qualquer vinculação dessa falta com argumentos de gênero, pois entre os quatro jurados havia duas mulheres, Leyla Perrone-Moisés e Selma Caetano, cuja competência é inquestionável. As razões foram, não há dúvidas, estritamente literárias, embora, tal como se deu com os romances de Lobo Antunes e Mário Cláudio, era possível contar, sem perda de qualidade para a disputa, com os excelentes livros de Beatriz Bracher e Paloma Vidal. Aí o que talvez entre em jogo é a arbitrariedade ou subjetividade que cada juri tem, em maior ou menos medida.

 

LANÇAMENTOS DO MÊS

Desgracida, de Dalton Trevisan. Rio de Janeiro: Record. 240 p.

Um dos maiores contistas da literatura brasileira contemporânea, Dalton Trevisan já recebeu, entre outros, o Prêmio Telecom de Literatura 2003 e o Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional. O livro está dividido em duas partes: em “Ministórias”, a primeira, há microcontos, em que Trevisan busca chegar à perfeição através do mínimo; em “Mal traçadas linhas”, segunda parte, encontram-se, reproduzidas, cartas enviadas a amigos, entre os quais Oto Lara Resende, Pedro Nava e Rubem Braga.

 

Diário do hospício e o Cemitério dos vivos, de Lima Barreto. São Paulo: Cosac & Naify. 352 p., 24 ilustrações.

O volume reúne duas obras de um dos autores mais notáveis da literatura brasileira. Em Diário do hospício, Lima Barreto relata seu cotidiano de quando esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, entre o Natal de 1919 e fevereiro de 1920. Já Cemitério dos vivos é uma novela inacabada que trata da loucura. O livro ainda conta com prefácio exclusivo de Alfredo Bosi e notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura.

 

A OBRA DE WALTÉRCIO CALDAS

Salas e abismos apresenta o trabalho singular de um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros. Em edição bilíngue, o livro publicado pela Cosac & Naify chama a atenção pelo formato: enorme, com 28×36 cm e 2,07 kg, com projeto gráfico desenvolvido por Waltércio Caldas.

Nesse livro é possível conhecer boa parte de suas obras, que, conforme Paulo Venancio Filho, revela um “grande sistema em interrogação”. As peças selecionadas que compõem o livro são de uma grande eficiência, pois permitem que elas sejam relacionados entre si, estimulando no leitor/expectador um jogo dialético e construtivo.


Suas peças destacam-se pela imprevisibilidade: esculturas que questionam as esculturas tradicionais, misturas de formas abstratas e concretas, leves e pesadas, com uso habilidoso do espaço, o que as fotografias ajudam a retratar.

Vale pôr em destaque, nesse livro, como um projeto gráfico pode favorecer o todo. Parte da eficiência de Salas e abismos resulta da dimensão desse volume, que permite a visualização do uso do espaço que as obras revelam nos museus.

 

 

 

 

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