Arquivo da tag: Poema

Malasartes, 1975 – Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto

 

Já sabemos que a civilização está em boas mãos,
que a economia está em boas mãos, que o poder passa
de boas em boas mãos. E a poesia, está em boas mãos?
Esperamos que não.

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“Cardiograma” – Marcos Siscar

 

as ruas não eram mais argumentos recusavam-se
desiguais ou em lascas emudecidas e sem segredo
no melhor dos casos me dizia já sem convicção
essas ruas áridas oblíquas avaras seriam
um ritmo de falhas sobre as quais
se debruçam velhas quaresmeiras
em flor

 

De Manual de flutuação para amadores, 7Letras

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De A teus pilotis, de Nicolas Behr

 

e deus criou o mundo
(brasília)
o homem (jk)
e a mulher
(dona sarah)
em 6 dias
entre 1956 e 1961 a.c.

(naqueles tempo bíblicos
o ano tinha apenas 1 dia)

no sétimo dia
um domingo
deus descansou

no rio de janeiro

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“Romance XIX ou Dos maus presságios”, de Cecília Meireles

Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha Santa Ifigênia
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres…

Sobre o tempo vem mais tempo.
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios…
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo…
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!

 

Romanceiro da Inconfidência, 1953

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“Ressaca de 17 de abril de 2016”, de Laura Liuzzi

acordar e constatar
que as ilhas não afundaram
que estão fixas as raízes das árvores
que o sol, apesar do escuro nas almas, voltara.

constatar que ainda sei andar
que minhas pernas ainda estão encaixadas
em meu tronco que os meus olhos enxergam
que os meus olhos não se fecharam novamente.

acordar desconfiada até dos lençóis que me cobriam
desconfiada da cor branca, que por pouco se mancha
desconfiada do cheiro desconfiada de sua lisura.

tomar um copo de água do dia anterior e constatar
que isso não restaura nada. desconfiar dos principais
aspectos da água: incolor, inodora, insípida.

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“Sobre o ombro esquerdo”, de Jorge Fernandes da Silveira

A partir da leitura de “É”, poema de Eucanaã Ferraz, Jorge Fernandes da Silveira escreveu os versos de “Sobre o ombro esquerdo”, também dialogando com Carlos Drummond de Andrade e Carlos de Oliveira:

Da vida dos livros
há muito ele nos vê.
Fita-nos com o olhar maravilhado e fatal
qual o Gigante mira.
Descolado
tem a medida justa dos olhos em que a humanidade cabe
em cena. Metamorfoses.
E porque insiste nele
o desejo absurdo de Ocidente não tem idade.
Está onde estiver.
Calado é nave homem cavalo ângelus ân
fora. Vozes. Pedra de lida (lida delida deslida) de lira.
Dadivoso da sestra mão sobre o ombro esquerdo funda
Davi tenro e novo ramo florescente o mundo.

19 de março de 2016

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“Coliseu”, de Cecília Meireles

 

Cem mil pupilas houve:

– cem mil pupilas fitas na arena.

 

Os olhos do Imperador, dos patrícios,

dos soldados, da plebe.

 

Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

 

E os olhos da fera acossada,

do lado oposto.

Os olhos que ainda brilham fulvos,

agora, na eternidade igual de todos.

 

Cem mil pupilas:

– ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas…

vagas, severas, lânguidas…

Cem mil pupilas veem-se, na poeira da pedra deserta.

 

Entre corredores e escadas,

o cavo abismo do úmido subsolo

exala os soturnos prazeres da antiguidade:

 

um vozerio arcaico vem saindo da sombra,

– ó duras vozes romanas! –

um quente sangue vem golfando,

– ó negro sangue das feras! –

um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.

– Ó surdo nome trêmulo da morte!

 

(Não cairão jamais estas paredes,

pregadas com este sangue e este rugido,

a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,

as cordas do humano pasmo sobre o último estertor…)

 

Cem mil pupilas ficam aqui,

pregadas nas pedras do tempo,

manchadas de fogo e morte,

no fim do dia trágico,

depois daquela ávida e acesa coincidência

quando convergiram nesta arena de angústia,

que hoje é pó de silêncio,

esboroada solidão.

 

(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.

E os sorrisos perderam-se, fúteis,

sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)

 

 

Poemas italianos, 1968

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