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“Quinta de tarde”, de Eudoro Augusto

Não esperava você
antes do próximo verão.
Foi precipitação de sua parte,
foi sua arte. Aquela estranha estratégia
de ferir e depois usar a língua mais doce
pra lamber as feridas.
Não podia adivinhar que você viria
nesta quinta de tarde,
sentindo no ar o velho cheiro
de sal e de sangue.
Os demônios me arranham
nesta temporada de sombras
e maçãs podres.
Estação do exílio e do desespero.
Hoje outra vez eu me escondo
em luas escusas.
De cara virada,
os olhos fixos no planeta mais obscuro,
pedindo perdão aos deuses do sono.
Então emudeço o telefone,
tranco as portas como um bandido acossado,
cancelo visitas, luzes, vozes, chaves,
interdito as emoções claras
e as cintilantes naves.
Meu pensamento trava.
Não, eu não estava
esperando você.

 

Ventura (1984-1987) in O desejo e o deserto (1989)

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Malasartes, 1975 – Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto

 

Já sabemos que a civilização está em boas mãos,
que a economia está em boas mãos, que o poder passa
de boas em boas mãos. E a poesia, está em boas mãos?
Esperamos que não.

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“Cardiograma” – Marcos Siscar

 

as ruas não eram mais argumentos recusavam-se
desiguais ou em lascas emudecidas e sem segredo
no melhor dos casos me dizia já sem convicção
essas ruas áridas oblíquas avaras seriam
um ritmo de falhas sobre as quais
se debruçam velhas quaresmeiras
em flor

 

De Manual de flutuação para amadores, 7Letras

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De A teus pilotis, de Nicolas Behr

 

e deus criou o mundo
(brasília)
o homem (jk)
e a mulher
(dona sarah)
em 6 dias
entre 1956 e 1961 a.c.

(naqueles tempo bíblicos
o ano tinha apenas 1 dia)

no sétimo dia
um domingo
deus descansou

no rio de janeiro

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“Romance XIX ou Dos maus presságios”, de Cecília Meireles

Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha Santa Ifigênia
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres…

Sobre o tempo vem mais tempo.
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios…
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo…
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!

 

Romanceiro da Inconfidência, 1953

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“Ressaca de 17 de abril de 2016”, de Laura Liuzzi

acordar e constatar
que as ilhas não afundaram
que estão fixas as raízes das árvores
que o sol, apesar do escuro nas almas, voltara.

constatar que ainda sei andar
que minhas pernas ainda estão encaixadas
em meu tronco que os meus olhos enxergam
que os meus olhos não se fecharam novamente.

acordar desconfiada até dos lençóis que me cobriam
desconfiada da cor branca, que por pouco se mancha
desconfiada do cheiro desconfiada de sua lisura.

tomar um copo de água do dia anterior e constatar
que isso não restaura nada. desconfiar dos principais
aspectos da água: incolor, inodora, insípida.

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“Sobre o ombro esquerdo”, de Jorge Fernandes da Silveira

A partir da leitura de “É”, poema de Eucanaã Ferraz, Jorge Fernandes da Silveira escreveu os versos de “Sobre o ombro esquerdo”, também dialogando com Carlos Drummond de Andrade e Carlos de Oliveira:

Da vida dos livros
há muito ele nos vê.
Fita-nos com o olhar maravilhado e fatal
qual o Gigante mira.
Descolado
tem a medida justa dos olhos em que a humanidade cabe
em cena. Metamorfoses.
E porque insiste nele
o desejo absurdo de Ocidente não tem idade.
Está onde estiver.
Calado é nave homem cavalo ângelus ân
fora. Vozes. Pedra de lida (lida delida deslida) de lira.
Dadivoso da sestra mão sobre o ombro esquerdo funda
Davi tenro e novo ramo florescente o mundo.

19 de março de 2016

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