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Lançamento – A poesia e a crítica, de Antonio Cicero

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17/06/2017 · 19:50

Istambul, de Orhan Pamuk

Qualquer que seja a quantidade de carros que caíram no Bósforo ao longo dos anos, a história é sempre a mesma: os passageiros acabam arrastados para as profundezas, de onde não existe volta. Não só já ouvi e li essas histórias como já vi alguns carros caindo com meus próprios olhos! Não importa quem sejam os passageiros – crianças aos berros; um casal de amantes brigando; um bando de bêbados incovenientes; um marido que volta para casa às pressas; um velho que não enxerga bem no escuro; um motorista sonolento que parou no cais para tomar chá com os amigos e depois saiu de primeira em vez de engatar a marcha a ré; Sefik, o velho tesoureiro, com a sua linda secretária; policiais que contavam os navios singrando o Bósforo; um motorista aprendiz que saiu com a família no carro da fábrica sem permissão; um fabricante de meias de nylon que por acaso é conhecido de um parente distante; um pai e um filho usando capas de chuva idênticas; um famoso gângster de Beyoglu e a sua amante; uma família de Konya que estava vendo pela primeira vez as pontes do Bósforo – quando os carros voam para dentro d’água, nunca afundam direto como pedras. Por um momento oscilam, como que pousados na superfície. Pode ser à luz do dia, ou a única iluminação pode ver de uma meyhane próxima, mas quando as pessoas do lado vivo do Bósforo olham para o rosto daqueles que estão a ponto de afundar, veem um terror consciente. Um instante depois o carro afunda devagar no mar profundo, escuro e cortado por rápidas correntezas.

Istambul, de Orhan Pamuk, tradução de Sergio Flaksman

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Os sentidos do lulismo, de André Singer

Recomendo a leitura de Os sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador, de André Singer, professor de Ciências Políticas da USP e colunista da Folha de S. Paulo. Na minha opinião, é um dos livros cruciais para buscarmos a compreensão do momento político do Brasil. Abaixo, informações sobre o livro extraídas do site da Companhia das Letras:

Em novembro de 2009, a prestigiosa revista Novos Estudos, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), publicou um artigo de André Singer que já se tornou um marco da ciência política brasileira. Escrito durante o auge da popularidade desfrutada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “Raízes sociais e ideológicas do lulismo” analisava o grande realinhamento eleitoral ocorrido no país durante o pleito de 2006. O subproletariado – isto é, a massa de dezenas de milhões de pessoas excluídas das relações de consumo e trabalho, e que sempre havia se mantido distante da ameaça de “desordem” representada pela esquerda – aderiu em bloco à vitoriosa candidatura à reeleição. Ao mesmo tempo, a classe média tradicional se afastou de Lula e do PT após as denúncias de corrupção que originaram o caso do “mensalão”. Invertia-se, desse modo, a trajetória eleitoral do partido e de seu principal líder, até então apoiados majoritariamente pelos eleitores urbanos e pelos estratos sociais de maior renda e instrução.

Neste ensaio inédito, muito aguardado pelos observadores e atores da política nacional e que cristaliza suas reflexões sobre o tema, o autor explica como a manutenção da estabilidade econômica e as ações distributivas patrocinadas pelo Estado estão na raiz do massivo apoio das classes populares a Lula – e, a partir de 2010, a sua pupila Dilma Rousseff. Grande conhecedor dos bastidores do PT e do primeiro governo Lula, Singer realiza uma aguda radiografia das relações de classe e poder no Brasil.

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“Sur”, de Eucanaã Ferraz, lido por Fabrício Corsaletti

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Antonio Cicero lê “Na curva deste minuto”, de Eucanaã Ferraz

Do livro Escuta (Companhia das Letras, 2015):

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“Brasil: uma biografia”, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa M. Starling

Extraído do blog da Companhia das Letras:

No começo de maio, a Companhia das Letras lança Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Com acesso a documentação inédita e vasta pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país. Nessa viagem de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais.

Inaugurando esta nova seção no blog, que apresentará com mais profundidade os futuros lançamentos da editora, entrevistamos Lilia e Heloisa sobre o livro, que já está em pré-venda. Leia o que elas dizem sobre o método escolhido, o recorte temporal, as inspirações e afiliações na historiografia e a necessidade de uma nova obra acessível ao público geral sobre a história do Brasil.

Por que fazer uma nova história geral do Brasil em 2015?

Existem muito boas histórias gerais do Brasil, mas poucas delas, arriscamos dizer, carregam as características que queremos perseguir nesse livro, como um todo.

Em primeiro lugar, mais do que apenas cronológico, o livro sustenta um argumento geral. Procura entender como o caminho para a democracia foi difícil e singular num país marcado pelo sistema escravocrata. Aliás, é bom lembrar que o Brasil contou com o mais duradouro sistema escravista da era moderna; aquele que absorveu a maior diáspora compulsória de africanos, e o único que tomou o território todo. Isso sem esquecer que o país foi o último a abolir a escravidão e sente suas consequências até hoje nas práticas clientelísticas, nos paternalismos, no preconceito ao trabalho, na corrupção interna.

Também cabe insistir em outra marca que encontramos no caminho e decidimos sublinhar. Ao longo da nossa história, a palavra liberdade foi expressa em épocas diferentes nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes personagens. Compreender o poder da palavra liberdade e o modo como ela se manifesta na origem dos caminhos da democracia brasileira ajuda a entender a longa jornada das lutas sociais do povo brasileiro. A democracia é hoje um dos mais fortes consensos no Brasil e sua consolidação constitui um dos nossos maiores legados para as próximas gerações de brasileiros. Mas de tanto ser banalizada, a ideia de democracia, e o longo processo de lutas que garantiu sua construção no país, é hoje mal conhecida por nosso povo, sobretudo pelos jovens.

Vale destacar, ainda, que recuamos ao período anterior à chegada dos portugueses, incorporando as novas teorias e pesquisas da etnologia, da história e da antropologia, que mostram as riquezas das sociedades ameríndias, em termos de mitologia e filosofias.

Outra novidade é o uso crítico das imagens, não como ilustrações, mas como documentos. Nós tentamos ressaltar a importância das narrativas contidas nas imagens, os significados que elas trazem e os efeitos que podem produzir sobre a realidade. Por exemplo: a fotografia de um treinamento de tortura realizado por um batalhão da Guarda Presidencial do Exército, em Brasília, afeta o curso da história oficial sobre o período da ditadura militar — revela que a versão das Forças Armadas não corresponde ao que aconteceu. Nós gostaríamos de convidar o leitor a também ler as imagens e descobrir junto conosco que elas falam de maneira eloquente sobre as circunstâncias e os motivos que fazem do Brasil, Brasil. Foi realizada, também, uma ampla pesquisa iconográfica, de maneira a ampliar o nosso acervo visual e não apenas devolver o que se conhece.

Quem sabe vale a pena destacar a relevância dessa escrita em diálogo. Nossa formação é comum, e também distinta (aliando história, mas também antropologia e ciência política), e nos especializamos em períodos e abordagens bastante diferentes. Heloisa é especialista na história de Minas, nas concepções de república e do republicanismo e no período contemporâneo: em particular a ditadura militar. Lilia trabalha com temas do final do período colonial, do império e primeira república. Também especializou-se em discutir a imagem como linguagem visual. Além do mais, se ambas trafegam pelos mesmos mares, Lilia sempre acentua a questão cultural e a antropologia, e Heloisa não se esquece da ciência política. Por conta dessa escrita mestiça (não como acomodação, mas sim diálogo) o livro introduz sempre cultura e política; política e cultura.

Por fim, é explícito no projeto a ideia de que não há como contar “a” história, mas, sim, “uma” história sobre o Brasil; ou melhor, algumas histórias sobre o Brasil. Ou ainda: tentamos fazer do Brasil uma história. Um projeto como esse é um convite ao leitor para embarcar conosco numa aventura, mas essa é uma viagem com roteiro explícito. Afinal, não se consegue escrever uma história exaustiva do Brasil — e é possível escrever um número interminável de histórias sobre o Brasil.

Qual é o recorte temporal?

O livro segue sistematicamente até a primeira eleição de FHC, a despeito de na sua conclusão avançar até o momento presente — o governo Dilma Rousseff —, alcançando as manifestações de junho de 2014, o processo de consolidação da nossa experiência democrática e os riscos que ela corre — daí as referências ao mensalão ou ao escândalo da Petrobrás. A ideia é que os governos de FHC e Lula, de alguma maneira, ainda estão em curso, até porque os dois líderes continuam atuantes e suas políticas permanecem presentes na nossa agenda. A primeira eleição de FHC e sua posse em 1995 marcam o fim do período de redemocratização e daqui para frente está tudo em aberto. Nossa aposta é que uma novíssima história do Brasil está — ou deveria estar — começando, e nós brasileiros temos grandes tarefas pela frente: recuperar a República, sustentar o desenvolvimento, ampliar a igualdade, acentuar a democracia… O tempo presente e os homens do presente são um pouco de cada um de nós e essa nova história ainda está em seu início.

Quais foram as principais inspirações para este livro?

Há muitas boas histórias gerais do Brasil e citamos apenas algumas. O grande projeto em vários volumes — História Geral das Civilizações —, organizado por Sergio Buarque de Holanda e depois por Boris Fausto, é sem dúvida um grande modelo ao unir os maiores estudiosos brasileiros e recortar temas gerais da nossa agenda. Mas a coleção, como toda coletânea de ensaios, tem altos e baixos, e os diferentes capítulos não obrigatoriamente dialogam entre si. Há também o livro de História do Brasil, de Boris Fausto, da Edusp, que representou um avanço imenso em termos de documentação, de crítica e de coerência historiográfica. Não há como se esquecer dos bons livros de colegas e jornalistas — Laurentino Gomes, Eduardo Bueno — que têm nos ajudado a refletir e aceitar o desafio de alcançar um público mais amplo.  No nosso caso, porém, o desafio era, igualmente, incluir pesquisa original e documental. É preciso destacar, ainda, que um livro como esse só poderia ser feito por conta da excelente qualidade e maturidade da historiografia brasileira, internacionalmente reconhecida, que tem produzido investigação de ponta acerca dos mais diversos períodos da nossa formação nacional. Sem ela esse livro não existiria e a produção está toda referenciada nas notas e na bibliografia em anexo.

Não há como esquecer das coleções estrangeiras — História da vida privadaHistória da família —, por autores como Eric Hobsbawm, Jacques Le Goff, Georges Duby, Robert Darnton, Simon Schama, Carlo Ginzburg que vêm mostrando como é possível narrar a história com charme, saber e diversão. Tudo isso sem perder o rigor

Vale destacar ainda que Lilia, particularmente, se valeu de sua experiência em alguns projetos. Um deles, a coleção História da vida privada no Brasil, que reuniu uma grande equipe de historiadores brasileiros buscando reconstituir aspectos da vida cotidiana no processo histórico de nossa formação nacional. O outro, na coleção Virando os séculos — ambas editadas pela Companhia das Letras. Mais recentemente, Lilia foi diretora da coleção em 6 volumes História do Brasil Nação, pela Mapfre/Objetiva. Essa é uma coleção que conta com os mais importantes especialistas em história do Brasil moderno, faz um amplo levantamento documental e de imagens fundamental e perseguiu um público mais amplo, aliás como esse livro que lançamos agora. Lilia também está preparando para a Ducke University Press (junto com James Green e Victoria Langland) um novo Brazil reader: coletânea cronológica de documentos e respectivos comentários.

Podem comentar a escolha do subtítulo do livro, “uma biografia”?

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Até porque não há nação que possa ser contada de forma linear, progressiva ou mesmo de uma só maneira. Sendo assim, este livro não pretende contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Ao contar uma história, tanto o historiador quanto o leitor aprendem a “treinar a imaginação para que ela faça uma visita”, como diria Hannah Arendt. E é por levar a sério essa noção de “visita” que este livro deixará de lado a meta de construir uma espécie de “história geral dos brasileiros” para se concentrar na ideia de que a biografia talvez seja outro bom caminho para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica: conhecer os muitos eventos que afetaram nossas vidas, e, de tal maneira, que continuam presentes na agenda atual.

Uma biografia é a evidência mais elementar da profunda conexão entre as esferas pública e privada — somente quando estão articuladas, essas esferas conseguem compor o tecido de uma vida, tornando-a real para sempre. Escrever sobre a vida do nosso país implica interrogar os episódios que formam sua trajetória no tempo, e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil onde vivemos — para compreendermos os brasileiros que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser.

A imaginação e a multiplicidade das fontes são dois predicados importantes na composição da biografia. Nela, cabem os grandes tipos, os homens públicos, as celebridades; cabem igualmente personagens miúdos, quase anônimos. Em todos os casos, porém, não cabe tarefa fácil: é muito difícil reconstituir o momento que inspirou o gesto. É preciso calçar os sapatos do morto, na definição preciosa de Evaldo Cabral, conectar o público ao privado, para penetrar num tempo que não é o seu, abrir portas que não lhe pertencem, sentir com sentimentos de outras pessoas e tentar compreender a trajetória dos protagonistas dessa biografia — os brasileiros — no tempo que lhes foi dado viver; as intervenções que protagonizaram no mundo público de cada época com os recursos de que dispunham; a disposição de viverem segundo as exigências de seu tempo e não de acordo com as exigências do nosso tempo. É também não ser indiferente à dor ou à alegria do brasileiro comum, invadir o espaço da intimidade de personagens importantes e escutar o som das vozes sem fama. O historiador anda sempre às voltas com a linha difusa entre resgatar a experiência daqueles que viveram os fatos, reconhecer nessa experiência seu caráter quebradiço e inconcluso, interpelar seu sentido e, por estar atenta a tudo isso, a biografia é, também, um gênero da historiografia.

Brasil: uma biografia será lançado no dia 4 de maio e já está em pré-venda nas principais livrarias.

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“Humor e ritmo do discurso são o forte do livro ‘O irmão alemão'” – Alcides Villaça

Artigo de Alcides Villaça acerca d’O irmão alemão, mais novo romance de Chico Buarque. Publicado no jornal O Estado de S. Paulo:

Sem TítuloSem Nome 2

Sem Nome 3

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