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“Quinta de tarde”, de Eudoro Augusto

Não esperava você
antes do próximo verão.
Foi precipitação de sua parte,
foi sua arte. Aquela estranha estratégia
de ferir e depois usar a língua mais doce
pra lamber as feridas.
Não podia adivinhar que você viria
nesta quinta de tarde,
sentindo no ar o velho cheiro
de sal e de sangue.
Os demônios me arranham
nesta temporada de sombras
e maçãs podres.
Estação do exílio e do desespero.
Hoje outra vez eu me escondo
em luas escusas.
De cara virada,
os olhos fixos no planeta mais obscuro,
pedindo perdão aos deuses do sono.
Então emudeço o telefone,
tranco as portas como um bandido acossado,
cancelo visitas, luzes, vozes, chaves,
interdito as emoções claras
e as cintilantes naves.
Meu pensamento trava.
Não, eu não estava
esperando você.

 

Ventura (1984-1987) in O desejo e o deserto (1989)

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Malasartes, 1975 – Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto

 

Já sabemos que a civilização está em boas mãos,
que a economia está em boas mãos, que o poder passa
de boas em boas mãos. E a poesia, está em boas mãos?
Esperamos que não.

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