08/02/2010

National Portrait Gallery on-line

O caderno Mais! da Folha de S. Paulo recomendou a National Portrait Gallery, uma pinacoteca sediada em Londres que disponibiliza seu catálogo on-line. Há cartas, fotografias e relatórios, por meio dos quais é possível fazer muitas pesquisas relacionadas com os 150 anos da instituição.


08/02/2010

Maria Rita Kehl no Estadão

Ensaísta e psicanalista, Maria Rita Kehl é a mais nova colaboradora do Caderno 2 d’O Estado de São Paulo, revezando seu espaço com Marcelo Rubens Paiva. Com espaço reservado para dois sábados por mês, Maria Rita vai substituir a escritora Adriana Falcão, que deixa o jornal. Quem quiser conhecer mais dessa respeitada ensaísta, autora de Deslocamentos do feminino (2008) e O tempo e o cão (2009), entre outros,  não deixe de visitar o seu site, onde é possível fazer pesquisas de textos que ela escreveu por meio da ferramenta de busca por assuntos. Trata-se de uma excelente via para conhecer alguns dos seus melhores artigos e ensaios.

07/02/2010

Os cinco elementos

Via Lula Arraes, recebi o poema “Os cinco elementos”, do poeta peruano William Furtado de Mendoza Santander. Esse poema foi publicado no livro A rua do padre inglês:

OS CINCO ELEMENTOS

Por que água?, perguntas.

Porque se insinua entre fendas,

brota entre pedras,

confunde as esferas,

toma a forma do Mundo.

Por que vento?

Esvai-se entre ramos,

desliza entre abismos,

canta a voz que cede.

Por que fogo? inquires.

Circunda o nome,

labareda a sombra,

desintegra a alma:

e tudo torna cinza.

Por que terra? interrogas.

Porque submete os passos,

e quando a olhamos,

do alto,

sabemos do pó

a humana condição.

Por que céu?

Um silêncio alisa tua pele:

entre folhas,

um sopro se desprende.

Fogo e água…

05/02/2010

Entrevista com Francisco José Viegas

João Pereira Coutinho entrevistou o romancista português Francisco José Viegas, autor de Longe de Manaus e O mar em Casablanca. A entrevista foi publicada na GQ de janeiro de 2010:

Se a memória não me atraiçoa, és o primeiro escritor português a vencer o prémio de Romance da APE com uma obra assumidamente policial (“Longe de Manaus”). Achas que a “intelligentsia” literata ainda olha para o género com desprezo?

Acho que tem inveja. Passámos de um estado em que a chamada “literatura policial” era desprezada e negligenciada para um em que é invejada, copiada, imitada. Mas o problema é que é mais difícil copiar e imitar a literatura policial do que qualquer outro género. Em Portugal vive-se de exageros, como se sabe… O “Balada da Praia dos Cães”, de Cardoso Pires, era um romance policial e ganhou o prémio em 1983. Mas houve um esforço enorme para dizer que não era policial, que era uma análise da oposição ao regime, por aí fora. Lembro-me de o José Cardoso Pires se desinteressar do assunto. Ele sabia que não havia volta a dar-lhe. Foi o primeiro escritor português a dizer que toda a literatura era policial…

Regressas ao género (e ao teu personagem fétiche, Jaime Ramos) com “O Mar em Casablanca” (Porto Editora). Mas tenho notado – e corrige-me se estiver errado – que os teus livros, sobretudo a partir de “Longe de Manaus”, têm menos de “policial” e mais de “existencial”. Concordas?

Toda a literatura é policial, em alguma medida, coisa que essa “intelligentsia” ainda não percebeu. Porque o policial nunca deixou de escolher como temas aquilo que é essencial nos problemas literários – a morte, a culpa, o desaparecimento, o enigma, o mistério, a procura… O José Cardoso Pires preferia destacar os métodos do policial, de que ele se serve abundantemente em “O Delfim”, um dos grandes romances da nossa literatura do século XX. Mas eu alargo essa influência até aos temas propriamente ditos. A questão é, aí, a do detective Jaime Ramos (tenho cá uma pontaria para nomes, fui logo escolher este…), que não segue o modelo do detective dos anos setenta – alcoólico, problemas com a droga, relativamente marginal dentro da própria polícia, solitário… O meu Jaime Ramos é um personagem banal, um pequeno-burguês do Porto, ligeiramente conservador (embora com um passado comunista), embora os seus problemas existenciais se resumam a saber envelhecer, a tentar dar alguma dignidade à vida, a coleccionar os discos de boleros mexicanos, a procurar boa comida… Não é um herói, digamos, substantivo. Há duas histórias, bom, três, em que ele se recusa a identificar o criminoso. Numa, por preguiça… Nas outras duas por solidariedade com o “estatuto existencial” dos personagens, uma striper que estudava filosofia, e uma balzaquiana do Porto, uma mulher… O problema é que, em “O Mar em Casablanca”, o passado inteiro veio ter com ele – a militância no partido comunista, as relações com os serviços de informação, um caso amoroso… Isso só acontecia com os seus personagens, com os criminosos ou as vítimas, e desta vez isso aconteceu com ele. Ele, que se vê como um biógrafo dos que vêm à rede das suas investigações, transforma-se em personagem. Está à beira da depressão, à beira da morte… O país dá cabo dele. O Jaime Ramos é uma espécie de sismógrafo pequeno-burguês desta coisa toda… Do país. Sem nunca falar dele. Sem fazer filosofia, sem fazer da literatura uma coisa programática, que é o mais aborrecido da literatura portuguesa, quando o escritor se põe a dar lições de política ao leitor, ensinando-o a votar à esquerda, a ser responsável, a fazer sexo seguro, a não maltratar os animais, uma merda. Por isso é que eu digo que não me interessa nada a sociologia dos crimes, os motivos sociais… Jaime Ramos limita-se a reconstituir crimes e eu limito-me a escrever histórias sobre o meu país, quer dizer, que se passam no meu país. E a viajar… a viajar muito. Sabes porquê?

Não faço ideia…

Porque os portugueses só são bons quando vão para fora. Só são felizes quando vão para fora, quando deixam o país. No “Longe de Manaus” o Jaime Ramos descobre essa multidão de portugueses que deserta e não quer regressar. A única grande utopia portuguesa é partir, sair, procurar a felicidade lá fora. Há uma maldição na terra deles e têm de livrar-se dela.

O que existe de biográfico nos teus livros? Ou seja: és um escritor essencialmente de imaginação ou de rememoração?

Há duas ou três passagens autobiográficas. Não podia livrar-me disso. Mas não se dá por elas, são passagens. Escrevo sobre os outros, sobretudo. Bom, de cada vez que preciso de falar de mim, de ir ao analista, escrevo. Mas não sobre mim. Conto uma história. Não vale a pena ir lá, aos livros, e procurar saber com quem dormi ou como é que me visto. Do que eu gosto realmente é dos personagens… De desenhar os personagens. Um escritor tem de gostar dos personagens, mesmo dos maus, daqueles que fazem os piores papeis. O mais difícil, aliás, é desenhar um “mau”, um filho da puta. Sobretudo quando tem de ser um filho da puta com muito talento.

Mas o que usas da tua vida para compor o quadro?

Nunca escrevi sobre lugares que não conhecia. Desde o Brasil à Indonésia, da Guiné à Venezuela e à Argentina ou ao México, Cuba, Moçambique, Galiza, etc., que são lugares dos meus livros, estive lá. Vi, tomei notas, fotografei, escolhi os lugares, as ruas… É uma coisa que ficou do trabalho de jornalista, mesmo se escrever romance não tem nada a ver com jornalismo. O resto, uso como toda a gente. Tenho caixas com mapas, fotos, recortes, ementas de restaurantes, muitos dicionários, tudo isso.

Sempre acreditei na ideia de que um escritor é, primeiro que tudo, um leitor. Como leitor, quais foram os autores (e as obras) que te fizeram (ou desfizeram) a cabeça?

Lawrence Sterne. “Tristram Shandy” é essencial, porque é a destruição da literatura, a capacidade de não ter medo, o modo de destruir todo e qualquer politicamente correcto. É um livro fundador da literatura europeia. Se fosse mais lido, evitavam-se “coisas moderninhas” como tem havido nos últimos cem anos. Mas nos últimos cem anos a ignorância foi triunfando, a pouco e pouco. Na literatura, na política, no dia-a-dia… Só assim se explica que tenhamos chegado a este ponto da vida europeia, com uns trastes, uns biltres a ocupar os governos. Gente sem elegância, sem inteligência… Voltando ao tema, Sterne foi o grande autor, tal como Cervantes, o “Quixote”, que foi o mais revolucionário. Depois, o seu inverso, Samuel Johnson, o grande conservador, o padrão dos padrões. Johnson foi o homem que inventou o sistema literário europeu, o seu esquema de valores e de sensibilidades. Depois, Borges, claro. Gosto muito de alguns brasileiros da minha língua – Rubem Fonseca, claro. Érico Veríssimo. Dos actuais, Tabajara Ruas. Gosto de alguns latino-americanos, Vargas Llosa, Bolaño, Rulfo, Saer, mas aborrece-me aquela coisa do “fantástico obrigatório”, onde os generais enlouquecidos voam pelas florestas e vão às putas e há sempre um truque para lixar tudo. Mas, sabes, para ler, ler, ler mesmo… Bom. Há Shakespeare, sem snobeira, há Shakespeare, ninguém escreveu como ele. Eu gosto muito daqueles clássicos ingleses, Jane Austen, “Orgulho e Preconceito” é imortal, tal como “Monte dos Vendavais”, da Brontë, nunca se conseguiu escrever sobre o amor como elas fizeram. E há Chesterton, o primeiro Le Carré (até ao “Alfaiate do Panamá”), Evelyn Waugh, Somerset Maugham, Graham Greene, Kingsley Amis… Mas estas listas nunca são definitivas, claro. Nem fechadas. Gostar destes não quer dizer que não goste de Camus, por exemplo, ou de Tolstoi, ou de Torrente Ballester.

E entre os portugueses?

Eu leio muito Camilo, porque me diverte muito. A “Brasileira de Prazins” é uma obra interminável, prodigiosa, tal como as “Novelas do Minho”… Quase tudo do Camilo, que foi muito prejudicado porque politicamente, enfim… estava à direita, digamos. Leio muito Eça, porque era um prodígio de estilo, de talento, de humor, de cinismo – e não há livrinho que me emocione como “A Cidade e as Serras”. Mas Camilo é que era o grande retratista português, o grande historiador literário do século XIX, se tirarmos o “Portugal Contemporâneo”, do Oliveira Martins. Dos do século XX, Agustina, José Cardoso Pires, o “Mau Tempo no Canal”, de Nemésio, algum Vergílio Ferreira. Agualusa, gosto muito, gosto muito do José Eduardo. Quando estou com angústias literárias, essas merdas de não saber por que é que estou a escrever ou dificuldades em arranjar material, telefono ao José Eduardo, que é um grande amigo e um autor da língua portuguesa actual. Mas boa parte dos melhores autores portugueses do século XX são cronistas e ensaístas: o Vasco Pulido Valente, Vítor Cunha Rego, Abel Barros Baptista, Eduardo Lourenço… Sem falar dos poetas, claro. Mas a família dos poetas é uma coisa delicada…

Não concordas que, na prosa portuguesa recente, há dois tiques particularmente irritantes – o desprezo pela narrativa e um certo bacanal barroco-linguístico?

Já foi tempo em que havia bacanal barroco-linguístico. Hoje escreve-se mal, mal mesmo, mal sem atenuantes. Escreve-se mal sem piedade e sem gramática. Tenho muitas saudades da gramática, de alguém que escreva com sujeito, predicado e complemento directo sem abdicar da criatividade… E a ideia de que tudo é “jovem”, “divertido”. E “pedagógico”. Isso é que lixa qualquer um. Mas que mais me impressiona na ficção portuguesa de hoje é a falta de jeito para o diálogo… Falta absoluta de jeito. Tu lês um romance desses, daí, muito universitário e tal, e os personagens falam empertigadas como se estivessem num verso parnasiano. Ninguém fala tão mal como eles.

Falam mal e, como tu próprio disseste, “fode-se mal na literatura portuguesa”. Tens uma explicação para a nossa disfunção literária?

Disse isso porque era verdade. Fode-se muito mal, mesmo. Com muitas metáforas, com metáforas de mau gosto, muita falta de jeito. Não há, digamos, uma queca como deve ser… O problema é a falta de jeito para lidar com a crueza das coisas. Não achamos poesia nas coisas do quotidiano… Sabes, eu acho que o melhor era não se escrever sobre sexo. Chegava-se ali e tal, voltava-se a página e deixavam-se os personagens a foder, entretanto. O Português de Portugal é pouco maleável, não tem aquela musicalidade malandra, doce e amarga, picante… A tradição portuguesa de escrever sobre sexo acaba por desembocar no grotesco, no grosseiro, ou no absolutamente irrelevante. Há autores que também querem explicar aos leitores onde fica o clítoris, como é que se faz a coisa. Isso ainda é pior. E a falta de jeito para construir cenários para um episódio desses, então…

Achas que os brasileiros “trepam” melhor?

Sem dúvida. Rubem Fonseca, por exemplo. É muito cru, mas absolutamente delicioso, poético e obsceno ao mesmo tempo. Vê a quantidade de mulheres com quem anda o Mandrake, em “A Grande Arte”… E ele arranja sempre qualquer coisa de sensual para escrever sobre cada uma delas – até, imagina, sobre “a veia subclávia”, sobre o tornozelo, sobre Bebel, a mais gordinha de todas (e, portanto, a que fode melhor)… Mas o problema é que o sexo está banalizado, tudo tem de ter sexo. Com essa banalização desapareceu a ideia de pecado, de transgressão, e sexo sem pecado, sem interdito, sem perversidade, não vale, não dá ponta.

Por falar em Brasil: tens uma relação umbilical com o país. Como vês as nossas relações transatlânticas?

Simpáticas. São simpáticas. Mais nada. As relações políticas não me interessam muito hoje em dia, porque o Brasil está na adolescência das relações internacionais, sobretudo com Lula em Brasília. Acho que nós nunca percebemos realmente o Brasil. Ou achamos os brasileiros uns palermas pegados (às vezes são), ou achamos que o Brasil é um paraíso onde tudo é bom, tudo é perfeito, etc. Na verdade, a vida é mais fácil no Brasil, há aquela leveza, aquela naturalidade com que as coisas são belas… Mas anda por aí uma onda de brasileirofilia que me assusta, porque parece que tudo é bom lá, desde o Lula até ao cantor nordestino mais piroso e manhoso… E não é verdade. A política brasileira é uma coisa de terceira ordem, aqueles complexos pós-coloniais dão enjoo, a falta de qualidade nas relações sociais é terrível, o policiamento ideológico é assustador. Mas eu viveria no Brasil de novo, sim (nunca no Nordeste, evidentemente)… Olha, a “Playboy” brasileira fez mais pela minha formação intelectual do que o Proust. E o Paulo Francis, o Nelson Rodrigues, a leitura do “Estadão” e da “Folha”… O Brasil ainda é o meu país de recurso, onde tenho grandes amigos. Mas sem a “utopia brasileira”. Aquela coisa de o pessoal se babar de cada vez que o Caetano Veloso diz um disparate.

Algum escritor brasileiro já merecia o Nobel?

Só vejo o Rubem Fonseca, uma vez que o Erico Veríssimo já morreu. Acho que o Jorge Amado teria dado outro Nobel. Sinceramente. O problema é que o Nobel é escolhido em função do “interesse humanitário” de uma dada obra, por isso Rubem Fonseca nunca poderia ser… Mas Jorge Amado, sim.

Não é novidade para ninguém que o cronista António Sousa Homem é o teu heterónimo. Mas eu vou mais longe: para além de heterónimo, aquele conservador do Minho, respeitador burguês da ordem e da moderação, não é a faceta mais verdadeira de Francisco José “lui même”?

Acho que inventei o Sousa Homem para poder dizer o que penso realmente. O que eu penso de verdade. Isto pode parecer um bocadinho absurdo, mas o António Sousa Homem é quem eu gostaria de ser. Assim mesmo: com aquelas opiniões, aquela visão do mundo, aquela serenidade, aquele sentido da melancolia e da banalidade… Quando escrevo as crónicas dele, não sou eu realmente: é ele. É um heterónimo verdadeiro. É o meu heterónimo verdadeiro.

Então vamos ao ortónimo. Politicamente, como te defines? E sem merdas.

Sem merdas não consigo. O único partido em que fui militante foi o PS, justamente quando a AD ganhou. Tinha medo da vitória da AD a toda a largura do país. Hoje, acho que foi uma reacção um nadinha… trotsquista. E, depois, apoiei Cavaco, porque acho que Cavaco foi fundamental para retirar o peso da hereditariedade de esquerda à Presidência. Estas foram as minhas posições políticas mais ou menos públicas. Por princípio, um escritor, etc., é logo um tipo de esquerda, não é? Mas eu estou um bocado farto de ver sacanas de esquerda, medíocres de esquerda, hipócritas de esquerda. Sou uma espécie de liberal, sim. À moda antiga, como eu costumo dizer. Acredito que há um papel social do Estado em duas ou três áreas essenciais, além da segurança e da justiça. Mas a ocupação do Estado pelas clientelas políticas é um dos nossos males, esta dependência que gera medo de falar, medo de fazer, medo de criar…

Costumas dizer que vivemos num país sem liberais. Por que será?

Porque é assim. É um país liberal sem liberais. Lê-se o “Portugal Contemporâneo” e compreende-se logo: a “liberdade” de D. Pedro foi imposta de fora, à força, com um punhado de mercenários recrutados entre o que havia de pior nas tabernas de Londres e com o dinheiro dos agiotas menos recomendáveis… Temas como os direitos civis, a defesa da privacidade, a recusa da inversão do ónus da prova, a liberdade de imprensa, etc., são matérias pouco interessantes para os portugueses. Uma das coisas mais absurdas é quando alguém diz que “quem não deve não teme”, como se todos devêssemos, de facto, favores ao Estado. A facilidade com que o cartão único passou, com que os chips das matrículas de automóveis vai passar, tudo isso é assustador. Depois, o chamado, até me dá vontade de rir, “o tecido empresarial” com empresários que não sabem viver sem apoio do Estado e sem negócios com o Estado. E o Estado aproveita e enriquece os fornecedores de obras públicas, não é? Esta rede de cumplicidade entre o Estado e as grandes empresas deixa os cidadãos indefesos, à mercê dos abusos políticos, da corrupção, dos favores, do desleixo… E depois o medo. O medo do trabalho, o medo do risco, o medo do debate, o medo da opinião contrária… Em Portugal os ditadores têm vida fácil.

Como vês a primeira parte do consulado Sócrates?

Sócrates fez um grande serviço à direita, na primeira parte do primeiro mandato, com aquelas reformas esboçadas logo de início. À direita em geral, não aos partidos de direita, que foram queimados no terreno. Se Sócrates fez aquilo que o PSD e o CDS queriam fazer e nunca fizeram, eles ficaram sem programa e sem argumentos… O problema, o grande problema de Sócrates foi a tentação de aumentar o poder a todo o custo, com a rede partidária a servi-lo e a servir-se dos recursos do Estado. Tudo valeu. Teria sido diferente se Sócrates se tivesse livrado daquela tralha papista que o venerou até à abjecção. Mas não. E, depois, Sócrates tem aquela visão geracional do país, um país que é preciso modernizar, transformar, etc., de onde é preciso afastar a má imagem, o provincianismo, o ruralismo… Quem é que vai fazer isso? Nós, os iluminados, os que estão do lado certo da história, com o dinheiro do Estado, o poder do Estado. Ele quis ser um iluminado. Por isso, o segundo mandato é um castigo para Sócrates, que terá de aprender a negociar, a gerir o monstro da “esquerda moderna” (uma mistificação) que ele criou, e que só sobrevive com mais impostos, sem crítica, com poder absoluto. Além de ter de gerir uma economia despedaçada. E eu tenho dúvidas sérias sobre se ele é capaz. Ele e a rede que construiu.

Tens sido um crítico desta direcção do PSD. Pedro Passos Coelho é a solução?

Pode ser uma solução. A outra solução era dar um segundo fôlego a Marcelo Rebelo de Sousa, mas acho que Marcelo só avança em caso de insanidade irremediável, porque aqueles apoiantes são todos falsos apoiantes, que estão de facas afiadas. O Passos Coelho tem uma vantagem: trabalha, sabe quanto vale um salário, não é funcionário do partido, não quer discutir minudências, faz política fora das horas de trabalho, não tem um lugar no parlamento… Falei com ele algumas vezes e pareceu-me bem intencionado, inteligente, ponderado, enérgico, liberal. Até era bom que fosse um pouco menos ponderado, que fosse mais agressivo no debate político, mas penso que está a guardar-se para o combate com José Sócrates. Eu gosto muito da Dra. Manuela, que é uma pessoa boa e com sentido de humor, uma mulher à antiga… Acho que foi uma injustiça terrível pô-la na campanha eleitoral, para o que ela não tinha jeito nenhum. E a ela sim, tentaram um assassínio político. Vejo o primeiro-ministro queixar-se de ser alvo de um assassinato político, de um ataque ao carácter… Mas isso foi o que eles fizeram à Dra. Manuela. Gozaram com os cartazes, chamaram-lhe dona de agência funerária, meteram-se com a roupa que usava, com os tiques de linguagem, com a idade, com o penteado. Deixaram-na sozinha, à mercê da tropa de choque socialista, muito à espreita de cargos políticos mas na reserva, como acontece no PSD ultimamente. Espero que o Passos Coelho assuste aquela gente.

05/02/2010

Sobrecapas e marcadores

Via Blogtailors, conheci estas sobrecapas e marcadores muito criativos:

02/02/2010

No dia 1 de fevereiro, Lula Arraes, amigo, contista e leitor sempre atento, sugeriu: “Não seria interessante contar a nossos amigos portugueses a história do título de sua coluna?” Lula referia-se então à coluna “A voz do Brasil”, onde escrevo mensalmente na revista portuguesa Ler, dando notícias, resenhando livros de autores brasileiros e tratando de questões num viés temático, como a literatura na web, a cultura da periferia, os posicionamentos da crítica.

Quando convidado para escrever na Ler, apareceu de imediato o problema: título. É sempre difícil. Por um lado, eu precisava deixar bem claro que se tratava de uma coluna dedicada à literatura brasileira; por outro, era necessário que houvesse pegada, que chamasse a atenção. Após alguns dias de dúvidas, cheguei ao título nada criativo “A voz do Brasil”, mas pensei em algumas implicações que ele trazia: manifestava a finalidade da coluna e ao mesmo tempo fazia uma brincadeira com o programa de rádio mais antigo do mundo, que pela sua longevidade entrou para o livro dos recordes, o Guiness Book.

No Brasil, o programa tem um aspecto que ainda hoje me chama a atenção: O Guarani, de Carlos Gomes, abre o noticiário, em tom épico, e achei que a identificação com a música era muito significativa do movimento de levar informações nossas para o público português. Atravessar o Atlântico – de qualquer modo, ainda com a tecnologia – sempre nos traz um ar épico. Havia também a ironia, porque a literatura no Brasil tem poucos leitores, assim como o programa tem poucos ouvintes. Além disso, havia outro aspecto: ao se levar nossa arte para fora – mesmo para um país amigo, historicamente ligado ao Brasil, com a mesma língua, com características sociais em comum etc. -, busca-se sempre levar o que há de melhor, e o O Guarani foi usado para iniciar o programa da rádio porque havia um intento ufanista, de modo que nesse sentido o título se revelava como uma autoironia. Claro, a autoironia elimina o caráter político negativo que o surgimento do programa teve – e ainda tem – para muitos.

02/02/2010

João Tordo na França e no Brasil

José Mário Silva informa que o romance As três vidas, de João Tordo, vai ser lançado neste mês, na França, pela editora Actes Sud, com tradução de Dominique Nédellec. Com esse livro, esse jovem autor português recebeu o prêmio José Saramago 2009. O mesmo romance vai chegar ao Brasil em julho, pela editora Língua Geral.

João Tordo nasceu em Lisboa, em 1975, é jornalista, romancista e roteirista. Autor de O livro dos homens sem luz (2004) e Hotel Memória (2007). É roteirista do longa-metragem Amália, a voz do povo (2008).

02/02/2010

Entrevista com João Ximenes Braga

O cronista e ficcionista João Ximenes Braga foi entrevistado, por Ramon Mello, para o portal Saraiva Conteúdo. Ximenes Braga lançou no fim do ano passado o livro de contos A mulher que transou com o cavalo. Nessa entrevista ele afirma que só literatura enlouquece o ser humano. “Não é à toa que tantos piram.” João Ximenes ainda trata do seu papel como cronista, escritor de telenovela e sobre a construção de seus contos.

01/02/2010

A voz do Brasil – janeiro de 2010

Reproduzo aqui a coluna de janeiro publicada na revista Ler:

Que mistérios tem Clarice?

Benjamin Moser nasceu em Houston, nos Estados Unidos da América, em 1976. Formado em história, é colunista da Harper’s Magazine e colaborador do The New York Review of Books. Tradutor, são dele as versões para o inglês de Nove noites, de Bernardo Carvalho, e de romances policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Sua biografia sobre Clarice Lispector, Why This World, originalmente publicada pela Oxford University Press, foi traduzida por José Geraldo Couto para a editora Cosac & Naify, com o título Clarice,.

Com boa recepção crítica no exterior, sua biografia chegou ao Brasil fazendo barulho: artigos, entrevistas com o autor, reprodução de trechos do livro puderam ser encontrados em praticamente todos os principais jornais e revistas do Rio de Janeiro e São Paulo, o que revela mais uma vez o crescente interesse acerca da literatura e da vida de Clarice Lispector.

A melhor característica do livro de Benjamin Moser é mesmo sua habilidade narrativa. Através de um texto leve e claro, mas também apaixonado, o leitor deslancha pelas 648 páginas. Trata-se sem qualquer dúvida de um excelente escritor, que desenvolveu uma fonte imprescindível para divulgar, sobretudo nos países de língua inglesa, a obra de uma das maiores prosadoras da literatura brasileira.

Contudo, para quem conhece a fortuna crítica em torno da ficção e da vida dessa autora, sobressaltam alguns problemas, entre os quais a aderência cega da biografia de Moser ao já consagrado Esboço para um possível retrato, de Olga Borelli, publicado em 1981 pela Nova Fronteira. Não há qualquer intenção crítica em relação a tal livro, reproduzindo-se dele até mesmo os pontos negativos que já foram analisados por Carlos Mendes de Sousa em Clarice Lispector. Figuras da escrita, lançado em 2000. Afirma com propriedade esse professor da Universidade do Minho: “Contaminados pelo texto [de Clarice Lispector], os biógrafos ficcionalizam a vida e a morte. As páginas apresentadas por Olga Borelli no seu livro fazem vir ao de cima as marcas da montagem que caracterizam o volume” (p. 424). Enfim, Carlos Mendes de Sousa sinalizou a manipulação do ficcional a serviço do biográfico no livro de Borelli, orientação que foi seguida não apenas por Benjamin Moser, mas por todas as demais obras desse gênero a respeito da personagem em questão.

Essa contaminação pode ser observada igualmente em Clarice, quando se destaca a aura de “mistério” da autora, o que o próprio título da edição brasileira sugere, com a vírgula em suspenso, representando dessa forma a incapacidade de explicar-se, de todo, os pontos “incompreensíveis” à volta de sua vida. O mesmo pode ser observado em relação ao aproveitamento dos livros de Elisa Lispector, irmã de Clarice, para retratar a perseguição sofrida pela família durante a Primeira Guerra Mundial. Perseguição supervalorizada por meio de uma tentativa de explicar quase todo o desconcerto do mundo da narrativa clariciana a partir desse acontecimento. Nesse sentido, destaco que Benjamin Moser dá pouca importância ao fato de o desconceto do mundo nser uma característica comum aos ficcionistas brasileiros da época de Clarice, como Cornélio Pena e Lúcio Cardoso, seus contemporâneos.

Apesar das falhas, Clarice, é uma boa biografia, que pode arregimentar, no exterior, muitos novos leitores para a obra de Clarice Lispector. E espero que o sucesso desse livro no Brasil venha a trazer, pelo menos, o interesse das editoras na publicação de outras obras de estudiosos estrangeiros, como o indispensável Clarice Lispector. Figuras da escrita, de Carlos Mendes de Sousa, um dos melhores livros de crítica da literatura brasileira escritos nos últimos anos.

Os espiões, de Luis Fernando Verissimo

O selo Alfaguara publicou em novembro Os espiões, romance policial de Luis Fernando Verissimo. Com enredo envolvente e muito humor, o livro traz personagens pitorescos, como o professor Fortuna, frequentador do bar do Espanhol que parece não ter lido qualquer dos autores sobre os quais emite opiniões definitivas.

Nietzsche? “– O homem é Nietzsche. O resto é lixo.” “– E Heidegger, professor?” “– Enganador.” Marx? “– Já deu o que tinha que dar.” E Camus? “– Veado.” E John le Carré, ele leu? “– Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa”, vai afirmando categoricamente o professor Fortuna, um “primor” na defesa de suas teses. Entre elas, a mais exaltada garante que literatura, como estiva e Fórmula 1, não é coisa de mulher. Para ele, “mulheres escritoras já arruinaram a vida de mais homens do que as putas e as cartas”. Diante disso, tem dúvidas sobre a conveniência de ensinar mulheres a escrever e se põe a favor de ações corretivas contra a primeira manifestação de ambição literária em meninas. Com a literatura, diz o professor, as mulheres só conseguem enlouquecer a si próprias e quem está por perto.

Os espiões é um romance muito bem composto em todos os sentidos, em que o leitor pode se deliciar com a arguta mistura de características fundamentais do policial e a descontração do melhor humor. Contudo, sua mistura não está passível de conflitos: o que Verissimo faz nesse livro, assim como havia feito em Ed Mort e outras histórias, de 1979, é de certa maneira satirizar de viés o romance noir, sem contudo abrir mão de seus recursos mais típicos. O humor explora, por fim, o ridículo para dar autenticidade ao enredo policial e aos personagens da intriga – e com eles Verissimo confirma um fato que ainda parece estar à margem dos críticos da literatura: trata-se de um nome central das letras contemporâneas no Brasil. Contudo, fora as suas crônicas, bem recebidas por todos, pouca atenção se dá à sua ficção. Quais seriam as razões disso?

Parece-me que o melhor da crítica da literatura brasileira está geralmente relacionado a duas perspectivas, também as mais difundidas: a que se atém às obras de ruptura, em diálogo com as vanguardas, e a que tem como base crítico-teórica o marxismo. A recepção da obra de Luis Fernando Verissimo sofre então de um certo descaso por uma impossibilidade de ser enquadrada em qualquer das duas orientações. Embora brinque com o policial, ele brinca justamente com um gênero consagradamente “menor” ou, conforme alguns, mero entretenimento.

Seus livros parecem construídos por meio de um fundamento determinante ao prazer da leitura de ficção: contar uma boa história. E nesse sentido é possível observar o quanto de seus contos, novelas e romances estão sob a chancela da atividade do cronista.

Para mim, Os espiões é o melhor livro do ano. E que a literatura sempre tenha autores comprometidos com a diversão.

29/01/2010

Tchekov, “o criador miniaturista”

Hoje completam-se 50 anos do nascimento de Anton Tchekov, um dos grandes expoentes da literatura russa. Médico durante o dia e escritor à noite, Tchekov é autor das peças A gaivota, O tio Vânia, O jardim das cerejeiras e As três irmãs, suas obras mais conhecidas e admiradas. Francisco José Viegas escreveu um belo texto em seu blog de crônicas:

É uma das figuras mais enigmáticas da grande literatura russa, que praticamente desconhecemos – e o autor atento às pequenas coisas, o que fez dele um contista exemplar e um dramaturgo minucioso. O que mais me apaixona na sua vida é a viagem incompreendida que inicia aos 30 anos e que o levou à ilha de Sacalina (o mais longínquo dos territórios do desterro russo) e a Vladivostoque, primeiro, e ao Sri Lanka depois. No regresso (por Odessa) – e só então – tornou-se um grande escritor, disponível para prestar atenção aos personagens que desenhou com pluma trágica e melancólica. Se Tolstoi é o gigante das epopeias ou dos dramas familiares, Tchekhov foi um criador miniaturista, impopular e no fio da navalha.