Literatura deve ter castas, diz Ismail Kadaré

Reproduzo aqui a entrevista que Gabriela Longman realizou com Ismail Kadaré, novo vencedor do prêmio Príncipe das Astúrias de Literatura. A entrevista foi retirada do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo:

“Podemos escavar com facilidade o seu solo, mas penetrar sua alma, isso jamais.” A frase colocada por Ismail Kadaré na boca de um padre italiano de seu romance “O General do Exército Morto” define a personalidade do povo albanês. Define também a personalidade do próprio autor, nome-chave da literatura albanesa e um dos mais importantes da literatura mundial contemporânea.

Exilado político na França nos anos 90, o escritor agora divide seu tempo entre Paris e Tirana, capital da Albânia. Escrito nos anos 70, seu “Crônica na Pedra” -retrato do país na Segunda Guerra pelos olhos de um pré-adolescente- é lançado no Brasil, com tradução direta do albanês. Em seu apartamento, Kadaré, 72, falou àFolha sobre seu país, o stalinismo e, acima de tudo, literatura.

Jeff J Mitchell/Reuters
O escritor albanês Ismail Kadaré, autor de "Abril Despedaçado", entre outros
O escritor Ismail Kadaré, autor de “Abril Despedaçado”, entre outros

Folha – O sr. costuma dizer que sua formação literária caminha entre Macbeth e Dom Quixote. Como define essa mistura?
Ismail Kadaré – Trata-se sempre de caminhar entre o trágico e o grotesco. É um bom coquetel. A literatura precisa dos dois. Na vida é a mesma coisa, ainda que nem tudo que está na vida precise estar na literatura. A literatura é mais importante do que a vida.

Folha – Vários paralelos foram feitos comparando a sua literatura ao realismo mágico latino-americano. O sr. concorda com a aproximação?
Ismail Kadaré – Não sei, me parece um pouco ingênuo. Dante Alighieri fazia uma espécie de realismo mágico, Kafka e a mitologia grega também. Não sei por que essa denominação ganhou tanta força. O lado irrealista faz parte da literatura. Ela não pode nem mesmo existir sem essa dimensão transcendental, mágica, onírica, oculta.

Folha – Cabe aos grandes escritores juntar realidade e irrealidade?
Ismail Kadaré – Os escritores são uma raça à parte. A literatura não é democrática. Ela é baseada na desigualdade. Se você escutar que a França tem mil escritores, isso não é boa notícia. Esse número precisa diminuir. A literatura é baseada numa seleção sem piedade, que guarda o grande valor. Até aceito a literatura medíocre ou média pois ela cumpre uma função, atrai e garante leitores que um dia poderão ir em direção à grande literatura. O perigo começa quando a literatura mediana quer impor suas leis. É preciso que esses universos fiquem bem separados, sem intervir um no outro, como castas.

Folha – A Europa ocidental ainda vê os Bálcãs como um incômodo, como um problema a resolver?
Ismail Kadaré – Acho que sim, embora o interesse da Europa pelos Bálcãs venha crescendo. Os Bálcãs são uma realidade. É uma parte incômoda, mas é uma parte. Dizemos que é o quintal da Europa, mas o quintal é parte da casa. Sem tranqüilidade nos Bálcãs não há tranqüilidade para a Europa.

Folha – O sr. é favorável à entrada da Albânia na União Européia?
Ismail Kadaré – Sim. É a única esperança para que os Bálcãs entrem numa via de desenvolvimento normal. Ironicamente, o povo mais pró-europeu e ao mesmo tempo mais pró-americano são os albaneses. É curioso, porque era o povo mais stalinista. Há uma lógica interna para isso. Passamos de um extremo a outro, como uma reação.

Folha – E como foi a questão da dissidência ao regime no seu caso?
Ismail Kadaré – Na Albânia não se podia ser publicamente contra o regime, era totalitarismo absoluto. Mas pela literatura era possível contestar o regime. Tudo que escrevi e publiquei foi feito nesse contexto. Nunca fiz ataques diretos ao Estado, somente ironias escondidas, um pouco mais evidentes às vezes. Quando me perguntam se sou um dissidente digo não. Sou um escritor normal, num país anormal. E isso já é muito.

Folha- Mas o sr. teve um período de apoio ao regime, não?
Ismail Kadaré – Desde o começo tive reservas ao regime, ainda que elas não fossem tão conscientes. Se você ama a literatura, não pode amar o regime comunista. Não pode amar ao mesmo tempo Macbeth e a direção do comitê central de Stalin.

Folha – Muitos dos seus livros abordam o Império Otomano. Podemos comparar o imperialismo americano atual aos impérios clássicos?
Ismail Kadaré – O Império Otomano era atroz, sem aspectos positivos. Eu recuso essa comparação. Essa moda de chamar os EUA de império é um vestígio da Guerra Fria. A base da propaganda stalinista era buzinar “imperialismo americano” nas nossas orelhas. Na França, ouço a mesma propaganda tantos anos depois. É uma paixão exagerada. Os EUA são uma grande potência e, como toda grande potência, eles têm o bem e o mal em grandes proporções. Mas a moda me soa retrógrada.

Folha – O que achou da escolha de Le Clézio para o Nobel de Literatura?
Ismail Kadaré – Conheço este escritor, sei que é sério. Mas li seu primeiro livro há muitos anos e quase nada depois. Confesso que não me apaixonei. Sei que ele é respeitado na França, mas sem ardência. Enfim, o Nobel faz suas escolhas.

Folha – O sr. poderia falar um pouco sobre “Crônica na Pedra”?
Ismail Kadaré – É um livro sobre a Albânia, mas também sobre a guerra, a saída do narrador da infância, sobre tradições. Prefiro que os leitores descubram por si próprios.

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