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O amor cortês – Jacques Lacan

Para Jorge Fernandes da Silveira e Luciana Salles, reproduzo um trecho de “Deus e o gozo d’a mulher”, publicado no livro Mais, ainda, com texto estabelecido por Jacques-Alain Miller e tradução de M.D. Magno para a editora Jorge Zahar (2a edição, 1985). Nesta edição, o “a” que antecede a palavra “mulher”, no título, se encontra riscado. Eis o trecho sobre o amor cortês, na p. 94:

É uma maneira inteiramente refinada de suprir a ausência de relação sexual, fingindo que somos nós que lhe pomos obstáculos. É verdadeiramente a coisa mais formidável que jamais se tentou. Mas como denunciar seu fingimento?

Em vez de ficar aí boiando no paradoxo de o amor cortês ter aparecido na época feudal, os materialistas deveriam ver nele uma ocasião magnífica de mostrar, ao contrário, como ele se enraíza no discurso da fieldade, da fidelidade à pessoa. Em último termo, a pessoa, é sempre o discurso do Senhor, do Mestre. O amor cortês é, para o homem, cuja dama era inteiramente, no sentido mais servil, a sujeita, a única maneira de se sair com elegância da ausência da relação sexual.

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Soneto XIX, de Rainer Maria Rilke

 

Ainda que se mude rápido o mundo
como figuras de nuvens,
todo o perfeito tomba
de volta ao primordial.

Por sobre a mudança e a marcha,
mais longe e mais livremente,
dura ainda o teu pré-canto,
deus com a lira.

Os sofrimentos não são reconhecidos,
o amor não é aprendido,
e o que na morte nos afasta

não é desvelado.
Unicamente a canção por sobre o campo
santifica e celebra.

 

De Sonetos de Orfeu, Tradução de José Miranda Justo,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“Que o Amor é tudo que existe”, de Emily Dickinson

 

That Love is all there is,
Is all we know of Love.
It is enough, the freight should be
Proportioned to the groove.

Que o Amor é tudo que existe
É tudo que sei do Amor.
Isto é bastante – o peso deve
Adequar-se ao andor.

De Alguns poemas, Tradução de José Lira,
São Paulo, Iluminuras

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Trecho de “No caminho de Swann”, de Marcelo Proust

Trecho de No caminho de Swann, de Marcel Proust, com tradução de Mário Quintana:

Apesar de toda a admiração do sr. Swann por essas figuras de Giotto, por muito tempo não senti nenhum prazer em contemplar em nossa sala de estudo, onde haviam pendurado as cópias que ele me trouxera, aquela Caridade sem caridade, aquela Inveja que mais parecia uma ilustração de livro de medicina para mostrar a compressão da glote ou da campainha por um tumor da língua ou pela introdução do instrumento operatório, uma Justiça cujo rosto comum e mesquinhamente regular era aquele mesmo que, em Combray, caracterizava certas boas burguesas devotas e secas que eu via na igreja e várias das quais já estavam engajadas na milícia de reserva da Injustiça. Mais tarde, porém, compreendi que a estranheza impressionante, a beleza especial daqueles afrescos, provinha do considerável lugar que ali ocupava o símbolo, e o fato de estar ele representado não como um símbolo, pois o pensamento simbolizado não se achava expresso, mas sim como real, como efetivamente sofrido ou materialmente manejado, dava à significação da obra qualquer coisa de mais literal e preciso, e a seu ensinamento qualquer coisa de mais concreto e incisivo. Com a pobre criada de cozinha, também, não era a atenção incessante atraída para seu ventre, pelo peso que o distendia? E assim também, muitas vezes o pensamento dos agonizantes é desviado para o lado efetivo, doloroso, obscuro, visceral, para esse avesso da morte que é justamente o lado que ela lhes apresenta, que lhes faz rudemente sentir e que muito mais se parece com um fardo que os esmaga, com uma dificuldade de respirar, com uma necessidade de beber, do que com aquilo a que chamamos ideia de morte.

Aqueles Vícios e Virtudes de Pádua deviam ter mesmo muita realidade, visto que me apareciam tão vivos como a criada grávida; e ela própria não se me afigurava menos alegórica. E talvez essa não participação (pelo menos aparente) da alma de um ser na virtude que age por seu intermediário tenha também, independentemente de seu valor estético, uma realidade se não psicológica, ao menos fisiognomônica, como se diz. Quando tive mais tarde ocasião de encontrar, no curso da vida, em conventos por exemplo, encarnações verdadeiramente santas da caridade ativa, tinham geralmente um ar alegre, positivo, indiferente e brusco de cirurgião apressado, essa fisionomia em que não se lê nenhuma comiseração, nenhum enternecimento diante da dor humana, nenhum temor de feri-la, e que é a fisionomia sem doçura, a fisionomia antipática e sublime da verdadeira bondade.

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Childe Harold, de Lord Byron

 

Do CANTO III

 

72

Não vivo por mim mesmo. Sou só um
Elo do que me cerca, mas se a altura
Das montanhas enleva-me, o zum-zum
Das cidades humanas me tortura.
A criação só errou na criatura
Presa à carne, onde paro, relutante,
Buscando, libertada a alma pura,
Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante
Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.

 

Do livro Byron e Keats entreversos, com traduções de Augusto de Campos,São Paulo, Editora Unicamp

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“Porquê ler os clássicos”, de Zbigniew Herbert

 

1.

no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colônia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

 

2.

os generais das guerras mais recentes
se algo de semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

 

3.

se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

 

Do livro Escolhido pelas estrelas, antologia poética, de Zbigniew Herbert
Tradução de Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim

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“Uma velha cristã de tom altivo”, de Wallace Stevens

A poesia é a ficção suprema, madame.

Tome a lei moral e faça dela uma nave

E da nave construa o céu assombrado. Assim,

A consciência é convertida em palmas,

Como cítaras de vento ansiando por hinos.

Em princípio concordamos. É claro. Mas tome

A lei oposta e faça um peristilo,

E do peristilo projete uma mascarada

Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,

Não expurgada por epitáfio, praticado por fim,

É igualmente convertida em palmas,

Meneando-se como saxofones. E palma por palma,

Madame, estamos onde começamos. Permita,

Portanto, que na cena planetária

Os seus flageladores desafetos, bem-comidos,

Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,

Orgulhosos de tais novidades do sublime,

Tais trrran-tan-tan e trrrum-tum-tum,

Possam, meramente possam, madame, arrancar de

si mesmos,

Uma jovial algazarra entre as esferas.

Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias

Piscam quando querem. Piscam mais quando as

viúvas se crispam.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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