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“Uma velha cristã de tom altivo”, de Wallace Stevens

A poesia é a ficção suprema, madame.

Tome a lei moral e faça dela uma nave

E da nave construa o céu assombrado. Assim,

A consciência é convertida em palmas,

Como cítaras de vento ansiando por hinos.

Em princípio concordamos. É claro. Mas tome

A lei oposta e faça um peristilo,

E do peristilo projete uma mascarada

Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,

Não expurgada por epitáfio, praticado por fim,

É igualmente convertida em palmas,

Meneando-se como saxofones. E palma por palma,

Madame, estamos onde começamos. Permita,

Portanto, que na cena planetária

Os seus flageladores desafetos, bem-comidos,

Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,

Orgulhosos de tais novidades do sublime,

Tais trrran-tan-tan e trrrum-tum-tum,

Possam, meramente possam, madame, arrancar de

si mesmos,

Uma jovial algazarra entre as esferas.

Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias

Piscam quando querem. Piscam mais quando as

viúvas se crispam.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz Campos,
Lisboa, Assírio & Alvim

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“O boneco de neve”, de Wallace Stevens

 

Há que ter um espírito de Inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros encrostados de neve;

E ter tido frio muito tempo
Para ver os zimbros encrespados com gelo,
Os abetos eriçados ao brilho distante

Do sol de Janeiro; e não pensar
Em qualquer desgraça no som do vento,
No som de algumas folhas,

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar deserto

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele mesmo nada, não vê
Nada que lá não está e sim o nada que é.

Do livro Ficção suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Lisboa, Assírio & Alvim

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“Quando fores velha”, de W.B. Yeats

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

Uma antologia. Tradução de José Agostinho Baptista.
Lisboa, Assírio & Alvim.

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“Os cavalos de Aquiles”, de Konstantinos Kaváfis

             Quando viram o herói, Pátroclo, morto
– tão moço e tão audaz, tão sem receio –
choraram os cavalos do Peleio
Aquiles. Rebelava-se a imortal
natura deles, vendo a obra mortal.
Cabeças agitadas, crinas bastas,
choravam, a bater no solo os casos.
Pátroclo extinto (os dois sentiam), sem ânima,
carne cadaverosa, vã, inânime,
sem fôlego vital, inerme, inócua,
devolta finalmente ao Grande Vácuo.

Do pranto dos corcéis imortais, dói-se
Zeus, recordando as bodas de Peleu:
“Teria sido melhor – foi erro meu –
não ter-vos doado, míseros cavalos!
Que faríeis nos tristíssimos convales
da terra, entre os mortais à Moira e à sorte
dados, vós que a velhice poupa, e a morte,
a sofrer fátua pena? Os aranzéis
da humana dor vos prendem.” Os corcéis
porém, de nobilíssima natura,
choram a morte eterna e a desventura.

De Poemas de Konstantinos Kaváfis.
Tradução de Haroldo de Campos.
São Paulo: Cosac & Naify, 2012.

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Nova edição de “O arco e a lira”, de Octavio Paz

Artigo de Marco Rodrigo Almeida publicado no site da Folha de S. Paulo:

Por si só a reedição do livro “O Arco e a Lira” já é uma das boas notícias do ano no mercado editorial, mas o livro de Octavio Paz (1914-1998) também sela o início de uma parceria entre Brasil e México.

Há anos fora de catálogo no Brasil, o livro publicado originalmente em 1956 é um dos principais trabalhos do poeta e ensaísta mexicano, vencedor do Nobel de Literatura.
O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) escreveu que trata-se de “o melhor ensaio sobre poética já escrito na América”.

O célebre ensaio de Paz é o primeiro fruto entre a editora brasileira Cosac Naify e a mexicana Fondo de Cultura Económica.

O lançamento do livro acontece nesta quarta (dia 12) e terá debate entre Celso Lafer, membro da Academia Brasileira de Letras, Danubio Torres Fierro, diretor da Fondo de Cultura Económica no Brasil, e Laura Greenhalgh, editora executiva do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Principal grupo editorial do México, a Fondo foi criada pelo governo do país em 1934. Tem cerca de 5.000 títulos de livros em seu catálogo, muitos voltados para a área acadêmica, e filiais na Espanha, nos EUA e na Argentina, entre outros países.

A editora aportou no Brasil no início dos anos 1990, com a Livraria Azteca. Agora pretende ampliar sua participação no mercado editorial brasileiro.

“Nós e a Cosac pretendemos firmar uma parceria cultural de longa duração. Queremos promover um casamento entre a literatura espanhola e a brasileira”, comenta Fierro.

Há dois anos o editor uruguaio mudou-se para São Paulo para estreitar os laços. Ele avalia que o mercado editorial brasileiro passa por um bom momento e deve se expandir nos próximos anos.

A relação da Fondo com o Brasil é antiga. Eles já traduziram para o espanhol “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis), “Canaã” (Graça Aranha), “Angústia” (Graciliano Ramos) e “Os Sertões” (Euclydes da Cunha).

O acordo com a Cosac prevê para 2013 outro livro de Paz, “Os Filhos do Lodo”, espécie de continuação de “O Arco e a Lira”. Já a Fondo vai traduzir para o espanhol “O Sonho de Vitório”, da Veridiana Scarpelli. Os próximos títulos ainda não foram definidos, mas “O Labirinto da Solidão”, outro famoso trabalho de Paz, deve ser um deles.

PARTICULAR E UNIVERSAL

Fierro conheceu Paz nos anos 1970, quando foi secretário de Redação de duas revistas fundadas pelo mexicano: “Plural” e “Vuelta”.

“Ele tinha uma vitalidade incrível, uma inteligência que assombrava a cada instante”, recorda.

Um reflexo disso está espalhado pelas 352 páginas de “O Arco e a Lira”. A densa reflexão serve de brecha para Paz abordar um tema que lhe era caro: o lugar da poesia hispano-americana na tradição poética do Ocidente.

Para Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, o livro é a prova da grandeza de Paz como poeta e ensaísta.

“Ele faz uma análise do significado da poesia em diversas sociedades. O livro é de abrangência impressionante”, diz.
Lafer foi aluno de Paz em um curso de poesia moderna na Universidade Cornell (EUA), em 1966.

“Foi uma convivência ótima. Tinha uma mente muito aberta, era muito reflexivo.”

O ARCO E A LIRA
AUTOR Octavio Paz
EDITORA Cosac Naify
TRADUÇÃO Ari Roitman, Paulina Wacht
QUANTO R$ 69 (352 págs.)
LANÇAMENTO dia 12, às 19h, no Instituto Cervantes (av. Paulista, 2.439; tel. 0/xx/11/3897-9609)

 

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Poemas de Emily Dickinson

A Dor – tem Algo de Vazio –
Não sabe mais a Era
Em que veio – ou se havia
Um tempo em que não era –

Seu Futuro é só Ela –
Seu Infinito faz supor
O seu Passado – que desvela
Novos Passos – de Dor.

*

A Morte é um Diálogo entre
A Alma e o Pó.
Diz a Morte “Some” – A Alma “Só
Me cabe ser Crente” –

A Morte – sob a Terra – clama –
Vai-se a Alma
Deixando o seu – prova cabal –
Manto de Lama.

*

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil –
É esta a minha oferta –

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla – sem
O Alívio de estar morta.

Traduções de Augusto de Campos, Não sou ninguém, Editora da Unicamp

***

Mesmo ao sair de sua vida –
Ornato muito grande
Em minha Fronte tão modesta –
Poderia esta Mão

Plantar a flor que ele mais ama –
Cuidar dos seus achaques –
Tirar-lhe as pedras do caminho –
Sua canção tocar –

Em lento – lânguido – Alaúde –
Saiba ele – me ouvindo –
Que qualquer coisa que lhe agrade
Ele a terá de mim –

Os pés de pequeninas Botas –
Em pulos de Gazela –
Irão levar os seus recados
Sempre que ele quiser –

Melhor cumprir obediente
Todas as suas Ordens –
Do que brincar – com outras crianças –
Do que bailar – a sós –

Vai se esvair a tua Serva
Sem remédio e repouso –
Nem notará o Mundo quando
Tua Fama se for –

O Frio irá bater à porta
Ao chegar Fevereiro –
Mas no avental trarei a lenha
Que te irá aquecer –

Quero levar esta promessa
Comigo – ao Paraíso –
Dizer aos Anjos a avareza
Que contigo aprendi.

Tradução de José Lira, A branca voz da solidão, Iluminuras

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Child Harold

 

72

Não vivo por mim mesmo. Sou só um
Elo do que me cerca, mas se a altura
Das montanhas enleva-me, o zum-zum
Das cidades humanas me tortura.
A criação só errou na criatura
Presa à carne, onde paro, relutante,
Buscando, libertada a alma pura,
Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante
Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.

 

[Do Canto III, tradução de Augusto de Campos]

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“Javali”

Reproduzido do blog de Avoa Dinossauro, de Bruna Beber:

today is tuesday; email me on saturday

the secret of life is decisiveness

and to describe something

i see the distance and move immediately into it

now i am really alone

from here i know these things: that a hamster is a lonely fist

that my poems exist to dispel irrational angers, that i want to hold your face

with my face

like a hand

the secret of life is that i miss you, and this describes life

tonight my heart feels shiny and calm as a soft wet star

i describe it from a distance, then move quickly away

::

De quinze em quinze anos tenho vontade de traduzir um poema. Passo cinco com ele na cabeça, cinco pensando de que jeito gostaria de traduzi-lo para a minha língua e cinco dormindo. Foi assim com o “Es olvido” (Poemas e antipoemas, 1954), do Nicanor Parra.

É comum também perder muito tempo com inventar sentidos que o autor não deu (já que muitas vezes tentamos adivinhá-los), reescrever o poema, nada me impede. Até que uma hora sento com algumas versões e escolho uma, que agora compartilho com vocês.

O poema é do livro Cognitive-Behavioral Therapy (2008), segundo livro de poemas do Tao Lin, um escritor americano que descobri por recomendação da Amazon: Hello, Bruna Beber. We have recommendations for you.

Seguelo.

::

hoje é terça; me escreva sábado

o segredo da vida é saber escolher

e para descrevê-lo

eu escolho a distância

agora estou realmente sozinho

daqui percebo que um hamster é uma embreagem solitária

que meus poemas existem para dissipar fúrias irracionais

que eu quero segurar a sua cara

com a minha cara

como mãos

o segredo da vida é que eu sinto a sua falta, e isso resume a vida

hoje meu coração está sereno e fúlgido como uma estrela-do-mar

digo tudo isso à distância, depois fujo

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Melville no Brasil

A tradutora Denise Bottmann, que mantém o blog Não gosto de plágio, recomenda o artigo de Irine Hirsch – tradutora de Moby Dick – a respeito de Melville no Brasil.

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Poemas de Emily Dickinson

Alguns poemas de Emile Dickinson traduzidos José Lira, da bela edição de A branca voz da solidão (Iluminuras):

A Alma escolhe a Companhia –

E – fecha a Porta –

À sua excelsa Maioria

Já não se mostra –

 

Fria – ela observa as Carruagens

Parando à Entrada –

Fria – um Príncipe a ajoelhar-se

Na sua Sala –

 

Sei que uma viu – em meio a tantas –

Quis Essa –

Aí – fechou-se em suas Conchas

Só Pedra –

 

*

A Paz é uma ficção da Fé –

 

*

 

Os Poetas Mártires – nada disseram –

Mas seu Tormento em sílabas forjaram –

Para que ao cair sua mortal pena –

Seu mortal destino – incitasse Alguém –

 

Os Pintores Mártires – se calaram –

A própria Obra como herança – deram –

Para que ao finar a sua mão hábil –

Visse Alguém na Arte – a Arte da Paz –

 

*

 

Uma Casa lá no Alto –

Aonde um Carro não chega –

Nunca subiu – um Ambulante –

Nenhum Defunto desceu –

 

A Chaminé não fumega –

As Janelas não se mostram –

Mesmo fitando – Noite e Dia –

O Nascer – e o Pôr do Sol –

 

Sua sorte – a Conjectura –

Que nenhum Vizinho soube –

E o que ela foi – não se adivinha –

Porque ele – não revelou –

 

 

 

 

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