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Entrevista com João Guimarães Rosa (audiovisual)

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“O tigre de veludo” – 17 – e.e. cummings

 

morrer é bom)mas a Morte


moça
eu

não gostaria de

Morte se a Morte
fose
boa:pois

quando(sem parar pra pensar)você

passar a senti-la,o milagroso
porquê do
morrer?por

que morrer é
perfeitamente natural; perfeitamente
dito
suavemente  vivamente(mas a

Morte

é estritamente
científica
&  artificial  &

má & legal)

vos agradecemos
deus
onipotente por morrer

(perdoe-nos,ó vida!o pecado da Morte

 

O tigre de veludo, tradução de Mario Domingues

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“O Senhor Cogito e a imaginação”, de Zbigniew Herbert

 

1.

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialética

as selvas de quadros convulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é um pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha reta
a atração exercida pela terra

 

2.

o Senhor Cogito será arrumado
na categoria minores

acolherá com indiferença o veredito
dos homens de letras

utilizava a imaginação
para outros fins
queria fazer dela
um instrumento de compaixão

desejava compreender a fundo

– a noite de Pascal
– a natureza do diamante
– a melancolia dos profetas
– a cólera de Aquiles
– a loucura dos assassinos em massa
– os sonhos de Maria Stuart
– o medo neandertaliano
– o desespero dos últimos Aztecas
– a longa agonia de Nietzsche
– a alegria do pintor de Lascaux
– a ascensão e a queda do carvalho
– a ascensão e a queda de Roma

de forma a ressuscitar os mortos
e a manter a aliança

a imaginação do Senhor Cogito
segue um movimento pendular

passa com precisão
de sofrimento para sofrimento

não tem lugar
para fogos de artifício poéticos

o Senhor Cogito quer permanecer fiel
a uma incerta claridade

 

[Escolhido pelas estrelas, Tradução de Jorge Sousa Braga,
Lisboa, Assírio & Alvim]

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“Vontade de virar índio”, de Franz Kafka

kafka_indio

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03/02/2014 · 8:30

“Para um amigo cujo trabalho deu em nada” – W.B. Yeats

 

Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.

 

De Os pássaros e outros poemas. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
e Laureano Silveira. Lisboa, Relógio D’Água.

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Soneto XIII, parte II dos Sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke

Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já
para trás de ti, como o inverno que agora parte.
Pois que entre os invernos há um tão sem fim inverno
que só hibernando o teu coração resiste.

Sê sempre morto em Eurídice -, mais cantante, sobe,
mais laudante, sobe atrás, à pura relação.
Aqui, entre evanescentes, sê, no império das gotas que sobram,
sê um copo sonante, que já no som se quebrou.

Sê – e sabe em simultâneo a condição para o não-ser,
o fundamento infinito da tua vibração interior,
para que a leves a cabo por inteiro, desta única vez.

Ao desgastado aprovisionamento da repleta natureza, tanto
quanto ao entorpecido e mudo, aos indizíveis somatórios,
acrescenta-te rejubilando, e aniquila o número.

Tradução de José Miranda Justo

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Fragmento da “Elegia XVIII – Progresso do amor”, de John Donne

Quem quer que ame, se não determina
O correto e verdadeiro objetivo do amor,
É dos que vai ao mar para ficar enjoado.
O Amor nasce como a cria do urso: se lambemos demais
O nosso amor, e a novas e estranhas formas o forçamos,
Erramos, e de uma massa informe um monstro fazemos.
Não seria um monstro um vitelo que crescesse
Com cara de homem, embora melhor do que a sua?
[…]

Elegias amorosas, de John Donne.
Tradução de Helena Barbas.
Lisboa, Assírio & Alvim

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