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XV Jornada Corpolinguagem / VII Encontro Outrarte

Sem Título10

Extraído do site do evento, onde é possível encontrar outras informações, como eixo temático, programação etc.:

No ano de 2015, o Centro de Pesquisa Outrarte se propõe interrogar a história/ histeria, a poesia com a qual se faz a história.

No seminário 3, Lacan fala que a obra de Freud está cheia de enigmas, de “pedras de espera”, que a releitura de seus textos sempre trazem algo a mais, diferente daquilo que se aguardava. A historicidade é uma dessas pedras de espera.

Quando Lacan afirma que o sujeito da psicanálise é o sujeito cartesiano do cogito, ele inscreve a psicanálise como um saber moderno, abrindo o espaço para a questão de sua historicidade. Porém, quando procuramos a sua inscrição nos textos psicanalíticos, a historicidade parece difratar-se, estilhaçar-se, fragmentando-se em uma multiplicidade de termos: na rememoração – o próprio terreno de partida da psicanálise -, na regressão e na repetição; na representação e no representante-da-representação; na interpretação e na construção; na distinção freudiana entre acontecimento histórico e verdade histórica, presente no Moisés; nas escansões do tempo lógico e nos tempos da estrutura; na narrativa, no mito, no romance, na “pequena história” do sujeito.

O ponto de fragmentação, do estilhaçamento, é o inconsciente. Lacan inventava a etimologia – a historicidade – das palavras a partir das vizinhanças homofônicas – história, histeria, estória…-, como formações do inconsciente. A poesia estilhaça a linguagem, e a historicidade se escreve com fragmentos, com pedras de espera, com letras inscritas em uma lógica da escansão e da antecipação:

O fato de [Freud] ter enunciado a palavra inconsciente, não é nada mais que a poesia com a qual se faz a história. Mas a historia, como eu o digo algumas vezes, a história é a histeria. Freud, se experimentou seguramente o que é da histérica, se fantasiou em torno da histérica, isso não é evidentemente mais que um fato de história.
Marx era igualmente um poeta, um poeta que tem a vantagem de ter conseguido fazer um movimento político. Por outra parte, se qualifica o seu materialismo de histórico, isso não carece certamente de intenção. O materialismo histórico é o que se encarna na história. (Lacan, O momento de concluir, lição de 20/12/1977).

Existem várias formas de contar, narrar, relatar uma história. E há formas e formas de iluminar ou alienar um texto pela fala, “mas a história do humano prossegue no texto” (Lacan, A ética da psicanálise, lição de 4 de maio de 1960).

O caso clínico constitui o gênero discursivo privilegiado para a transmissão da/ na psicanálise, e é a unidade mínima que caracteriza seu método de investigação. Nesse sentido, cabe perguntar: Podemos fazer da escrita do caso clínico o ponto de cruzamento entre esses fragmentos constitutivos de historicidade?

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Entrevista de Roland Barthes

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A voz de Sigmund Freud

Gravação da BBC, realizada em 1936:

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“Relação de poeta com Freud é guia de relato sobre existência”

Texto de Vladimir Safatle sobre o livro Por amor a Freud: memórias de minha análise com Sigmundo Freud, de Hilda Doolittle. Publicado no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo:

Em 1933, a poeta norte-americana Hilda Doolittle (1886-1961) iniciou análise com Sigmund Freud.

Aos 47 anos, ex-amante de Ezra Pound, de D.H. Lawrence e com longas ligações homossexuais, Hilda passara por tratamentos psicanalíticos malsucedidos contra os seus estados melancólicos antes de encontrar Freud.

Seu encontro com o fundador da psicanálise (chamado por ela de “médico irrepreensível”) será um interessante capítulo dos contatos entre psicanálise e vanguardas estéticas do início do século 20.

O encontro foi descrito no livro, agora traduzido para o português, “Por Amor a Freud: Memórias de Minha Análise com Sigmund Freud”.

A obra, no entanto, não pode ser vista como um relato cujo valor se encontraria em seus detalhes clínicos e nas descrições da maneira como Freud trabalhava.

Até porque há pouco a este respeito nos dois textos escritos por Doolittle, assim como nas cartas anexadas ao final. A importância do relato encontra-se em outro lugar.

Logo ao início de seu texto, Doolittle afirma: “Eu não percebia exatamente o que queria, mas sabia que eu, como a maioria das pessoas que conhecia, na Inglaterra, nos EUA e na Europa continental, estava à deriva. Estávamos à deriva, onde? Eu não sabia, mas ao menos aceitava o fato de que estávamos à deriva”.

Com essas frases, Doolittle não descreve apenas uma experiência subjetiva, mas a condição objetiva da subjetividade de uma época.

Ninguém melhor do que uma poeta para perceber que esta “deriva” não era apenas resultado da perda de horizontes substanciais de validação das condutas e julgamentos. Era o resultado da consciência paulatina da nossa incapacidade de organizar a experiência do tempo, da memória e do desejo a partir dos imperativos de unidade e identidade de um Eu compreendido como sede de nossa individualidade.

Nesse sentido, foi a sensibilidade de poeta modernista que a fez encontrar, na psicanálise, não apenas uma prática clínica capaz de dar conta desse sofrimento psíquico de deriva (que se retratava tão bem em sua sexualidade), mas uma maneira de falar de si quando se está disposto a problematizar o que se deve compreender por “si mesmo”.

Ou seja, o que vemos em seu relato é a maneira com que a psicanálise apareceu, à sensibilidade moderna, como prática que trazia um novo regime do falar de si.

Regime que se encontrava com certas aspirações de reconstrução da expressão subjetiva que animava as experiências estéticas vanguardistas.

Isso talvez nos explique porque o relato de Doolittle parece mais interessado em seguir os ritmos da associação livre, assumindo um estilo de escrita que não é a totalização discursiva de uma história do indivíduo, mas da descoberta de como ele é habitado por vários tempos e experiências que parecem transbordar os limites da pessoa.

Na verdade, essa era a maneira de dizer que, em um dado momento, clínica e estética se associaram para fornecer às sociedades ocidentais um novo regime de compreensão do que somos e de como nos descrevemos.

POR AMOR A FREUD
AUTORA Hilda Doolittle
EDITORA Zahar
TRADUÇÃO Elisabeth Roudinesco
QUANTO R$ 49,90 (288 págs.)
AVALIAÇÃO bom

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