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“Milton: a música”, de Caetano Veloso

Coluna de Caetano Veloso publicada no jornal O Globo no dia 6 de outubro de 2013:

Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”, escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs “Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton, coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba Trio do que ao rigor fundador de João.

Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos 60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a mirada pop da produção cancional.

Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton. Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior. Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro, era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e “Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo (bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura: a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton com a banda no palco, de repente entendi tudo.

A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se no Brasil.

E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco…

Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça.

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“Cheira como inconformismo” – Tony Bellotto

Muito boa a estreia de Tony Bellotto no Segundo Caderno do jornal O Globo. A crônica foi publicada no dia 23 de junho de 2013:

Napalm

“Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz o esquizofrênico coronel Kilgore, personagem interpretado por Robert Duvall em “Apocaypse now”, enquanto surfa nas marolas de um rio durante um bombardeio na Guerra do Vietnã. Ao final da frase – uma das mais famosas do cinema -, o patético Kilgore conclui, inspirado pelas emanações do líquido incandescente e devastador: “Cheira como& vitória”.

Avenida Paulista

Em São Paulo depois de um ensaio com os Titãs, me deparo a caminho do hotel, na Avenida Paulista, com tropas de choque da polícia militar e caio por acaso numa das manifestações que têm ocorrido com frequência em cidades brasileiras nos últimos dias. Testemunho uma batalha campal, com a polícia descendo descaradamente o sarrafo nos manifestantes. Flashes de meus tempos de estudante assaltam-me a memória e me reúno àqueles jovens que – há quanto tempo eu não via isso! – protestam contra alguma coisa.

Gás lacrimogênio

Ao sentir olhos, narinas e garganta arderem ao contato do gás lacrimogêneo, automaticamente me entrincheiro com os manifestantes contra a ação exageradamente violenta da polícia. Entre uma tomada de ar e uma esfregada nos olhos parafraseio o detestável coronel Kilgore – por motivos opostos aos seus, ressalte-se, já que sou um flanador ingenuamente anarquista e defensor radical dos direitos individuais e da democracia: “Adoro o cheiro de gás lacrimogêneo ao cair da tarde. Cheira como& inconformismo.”

Polícia para quem precisa

Sou de uma geração que cresceu durante a ditadura militar e atingiu a maioridade quando o país se redemocratizava. Participei de manifestações contra a ditadura e a favor das eleições diretas e da anistia. Integro uma banda que se notabilizou pelo discurso contestador e insubmisso. Não estivessem meus olhos lacrimejando por conta do nefando gás, eu poderia creditar a uma constrangedora onda de sentimentalismo as lágrimas que me escorrem pelas faces ao ouvir os manifestantes entoando a música “Polícia” – que compus há exatos 28 anos – como um hino de resistência à truculência policial na Avenida Paulista. “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”& snif, snif.

Cavalo de Troia

Há tempos me intrigava a apatia dos jovens em relação à política. Uma estratégia que incluía a cooptação de estudantes pelo poder estabelecido, com o ardil eficiente de creditar qualquer insatisfação com um governo popular a uma manifestação “burguesa”, ou elitista – no melhor estilo com que se acusavam os contrarrevolucionários no stalinismo -, somada a um sentimento generalizado e ufanista, docemente iludido, de que o Brasil deu certo, aparentemente funcionou muito bem até aqui. Na eclosão do escândalo do mensalão nos idos de 2005 estranhei que tão poucos artistas se manifestassem contra a esbórnia institucional que aqueles eventos sugeriam. Os Titãs foram dos poucos – pouquíssimos – a compor uma canção que comentava a situação, e “Vossa Excelência” é um hit que não podemos – e não queremos – deixar de fora de nossos shows até hoje. Talvez o gás lacrimogêneo tenha limpado meus olhos como um colírio ardente e me permitido ver que a suposta apatia dessa juventude, como num ditado zen, era apenas um cavalo de Troia recheado de revolta.

Navegar é preciso

Os jovens manifestantes criticam os aumentos das tarifas dos ônibus e do custo de vida, a má qualidade de transportes, educação e saúde, e questionam a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil. Ou seja, fazem o que jovens sempre fizeram, ou deveriam fazer: criticam, contestam e questionam tudo que acham errado. Os jovens falam por todos nós, ninguém aguenta mais tanta bandalheira e descaso. O movimento se expande e começa a receber adesões de toda a sociedade. O ponto mais interessante é que não aceitam a tutela de partidos nem de ideologias, pelo contrário, os abominam, o que demonstra que são mais inteligentes e articulados do que muitos gostariam. Ah, e se comunicam pelas redes sociais da internet, como fazem seus companheiros da praça Tahrir, da praça Taksim e de muitas outras praças libertárias espalhadas pelo mundo. E tem gente que ainda vê a internet como um poço de alienação. Navegar é preciso, dizia o poeta.

Caos

Pegos de surpresa, imprensa e políticos – e boa parte da população atônita – tiveram a princípio a percepção de que as manifestações expressavam uma ação desarticulada de vândalos incendiários e desocupados ressentidos. Mas estavam errados e já reformulam às pressas seus discursos e teorias. Concordo que qualquer patrimônio – histórico, público ou privado – não deve ser depredado, assim como o direito de protesto tem de ser respeitado até o momento em que ameace a segurança pública. Mas é muito difícil encontrar esse equilíbrio e algum caos terá de ser assimilado. É preciso ter um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela bailarina, dizia o filósofo.

Pai e filho

Me ocorre uma canção composta por Cat Stevens antes de se tornar um fanático religioso e sectário, “Father and son”. Nela Cat expressa duas visões de mundo na forma de um diálogo entre um pai e um filho. Diz o pai em tom grave: “Não é tempo de mudar, apenas sente-se e vá devagar, você continua jovem, esse é o seu problema, há muita coisa que você tem que enfrentar.” E o filho rebate em tom agudo, quase gritando: “Como eu posso tentar explicar, quando faço ele ignora, é sempre a mesma coisa, a mesma velha história. Quando pude falar, fui obrigado a ouvir. Agora há um caminho e eu sei que tenho de ir embora, eu sei que tenho de ir.”

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“Machado” – José Miguel Wisnik

Coluna de José Miguel Wisnik publicada em 1 de junho de 2013, no Segundo Caderno do jornal O Globo [via Conteúdo Livre]:

Em 2007 participei de uma Semana da Língua Portuguesa em Moscou. O evento era uma iniciativa das embaixadas do Brasil e de Portugal e desenrolava-se na Biblioteca de Literaturas Estrangeiras, em cujo pátio aconteceria o momento áureo e mais solene do evento: a inauguração do busto de Machado de Assis. Bustos, estátuas e efígies de escritores, meditativos, eloquentes ou simplesmente de perfil para a posteridade, espalham-se por toda parte em Moscou. Lá, os encontros costumam ser marcados aos pés de Pushkin. Maiacovski ocupa uma praça em cujo subterrâneo está a estação de metrô com seu nome, no teto da qual se inscrevem poemas seus. Dostoievski e Tchecov são colossais. A entrada em cena do busto de Machado era um passo modesto, mas curioso, e bem à moda russa, do lento reconhecimento que vem se dando do nosso escritor maior no plano da literatura mundial.

Mais curioso ainda, e no entanto nada modesto, se revelou quando nos deparamos com o lugar que o nosso marco literário ocupava no átrio povoado pelos vultos de Goethe, Proust, Joyce, Pirandello. É que o representante da embaixada, um animado nissei brasileiro, em contato com os funcionários da biblioteca, tinha perguntado a eles sobre a localização do busto a ser instalado. Como a Rússia se parece com o Brasil na admissão de uma razoável margem de indeterminação, a resposta foi a de que ele podia escolher onde lhe parecesse melhor. O resultado irônico, ao descerrar-se o véu inaugural, é que Machado reluzia nada mais nada menos do que no centro geométrico do pátio, no epicentro das forças literárias do ocidente, tendo à sua volta o que parecia ser por um momento um irlandês bêbado, um alemão altivo e deslocado, um francês blasé, um italiano à procura de lugar, sem falar numa legião de outras expressões nacionais, todos convertidos por um efeito ótico instantâneo em orla periférica da inesperada centralidade machadiana.

Por obra de um acaso objetivo que não deixava de ser cômico e iluminador, o “mestre na periferia do capitalismo”, em Moscou, ocupava o centro. É significativo lembrar que o próprio Roberto Schwarz chamou a atenção, em “Ideias fora de lugar”, para as enormes afinidades entre as literaturas do Brasil e da Rússia, esses países continentais historicamente ligados ao escravismo e à servidão, na periferia do centro europeu. Por uma espécie de inadvertida revanche contra o pouco reconhecimento internacional de sua grandeza, o fora de lugar encontrava neste lugar de fora um equívoco mas não descabido lugar máximo. Não sei se a biblioteca russa corrigiu ou não, depois, o gesto soberano do nosso representante diplomático, que, sem saber, fez justiça com as próprias mãos: justiça, refiro-me, ao que sustentara Susan Sontag em 1990, confessando-se “espantada de que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece no palco da literatura mundial”. Na mesma passagem, ela constatava o quanto o centro pode ser periférico, e a periferia, central.

Lembro tudo isso por causa da tese de Hélio Guimarães, de cuja banca fiz parte, e que rastreia mais de um século da recepção crítica de Machado de Assis, os caminhos enviesados da sua conversão em monumento e as surpresas desconcertantes que ele não cessa de fazer pelas bordas e no miolo. Pelo quanto uma obra literária pode demandar, suportar e desafiar leituras ao longo dos tempos. Pelo quanto somos esquisitos aos olhos do mundo, e aos nossos, se nos admitíssemos nos ver. Lembro os textos de José Antonio Pasta que flagram a luta de morte como constante estrutural insidiosa no romance brasileiro, onde os antagonistas se confundem e se anulam sem a possibilidade de um salto dialético.

Penso no fato de que, desde a minha última coluna, na qual crianças xingavam André Mehmari, um morador de condomínio de luxo matou o casal vizinho por causa de som e fúria, significando nada, o prefeito do Rio esmurrou um artista que o xingava, mas que não sustentou o que dizia e o golpe que sofreu, e mais um dentista teve o corpo queimado por bandidos, atestando que o crime também segue, a seu modo, tendências e moda.

Hoje, no entanto, tudo isso é atravessado por um raio luminoso, o depoimento da historiadora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade, sobre as torturas que sofreu durante a ditadura militar. Da violência nós sabemos, de maneira genérica. Da sordidez e da minúcia sádica, da covardia e dos meandros mais mesquinhos e sinistros do mal, confundidos com a vida oficial brasileira, ela nos diz de maneira elevada, cristalina e irrespondível. Esse depoimento precisa ser conhecido na íntegra, não direi como uma lição moral e cívica, que não deixa de ser, mas como um testemunho da nossa humanidade.

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“Idades” – Caetano Veloso

Linda a crônica de Caetano Veloso publicada hoje, 24 de junho, no Segundo Caderno do jornal O Globo [via Conteúdo Livre]:

Suponho que eu não gostava da infância. Lembro-me de muita impaciência e de uma quase permanente irritação contida. Havia alegrias — como desenhar caminhos de ferro com carvão no cimento imenso do quintal (nesgado de canteiros com arbustos às vezes floridos, num deles um araçazeiro, no do centro, maior, uma mangueira gigantesca) — por onde fazíamos viajar os trens feitos de ferros retangulares que, com suas ordenadas protuberâncias para encaixe, ficavam no almoxarifado aguardando a vez de irem cravar-se em postes de telégrafo ao longo da ferrovia de verdade. Havia mesmo felicidade nas horas passadas nos galhos altos da mangabeira (que é o que chamávamos de araçazeiro), achando araçás ainda não maduros, as cascas mostrando o entumecimento lento da maturação, movimento supostamente imperceptível mas nitidamente percebido por meus olhos atentos demais, prazerosos demais em sua adivinhação da resistência que a polpa da fruta ofereceria aos dentes antes de exibir seu sabor agridoce, seu travo e sua fresquíssima informação de vegetalidade.
E também na convivência com a grande malta da família, muitas mulheres e nenhuma briga aberta, minha mãe distante mas presta ao menor anúncio de lesão corporal, meu pai além dela mas comandando tudo. Todos os meus irmãos. Felicidade, sim. Em todos uma certa admiração divertida pelo que pareciam ser meus dotes especiais de memória, poder de aprendizado, lucidez. Não tenho nada objetivo de que me queixar. Apenas fui crescendo com impaciência e vi que quem tinha 7 anos desprezava a condição de quem tinha 4, e quem tinha 12, a de quem tinha 7. Isso era Santo Amaro.

As marcas assustadoras, deliciosas da adolescência me assaltaram no Rio. Deixei de ser criança no ano que passei em Guadalupe. Até hoje, por mais que leia sobre as angústias da adolescência e a infinita felicidade da infância, noto antes a alegria que apresentam todas as pessoas que conheci ao deixarem de ser crianças. Crianças choram várias vezes por dia, comem, deitam-se para dormir e tomam banho na hora que os adultos mandam. Não ter autonomia não é sentido como algo que dê contentamento. Não quero negar os conflitos que deve haver — e há — no período da passagem. Mas, para mim, adolescentes são mais alegres do que crianças. Acho que sempre achei isso. Desde que era criança. Também quando era adolescente. Percebi que a idade adulta traz ainda maior firmeza a esse gozo da autonomia, mas o florescer dessa ventura ficou para sempre ligado, em meu imaginário, à puberdade. Então posso dizer que sempre fui adolescente. Quinze anos é a minha idade. Talvez 14. O resto são marcos exteriores que não me dizem respeito, como esse número 70 que a gravadora e meu escritório de produção colaram em meu nome no site que rola na internet. Para mim, mesmo esses marcos exteriores se submetem à estrita datação da viragem: tenho 69 anos até o dia 7 de agosto, período, de resto, em que Chico Buarque, que completou 68, fica apenas um ano mais novo do que eu. Mais moderno, diria um santamarense (ou aquele jornal de Cachoeira cuja notícia virou crônica de Machado de Assis estudada por Roberto Schwarz, este último parecendo sacar ainda menos do que Machado que “moderno” no recôncavo baiano significa “jovem”).

O desenvolvimento da mente tem uma espécie de ápice aos 50. Não é uma regra, mas senti isso em mim. Julguei que seguiria igual aos 65. Mas logo vi que minha memória não era a mesma. Eu tinha sofrido muito quando, aos quarenta e poucos, tive que pôr óculos para ler. Eu sempre tinha tido excelente visão, não achava suportável ter que usar esse apetrecho nem preocupar-me em não perdê-lo. Tive também de me acostumar a ouvir as pessoas dizerem “o óculos” em vez de “os óculos”. A não concordância de número nos verbos e adjetivos relacionados também me faziam mal. Gosto de gramática, de normas para a língua, acho que a tendência à não observância dessas coisas denota insalubridade social. Escrevo de modo um tanto barroco, mas não acho que os brasileiros devessem estar desatentos a regras de clareza, coerência e coesão. Também não me deixa feliz ler, com tanta frequência, coisas como “Fulano não entregou o DVD à Beltrano”. Esse acento agudo que indica crase onde não há (coisa que um linguista declarou uma vez que deveria já ser a regra) me entristece. Casmurrice de velho? Não: quando era garoto, eu era mais puro em minhas paixões e vaidades gramaticais.

Digo que tenho 14 anos. Poderia dizer 30, a idade que tinha quando nasceu meu primeiro filho, em meio à alegria indizível de ter voltado para o Brasil. Mas também então me sentia adolescente. A descrição minuciosa das impressões de infância pode fazer crer que a idealizo como todo mundo. É que as experiências correspondentes na adolescência eu não vou descrever aqui.

Um dos sinais mais claros de que estou velho foi ler Francisco Bosco dizendo não entender que graça achávamos em Francis. Foi uma delícia ler um Bosco fragmentário (tão pouco fragmentário, se visto daqui do nosso domingo). Amadureci o bastante para dizer que não creio que conceitos como “luta de classes” expliquem tudo. Que nem sei se esse um diz respeito a algo evidente. Como adolescente, sinto o gosto das descobertas, tenho medo, tenho imensa alegria, começo a ousar dirigir a palavra a estranhos, não apenas a papai e mamãe. Acho lindo o Cristiano Ronaldo e sua difusão mundial da música de Teló.

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“Back in the U.S.S.R” – José Miguel Wisnik

Crônica de José Miguel Wisnik publicada no Segundo Caderno de 9 de junho de 2012 [via Conteúdo Livre]:

Eu não imaginava que a canção do “Álbum branco” dos Beatles, ouvida no carro durante a viagem, daria a deixa para a chegada a Detroit: uma visão de United States (“Back in the U.S.”) que se deixava confundir, por um momento, com uma chegada à União Soviética (“Back in the U.S.S.R.”). Se por um lado o coração da cidade é uma ruína deprimente e impressionante do que foi a indústria automobilística americana entre os anos 1920 e 50, as avenidas largas e vazias que levam ao centro, com seus prédios públicos avantajados e escassamente povoados, tudo em estilo anterior à grande virada dos anos 1960, lembram a Varsóvia que eu conheci em 1984, a Berlim do outro lado do Muro, alguma cidade da Lituânia e certamente a Moscou de então.

Que Detroit, a cidade-motor que gerou a gravadora Motown (a energia industrial da música negra, com Marvin Gaye, Diana Ross, Stevie Wonder e Jackson Five) e Madonna (filha de um empregado da Chrisler), venha a se parecer de algum modo com o grande Outro dos Estados Unidos no período da Guerra Fria, sem deixar de ser um testemunho vivo dos Estados Unidos, é um dos enigmas que habitam essa concentração desoladora e inacreditável de edificações arruinadas e bairros abandonados, de monumentos à opulência, de regiões baldias e detritos irredutíveis.

Os grandiosos murais de Rivera no Detroit Institute of Arts, exaltando o universo do trabalho e da técnica, com seus administradores, cientistas, operários e máquinas, e unindo a grande mãe natureza, os homens, os saberes e os artefatos no ritmo fabril, reforça essa intrigante sensação de semelhança com o mundo soviético que se respira vagamente em torno do museu. Os murais, que foram bancados pela família Ford no início dos anos de 1930, trabalham de maneira sibilina com os símbolos cristãos danatividade, convertendo – os numa apologia da produtividade, e podem ser lidos na chave das alegorias do realismo socialista, embora com um frescor colorístico inconfundivelmente latino.

Esses impactantes e não confessados monumentos da junção do fordism com o marxismo nas Américas foram contestados por representantes religiosos, na época de sua inauguração, e mais tarde pelos macarthistas. Mas mesmo esses foram obrigados a concordar que os murais funcionavam, queira-se ou não, como um elogio da pujança norte-americana. Motivo pelo qual eles continuaram lá, testemunhando um segredo que o tempo desnudou, mas que Detroit guarda melhor do que nenhum outro lugar: a concorrência entre o capitalismo e o socialismo soviético teve como base, até o ponto de descolamento que os diferenciou, uma mentalidade industrialista e produtivista comum aos dois, cujos signos Detroit guarda e ostenta na era pósindustrial (que é ao mesmo tempo pós-fordista e pós-soviética) como ruína.

Olhando-a, a gente se pergunta sobre a onda histórica que foi capaz de produzir nela uma devastação no mínimo tão intensa quanto a do Katrina sobre Nova Orleans, e mais perturbadora pela sua complexidade. Comentadores apontam como causas a crise do petróleo em 1974, que assinala o fim do modelo fordista, data-chave do chamado período pós-moderno, a concorrência da indústria automobilística transnacional e a fuga das implantações industriais, de modo geral, dos grandes polos urbanos (sem falar na crise recente, de 2008). Cabeça e berço da indústria do automóvel,  Detroit teria sofrido em cheio o impacto das mudanças que afetaram, mais que tudo, o próprio lugar da indústria no mundo, passando a fazer parte do “cinturão ferruginoso”da crise urbana norte-americana, numa versão ao mesmo tempo aparentada, oposta e decrépita da Cortina de Ferro.

Nova York, Chicago e Los Angeles são sinais vívidos da passagem ao universo dos serviços e das informações no “capitalismo tardio”, onde as fábricas não são mais visíveis. Mas Detroit, incapaz desse salto talvez porque constituísse o mundo industrial em sua versão quimicamente pura, transformou-se rapidamente no canteiro arqueológico dela mesma. Thomas Sugrue acrescenta um dado importante: as fábricas se deslocaram para contextos não urbanos e para países do terceiro mundo, incluindo o Brasil; os ricos de Detroit fugiram para os subúrbios, financiados pelo governo (ou estão no imenso complexo arquitetônico de shoppings e escritórios que espelham a devastação à sua volta, fechados para ela), e os negros pobres (numa cidade sem hispânicos nem asiáticos) foram abandonados à sua própria sorte — ao ver de Sugrue, em verdadeira represália política às conquistas do movimento dos anos 1960 (o que aparentaria o quadro de Detroit, guardadas as diferenças, ao de Nova Orleans imediatamente pós-Katrina, abandonada por Bush).

Os incríveis edifícios do período áureo luzem em meio a isso tudo como estrelas extintas, banhados dessa luz equívoca própria dos signos da opulência passada, quando ficam livres das ilusões imediatas que ostentaram e, por isso mesmo, mais verdadeiros, mais ilusórios, mais belos e mais absurdos. As galerias do Fish Building, folheadas a ouro, são inspiradas em mosaicos bizantinos e parecem, ainda uma vez, o metrô de Moscou (haveria que estudar o fato de que o ícone religioso, dos monumentos às propagandas e às vitrines, é a base do imaginário industrial capitalista e socialista que findou).

O estonteante e hilariante Guardian Building, a Catedral das Finanças, mistura o gótico com esfuziantes motivos indígenas de inspiração local, parecendo ainda uma basílica de São Pedro onde o altar papal fosse o balcão de um café. Pequenas casas de lanche iguais às dos anos 1950 em São Paulo me comovem às lágrimas. O neon de um restaurante anuncia: “Extremely fast delivery”. Dentro, tudo parado como num quadro de Hopper.

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“Sobrevivendo no inferno” – Caetano Veloso

Reproduzo o texto de Caetano Veloso publicado em sua coluna do Segundo Caderno do jornal O Globo, em 29 de abril de 2012 [via Conteúdo Livre]:

Por que a Nike lançou uma linha de tênis e camisetas com o nome de Mano Brown sem tomar a precaução de fazer um contrato com ele? Os produtos WFC Mano Brown estiveram, até faz pouco tempo, à venda em lojas da marca por todo o mundo e também na internet. A resposta é que a Nike não teme nenhumas consequências que possivelmente adviriam de um ato assim. Parece que, sobretudo num país como o Brasil, as grandes corporações agem como se não estivessem ligando muito para os direitos de indivíduos mais fracos do que elas. Digo sobretudo no Brasil porque me contam que aqui as indenizações são, por lei, calculadas a partir do poder aquisitivo de quem as recebe. Ou seja, a vítima de um uso abusivo de seu nome ou imagem será compensada de acordo com o lugar na pirâmide social que ela já ocupa: terá direito a muito se for rico; se for pobre ou remediado, terá direito a muito pouco ou a simplesmente pouco. Sendo assim, qual a empresa que fará cálculos levando em consideração a honra e a dignidade de quem quer que seja?

Mano Brown é uma referência para moradores de favelas por todo o Brasil; para músicos inteirados do que se passa na cultura popular contemporânea; para adolescentes de todas as classes sociais; para aspirantes a poetas. Chico Buarque já citou mais de uma vez o rap (ou o hip-hop em geral) como a verdadeira música de protesto do nosso tempo: não é feita por universitários bem nutridos que se comovem com o sofrimento dos excluídos, mas pelas próprias vítimas da exclusão. Os Racionais MCs, grupo de que Mano Brown é líder, representam o ápice da cultura hip-hop entre nós.

Nascido da importação de formas musicais jamaicanas por músicos do Bronx, em Nova York – não sem a referência da música eletrônica alemã do Kraftwerk, da disco music, da capoeira, dos discípulos de Marcel Marceau e dos filmes de Bruce Lee -, o hip-hop, disparado por Clive Campbell (Kool Herc) e Afrika Bambaataa, vem sendo, desde que se tornou amplamente conhecido, a partir do início dos anos 1980, a expressão mais acabada de uma mistura de nacionalismo negro com direito à visibilidade das camadas desfavorecidas. Como tal, nenhuma outra forma de arte popular ou de massas se lhe pode comparar em força internacional, superadora do modelo de distribuição que tem os Estados Unidos como centro gerador. Ainda é a vontade feladaputa de ser americano que (como, modéstia à parte, sinteticamente eu disse numa canção de homenagem a Raul Seixas) atrai jovens do mundo todo para o hip-hop, como já o fizera com o blues, o jazz, a canção da Broadway e o rock. Mas nenhum desses gêneros tinha no seu DNA (que quando eu era estudante ainda se chamava ADN) a impressão digital de criadores vindos de fora dos EUA. A Jamaica de onde veio, na memória de Campbell, a colagem de falas ao vivo com ritmos gravados, contribuiu no nascedouro, não com uma tradição primitiva a ser utilizada por americanos sofisticados, mas com uma nova formulação de elementos expressivos. Há um livro excelente sobre o assunto: “Infectious rhythm”, de Barbara Browning. Assim, a ênfase no nacionalismo negro sobre o brasileiro – e a autodefinição de classe por sobre a de região ou nacionalidade – se dá de forma mais legitimada do que nunca. O álbum “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais, é a obra-prima dessa experiência entre nós.

É por sua autenticidade e força poética que esse disco se coloca no centro do coração de tantos adolescentes desde que foi lançado, perto do final da década de 1990. De minha parte, como ponho, por programa, o sonho do Brasil acima de todos os outros elementos de todas as outras dialéticas, adivinho nesse apego das sucessivas gerações de garotada pelo rap uma vivência inconsciente da talvez principal missão do nosso país: salvar a África. Não apenas o maior dos continentes e o lugar de origem da raça humana, mas também todo o grande sentido da sofrida diáspora de seus primitivos habitantes na violência da maré montante do Ocidente e do Cristianismo. Então é com reverência que olho para Pedro Paulo Soares Pereira, Mano Brown e seus amigos que, como ele, tomaram apelidos tirados da língua inglesa: Edy Rock, Ice Blue e KL Jay.

Eles nos têm ensinado a sobreviver no inferno. Brown não pode ser submetido aos caprichos ditados pelo lucro de uma grande marca. Quem desce aos infernos está mais apto a ressurgir dos mortos e subir aos céus – e sentar-se à mão direita de Deus Pai.

A cultura hip-hop, como não podia deixar de ser, contaminou-se da ética das gangues, do mandonismo dos traficantes, da adoração à afirmação capitalista de automóveis, bebidas caras e roupas de grife: o gangsta rap americano (que não deixou de ser relevante esteticamente por isso) está cheio de exemplos. Mas isso são cores do complexo fenômeno. Em seu sentido mais abrangente e mais profundo, o hip-hop é a exibição de força dos que começam a construir a onda ascendente que há de mudar o mundo. Suas versões brasileiras são particularmente dignas. Mano Brown é o rei e o profeta. Não pode ser lançado ao desrespeito. Se ele não fez contrato com a Nike para dar seu nome a produtos dela – e não fez -, a Nike deve, cedo ou tarde, saber que tem que pagar caro pela desatenção. O que mais assombra nas euforias capitalistas é o irrealismo. O grupo de pessoas que decide passar a perna em alguém grande como Brown pensa que representa a esperteza. Na verdade, representa o delírio, o engano, a falha total.

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“Cenas chocantes no Fashion Mall”, de Arnaldo Bloch

Crônica de Arnaldo Bloch publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo de 4 de março de 2012 [via Conteúdo Livre]:

Conversava com o roteirista e diretor Rafael Dragaud, de “Conexões urbanas”, sobre sua mudança de residência, de um pequeno apartamento no Leblon, entre a Cruzada São Sebastião e o Jardim de Alah, para uma casa em São Conrado, nos altos das Canoas, na fronteira também com uma pequena comunidade. Rafael me contava, horrorizado, as cenas que tem presenciado no Fashion Mall — shopping que passou a frequentar mais desde que se mudou — e que o fazem refletir sobre o quanto somos, ainda, escravocratas.

A primeira cena foi de uma moça com biótipo nordestino que passeava com três crianças de pele bem clara, como seus cabelos e seus olhos. Um segurança negro e alto a abordou, com educação. Numa localização estratégica, Rafael, que tem o hábito de observar, na moita, esses enclaves comportamentais, viu tudo, como um antropólogo.

Percebeu, inclusive, o constrangimento do segurança, de origem humilde, e seu esforço para encontrar um modo de falar que não ofendesse a moça, ao lhe perguntar qual o grau de relação que tinha com aquelas crianças. Ao confirmar suas suspeitas — a mulher era babá da prole de algum casal que, naquele momento, fazia compras ou trabalhava —, o segurança pediu que se encaminhasse para algum misterioso destino, esperou que ela desaparecesse e passou um rádio para assegurar o procedimento. O fato: ela não podia ficar ali sem o uniforme de serviçal.

O Fashion Mall, não é novidade, tornou-se, em certos dias e horários, o shopping das babás uniformizadas conduzindo crianças de classe AAA, acompanhadas ou não dos pais, e carregando também as compras. Há momentos em que poderíamos jurar que estamos no set de “Histórias cruzadas”, o filme da Disney que mostra como eram tratadas as domésticas e babás (normalmente, elas faziam todas as funções) no Sul racista, na transição para a conquista dos direitos civis dos negros.

A diferença é que aqui, como nos ensinara Caetano em “Haiti”, o preto é sinônimo de pobre: pode ser branco, nordestino, caboclo, índio, é tudo preto, tudo preso, e o nosso apartheid hoje é mais social do que racial, embora sua herança seja escravocrata. O Rio de Janeiro, que na Abolição votou 100% contra, é até hoje craque em preconceito social e segregação, como se pode exemplificar na outra cena que Rafael presenciou, ao entrar, com sua mulher, numa sessão de “O espião que sabia demais”.

Numa das fileiras de trás, estava um desses yuppies de cabelinho penteado pro lado, que Rafael reconhecera, na entrada, de uma outra ocasião, quando o mesmo mandara demitir alguém pelo celular, aos gritos, enquanto comprava vinhos numa dessas adegas, e depois pegara a chave com o guardador sem olhá-lo na face.

Pois, o yuppie, com sua turma, tacava a maior zona, falando alto, consultando celular, aquela falta de educação característica de quem tem berço mas não tem caráter. Uma mulher, próxima a eles, em companhia do marido, reclamou.

— Por favor, silêncio! A gente pagou pra assistir ao filme!

O Sr. Riquinho soltou um ganido de gazela:
— Ihhhhh… olha só…. olha a audácia… Pelo jeito, não tem dinheiro pra vir ao cinema, não vem nunca, daí dar tanta importância pra essa merda.

— Que absurdo! Eu ralo o mês inteiro pra ganhar meu dinheiro honesto e ainda tenho que ouvir isso!

O yuppie se dirigiu à mulher como a um cão.

— Psssssst…. ca-la-da! Ca-la-da! Foi quando o marido da cidadã resolveu se pronunciar. Levantou-se e se posicionou na direção do ofensor.

— Escuta, você está mesmo mandando a minha mulher calar a boca? Você está mesmo com disposição de resolver isso comigo fora da sala?

Como qualquer covarde pusilânime, o rico mimado sem classe pôs o rabo entre as pernas e desistiu de confrontar o casal trabalhador (o clichê é consciente e proposital). O que está por trás da orientação, decerto ilegal, que proíbe babás não uniformizadas de caminhar por um shopping com os filhos de seus patrões?

O que está na cabeça de quem administra o Fashion Mall, que andou perseguindo o filho de criação de Caetano, expulso do local por seguranças, acusado de “atitude suspeita”, talvez pela cor da pele e o trato rasta do cabelo? Não estaria na hora de se cobrar, na Justiça, de acordo com o código penal, a impropriedade desses procedimentos? Ou seriam apenas “atitudes isoladas”?

Os shoppings, para muitos, se tornaram bairros, cidadelas, “comunidades”, e já há grandes estabelecimentos do gênero em todas as regiões da cidade e do estado.

Há, inclusive, shoppings na Zona Sul onde se nota que a pluralidade é não apenas tolerada, mas desejada, como o Shopping Leblon, que, mesmo tirando onda de chique, tem suas galerias e lojas percorridas por madames e moradores da Cruzada, babás de jeans e empresários, Hells Angels e motoboys, sem que pareçam, uns, se incomodarem com os outros.

Ao contrário, a impressão que se tem é de se estar, do ponto de vista do cosmopolitismo, numa Avenida Copacabana, com todo o respeito e no melhor sentido do endereço. No Rio Sul e no Botafogo Praia Shopping também se respiram esses ares de boa mistura igualitária, mesmo que as carteiras, as contas bancárias e o poder de compra tenham diferenças consideráveis. Vitrines são para todos e, para os menos abastados, sempre sobra algum fruto do suor para se fazer um agrado, a si ou ao próximo.

O que há com o Fashion Mall para investir nessa abominável vertente de clube segregacionista? Um bom tema para reflexão (e para providências) na semana em que a cidade faz aniversário.

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