Arquivo da tag: Record

“Hora”, de Antonio Cicero

Para Alex Varella

Ajax não pede a Zeus pela própria
vida mas sim que levante as trevas
e a névoa a cobri-lo e aos seus em Troia:
que tenha chegado a sua hora
sim! Mas não obscura: antes à plena
luz do dia e sua justa glória.

[Do livro Porventura, Record, 2012]

2 Comentários

Arquivado em Poesia

“João Gilberto Noll fala de imprecisões em ‘Solidão Continental'”

Entrevista realizada por Ubiratan Brasil para o Estadão:

Por mais que busque o outro, o protagonista de Solidão Continental, novo romance de João Gilberto Noll, confirma o título e persiste solitário. Encontros carnais existem, mas a alma continua em busca de um complemento. A sexualidade em Noll é dolorosa e sem saída. Solidão Continental marca o retorno do escritor gaúcho ao texto longo dirigido a um público adulto – nos últimos anos, Noll se dedicou a livros para adolescentes, escrevendo sobre a fase da existência em que dúvidas profundas convivem com certezas absolutas. Agora, com o novo romance, retoma temas que lhe são eternamente caros.

'Gosto de compor cenas imprecisas', diz Noll - Divulgação
Divulgação
‘Gosto de compor cenas imprecisas’, diz Noll

“A prática da escrita é que faz construir a minha literatura, as suas atmosferas, a caminhada meio errante da minha criatura”, afirma ele em entrevista ao Sabático, por e-mail. O romance acompanha os passos de um homem que, de Chicago a Porto Alegre, cruza o continente em busca de respostas para suas divagações existenciais. Sobre o assunto, João Gilberto Noll, 66 anos, respondeu, com o seu apurado estilo, às perguntas enviadas.

Por que o grande personagem, em Solidão Continental, sempre parece ser o outro?

Se essa impressão ocorre, acho que ela vem do fato de o romance apresentar um sujeito em constante formação, entre a maturidade e a velhice, um homem que não se sentirá pronto enquanto não se inserir na alma do outro ou na própria natureza que o circunda. Pássaros, formigas, flor, o arrebol por vezes disfarçam a sua incompletude. Durante uma boa parte do livro, ele tem esses elementos por perto para ignorar provisoriamente a sua existência parcial. Mas me parece que se encarnar de fato no outro, como acontece ao final de Lorde, isso não está agora em pauta, o personagem não tem mais idade para encarar esse romantismo tão radical.

Como sempre, o senhor faz da solidão uma arte. O que tanto o atrai na solidão?

Acho que os seres que sofrem alguma atração maior pela solidão têm no seu mundo interior uma inflamação grave. Aqui, o de dentro é mais dilatado que o de fora. Há casos sem anti-inflamatórios que aliviem. Mas o protagonista de Solidão Continental sente que desperdiçou sua vida nessa condição, precisa de um amor, de voltar a ter a experiência do tato na pele do outro. Bem ao final, nos parágrafos derradeiros, surge uma promessa e ele se deixa levar por uma coreografia que o surpreende de fato, mas o cara não suspende o gesto e vai ali e toca, e já se vê tirando a roupa e a do outro corpo também.

O senhor escreve para celebrar a vida, ainda que seus personagens pareçam viver em completo exílio. Como explica isso?

A cena que acabei de revelar mostra justamente isso. Esse exílio contém em si, em certos momentos, seus próprios anticorpos. O instinto de morte, esse estar desaparelhado para a vida prática, ordenadora, construtiva, pode entrar em colapso e a luz entrar. A carnalidade então se expõe. É o que acontece com muitos dos meus protagonistas. Tenho notado ultimamente que a sua essência é a mesma de livro para livro. Não há continuidade de um romance para outro. As circunstâncias mudam. Mas a alma desse homem é a mesma a cada ficção. Esse ser geralmente sem nome, sobretudo em Solidão Continental, se indispõe ferozmente contra as suas próprias circunstâncias, como se ele tivesse sido jogado num mundo que nunca pediu. Por isso, por vezes, a sua quase que sanha paranoide.

Já se disse que o senhor narra como se fosse um geógrafo perdido num mundo esfumaçado. O senhor acredita que isso se aplica com mais intensidade a esse novo livro?

Gosto, sim, de compor cenas imprecisas, difusas. É como se fosse uma reação a um mundo exacerbado de assertivas definidoras e definitivas. Esse meu personagem é cheio de melindres no contato com as coisas, tem pouca iniciativa, bebe do outro diria que passivamente, com medo de que, com um gesto, possa inaugurar uma dimensão emancipatória, dimensão que… ele retarda… só sabe retardar.

Em alguns momentos, Solidão Continental faz pensar que se trata de um “falso” romance em que se esconde um livro de contos. Concorda?

Acho que não. Trata-se de um livro em capítulos, sendo que os três primeiros revelam o cara em viagem: Chicago, Madison e Cidade do México. Os outros pegam esse sujeito que se diz chamar João Bastos numa emergência hospitalar, pegam o sujeito no seu habitat, Porto Alegre. A partir da cidade brasileira começa a haver uma progressão mais incisiva, mesmo que esfumaçada. Ele segue o garoto como um cão segue o dono, ele se vê entre a vida e a morte, se fere, adquire uma cicatriz profunda na cabeça. Consegue se evadir do hospital, mas acha que precisa voltar para o pronto-socorro para não perder o próprio corpo, porque às vezes acredita que o seu próprio corpo ficou sobre a maca e ele é apenas um fantasma meio extasiado com o que o constitui. Quer dizer, há uma linha relativamente clara que percorre o campo do romance quase inteiro, embora com todas as tortuosidades. Mas a vida é assim, não é?

O senhor já disse que não se considera um autor biografista, mas quais são os limites entre o vivido e o fantasiado?

Esse homem que protagoniza os meus romances eu não o projetei desde o início da minha atividade literária. Hoje sei que ele está aí e que não é propriamente o meu eu biográfico, o cidadão João. Não, é diferente: ele pode até ter vindo da minha natureza, mas é um segundo personagem que não o da minha cidadania exercida no dia a dia social. Ele habita em mim, tá certo, eu o abrigo com certo desvelo, ok, mas se eu fosse viver a sua intensidade e coragem na vida real, eu hoje não passaria de uma lápide.

A urgência, a asfixia, até o surreal contribuem aqui para sua literatura do atordoamento. O senhor habitualmente começa a escrever quando forçado por essas sensações ou acontece o contrário, a escrita é que proporciona isso?

É a própria prática da escrita que faz construir a minha literatura, as suas atmosferas, a caminhada meio errante da minha criatura, etc. A aventura da escrita é que projeta na tela aquilo que ainda não sei quando sento pra trabalhar. Sim, tenho o personagem – e eu que o coloque em ação e reflexão como se em improvisos diários. Não, não sou tomado por atmosferas raras quando sento para escrever. Ao contrário: miro a tela em estado de vazio para que a presença do personagem possa se estabelecer.

Concorda com o que afirma Jefferson Agostini Mello na introdução do livro, de que esse é um de seus relatos mais intrincados?

É o enredamento típico da vida. Ninguém consegue viver com a nitidez de um romance naturalista. Não é um livro doutrinário da causalidade. No meio da enorme confusão urbana de hoje, quantas vezes não nos indagamos se já não estamos comprometidos neurologicamente para a cristalina apreensão dos fatos?

Seu texto novamente é marcado pela coragem, seguindo na contramão de algumas tentativas no sentido contrário, que buscam uma certa moralização da literatura. O que pensa disso?

Se existe essa tentativa mais do que em outros tempos eu estou distraído para percebê-la. Eu sigo tentando cumprir as minhas pulsões mais atávicas em dizer o nome das coisas eróticas como elas se me apresentam em portas de banheiros públicos e em outros lugares menos nobres. Mas, claro, não faço um documentário sobre a pornografia social, isso tudo vem ao lado das minhas leituras de Vieira, Faulkner, Clarice. Definitivamente, não me considero um pornógrafo, um sensacionalista. Em primeiro lugar, vem a linguagem. É com ela que trabalho primordialmente, não para aliviar as tensões sexuais do leitor. A mediação para o erótico, aqui, é a linguagem.

TRECHO
“Olhei irrefletidamente para uma espécie de recesso, um microespaço que eu jamais suporia que aquele quarto pudesse conter, algo normalmente escondido no azáfama da vista, uma coisa que não vinha propriamente de fora, mas de uma projeção de dentro, reconheço, algo como um refúgio”

SOLIDÃO CONTINENTAL
Autor: João Gilberto Noll
Editora: Record
(128 páginas, R$ 27,90)

1 comentário

Arquivado em Entrevista

Os poemas inéditos de Caio Fernando Abreu

Da coluna de Raquel Cozer deste sábado, 1 de agosto:

Versos inéditos de Caio

Caio Fernando Abreu nunca publicou um livro de poemas, mas dedicou-se aos versos dos anos 1960 aos 1990. O material foi doado em 2005 por Luciano Alabarse, amigo do escritor, à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e organizado pela professora Márcia Ivana de Lima e Silva. Após anos de espera, deve sair pela Record em outubro. Segundo Márcia, foi recusado antes pela Agir (do grupo Ediouro, que detém a prosa de Caio e acaba de publicar crônicas dele pela Nova Fronteira), sob a alegação de que “poesia não vende”. São 116 poemas. No mais recente, “Stone Song”, Caio diz, duas semanas antes de morrer: “Eu quero ser como as pedras e nunca sair daqui”.

Versos inéditos de Caio 2

Márcia diz ter ficado surpresa não por Caio escrever poemas, já que publicou alguns em vida (um deles aparece como letra de música em “Onde Andará Dulce Veiga?”), mas com a quantidade de poemas que produziu, alguns com até cinco versões.
A pesquisadora pretendia publicar volume fac-similar, mas isso terá de ficar para uma próxima edição. A que sai em outubro terá orelha do poeta Ramon Mello e organização com ajuda de Letícia da Costa Chaplin, que, sob orientação de Márcia, apresentou tese de doutorado a partir dos poemas inéditos.

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento

“Toscana da melhor qualidade”

Texto de Julián Ana sobre Cantos do mundo, de Evando Nascimento. Publicado no jornal Rascunho:

Tenho medo de ler livros escritos por professores universitários. O miasma dos artigos escritos para revistas que ninguém vai ler povoa a literatura de muitos. É que os tais têm o imaginário poluído por artifícios eruditos, aquela moedinha acadêmica que serve para ostentar bolsos vazios de outros capitais. Podem dizer que é inveja de crítico, que alguém que foi professor e universitário — e hoje recebe aquela aposentadoria — critica aquilo que não sabe fazer, escondendo-se como um cão medroso atrás do latido. Já falei que meu negócio são porcos e por isso arranjem metáfora melhor quando quiserem me criticar. Posso também eu dizer que criticar um crítico é a petulância dos pobres invejosos de críticos. Por este argumento ninguém esperava!

Bem, mas hoje vou falar do belíssimo livro do mui acadêmico Evando Nascimento e não precisarei de muitos esforços para mostrar que se trata de um grande livro de grandes pequenos textos. Antes, porém, tenho que apresentar algumas reflexões.

Quando eu era estudante, chamávamos de acadêmicos os caretas, e de vanguardistas, os progressistas. Para ser progressista havia três quesitos básicos: 1) fumar marijuana; 2) fazer sexo com todo mundo; 3) não ter conta em banco. Ideologia era um revestimento estético para a maioria deles: deu no que deu. Ah, claro, era preciso também não tomar banho, mas isso atrapalharia a trina arrumação que acabei de fazer e por isso a deixo de fora.

Muito tempo depois é que fui me dar conta de que os caretas eram muito parecidos com os progressistas, sobretudo neste quesito extraordinário do “não tomar banho”. Pode parecer que os primeiros disfarçassem o que os últimos não tinham vergonha em mostrar, mas não é bem assim. Marijuana poderia ser boa pra todos, mas os caretas preferem até hoje café e cocaína. E, na verdade, ambos gostam de conta em banco, mas os progressistas precisam do apoio dos pais, um marido ou uma mulher rica, um bom samaritano capaz de sustentá-lo. Todos são crianças, e os caretas, aqueles que, contentes com seu cofrinho, querem juntar moedinhas para ter cada vez mais moedinhas.

Eu fiquei no meio termo: troquei a marijuana por fumo de rolo que a minha aposentadoria de mierda deste gobierno de mierda (Por favor, não traduza o itálico) e os cofrinhos de plástico por uma pocilga inteira de sublimes Pietrains lindos até a formosura.

Notem que deixei para falar por último do sexo para explicar porque me encontro na virtude do meio termo entre caretas e progressistas, ou seja, entre artistas e acadêmicos e outros corporativistas. Porque não apenas não fiz sexo com todo mundo como com quase ninguém. As senhoras que encontrei pela vida afora me trouxeram muita dor. Cheguei a criar a teoria dos três Cs da dor de amor: dor de Coração, de Cotovelo e de Corno que progridem até a morte do amante, pelo menos aqui na Argentina. Sempre preferi o amor ao sexo, do qual até hoje tenho um pouco de medo, pois é coisa que dá muito trabalho, ainda mais na minha idade. Falo sobre esse tema indigesto porque a vantagem da velhice é não precisar mais se ocupar com isso e sobretudo poder dizê-lo assim sem ter vergonha de não fazer e não ter feito. Escapo assim, pela confissão, daquele tipo de teórico ou escritor escreve-mas-não-faz. Fico com muita pena daquilo que se pode realizar pela linguagem enquanto a língua situada dentro da boca não chega perto há muito tempo do objeto sobre o qual versa.

Mas voltando ao que importa (que estas teorias do sexo enchem muita lingüiça, como se diz no Brasil), devo dizer que fiquei mesmo no meio termo, pois que tomei banho quase todos os dias devido às exigentes namoradas brasileiras que me usaram como um vestido novo e depois me deixaram neste estado de farrapo. Agora não tomo mais banho e me entendo com o pessoal da pocilga com quem traço planos de vida em comum.

Finalmente, o livro
Calma, calma, querido leitor, que já chego ao livro de Evando. Dei-me conta de que a parte mais feliz de minha vida foi tecida com a leitura de bons livros. Por isso, tenho lido para os meus porcos ali na beira da pocilga, todo dia de manhã enquanto eu e Noe os alimentamos. Um detalhe que não devo omitir é que pedi ao heróico editor do igualmente heróico Rascunho que me enviasse alguma coisa boa de ler, pois que estou muito velho para perder qualquer um dos meus dias contados (aliás, qualquer dia editarei o ranking dos melhores escritores brasileiros e colocarei no topo Rodrigo de Souza Leão com o belíssimo Me roubaram uns dias contados) com coisas que não me dêem prazeres sublimes.

Assim, eis que um dia me chega um livro de capa singela com um título desconfiante: Cantos do mundo, de um certo Evando Nascimento de quem eu nunca tinha ouvido falar. Nem abri. Passaram-se uns dias e, arrumando a estante com dona Eneida, dei de cara com três outros títulos do escritor: um sobre Clarice, outro sobre Derrida que folheei amedrontado com a quantidade de notas e citações em francês. Não que eu não goste, mas arrepiei. Comecei até a escrever uma carta desaforada ao Pereira que guardei na gaveta pensando naquele momento em que poderei aproveitá-la. Eu a teria rasgado se não tivesse ficado tão bem escrita. Em mim, sempre é o escritor frustrado que escreve cartas de desabafo (já enviei a alguns malcriados escritores brasileiros e raramente recebi resposta. Mas cada um dá o que tem).

Antes que eu deixe passar, havia um terceiro título, o Retrato desnatural (diários 2004 a 2007). Fiquei perplexo com a estrutura da obra, assim toda ela feita de restos, de recortes, de retalhos e, ainda assim, toda bem posta em sua desnatural organização. Fosse uma lingüiça seria a toscana da melhor qualidade. Aqui em casa não permito que mais ninguém sequer pense em lingüiças, mas este livro talvez me faça rever este meu posicionamento.

Tomando o chá de macela preparado por dona Eneida com as flores colhidas numa manhã fria de quaresma, sentei-me à janela que permite a vista da pocilga sombreada pelas corticeiras e amarilhos que se estendem até o jardim onde begônias, dálias e lisiantos florescem no verão, e deixei-me levar pela leitura de Cantos do mundo. Verdade que cheguei a imaginar tudo em flor, mas só o que realmente florescia eram jacarandás-mimosos com as flores violáceas que, ameaçados de extinção, deram de florescer fora de época. Percebo que isso tem acontecido com as plantas em geral, florescem em épocas indevidas. Noe diz-me que é o aquecimento global, mas ele vê a vida com base em teorias conspiratórias. Não vejo nada de mais na pressa das florzinhas. Meus porcos não deram sinal algum de atraso ou antecipação em seu desenvolvimento. No meu mundo porcino está tudo em seu devido lugar.

Também estão em seu devido lugar os contos de Cantos do mundo. Ao todo, 19, divididos em três partes: Climas, paisagens; Bestiário; Cantos do mundo. Não preciso classificá-los porque já o estão. Posso então dedicar-me aos finos traços que os compõem, às frases bem-feitas, às ações bem refletidas, aos fatos bem desenhados. Deixe-me falar um pouco de cada conto. Havendo tantos contos e pouco espaço, escrever sobre um deles ou poucos seria perfeito, mas temo que me faria perder a visão do livro que, como uma pocilga, não é feito apenas de um porco, de uma cerca ou de um bom cocho. Eu diria até que com esta estrutura toda arrumada e, no entanto, nada óbvia, este livro me inspirou.

Mas vejam: o conto que abre o livro intitula-se Para Elisa. Fala de uma menina masculina e uma passagem violenta à feminilidade. Pensei que não deve ser fácil tornar-se mulher como dizia a Beauvoir que li quando garoto na onda dos pendores progressistas. Segue-se a ele a narrativa de um peixe dentro do aquário, com o qual eu identifico a metafísica da pocilga que um dia irei sistematizar em detalhes. Depois, um homem que leiloa sua própria vida, e um outro que vive o dia de seu homicídio. Contos fortes, pungentes que capturarão cada leitor pelo cangote do eu. Na seqüência, o conto Mata narra a história de um menino que se diz “analfabeto florestal” e que descreve sua própria perdição no desconhecido. Por fim, a história de um amor fugidio num encontro furtivo em um antiquário nos dá a medida de um erotismo masculino, que a esta altura do campeonato da vida, eu passo. Esta é a parte mais filosófica do livro, todo ele filosófico, borgeano, kafkiano e certamente influenciado pela linha de Clarice que o autor tão bem conhece.

A segunda parte é o trecho com que mais me identifico, como os leitores poderão supor. O primeiro conto na parte do Bestiário traz um desabafo de ninguém menos do que Deus, um sujeito em crise, arrependido da criação em cujo jogo ele se mostra viciado. Melhor do que toda a metafísica de Leibniz, parece que finalmente alguém entendeu a ironia de Deus. No conto seguinte, outra espécie de Deus, um ídolo pop, confessa seus desgostos antes de um show que começa e mais ou menos termina… É sua “hora da estrela”… Em seguida, um conto chamado Edens reconta o Gênese bíblico fazendo dele uma narrativa hippie. Os temas religiosos e irônicos dão lugar a certo clima fantástico: em O oco, uma casa sustentada sobre um gigantesco buraco; Na sepultura, um homem conta sua “fraca filosofia da decomposição”. Esta segunda parte — e daí a minha identificação e enlevo radical e narcísico com o texto — culmina no igualmente irônico Políptico animal, dividido em 13 partes, histórias de animais humanos e de humanos animais em um espelhamento elucidativo que entrelaça coisas como zoológico e turismo em favelas na grande comédia do homo-animal contemporâneo.

Em Arquipélago, que fecha o grupo de textos, uma experimentação lingüística um pouco mais direta nos faz dar voltas em um brinquedo formal raríssimo em que o começo está no fim e o fim no começo. O resto é segredo.

Por fim, Cantos do mundo faz pensar que a principal maravilha da ficção é completar a realidade: Candomblé Lisboa narra o inóspito encontro entre a tradição brasileira e as origens lusitanas; O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP — que poderia ser o momento de enfado do livro — é uma linda carta que teria mudado o destino da academia brasileira. Grua recria o clima kafkiano de O oco. Obsessão mostra que Pigmalião pode estar em qualquer lugar. Bem como o desejo que sobrevive À espera. Os contos são carregados de sutileza e desconcerto, num balanço que, para a sorte do leitor, não se equilibra matematicamente. E aquela ironia que desabrocha para quem é por ela eleito fecha o livro permitindo-nos rir de nós mesmos: “E se comêssemos o piloto?”. Quando a epígrafe é “Só a Antropofagia nos une”, significa que é preciso relê-lo.

Temos um livro aí com boas histórias, bem contadas e bem escritas, porque como disse o fotógrafo Cartier-Bresson, quando já em idade avançada deixou a fotografia e passou a desenhar, “o importante é desenhar bem”. Eu, que estou velho e crio os meus porcos, digo que o importante é escrever bem.

TRADUÇÃO: José Carlos Zamora

JULIÁN ANAÉ crítico literário. Nasceu em Hormiguero, Argentina, em 1941. Foi professor visitante em várias universidades dos países de língua portuguesa, inclusive na Universidade de Coimbra onde doutorou-se em Literatura Comparada com uma tese sobre O Devir Histórico da Terminologia. Colaborou com diversas revistas e jornais. Aposentado, passou a residir em Las Heras e a dedicar-se especialmente à literatura brasileira contemporânea e à suinocultura.

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Artigo

Três poemas de Antonio Cicero

Estes poemas de Antonio Cicero foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, a 24 de junho:

DESEJO

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
enfrentando um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

 

VALEU

Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.

 

APARÊNCIAS

Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes e arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais revelassem
mais eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.

SOBRE OS POEMAS Os textos inéditos aqui publicados pertencem à coletânea “Porventura”, que Antonio Cicero lança em julho, pela editora Record.

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

“Entre a realidade e a ficção” – Tatiana Salem Levy

Reproduzo artigo de Tatiana Salem Levy publicado no Valor Econômico:

Uma das questões mais recorrentes em torno da literatura hoje se resume na seguinte pergunta: o que é narrado aconteceu na realidade? De um lado, existe uma fome de veracidade por parte dos leitores, ansiosos em saber se há equivalência entre fato e ficção. E, de outro, existe na crítica uma enorme resistência em falar da vida, como se a literatura não tivesse nada a ver com ela. O problema dessa questão talvez se coloque desde o ponto de partida, na definição equivocada do que seja o real.

Para desenvolver essa ideia, eu queria antes abordar rapidamente uma concepção muito cara à teoria literária: a morte do autor. No fim dos anos 1960, o ensaísta francês Roland Barthes escreveu um texto com esse título, em que defendia a primazia do leitor em relação ao autor. Ora, tem ele muita razão. No entanto, é preciso saber que esse conceito elaborado por Barthes, e por outros teóricos, como Maurice Blanchot e Michel Foucault, surgiu como reação à crítica literária da época, que buscava explicação para a obra na vida do autor, traçando paralelos redutores entre os acontecimentos narrados e os fatos vividos.

Nesse aspecto, era mesmo necessário matar o autor. Só que hoje já não é possível continuar a repetir essa asserção como se aquele que escreve não existisse ou não tivesse nada a ver com o texto. Até porque essa seria uma visão simplista da tese defendida por Barthes. Mas tampouco se trata de proporcionar uma ressurreição da figura do autor – embora isso aconteça cada vez mais, tendo em vista a sobre-exposição midiática de sua figura.

Nem vivo nem morto, o autor é uma espécie de zumbi. Insone, está sempre em estado de vigília, como se nunca pudesse adormecer nem despertar completamente. O escritor se encontra ao mesmo tempo dentro e fora dos acontecimentos. É um observador inquieto, predisposto a assistir à própria vida e transformá-la depois.

Negar a importância da vida para a obra seria negar o trabalho de escritores como Marcel Proust e Marguerite Duras, entre tantos outros. “Em Busca do Tempo Perdido”, do primeiro, é um dos textos centrais da história literária, e há nele diversas referências a pessoas concretas, ao mundo aristocrata em que vivia Proust, a casas e festas que ele frequentava. Não se pode, portanto, dizer que o universo do livro não diga respeito ao autor. Se Proust tivesse tido outra vida, outros seriam os seus livros – isto é, se ele fosse escritor.

No entanto, a vida dele nunca vai explicar a sua obra. Porque a obra começa antes e termina depois do autor. Começa com a tradição e termina em cada leitor, que tem uma bagagem própria e interpretará o texto conforme suas experiências. O texto, como uma teia, se espalha por muitos cantos, em variadas direções. Ele se expande, se alarga, e a vida do autor passa a ser apenas uma das paragens possíveis de um longo percurso.

Marguerite Duras, por sua vez, nasceu e passou a infância no Vietnã, que na altura era colônia francesa. Foi lá que viu a mãe comprar terras e depois descobrir que estavam alagadas pelo mar; foi lá que viveu uma ternura profunda pelo irmão caçula; sentiu cheiro de comida e jasmim na rua; o calor úmido ao longo dos anos; e foi lá que teve seu primeiro amante, um chinês do Norte. Todos esses elementos estão presentes em sua obra, ora de forma explícita, ora bastante modificados.

Ainda menina, jurou escrever a história da mãe. Cumpriu a palavra. Mas fez o que fazem os escritores: reinventou a realidade. Assim, “Uma Barragem contra o Pacífico” narra a história de uma viúva doente e sem posses, mãe de um casal, Suzanne e Joseph, que quer “vender” a filha a um homem feio e rico. Essa mãe é e não é a mãe de Marguerite, assim como esse homem é e não é o seu amante, o mesmo que depois virou livro. Embora “O Amante”, novela que se tornou best-seller mundial, seja o relato de uma experiência vivida pela autora, extrapola em muito as fronteiras fatuais, graças à força assustadora de sua linguagem.

Para tomarmos um exemplo mais contemporâneo, podemos falar no romance “Nove Noites”, de Bernardo Carvalho. Ao conhecer a história de Buell Quain, antropólogo americano que se suicidou aos 27 anos, após um período numa aldeia indígena no interior do Brasil, Bernardo Carvalho decidiu investigar as razões que o levaram ao suicídio. O romance é a busca por uma resposta impossível, por um segredo que Quain levou consigo.

O que está em jogo na proposta de Carvalho é que dados concretos (Buell Quain existiu, esteve no Brasil e se suicidou) entram na ficção desprovidos de sentido justamente para que a narrativa o construa. O romance é, ele todo, a busca por um sentido (por que Quain se matou?), mas é também a revelação de que esse sentido não será nunca encontrado, pois não está oculto em lugar algum e, por isso, deve ser inventado. Carvalho transforma a realidade em artifício, trazendo para a literatura a máxima de Nietzsche: “Não há fatos, só interpretações”.

Mas, afinal, o que podemos depreender de casos como os de Proust, Marguerite e Carvalho? Literatura e realidade se confundem ou não? Os acontecimentos importam? O que é mais verdadeiro: o que se escreve ou o que se vive?

Questões como essas fazem parte do próprio fazer literário e não fornecem respostas prontas e óbvias. Escrever é, também, perseguir essas indefinições. Podemos, contudo, arriscar um caminho possível.

Por mais que o escritor se transforme em seres estranhos, que se desloque por lugares e épocas desconhecidos, o texto que ele produz passa sempre por ele, pelo seu campo de conhecimento e, ainda mais, pelo seu corpo. Num pequeno livro chamado “Escrever”, afirma Marguerite Duras: “Sem sangue, o autor não reconhece mais o seu texto”. O que é o mesmo que dizer que se ele não estiver ali, presente, inteiro, a literatura não se realiza, não ganha verdade. Às vezes, para falarmos dos outros, é preciso chegarmos muito próximos de nós mesmos.

Se o autor parte de um impulso da realidade, de algo que o sensibilize, isso não quer dizer que fique preso a ela. Quando alguém está interessado em “descobrir” se um conto ou um romance revela a vida do autor ou de alguma figura real, está reduzindo a vida aos fatos, eliminando dela tudo o que não tem nome, o que não tem razão, o que é força, potência.

Entre dois elementos – a realidade e a ficção – existe um terceiro: o real. O real é como pequenos clarões que surgem de repente e, sem explicação, suspendem o tempo e fazem as coisas ganharem sentido. Como a “madeleine” mergulhada no chá no romance de Proust, o que vale não é o passado, mas a explosão e a atualidade dos acontecimentos. A literatura, nesse sentido, é uma tentativa de chegar perto não dos fatos, daquilo que já sucedeu, mas do real, da vida em seu fulgor; em suma, de tudo aquilo que, por ser grande demais, incompreensível demais, leva alguém a escrever. Uma experiência quase mística, que nada tem a ver com religião nem com deus, mas nos coloca diante do inexplicável e nos faz experimentar o susto de estar vivo: é isto, a literatura.

Tatiana Salem Levy é escritora e doutora em letras. Publicou os romances “A Chave de Casa” e “Dois Rios” (Record)

Deixe um comentário

Arquivado em Artigo

“Uma nova ordem no mercado editorial brasileiro” – André Miranda

Texto do jornalista André Miranda sobre o novo perfil do mercado editorial brasileiro. Publicado no jornal O Globo:

RIO – Em 2012, a nova realidade do mercado editorial brasileiro vai permitir que um autor seja representado por um agente baseado em Nova York, tenha seu original aprovado por um executivo morando em Portugal, assine um contrato com uma empresa da Espanha e seja imediatamente traduzido para uma editora na Inglaterra. Com a iminente chegada de um gigante da venda de livros virtuais, a nova realidade do mercado pode permitir, ainda, que a obra daquele autor seja lida com facilidade em qualquer canto do país, com um simples toque num botão de um tal Kindle.

Como tem sido repetido por aí em outras áreas, o Brasil também se tornou a “bola da vez” nos livros. A última etapa desse movimento foi o anúncio, na última semana, de que a jornalista Luciana Villas-Boas deixará o poderoso cargo de diretora editorial do Grupo Record, um dos maiores do país, para se dedicar a uma nova agência literária, chamada Villas-Boas & Moss. Hoje, o mercado brasileiro conta apenas com uma agência de relevância para livros estrangeiros e nacionais, a Agência Riff, cujos autores incluem Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Zuenir Ventura.

— Não fazia sentido o Brasil ainda estar desprovido de mais agências — afirma Lucia Riff, fundadora da Agência Riff. — O fato é que as editoras brasileiras estão mais sólidas, com expectativa de crescimento. A estabilidade da economia, o edital da Biblioteca Nacional de apoio a traduções e o surgimento dos e-books favorecem o mercado. É curioso que, enquanto vemos uma Europa em crise, aqui temos uma meta a ser alcançada para os livros. Temos um público a conquistar, diferentemente de outros países.

Luciana Villas-Boas, por sua vez, prefere não revelar ainda quem serão os autores de sua agência (leia entrevista na página 2), mas é praticamente certo que Edney Silvestre, Alberto Mussa, Francisco Azevedo e Rafael Cardoso, todos escritores publicados pela Record, estarão entre eles. Ela admite que o bom momento do setor pesou em sua decisão de montar a empresa, mas faz um alerta quanto a comentários nacionalistas que vem ouvindo sobre o investimento de grupos estrangeiros no Brasil:

— O impacto de uma internacionalização da indústria brasileira do livro é positivo para aumentar a profissionalização das relações. Nos EUA, a maior parte da indústria editorial já está completamente desnacionalizada. Há poucas editoras de peso que não foram compradas por grupos estrangeiros. Isso não afeta a literatura americana — diz.

Editoras preparam reestruturação

A nova agente literária se refere às aquisições recentes de editoras brasileiras por grupos estrangeiros. No ano passado, a editora portuguesa Leya, que tem operações no Brasil desde setembro de 2009, comprou 59% das ações da editora carioca Casa da Palavra e ainda passou a cuidar dos lançamentos das obras da Barba Negra, empresa especializada em quadrinhos.

Em dezembro, a principal notícia que surpreendeu o mercado, porém, foi a compra de 45% das ações da Companhia das Letras pelo grupo britânico Penguin, num negócio que pode ter ficado na casa dos R$ 50 milhões. A própria Record, onde Luciana vai se manter como diretora até 31 de março, já sofreu investidas de editoras estrangeiras.

— Eu coloco várias condições para começar uma conversa. Quero saber qual o grau de interesse em comprar a empresa e se será um processo que vai somar. Já houve interesse, mas nunca percebi solidez nas ofertas — afirma Sergio Machado, presidente do Grupo Record. — Acontece que, hoje, qualquer analista internacional que esteja pensando estrategicamente no segmento editorial precisa ter um plano-Brasil. Se eles não estiverem dispostos a entender os ideogramas chineses ou o alfabeto russo, o Brasil é o país que apresenta as melhores opções para o mercado. A questão é que o crescimento da renda da classe média brasileira e as melhorias da educação têm começado a dar resultado no aumento do consumo de livros.

Os sinais de mudança, porém, não estão apenas nas boas relações sendo firmadas entre o mercado editorial do Brasil com o exterior. Por aqui, chamam atenção o fortalecimento de editoras jovens, como a Novo Conceito e a Intrínseca, e a reestruturação de antigas. Assim como aconteceu com a Record, a Objetiva — que, aliás, teve 75% de suas ações compradas pelo grupo espanhol Prisa-Santillana em 2005 — perdeu sua diretora editorial, Isa Pessoa, no fim do ano passado. Ela está na Itália e voltará a atuar no mercado em fevereiro de forma ainda não anunciada. Ambas as companhias estão fazendo reformulações e devem dividir as antigas funções de direção editorial entre mais de um profissional.

Na Companhia das Letras, as novidades vão além. Agora com quatro publishers respondendo a Luiz Schwarcz, a empresa planeja novas frentes editoriais para este ano, sobretudo nos ramos dos livros digitais e nos didáticos, e está reestruturando seu departamento de marketing. Já a Ediouro contratou em setembro Sandra Espilotro, ex-Globo Livros, para dar foco na prospecção internacional dos negócios.

— Sou casado com uma historiadora, então acho que as mudanças não acontecem de uma hora para outra. Nos últimos anos, surgiram novos participantes, novas empresas, algumas estrangeiras, outras nacionais. É um sinal de força que vem se construindo — afirma Schwarcz. — Já faz tempo, por exemplo, que o mercado brasileiro é um importante comprador de direitos. Compramos royalties em valores bastante altos e estamos na prioridade dos agentes literários.

Todos esses investimentos ocorrem, ainda, em meio às especulações sobre o início da operação da livraria virtual Amazon, líder em vendas no mundo, no Brasil. No início deste ano, a empresa americana contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu gerente de vendas para o Kindle. A Amazon já vem negociando com as editoras brasileiras há meses, mas o entrave tem sido o preço: a companhia teria pedido descontos de mais de 60% na venda de livros para lançar o serviço, o que desagradou as casas nacionais. Porém, recentemente a Amazon cedeu a percentuais menores, com a intenção de lançar seus serviços em até seis meses.

Venda de e-books ainda é insignificante

A Amazon também estuda como fará para vender seu leitor de e-books, o Kindle, no país. Hoje, o aparelho só pode ser importado de seu site internacional, mas a empresa estuda até fabricá-lo no Brasil. Se os acordos se concretizarem, o Kindle pode representar o maior incentivo até o momento para a popularização dos e-books — apesar do investimento recente das editoras e de livrarias como a Cultura e a Saraiva, a venda de livros virtuais ainda é quase insignificante frente a de obras físicas.

— A Amazon vai chegar, e a tendência é que os tablets como o Kindle comecem a ficar acessíveis ao grande público. A partir daí o mercado de e-books vai existir — afirma Pascoal Soto, diretor editorial da Leya no Brasil. — Antes mesmo desse período de vacas gordas da economia, o setor dos livros no Brasil já era atraente para o mundo. As pessoas começaram a perceber que existe um país interessantíssimo além do carnaval e do futebol.

1 comentário

Arquivado em Mercado editorial