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“Cinema”, de Carlos de Oliveira

Raros são os textos que definem tão bem o que é a poesia. Do livro Sobre o lado esquerdo, reunido em Trabalho poético (Lisboa, Assírio & Alvim), no Rio de Janeiro esse volume pode ser comprado na Poesia Incompleta:

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escapa,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

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“O POETA CHORAVA…”, de Mário Cesariny

O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
nelas buscava Uma estrela (talvez a salvação?)
O poeta era sinceríssimo honesto total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões

E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
depois comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do lôgro, é um tanto sinistro
mas é inevitável, é um bem, é uma dádiva.

Tirai-lhe agora os versos que êle próprio despreza
negai-lhe o amor que êle mesmo abandona,
caçai-o entre a multidão.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com êle.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA
destroi-vos

Mário Cesariny
in Nobilíssima visão, Assírio & Alvim

[Via Poesia Incompleta]

 

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“A tempestade”, de Lord Byron

Estes fragmentos do poema A tempestade, de Lord Byron, foram traduzidos por Fernando Guimarães, em uma bela edição da Editorial Inova, do Porto, com o título Poesia romântica inglesa (Byron, Shelley, Keats). Meu exemplar foi comprado na livraria Poesia Incompleta (blog e perfil do Facebook), na Lapa, no Rio de Janeiro. Qualquer leitor interessado em poesia não pode se manter distante por muito tempo dessa casa de livros. Há outra edição do mesmo título, publicada pela Relógio d’Água. E claro, trata-se de um dos mais belos poemas já escrito desde que o homem inventou o verso:

Estão calmos o céu e a terra – mas não adormecidos;
sem ânimo, como nós sob o efeito das grandes paixões,
e tão silenciosos como se despertássemos de profundos
                                       pensamentos.
Estão calmos o céu e a terra; desde as altas hostes
das estrelas ao lago tranquilo e às margens montanhosas,
tudo se concentra numa vida intensa
onde nem uma folha, uma brisa, um reflexo se perdem,
pois todos são uma parte do ser, do sentimento
daquele que de tudo é Criador e defensor.

Agita-se assim a emoção do infinito, sentida
neste abandono em que o homem está menos sozinho;
a verdade que em todo o nosso ser se funde
e nos purifica de nós mesmos é um acorde,
alma e fonte da música que nos ensina
a eterna harmonia, derramando um encantamento
lendário, como a cintura de Vénus,
que reúne tudo pela beleza, e desafiaria
a Morte, se tivesse o verdadeiro poder de destruir.

Não foi sem razão que os antigos Persas edificaram
as aras nos mais elevados lugares, no cume
das montanhas que contemplar a terra, e assim
                                      escolhem
um templo verdadeiro e sem muralhas, onde encontram
o Espírito – e nunca em santuários que as nossas mãos
constroem em seu louvor. Vinde então comparar
colunas e altares de ídolos, góticos ou gregos,
com os lugares sagrados da Natureza, a terra e o ar,
e não vos confineis a templos que limitam as vossas
                                     preces.

O céu mudou-se – e que transformação! Oh noite,
tempestade, trevas, sois surpreendentemente fortes,
embora sedutoras no vosso poderio, como o brilho
dos olhos sombrios duma mulher! Ao longe,
de monte em monte, entre os ecos dos rochedos
o trovão vibra. Não é duma única nuvem que vem,
mas cada montanha encontrou agora a sua linguagem,
e o Jura responde, com o seu manto de neblina,
aos jubilosos Alpes, cujo apelo ressoa vivamente.

Tudo chegou contigo – noite tão gloriosa,
a que não se destinam os nossos sonhos; deixa-me
                                     partilhar
do teu violento, longínquo encantamento
uma parte da tempestade e de ti mesma, noite!
Ah, como resplandece o lago, um fosfórico mar,
e a chuva é impelida e abate-se sobre a terra!
Mais uma vez tudo é escuridão – e, agora, a alegria
das colinas sonoras freme com todo o excesso
que delas nasce como se fosse um novo cataclismo.

…………………………………………………………………………..

Se pudesse encarnar e tirar agora do meu seio
aquilo que nele é mais profundo, se pudesse cingir
com palavras estes meus pensamentos, e assim exprimir
alma, coração, e espírito, paixões e todos os
                                     sentimentos,
ah, tudo o que poderia desejar, e desejo,
sofro, conheço e sinto, sem que morra, numa só palavra
– e que essa palavra fosse “Relâmpago!” – eu a diria;
mas não, vivo e morro voltando para o silêncio apenas,
com sufocadas vozes que guardo como uma espada…

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“Onde está a Livraria Poesia Incompleta? Ora, na Lapa”

Matéria de Joselia Aguiar publicada no site da Folha de S. Paulo:

A Livraria Poesia Incompleta, esse formidável empreendimento português unicamente dedicado a poesia — poesia do mundo inteiro, o que é ainda mais formidável — foi tema do ex blog  em janeiro, vá por aqui.

Nem deu tempo de ir a Lisboa conhecer a loja, sobre a qual soube com tanto atraso. No fim de março, suas portas foram fechadas,  sem dívidas mas destino incerto, como explicou Changuito, seu criador e faz-tudo, ao jornal  português “Público”, por aqui.

O leitor talvez  não saiba que Portugal, entre outros países da zona do euro, atravessa crise pesada. E o Brasil, talvez o leitor também não saiba, vai muito bem, como nos conta a imprensa estrangeira –ok, estamos ao menos melhorzinhos que antes, ou serei otimista?

A notícia, espero para publicá-la havia quatro meses e não é exagero, é que enquanto os fãs da livraria ficaram a lamentar seu fechamento no blog e mural do Facebook,  Changuito se mudava para o Rio de Janeiro. O endereço é a Lapa, o bairro dos arcos e das novelas de Glória Perez; por ora, um escritório, no médio prazo, uma loja inteira.

Changuito diz chegou com “uma tonelada” de livros.  Tonelada? Vieram em caixas? Como vai ser possível comprar? Já descobriu livros brasileiros? E, afinal, o que fazes no Brasil desde que chegou?

Changuito responde ao blog por e-mail: “Sim, é uma tonelada mesmo, não é metáfora. Caixas, sim, dentro de um avião, passaram por uma kombi, um apartamento e outra kombi. Oitenta por cento do que tinha em Lisboa.  Não tenho datas para a venda na net. Quem quiser comprar, quando eu começar, basta escrever para o mail, ir acompanhando o que eu mostro no blogue e no Facebook. Vou vender muita coisa brasileira. Não tenho vontade de fazer uma livraria portuguesa no Rio, pelo contrário. Cá, como lá, tentarei ter o maior número de idiomas possível. Quando fechei em Lisboa, se não me falha a memória, tinha mais de cinquenta línguas. A minha relação com o Brasil, seja a poesia, seja a música, seja o cinema, é, felizmente, bem antiga. Tenho sempre sorte de conhecer gente talentosa. Os de Portugal hão-de vir, por ar, mar, e todos os meios possíveis. No médio prazo o objectivo é encontrar um espaço físico térreo, para fazer uma livraria, digamos, mais pública. No longo prazo, comprar o Maracanã, acabar de ler Dostoiévski e decorar setenta e três por cento dos nomes dos frutos brasileiros. Não posso contar o que tenho andado a fazer, por estar ao serviço dos serviços secretos albaneses, de Kate Moss e da Nasa.”

 

Poesia Incompleta

http://poesia-incompleta.blogspot.com

https://www.facebook.com/poesia.incompleta

 

 

 

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Fechamento da Poesia Incompleta

No site do jornal Público de Lisboa, notícia sobre o lamentável fechamento da livraria Poesia Incompleta.

“Está a respirar-se mal neste país. Este país não é para velhos, nem para novos, nem para os do meio. Estou a pensar emigrar, como sugeriu um ministro qualquer”, afirma ao PÚBLICO, num tom irónico que o leva a dizer que vai “doar” os volumes de poesia que sobraram na livraria ao ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas.

O que é dizer muito. A Poesia Incompleta tem um fundo de oito a dez mil volumes de e sobre poesia, em mais de 30 línguas, e com mais de 260 editoras, segundo a Lusa. A livraria, que estava aberta ao público desde Novembro de 2008, tinha três salas por onde se espalhava todo este espólio, que incluía raridades e antiguidades.

Mário Guerra partilhou os títulos que foram chegando à livraria ao longo destes quase três anos e meio no blogue onde, nesta segunda-feira, anunciou o fim da linha para a Poesia Incompleta. A curtíssima nota acabava com a possibilidade de abrir num outro espaço: “Amanhã, a PI fechará portas. Espera-se que as reabra em breve, num novo local.”

Questionado pelo PÚBLICO sobre a eventual reabertura, volta a ironizar: “Vamos reabrir no estádio nacional”. O que Mário Guerra enfatiza é que a Poesia Incompleta chega ao fim “sem uma única dívida”. “A Poesia Incompleta fecha sem ninguém poder dizer que temos sequer uma dívida. E isso é óptimo. E raro.”

“Não quero relacionar de maneira nenhuma o fecho da minha livraria com o fecho das outras. A Poesia Incompleta fecha porque tem de fechar”, acrescenta. “Não me queixo de nada. A crise é espiritual.”

Já no Jornal de Notícias, o poeta Manuel António Pina, prêmio Camões, escreveu sobre “O livreiro insolente”:

A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se “ser poeta é” o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a “dizê-lo, cantando, a toda a gente”, compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado “país de poetas”, um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria “Poesia Incompleta” fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que “poeta”.

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário “Changuito” Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como “assustar um notário com um lírio branco”, pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.

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«Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos»

Reproduzo aqui entrevista do livreiro Changuito que encontrei no blog Tantas Páginas:

Fica no nº 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa, e está aberta de segunda a sábado, das 10h às 19.45h. Para quem quiser ir de metro, a estação mais próxima é a do Rato (linha amarela). Se preferir o autocarro, pode apanhar o 758, que passa no Príncipe Real, embora o 773 e o 790 também possam deixá-lo lá perto. Também se pode ir a pé, ou de trotinete, e chega-se mais depressa. Chama-se Poesia Incompleta e é a única livraria (apenas de) poesia do país, sendo pouco certo que tenha congéneres para lá de Badajoz. O seu sócio principal, patrão, empregado, moço de fretes e fumador com estilo ostenta o nome de guerra Changuito e além de ser uma pessoa com boas ideias é ainda um livreiro de boas práticas. Propusemos-lhe entrevista e não se fez rogado exprimindo-se, de preferência, em verso livre.

Agradecemos a Changuito a disponibilidade manifestada. Pela nossa parte, estaremos sempre disponíveis para publicitar quem assim exerce na área da «formação cívica».

PT. Como é que lhe surgiu esta ideia, a priori um tanto louca, de uma livraria exclusivamente dedicada à poesia? Inspirou-se nalgum caso que tenha conhecido no estrangeiro?

C. A ideia surgiu da necessidade, enquanto leitor, de encontrar livros que não encontrava noutros lugares. Loucura parecia-me não o fazer. A poesia, creio que só suplantada pelo teatro, é o que dizem ser menos vendável, mas, que diabo, há sempre gente que se vai interessando. E, felizmente, não falo só de pessoas dos meios literário-académicos. Ouço e leio, muitas vezes, que só no meio há leitores. Tenho encontrado casos vários que contrariam esta ideia. Leitores que estão a começar bibliotecas, gente que constantemente está a fazer dezoito anos e que tem margem de encantamento; outros, que estarão a meio da sua vida, e se acostumaram a ler poesia, a viver com ela nos intervalos da prosa; felizmente, outros ainda, com setenta, oitenta ou noventa anos que continuam procurando aquele livro que tiveram e já não têm, ou que procuram poetas novos.

Sabia da existência de algumas, mas não conhecia fisicamente nenhuma.

PT. Pode tentar definir o público da Poesia Incompleta?

C. Na resposta acima está a definição menos má que me ocorre.

PT. Já agora, porquê Poesia Incompleta?

C. Estive indeciso entre dois nomes: Poesia Incompleta ou Poesia Toda. O segundo, obviamente, por homenagem a Herberto Helder. Acabei por escolher o primeiro por achar mais acertado. Nem que todo o dinheiro do mundo me viesse parar às mãos, e com ele eu pudesse comprar todos os títulos de todos os catálogos que me interessam, e mesmo que o doutor Cavaco me oferecesse o Estádio Nacional, esta ideia de livraria ficava completa. Depois, na incompletude encontro um certo encanto. E o livro que reúne a obra poética de Mário Dionísio chama-se Poesia Incompleta.

PT. A sua actuação promocional na net é bastante intensa. Que peso representam na economia da sua livraria as vendas à distância?

C. Sinceramente, não faço ideia.

PT. É conhecido no meio por ser um livreiro de «boas contas», pagando aos fornecedores a pronto. A poesia é um bom negócio?

C. Instituiu-se uma estranha prática em Portugal, pelo que me dizem os editores: livrarias que não pagam a editoras. Acho estranho. As boas contas, para mim, são o normal. Regra geral, com os descontos em Portugal, se vendo um livro de 10€, só 3€ é que ficam para a livraria. Tenho, em quase todos os momentos, isso bem presente na cabeça.

Esta livraria é um óptimo negócio: não tem dívidas a fornecedores, nem impostos em atraso. Por outro lado, é assente na mais estúpida das premissas: o senhor da limpeza, o telefonista, o livreiro, o gerente de compras, o director de conteúdos para a internet, o publicitário, o agente de ligação com a imprensa, com editoras, até com alguns membros do poder político, é o mesmo e não recebe salário.

PT. A sua relação com a poesia, além da de leitor e livreiro, passa também por dizê-la em público. Que importância atribui a essa actividade no mundo da poesia? Trata-se de divulgação ou (re)criação? Uma prática lateral e periférica ou central? Dizer um poema é interpretá-lo, em sentido forte?

C. Não sei que importância tem ou se não tem nenhuma. Sei que há poetas que não suportam ouvir os seus poemas ditos e outros que gostam. Uns que, ao lê-los em público, os melhoram e outros que os assassinam. Acho que pode haver divulgação, sim, e (re)criação. Depende de quem o faz e, sobretudo, parece-me, depende mais ainda de para quem a leitura é feita.

Gosto de ler em voz alta. Há um prazer nisso, em sentir a língua como coisa viva, audível, plástica, moldável.

PT. Como diseur, de que modo se situa em relação às duas grandes referências históricas em Portugal, João Villaret e Mário Viegas? Além destes, houve algum outro performer de poesia que o tenha marcado?

C. Além de gostar muito de ouvir o Mário, e de achar brilhantes as leituras de Maria do Céu Guerra de Fernando Pessoa, Alexandre O´Neill, David Mourão-Ferreira, João Pedro Grabato Dias (nota de declaração de interesses: a supra citada é a minha querida mãezinha), parecem-me definitivas as gravações que Luís Miguel Cintra fez de Ruy Belo. Às vezes tenho saudades de ouvir Joaquim Castro Caldas, já morto, António Poppe e a sua jukebox de emaranhar poemas, ou Nuno Moura lendo as suas Letras Para Dance Music. Mas há muita gente que ilumina o que lê, que me parece ser a principal função de quem o faz publicamente. Alguns casos: Richard Burton lendo Gerard Manley Hopkins e John Donne; Chico Anysio lendo Ascenso Ferreira. Autores como Mário Cesariny, Dylan Thomas, Jorge Luis Borges, Gertrude Stein, León Felipe, Allen Ginsberg, Antonio Cicero, Sylvia Plath, Herberto Helder, entre outros, lendo-se trazem claridade ao meu entendimento. Muito frequentemente ouço e volto a ouvir Galáxias, de Haroldo de Campos, o livro milagre do qual ele gravou, creio, 16 faixas/poemas. Mas, creio, a memória mais antiga de ouvir alguém que não me era próximo a dizer-se terá sido, aos dezoito ou dezanove anos, João Cabral de Melo Neto. A poesia dele pareceu-me imediatamente mais compreensível.

PT. Que palavra prefere para descrever essa actividade? Leitor, recitador, declamador?

C. Não tenho preferências, se a pessoa o fizer bem até lhe pode chamar hóquei em campo.

PT. Também vende discos de poesia?

C. Sim, em várias línguas.

PT. Até onde vai a latitude da sua noção de poesia? Até à poesia sonora e experimental? Até às «letras de canções»?

C. Sim, claro. Para mim, ouvir um texto dadaísta, um poema experimental ou sonoro, ou mesmo, em certas ocasiões um poema concreto, faz com que essa arte anotada, ou apenas sugerida no papel, às vezes só como um enigma gráfico, ganhe uma outra força, bem maior, mais reveladora mas não menos misteriosa, tornando assim a minha experiência como ouvinte mais completa do como leitor silencioso.

Em todas as casas portuguesas-sem-certezas se devia ouvir Kurt Schwitters.

João Gilberto – só com o tratamento que dá a cada sílaba -, e com as suas letras, Caetano Veloso, Linhares Barbosa, Jacques Brel, Noel Rosa, Amália Rodrigues, Cole Porter, Fausto Bordalo Dias, Chico Buarque, fizeram mais pela poesia do que tantos poetas cujos nomes agora não recordo.

PT. No mundo da poesia muitas vezes os livreiros fazem também uma perninha na edição. É o seu caso?

C. Tive a sorte de três amigos, radicalmente diferentes, me permitirem editar três livros, também eles muito diferentes entre si. O primeiro de Miguel Martins, o segundo de Manuel de Freitas, e o mais recente de António Barahona. Por questões económicas, é uma actividade secundária, nesta livraria. Mas, ainda assim, feita com amor e alguma teimosia. Os livros não são distribuídos. O único ponto de venda é aqui.

PT. Tem um iPad? E Kindle? Como vê o futuro do livro de poesia em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

C. Nem um, nem outro. Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde. Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.

Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.

PT. Como vê fenómenos como a «associação» entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora, a crise de editoras de perfil mais literário e exigente, ou a deslocação da edição de novos poetas para micro-editoras como a Mariposa Azual, a Averno, a Língua Morta ou a Tea for One?

C. Se com essa associação a Assírio tiver a vida ligeiramente mais facilitada, louvemos o senhor Teixeira. Se, ao fim de uns tempos, a Porto deixar de perceber o que tem nas mãos ou quiser transformar a vocação da Assírio noutra coisa, aí o quadro ficará mais triste.

Que a Leya, com seus geniais gestores de produto, deixe esgotar Manuel Gusmão, Luís Miguel Nava, Antero de Quental, António Nobre, para falar só de alguns, e não re-imprima é, para mim, incompreensível. Já não falo pela questão da qualidade literária, ou da necessidade de uma construção de um cânone. Mas, de forma mais cínica, pela possibilidade de terem em mãos produtos de vida e venda longas.

A crise é naturalíssima, se pensarmos que editoras médias, com um frequente ritmo de edições, empregadoras de várias trabalhadores, que têm gastos com gráficos, tradutores, direitos, com despesas grandes de tipografia, boas pagadoras de impostos, têm permanentemente livrarias e distribuidoras não pagando os livros que encomendam. Dito assim, não me parece muito complicado de entender.

É claro que há políticas culturais que podem ser levadas a cabo que ajudem a criar ou a melhorar a relação das pessoas com o livro e com o seu consumo, como com a arte em geral, mas por muito que essas políticas existam, nenhuma editora sobreviverá se os livros lhe não forem pagos.

Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros.

Desde a Grécia, disse-me gente sábia, que se fala na crise do teatro. Mal ou bem, o teatro continua sendo feito e visto. O mesmo se passa e passará com a poesia, a sua edição e o seu consumo.

Micro-editoras é um termo curioso, não sei se justo, e que revela mais quem dele fala do que quem o faz. A Mariposa Azual imprime 300 exemplares, às vezes 500 exemplares, de uma primeira edição. Se compararmos com as inglesas Faber & Faber ou a Penguin, ou as espanholas Visor ou Hiperión, que, às vezes, imprimem 1000 exemplares, não me parece uma tão grande desproporção. Pelo contrário, acho até estranho primeiras tiragens portuguesas assim.

A & etc fez, há mais de trinta anos, de vários títulos, tiragens de 1200 ou de 1000 exemplares. Com as suas razões, Vítor Silva Tavares, mestre dos mestres, foi reduzindo os números.

Se a 50kg, a Artefacto, a Averno, a Black Sun, a Língua Morta, a Tea For One, ou a & etc, entre outras, fizeram ou fazem tiragens reduzidas é por, felizmente, terem percebido que vale mais esgotar um livro do que deixá-lo apodrecer num armazém ou guilhotiná-lo. Parece-me uma visão inteligente, ponderada, de alguém que conhece o espaço que têm livros como os que editam na maior parte das livrarias.

Há interesses, cumplicidades, visões do mundo que aproximam ou não as pessoas, como em qualquer outra actividade. Se um tipo tem uma editora e edita um autor que lhe parece bom e se a isso se junta uma afinidade entre ambos, melhor. Não é necessário que assim seja, mas é saboroso.

PT. Como perspectiva o actual panorama do mercado livreiro, da distribuição ao circuito de venda?

C. Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos. No sector da distribuição, tirando a Dinalivro, não conheço nenhuma distribuidora portuguesa que funcione bem. Em relação às vendas, tirando uma ou outra livraria a que vou com vontade e gosto, faço uma via crucis semestral para me horrorizar. Lembro-me sempre dos versos de Sá de Miranda que dizem M´espanto às vezes, outras m´avergonho.

PT. Como vê a situação da crítica de livros de poesia na imprensa hoje, e sobretudo que análise faz da evolução da situação de há algumas décadas a esta parte?

C. Antes um Gaspar Simões no papel, do que dois cortezes pelo ar.

PT. Recebe muitos poetas na sua livraria? Os poetas compram livros? Quem compra mais: os poetas ou os críticos?

C. Os poetas, alguns, sim, visitam a livraria, compram, perguntam, sugerem, encomendam, ensinam. Os críticos são pessoas atarefadas, têm vidas, colóquios, artigalhada, tirando um ou outro, nunca cá entram. E, parece-me, não precisam. Recebem livros de oferta. Soube de um, há pouco tempo, que se queixava de ter poucos livros oferecidos. Também, creio que ser justo não esquecer, os poetas portugueses (já sobre isso escreveu acertadamente Nuno Moura) são todos, ou quase, ricos, riquíssimos, com reformas douradas, regalias do Pen Clube e do Automóvel Club de Portugal. No que concerne aos críticos, ou à sua maioria, é gente que escreve para comer, com toda a dignidade e pressa que isso acarreta.

PT. Somos mesmo um país de poetas?

C. Não, deus nos livre. Ou sim, somos um povo de poetas, quase na mesma medida em que somos também um povo de taxistas com vocações pedagógicas, empregados de mesa filosofantes, carteiristas desconfiados, deputados semi-analfabetos, administradores sem pasta com pasta. Habitantes com vantagens e desvantagens, como os ornitorrincos ou os mocassins. Temos um admirável território, pequeno mas pouco problemático, um rectângulo onde, ainda e apesar de tudo, tanto se pode fazer um país ou, hipótese também divertida, construir um atol para experiências nucleares.

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