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“Vidas opostas de Cristo e dum homem”, de Murilo Mendes

Senhor do mundo,
cada vez que ressuscitas um homem, me destruo a mim mesmo.
Enquanto o demônio te tenta no deserto
eu sonho com os corpos que a terra criou.
Enquanto passas fome e sede quarenta dias
os meus sentidos se desalteram.

Cada vez que cais ao peso da tua cruz
eu caio com uma mulher de última classe.

Enquanto te multiplicas na humanidade
não saio dos limites da minha pessoa.

Depois da morte voltas pra absolver o justo e o pecador,
eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo.

Senhor do mundo,
me tira de mim pra que eu possa olhar os outros e eu mesmo.

 

De Poemas, 1930

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“O avô descobre analogias”, de Murilo Mendes

A cabeça da minha nora que morreu
está no corpo da minha neta.
Às vezes meu filho olha pro corpo da sua filha
e revê a cabeça da mulher,
pensa na morte da mulher,
na vida dos dois,
no nascimento da filha,
na noite do casamento,
na marcha nupcial
e no primeiro encontro.

 

de Poemas, 1930

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