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Poéticas do menos – Curso no Instituto Moreira Salles

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11/09/2014 · 20:29

Entrevista de Oscar Niemeyer no programa Roda Viva

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“Projeto de Niemeyer à espera de cuidado”

Matéria de Gabriel Paiva publicada no jornal O Globo de 19 de maio de 2013:

A importância arquitetônica da Casa das Canoas, em São Conrado, é sentida em cada metro quadrado, entre as linhas finas do concreto do piso, antes de pedra São Tomé, que levam à piscina da área externa. O projeto é de Oscar Niemeyer, que desenhou o imóvel para morar em 1953, antes de partir para o Cerrado, alguns anos depois, a convite do então presidente Juscelino Kubitschek, e dar formas ao que viria a se chamar Brasília. A casa foi aberta ao público há 15 anos, tornando-se protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2007, em um tombamento coletivo de 35 obras do arquiteto em comemoração aos seus cem anos. Apesar da experiência marcante de entrar na casa onde morou Oscar Niemeyer, as marcas do tempo têm voz própria: o imóvel clama por uma boa reforma. Esse foi um dos motivos do fechamento para visitas, em junho do ano passado. Em pequenos detalhes, como esquadrias descascando, partes da estrutura de sustentação das belas estátuas do escultor Alfredo Ceschiatti enferrujadas, pisos escorregadios por causa das chuvas e do musgo, rachaduras e infiltração nas paredes dos cômodos do andar de baixo – local que Niemeyer não gostava que fosse visitado, por não mostrar a beleza arquitetônica da parte externa – entende-se o porquê da decisão. – A casa é no meio da floresta, precisa de manutenção diária. A última reforma foi feita há 13 anos, tem que fazer tudo de novo. Ela não está em perfeitas condições, por isso resolvemos fechar. Abrir para o público exige uma infraestrutura, para que a experiência seja produtiva. Se não, é só um tiro no pé – explica Carlos Ricardo Niemeyer, bisneto de Oscar e diretor da área de licenciamento da Fundação Niemeyer. A maior reclamação dos visitantes é que não há informações na internet sobre o fechamento da casa. No site da fundação, nem mesmo o endereço está disponível. Antônia de Lima, funcionária que cuida da casa desde 1973, conta que a procura de visitantes é diária e que muitos pulam a cerca para conhecer o local. Foi o caso do dinamarquês Marius Jeppesen, estudante de arquitetura que tentou agendar a visita antes mesmo de chegar ao Rio, em março deste ano: – Tentei planejar, mas foi difícil achar informações na internet. Eu estava muito empolgado para visitar a casa onde morou Niemeyer, mas fiquei desapontado com o estado precário em que a encontrei. Tentei ir uma vez, e estava fechada. Voltei no dia seguinte, de novo fechada, então resolvi pular o muro, já que tinha vindo de tão longe. Ao entrar, encontrei um grupo de espanhóis que tinha feito a mesma coisa. E qual seria o cenário ideal para os herdeiros de Niemeyer? Reabrir a Casa das Canoas em perfeito estado, mas a grande demanda, essa avalanche de turistas e brasileiros amantes de arquitetura, fez com que eles repensassem o plano inicial: – A ideia é fazer pequenos ajustes e reabrir a casa em junho, às quintas e sextas-feiras, e talvez em mais um dia do fim de semana. A visitação vai ser gratuita, porque a casa ainda não está nas condições ideais, por isso não acho válido cobrar entrada – explica o diretor da Fundação Niemeyer. O custo mensal de manutenção do espaço, mesmo fechado, é de R$ 10 mil – incluído o pagamento de pessoal (faxineira, caseiro e jardineiro) e pequenas obras feitas anualmente, como pintura do portão, da sinuosa laje branca e das esquadrias. O valor é desembolsado pela família. O desejo do clã Niemeyer é fazer um acordo dando carta branca para a fundação tomar conta oficialmente das visitas. Mas, com a morte do arquiteto e de sua única filha, Anna Maria Niemeyer, a Casa das Canoas entrou em processo de inventário.

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Oscar Niemeyer (1907-2012)

Uma das lembranças mais fortes que tenho é da minha primeira visita a Brasília. O planalto, o ar seco – e o sol e a lua que pareciam maiores. Mas fiquei impressionado sobretudo com a arquitetura da cidade. Ao caminhar pela Praça dos Três Poderes, via as palmeiras, o espelho d’água e por fim as duas torres que enquadravam o sol e pareciam coar sua luz. Em contraste com as torres, as duas “cumbucas” sobre a laje de concreto. As torres subiam em direção ao céu e desciam pelas agúas do espelho, duplicando sua imagem. Era a beleza em seu estado mais equilibrado e harmônico. Havia paz e conforto naquelas formas. Tudo parecia claro e nenhum problema, nenhuma tensão, nenhuma perturbação interior resistia à beleza daquele lugar.

Depois, da varanda do hotel, fiquei horas observando o traçado das vias expressas, que misturam retas muito longas e algumas espirais. A mistura de retas e curvas também trazia grande plasticidade ao espaço urbano, visto de cima.

Contudo, ao mesmo tempo que a cidade parecia muito concreta e apreensível, revelava-se abstrata e inapreensível. Por causa disso, gosto tanto das fotografias de Marcel Gautherot que registram a construção de Brasília. Como um visionário, ele conseguiu registrar a densidade e a leveza que Brasília agrupa em suas formas.

Não posso senão lamentar a morte de Oscar Niemeyer. Mesmo com 104 anos, daqui, lembrando o que sua obra máxima me despertou, sua morte soa prematura. Mas, como ele mesmo dizia, “a vida é pequena e muito dura”.

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“Conversa de arquiteto”, de Oscar Niemeyer

Texto de Oscar Niemeyer publicado na seção Tendências/debates da Folha de S. Paulo, em 16 de julho de 2006:

Um dia, Darcy Ribeiro me contou uma história engraçada. Tinha organizado uma mesa-redonda para debater os problemas dos índios brasileiros. Entre os convidados, havia um índio seu conhecido, e, durante uma hora, as questões foram discutidas sem que ele dissesse uma única palavra.

Surpreso, Darcy o interrogou: “Você não que falar?”. “Não”, foi a resposta. O nosso antropólogo insistiu: “Por quê?”. “Estou com preguiça”, respondeu o rapaz.

Todos riram, e eu fiquei a matutar: será que o índio não acreditava mais em certo tipo de promessa, naquelas boas intenções a que os nossos irmãos mais pobres já estão tão habituados?

Confesso que, tal qual o índio, tenho preguiça de participar de congressos, simpósios que surgem sobre arquitetura, de escutar as opiniões mais ridículas, os pontos de vista já superados, que, neles, impacientes, somos obrigados a ouvir.

Certa vez, Alvar Aalto, cansado de tais conversas, declarou que não existe arquitetura antiga e moderna. O que existe, no seu modo de ver, é boa e má arquitetura.

É evidente que Alvar Aalto tinha razão. Mas como eram limitadas, nos velhos tempos, as possibilidades de se caminhar na arquitetura!

*

É sempre bom exemplificar. Lembrar como era penoso para Michelangelo limitar o diâmetro de suas cúpulas a 30 ou 40 metros. É lógico que ele teria gostado de poder fazê-las com 80 metros de diâmetro, como tive a oportunidade de realizar agora no museu de Brasília.

E recordo outro exemplo de como os arquitetos daqueles tempos ficavam a sonhar soluções arquitetônicas que só agora é possível concretizar. Lembro Calendario, o arquiteto que projetou o Palácio dos Doges, em Veneza, desejoso de nele criar um espaço mais amplo e obrigado a recorrer a uma enorme treliça de madeira. Problema esse que, hoje, uma simples laje de concreto resolveria.

Não acredito numa arquitetura ideal, por todos adotada. Seria a repetição, a monotonia. Cada arquiteto deveria ter a sua arquitetura, não criticar os colegas, fazer o que lhe agrada, e não aquilo que outros gostariam que ele fizesse. E, ainda, ter a coragem de procurar a solução diferente, mesmo quando sentisse que era radical demais para ser aceita.

Reconheço, sem falsa modéstia, que não me faltou coragem para desenhar as cúpulas do Congresso Nacional, que espantaram até Le Corbusier, a nos afirmar: “Aqui há invenção”. E, pelos mesmos motivos, agrada-me lembrar a praça do Havre, que projetei na França, eu a dizer ao seu prefeito diante do terreno escolhido: “Gostaria de rebaixar o piso desta praça quatro metros”. Recordo que ele me olhou surpreso, mas eu falava com tanta convicção que a praça foi rebaixada como pedi.

É claro que eu tinha razão. Minha ideia era protegê-la dos ventos e do frio que vinham do mar.

Hoje, das calçadas que a contornam, o povo, de cima, a vê e, espantado, desce pelas rampas para apreciá-la melhor. Eu, pelo menos, não conheço nenhuma praça como aquela, agora tombada e escolhida um dia pelo crítico italiano Bruno Zevi como uma das dez melhores obras da arquitetura contemporânea.

Confesso que vacilei em falar desse trabalho meu com tanto entusiasmo. É um exemplo de determinação profissional que cabia aqui mencionar.

Se examinarmos a questão da intervenção da técnica na arquitetura, basta lembrarmos o seguinte: antigamente, as paredes é que sustentavam os prédios; com o aparecimento da estrutura independente, elas passaram a simples material de vedação.

*

E surgiram a leveza arquitetural, as fachadas livres e os grandes panos de vidro que caracterizam a arquitetura atual. E, quando, por razões urbanísticas –para encurtar distâncias–, os prédios começaram a ganhar altura, foi a descoberta do elevador que tudo tornou possível.

E apareceram os grandes arranha-céus, uma solução que espalha o caos por toda parte se não forem observados os afastamentos horizontais indispensáveis, como tão bem ocorreu na Défense, em Paris.

Não foi apenas o progresso da técnica construtiva que marcou a evolução da arquitetura mas também as transformações das ciências e da sociedade.

Na Universidade de Constantine, na Argélia, por exemplo, projetamos somente dois grandes edifícios: um de classes, e o outro, de ciências. O objetivo era atender a Darcy Ribeiro, evitar a construção de prédios separados (um para cada faculdade). Desses dois edifícios todos os alunos se serviriam, criando a troca de experiências que o meu amigo considerava indispensável.

E foi assim, atendendo ao progresso da técnica e da própria evolução social, que foi possível chegar a esta etapa do concreto armado, que abriu aos arquitetos um campo novo de possibilidades.

Sempre digo que podemos voltar ao passado por simples curiosidade, lembrar a primeira verga, o primeiro arco, as grandes catedrais, mas o vocabulário plástico do concreto armado é tão rico que com ele devemos trabalhar.

*

Infelizmente, a simplicidade com que se busca explicar a evolução da arquitetura não impede que, por ignorância ou falta de sensibilidade, os problemas continuem a ser discutidos da maneira mais medíocre. Uns a insistir na importância da ligação com o passado, outros a defender uma arquitetura mais simples, indiferentes à técnica do concreto armado que nos permite todas as fantasias.

É claro que ele abre aos arquitetos os caminhos mais diferentes, e o que adotamos é, em princípio, reduzir os apoios, tornando a arquitetura mais audaciosa e variada.

E, como a procura da surpresa arquitetural nos ocupa e a curva nos atrai, é nas próprias estruturas que intervimos.

Esse é o momento em que o arquiteto define a sua arquitetura –uns, como nós, voltados para a curva livre e inesperada, outros, com igual empenho, para a linha reta por eles preferida. Às vezes me perguntam qual é a razão da predominância da curva em minha arquitetura. E recordo logo André Malraux a dizer: “Guardo dentro de mim um museu de tudo que vi e amei na vida”. E, como ele, é desse museu imaginário que muita coisa me ocorre com certeza, ao elaborar os meus projetos.

Na realidade, aprecio as coisas mais diferentes. Gosto de Le Corbusier como gosto de Mies van der Rohe. De Picasso como de Matisse. De Machado de Assis como de Eça de Queiroz.

Somente no campo da política sou radical, intransigente com o império assassino de Bush ou com os que, em nosso país, tentam combater o governo de Lula, que, diante dos problemas da América Latina, tão importantes para nós, tem sabido se manifestar.

Nestes momentos de pausa e reflexão é que me permito dizer que a vida é mais importante do que a arquitetura. Que, um dia, o mundo será mais justo e a vida a levará a uma etapa superior, não mais limitada aos governos e às classes dominantes, atendendo a todos, sem discriminação.

Releio este artigo e lembro Le Corbusier a escrever o poema sobre o ângulo reto, e eu a falar da curva que tanto me fascina:

“Não é o ângulo reto que me atrai Nem a linha reta, dura, inflexível, Criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual, A curva que encontro nas montanhas do meu país, No curso sinuoso dos seus rios, Nas ondas do mar, No corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo, O universo curvo de Einstein.”

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Documentário sobre Oscar Niemeyer

No site da Televisión  América Latina, veja o documentário de Marcelo Gomes sobre Oscar Niemeyer.

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“No momento, predomina a confusão formal.”

Reproduzido do blog do caderno Prosa & Verso do jornal O Globo:

OSCAR NIEMEYER E A ARQUITETURA MODERNA

Eduardo Jardim, Otavio Leonidio e Luiz Camillo Osorio: Nas conversas que tivemos sobre arquitetura moderna no Brasil, você destacou três marcos históricos: o Ministério, Pampulha e Brasília. Por quê?

Italo Campofiorito: O Ministério da Educação é um prédio extraordinário para a história da arquitetura mundial. Ele é um exemplo extremo de arquitetura moderna no Brasil. Sua construção começa em 1937 e termina em 1945. Neste período, o conjunto da Pampulha foi inaugurado. Pampulha é, com certeza, o início, o princípio, no melhor nível possível, da arquitetura brasileira moderna, que não há que se confundir com a arquitetura moderna no Brasil.

Pampulha é o momento mais importante então?

Sim. Niemeyer já tinha trabalhado no Ministério, no projeto que Lucio Costa tinha tido a missão de conduzir. Ele esteve lá quinze dias, mas aprendeu milagrosamente tudo. Inclusive porque existe a versão de que Lucio Costa não via nele nenhum talento especial. Quinze dias e ele se transforma em uma estrela mundial! Claramente aconteceu alguma coisa além da mágica natural. Quero dizer que alguma coisa estava contida em Oscar Niemeyer. Alguma coisa que, se saiu, é porque estava lá. Nessa ajuda que ele recebeu, ele aprendeu o que precisava. Não ocorreu antes, talvez, devido a uma questão de timidez quando estava no escritório de Lucio Costa.

O fato é que ele fez Pampulha em três dias. Foi chamado a Belo Horizonte pelo então prefeito, Juscelino Kubitschek, que estava fazendo Pampulha em estilo normando, como o Quitandinha, em Petrópolis. Juscelino gostou da ideia de ter um arquiteto moderno, jovem e promissor. Talvez ele até tenha gostado mais da ideia do jovem promissor, ou então teria chamado Lucio Costa. Com certeza ele queria um arquiteto para ele. Já era para fazer Brasília! Os predestinados são assim. Oscar vai lá e fica sabendo que precisa apresentar em vinte e quatro horas um projeto para o cassino porque a conjuntura política e administrativa era essa. Faz então aquele cassino maravilhoso, que tem ainda alguma inspiração de Le Corbusier. A igreja não tem essa inspiração, nem a casa do baile. Mas o cassino tem e é lindo. Ele diz que fez isso numa noite. Isso lembra a história da Sinfonia Linz, de Mozart. O músico chegou a Linz, na Áustria, e viu que não tinha trazido a partitura da sinfonia. “Não botei na pasta”, ele escreve para o pai. Então passou a noite em claro e escreveu a Sinfonia Linz, que é nada mais nada menos que uma das quatro sinfonias mais bonitas dele.

 

Essas pessoas não fazem isso em uma noite. Elas fazem isso durante a vida inteira e, de repente, tem um dia em que isso floresce. Se não tivesse a Linz na cabeça, Mozart não faria. Se Oscar já não tivesse, desde o momento do ministério, partido para certa crítica do ângulo reto, se ele não tivesse, de repente, compreendido o Barroco, não teria feito o que fez mais tarde. Penso que o Barroco do Oscar evoluiu para uma combinação da curva com a reta, que é uma coisa que se vê nas esculturas de Aleijadinho. Na Pampulha ainda é curva com curva. Mas, no hotel que ele fez para substituir o Quitandinha, já é curva com reta. E na Casa das Canoas é curva com reta. Essa curva com reta, tão pouco notada pelos críticos, é a essência criativa da melodia “oscárica”. Esta expressão é de Darcy Ribeiro. Parecia uma brincadeira, mas depois descobri que ica é um sufixo tupi, e quando Darcy usa oscárico no lugar de oscariano, por exemplo, ele está querendo usar a língua do índio brasileiro.

E a obra dele em Brasília como é que se situa?

A obra dele em Brasília se situa numa época quase no final da grande arquitetura moderna, cujo momento principal não é, como se pensa, os anos 1920, 1930 ou 1940, mas os anos 1950. É o momento que eu chamaria da alta arquitetura moderna. Para mim, este é o ponto mais alto da história recente da arquitetura. A época em que Oscar Niemeyer faz a Casa das Canoas e o Ibirapuera, a época que Frank Lloyd Wright, muito idoso, fez o Museu Guggenheim, a época em que Alvar Aaalto, que é um dos dois ou três arquitetos mais importantes do século, fez o prédio mais bonito da vida dele. Esta época pode ser chamada de Alto Moderno. Eu diria que o que é chamado de Grande Moderno é o Modernismo, ou seja, é o movimento modernista. Esse movimento que revolucionou a arquitetura mundial tem dois pontos altos que são insuperáveis. Por que insuperáveis? Era preciso saltar um obstáculo e foi feito. Estes dois pontos são o Pavilhão de Barcelona, de Mies van der Rohe, de 1939 — uma obra do fim de uma época do mundo ocidental — e a Maison Savoie, de Le Corbusier. Os dois artistas realizaram ali seu suprassumo. O resultado é que Le Corbusier transformou-se completamente; ele vira brutalista, deixa de ser purista, porque aquilo era insuperável. Quando uma coisa é insuperável o que a gente faz? Ultrapassa. Enquanto isso, Mies van der Rohe vai para os Estados Unidos e se dedica a uma outra arquitetura, que se transforma em ícone da arquitetura capitalista mundial.

Este período do Alto Modernismo teve como figuras mais importantes Mies, Aalto, Oscar, Le Corbusier. Brasília vem dez anos depois. Começa em 1957. Oscar não tem culpa de ser o mais moço do grupo. Essa gente toda teve ocasião de trabalhar nos anos 1920, 1930, na Alemanha, quando Oscar ainda estava no Colégio dos Barnabitas. Então ele ficou sendo considerado um arquiteto tardio. Eu vi um crítico nosso dizer: “Vá lá, chamemos Brasília de moderno, depois não vamos mais usar essa palavra!”. 

É claro que vamos. Porque a palavra “moderno” para o arquiteto quer dizer apenas não acadêmico. Moderno quer dizer livre. No principio, os arquitetos modernistas, lutadores pelo modernismo, faziam uma arquitetura exageradamente racionalista. 

Certamente não se tratava de funcionalismo. A palavra funcionalismo é falsa. Nenhum arquiteto jamais fez uma arquitetura funcionalista; eles não servem nunca integralmente à função. Mas, se em todo o caso existisse algum funcionalismo, seria parte do racionalismo. Funcionalismo é um modo de ser racionalista. Esses arquitetos estão ainda ligados esteticamente, filosoficamente, aos grandes artistas da escola de Paris e da Alemanha: Kandinsky, Picasso, Matisse. Entretanto, há uma diferença entre eles e estes artistas: os arquitetos não são livres. Trabalham obrigados ou por um pretexto funcionalista ou por uma obrigação racionalista.

O irracional é inseparável da arte moderna. Para que a arquitetura moderna fosse igual à arte moderna, ela teria que ser como a arte moderna, sem estilo. Ninguém nunca achou que Mondrian e Miró fazem parte do mesmo estilo. Na verdade, eles são antiestilo. Repito: moderno não é estilo!

Embora muitos arquitetos expressionistas tenham trabalhado livremente, aquele princípio da Bauhaus de que tudo tem que ser racional e, se possível, dentro do racional funcional, não é o moderno. Essa ideia não faz parte da essência do modernismo de combater a escola de Belas Artes. Ser moderno é não ser obrigado a imitar Rafael. É fazer o que bem entender. E a Arquitetura Moderna, enquanto fizer o que bem entender, é moderna. Essa palavra não morre. De modo que quando Oscar Niemeyer faz a Casa de Cultura da França, para o Malraux, ele faz uma coisa inventada. Até hoje, cada vez que ele faz alguma coisa, até o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, trata-se de algo completamente inventado. Esse completamente inventado, livre, foi chamado de irracional pelos protestantes ingleses. O conjunto da Pampulha é chamado pelo Outline of European Architecture de irracionalista. Irracionalismo que, aliás, Le Corbusier teria levado para a França. Curioso que os dois sejam acusados disso. Por que Pevsner faz esta acusação? No fundo porque ele é protestante, pudico, ele acredita só na arquitetura de Gropius, que ele estudou na sua tese de doutorado.

Queria muito chegar nesse ponto da nossa conversa para dizer o que acho que é moderno e o que não é. Pouco me importa que uma coisa seja chamada moderna, pós-moderna ou para-moderna. Isso não quer dizer nada. O que importa é que existe uma diferença total entre a arquitetura dos povos antigos, que apresentava uma unidade enorme, como no caso dos góticos, dos egípcios, como no caso da arquitetura de depois do século XV até o século XIX, que foi acadêmica, obedecendo a determinadas regras principalmente de inspiração greco-romana, e a arquitetura moderna. Se a arquitetura for livre, se ela não estiver obedecendo a uma regra ou um tratado, ela é moderna. Então, chamar Brasília de moderna é um “esforço”, como disse um crítico amigo? Ora, não é esforço nenhum. Brasília é moderna porque não parece com nada acadêmico. Não tem coluna grega, que eu saiba. É uma coisa inventada pelo Oscar Niemeyer. O Palácio da Alvorada, por mais que seja gracioso, uma folie, é uma maravilha de escultura moderna. Os palácios de Brasília são preciosos e belos, sem nenhum acanhamento puritano.

 

 ARQUITETURA E CIDADE

Hoje há uma espécie de pluralismo que torna difícil defender a ideia de que uma coisa é melhor que a outra. Relativizou-se tudo. O que você acha disso?

No momento, predomina a confusão formal. Nós estamos vivendo uma época em que não existem grandes valores em arquitetura. Há um momento em que os valores são fracos.

E a arquitetura de hoje em dia?

Essas pessoas não fazem isso em uma noite. Elas fazem isso durante a vida inteira e, de repente, tem um dia em que isso floresce. Se não tivesse a Linz na cabeça, Mozart não faria. Se Oscar já não tivesse, desde o momento do ministério, partido para certa crítica do ângulo reto, se ele não tivesse, de repente, compreendido o Barroco, não teria feito o que fez mais tarde. Penso que o Barroco do Oscar evoluiu para uma combinação da curva com a reta, que é uma coisa que se vê nas esculturas de Aleijadinho. Na Pampulha ainda é curva com curva. Mas, no hotel que ele fez para substituir o Quitandinha, já é curva com reta. E na Casa das Canoas é curva com reta. Essa curva com reta, tão pouco notada pelos críticos, é a essência criativa da melodia “oscárica”. Esta expressão é de Darcy Ribeiro. Parecia uma brincadeira, mas depois descobri que ica é um sufixo tupi, e quando Darcy usa oscárico no lugar de oscariano, por exemplo, ele está querendo usar a língua do índio brasileiro.

E a obra dele em Brasília como é que se situa?

A obra dele em Brasília se situa numa época quase no final da grande arquitetura moderna, cujo momento principal não é, como se pensa, os anos 1920, 1930 ou 1940, mas os anos 1950. É o momento que eu chamaria da alta arquitetura moderna. Para mim, este é o ponto mais alto da história recente da arquitetura. A época em que Oscar Niemeyer faz a Casa das Canoas e o Ibirapuera, a época que Frank Lloyd Wright, muito idoso, fez o Museu Guggenheim, a época em que Alvar Aaalto, que é um dos dois ou três arquitetos mais importantes do século, fez o prédio mais bonito da vida dele. Esta época pode ser chamada de Alto Moderno. Eu diria que o que é chamado de Grande Moderno é o Modernismo, ou seja, é o movimento modernista. Esse movimento que revolucionou a arquitetura mundial tem dois pontos altos que são insuperáveis. Por que insuperáveis? Era preciso saltar um obstáculo e foi feito. Estes dois pontos são o Pavilhão de Barcelona, de Mies van der Rohe, de 1939 — uma obra do fim de uma época do mundo ocidental — e a Maison Savoie, de Le Corbusier. Os dois artistas realizaram ali seu suprassumo. O resultado é que Le Corbusier transformou-se completamente; ele vira brutalista, deixa de ser purista, porque aquilo era insuperável. Quando uma coisa é insuperável o que a gente faz? Ultrapassa. Enquanto isso, Mies van der Rohe vai para os Estados Unidos e se dedica a uma outra arquitetura, que se transforma em ícone da arquitetura capitalista mundial.

Este período do Alto Modernismo teve como figuras mais importantes Mies, Aalto, Oscar, Le Corbusier. Brasília vem dez anos depois. Começa em 1957. Oscar não tem culpa de ser o mais moço do grupo. Essa gente toda teve ocasião de trabalhar nos anos 1920, 1930, na Alemanha, quando Oscar ainda estava no Colégio dos Barnabitas. Então ele ficou sendo considerado um arquiteto tardio. Eu vi um crítico nosso dizer: “Vá lá, chamemos Brasília de moderno, depois não vamos mais usar essa palavra!”. 

É claro que vamos. Porque a palavra “moderno” para o arquiteto quer dizer apenas não acadêmico. Moderno quer dizer livre. No principio, os arquitetos modernistas, lutadores pelo modernismo, faziam uma arquitetura exageradamente racionalista. 

Certamente não se tratava de funcionalismo. A palavra funcionalismo é falsa. Nenhum arquiteto jamais fez uma arquitetura funcionalista; eles não servem nunca integralmente à função. Mas, se em todo o caso existisse algum funcionalismo, seria parte do racionalismo. Funcionalismo é um modo de ser racionalista. Esses arquitetos estão ainda ligados esteticamente, filosoficamente, aos grandes artistas da escola de Paris e da Alemanha: Kandinsky, Picasso, Matisse. Entretanto, há uma diferença entre eles e estes artistas: os arquitetos não são livres. Trabalham obrigados ou por um pretexto funcionalista ou por uma obrigação racionalista.

O irracional é inseparável da arte moderna. Para que a arquitetura moderna fosse igual à arte moderna, ela teria que ser como a arte moderna, sem estilo. Ninguém nunca achou que Mondrian e Miró fazem parte do mesmo estilo. Na verdade, eles são antiestilo. Repito: moderno não é estilo!

Embora muitos arquitetos expressionistas tenham trabalhado livremente, aquele princípio da Bauhaus de que tudo tem que ser racional e, se possível, dentro do racional funcional, não é o moderno. Essa ideia não faz parte da essência do modernismo de combater a escola de Belas Artes. Ser moderno é não ser obrigado a imitar Rafael. É fazer o que bem entender. E a Arquitetura Moderna, enquanto fizer o que bem entender, é moderna. Essa palavra não morre. De modo que quando Oscar Niemeyer faz a Casa de Cultura da França, para o Malraux, ele faz uma coisa inventada. Até hoje, cada vez que ele faz alguma coisa, até o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, trata-se de algo completamente inventado. Esse completamente inventado, livre, foi chamado de irracional pelos protestantes ingleses. O conjunto da Pampulha é chamado pelo Outline of European Architecture de irracionalista. Irracionalismo que, aliás, Le Corbusier teria levado para a França. Curioso que os dois sejam acusados disso. Por que Pevsner faz esta acusação? No fundo porque ele é protestante, pudico, ele acredita só na arquitetura de Gropius, que ele estudou na sua tese de doutorado.

Queria muito chegar nesse ponto da nossa conversa para dizer o que acho que é moderno e o que não é. Pouco me importa que uma coisa seja chamada moderna, pós-moderna ou para-moderna. Isso não quer dizer nada. O que importa é que existe uma diferença total entre a arquitetura dos povos antigos, que apresentava uma unidade enorme, como no caso dos góticos, dos egípcios, como no caso da arquitetura de depois do século XV até o século XIX, que foi acadêmica, obedecendo a determinadas regras principalmente de inspiração greco-romana, e a arquitetura moderna. Se a arquitetura for livre, se ela não estiver obedecendo a uma regra ou um tratado, ela é moderna. Então, chamar Brasília de moderna é um “esforço”, como disse um crítico amigo? Ora, não é esforço nenhum. Brasília é moderna porque não parece com nada acadêmico. Não tem coluna grega, que eu saiba. É uma coisa inventada pelo Oscar Niemeyer. O Palácio da Alvorada, por mais que seja gracioso, uma folie, é uma maravilha de escultura moderna. Os palácios de Brasília são preciosos e belos, sem nenhum acanhamento puritano.

 

 ARQUITETURA E CIDADE

Hoje há uma espécie de pluralismo que torna difícil defender a ideia de que uma coisa é melhor que a outra. Relativizou-se tudo. O que você acha disso?

No momento, predomina a confusão formal. Nós estamos vivendo uma época em que não existem grandes valores em arquitetura. Há um momento em que os valores são fracos.

E a arquitetura de hoje em dia?

 

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