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Istambul, de Orhan Pamuk

Qualquer que seja a quantidade de carros que caíram no Bósforo ao longo dos anos, a história é sempre a mesma: os passageiros acabam arrastados para as profundezas, de onde não existe volta. Não só já ouvi e li essas histórias como já vi alguns carros caindo com meus próprios olhos! Não importa quem sejam os passageiros – crianças aos berros; um casal de amantes brigando; um bando de bêbados incovenientes; um marido que volta para casa às pressas; um velho que não enxerga bem no escuro; um motorista sonolento que parou no cais para tomar chá com os amigos e depois saiu de primeira em vez de engatar a marcha a ré; Sefik, o velho tesoureiro, com a sua linda secretária; policiais que contavam os navios singrando o Bósforo; um motorista aprendiz que saiu com a família no carro da fábrica sem permissão; um fabricante de meias de nylon que por acaso é conhecido de um parente distante; um pai e um filho usando capas de chuva idênticas; um famoso gângster de Beyoglu e a sua amante; uma família de Konya que estava vendo pela primeira vez as pontes do Bósforo – quando os carros voam para dentro d’água, nunca afundam direto como pedras. Por um momento oscilam, como que pousados na superfície. Pode ser à luz do dia, ou a única iluminação pode ver de uma meyhane próxima, mas quando as pessoas do lado vivo do Bósforo olham para o rosto daqueles que estão a ponto de afundar, veem um terror consciente. Um instante depois o carro afunda devagar no mar profundo, escuro e cortado por rápidas correntezas.

Istambul, de Orhan Pamuk, tradução de Sergio Flaksman

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Clarice Lispector elogiada por Orhan Pamuk e Pedro Almodóvar

Matéria de Ubiratan Brasil publicada no site do Estadão:

É o momento Clarice Lispector – quinta-feira, as livrarias dos Estados Unidos começam a receber quatro livros (Perto do Coração Selvagem, Água Viva, A Paixão Segundo G. H. e Um Sopro de Vida) da grande escritora traduzidos para o inglês, todos pela editora New Directions, que já lançou no ano passado A Hora da Estrela. O fato repercutiu na imprensa, com o jornal Los Angeles Times citando a frase de um antigo tradutor de Clarice (1920-1977), Gregory Rabassa, que comparava a autora brasileira a Marlene Dietrich (no traço físico) e a Virginia Woolf (no traço estilístico).

“A maneira chocante com que fala dos grandes temas é a característica de sua prosa que mais desperta atenção do leitor americano”, acredita Benjamin Moser, organizador dos lançamentos e grande divulgador da prosa clariciana entre seus conterrâneos, especialmente depois de publicada a tradução em inglês de sua biografia Clarice, lançada em 2009 pela Cosac Naify. “São assuntos que, no nosso dia a dia, não temos coragem de enfrentar – a vida, a morte, o Deus – e que são os grandes temas universais, independentemente de detalhes superficiais, como a nacionalidade do leitor.”

Os quatro volumes chegam com um delicado projeto gráfico: juntas, as capas reproduzem uma foto de Clarice jovem. E, em um canto, são reproduzidos elogios de personalidades literárias como Jonathan Franzen (“Uma escritora verdadeiramente notável”), Orhan Pamuk (“Uma das mais misteriosas autoras do século 20”) e Colm Toíbín (“Um dos gênios ocultos do século 20”), além de uma citação do jornal The New York Times (“A principal escritora latino-americana de prosa do século”).

Moser, que descobriu a escrita de Clarice na universidade, durante um curso sobre literatura brasileira em que se estudou A Hora da Estrela, enriqueceu ainda a nova fornada de volumes com prólogos diversos, como o assinado por Caetano Veloso para Perto do Coração Selvagem e um surpreendente texto de cineasta Pedro Almodóvar que, ao recusar o convite de Moser para escrever sobre Um Sopro de Vida, acaba tecendo vários elogios à autora.

Apesar do enorme sucesso, Benjamin Moser considera tardia a chegada da obra de Clarice ao mercado americano. E o que a mantinha tão afastada? “A resposta é simples: uma má tradução”, acredita. “As antigas versões em inglês eram muito ruins. Tentaram preencher ou eliminar as estranhezas da linguagem de Clarice, de ‘completá-la’, sem entender que isso é que justamente fizeram de Clarice a escritora Clarice. Se conseguirmos na nova série fazer o leitor americano chegar mais perto do coração de Clarice, teremos sabido traduzir um pouco do encanto do seu português esquisito e belíssimo.”

Como editor de séries da New Directions, Moser já planeja novos lançamentos – em seus planos, figuram Contos Completos, além de uma obra infantil. Um trabalho de paciência, pois a dificuldade continua na tradução – alguns dos novos lançamentos, por exemplo, passaram por até oito versões. Mesmo assim, Moser orgulha-se de ter feito uma contribuição às letras americanas. “Trata-se de algo realmente revolucionário.”

No Brasil, os livros de Clarice são um dos bens mais preciosos do catálogo da editora Rocco, que prepara vários lançamentos a partir do segundo semestre. Em outubro, por exemplo, deve sair a coletânea Clarice na Cabeceira – Jornalismo, que vai reunir textos publicados na imprensa ao longo de quase quatro décadas.

Organizada por Aparecida Maria Nunes, a obra pretende oferecer uma amostra consistente da forma singular como Clarice praticava o jornalismo, seja no papel de repórter, entrevistadora, colunista de páginas femininas ou cronista, além de ajudar a traçar um perfil do próprio jornalismo brasileiro nesse período.

Também a obra infantojuvenil da escritora vai ganhar nova edição, com um projeto gráfico reformulado e volumes em capa dura. Os primeiros serão A Vida Íntima de Laura, ilustrado por Odilon Moraes, e A Mulher Que Matou os Peixes, por Renato Moriconi. 

TRECHO

“Esse livro (Um Sopro de Vida) provocou em mim um efeito similar ao dos primeiros romances que li do sul-africano J. M. Coetzee. Cada frase acumula tal quantidade de significados, é tão densa, rotunda e rica que eu preciso parar antes de sentir um impacto semelhante a trombar com uma parede (…)

O romance é recheado de frases memoráveis sobre a criação literária e a passagem do tempo, o desespero e a multiplicidade humana, incluindo a necessidade de se falar de si mesmo, a procura por um interlocutor e o fato de se encontrar isso dentro de si mesmo. Quero citar frases dela na edição em livro do roteiro de A Pele Que Habito.”

Trecho da carta de Pedro Almodóvar a Benjamin Moser

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O Museu da Inocência

O site do Museu da Inocência de Orhan Pamuk já se encontra on-line. É o Masumiyet Müzesi. A respeito disso, leiam matéria publicada no site do Valor Econômico:

Numa casa vermelho-escura otomana no distrito de antiquários de Istambul, um bairro em acelerada ascensão social onde objetos trabalhados em bronze se espalham nas calçadas de íngremes ruas de paralelepípedos, está tomando forma um museu idiossincrático. Ao entrarmos, a primeira coisa que vemos é uma parede inteira pontilhada de pontas de cigarros uniformemente espaçadas – prova da prolongada agonia de um homem que furtivamente guardou 4.213 bitucas dos cigarros de sua amada depois que ela se casou com outra pessoa. Mas a palavra “obsessão” é desestimulada, diz Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enquanto supervisiona os toques finais de seu Museu da Inocência.

Pamuk, um artista “manqué”, estudou arquitetura, mas migrou para a literatura aos 23 anos. Seu “museu sentimental” foi concebido em meados da década de 1990 como contraponto a seu oitavo livro, “O Museu da Inocência” (2008) – publicado depois que ele recebeu o Nobel em 2006. Como o autor, seu herói Kemal nasceu na abastada burguesia de Istambul. Mas após um envolvimento amoroso com Füsun, bela vendedora e distante parente pobre, Kemal rompe um noivado oficial para tentar reconquistá-la. A história tem os contornos dos melodramas televisivos turcos (Pamuk passou uma temporada escrevendo roteiros na década de 1980). Mas a dor é real em um romance que, como grande parte da ficção de Pamuk, sonda as ansiedades e falsidades da vida, em que a sensação é de uma sociedade atrasada, embora imite uma modernidade ocidentalizada. A amada de Kemal morre e – incapaz de encontrar paz – ele constrói um museu com os objetos que ela tocou, enquanto Pamuk reúne lembranças para inspirar a narrativa.

Na demorada reta final até a abertura do museu, Pamuk está bastante animado, dançando em torno das escadas de pintores e da fiação ao som do ruído ensurdecedor de furadeiras e serras (“Eu não vou dizer para eles irem embora – eu quero que isso seja autêntico”, ele berra, com um sorriso). Aos 59 anos, alegria e entusiasmo o tornam ainda mais juvenil. Em 1998 ele comprou uma dilapidada casa de esquina em Cukurcuma, nas ruelas de Beyoglu, do outro lado do Chifre de Ouro, em relação aos palácios de Sultanahmet, mas foi frustrado pela lentidão da reforma.

“É como construir uma casa: a burocracia – o encanador nunca vem na hora combinada. Honestamente, muita lamentação e arrependimento foi investido nela.” Pamuk diz ter devolvido uma pequena verba destinada pela cidade de Istambul por causa de um “acirrado embate político” e bancou “95%” do projeto com dinheiro proveniente de seus direitos autorais, trabalhando com arquitetos turcos e alemães, entre eles Ihsan Bilgin e Gregor Sunder-Plassmann. Ele também teve de contratar guarda-costas, em razão de antigas ameaças de morte de facções de extrema-direita.

O pequeno museu é, predominantemente, uma sequência de pequenos nichos, cada um correspondente a um dos 83 capítulos da novela – faltam 10, que serão incluídos posteriormente. “Nossa constituição é o livro”, afirma Pamuk. “Foi uma alegria desenvolver o romance com a textura viva daquele tempo.” Embora o caso de amor de Kemal aconteça nos anos 1970 e 80 – superposto ao golpe militar na Turquia em 1980 – a mostra cobre o meio século a partir dos anos 1950.

Construída em 1894, a casa é supostamente a casa da família Füsun. A vitrine de saleiros junto ao poço da escada comemora os jantares de Kemal lá. Em destaque, vê-se o vestido que ela supostamente usava quando Kemal a seduziu. “Isso é o mais próximo que chegamos dela”, murmura Pamuk, como se falasse de um conhecido. Há largas coleções de brincos, grampos de cabelo e caixas de fósforos, surrupiados no “ritual de consolação” de Kemal e um sortimento variado de objetos: de um coração de porcelana quebrado a um triciclo de brinquedo. Muitos já estavam na coleção de Pamuk, mas ele adquiriu centenas de fotografias e cartões-postais anônimos. Seus romances, acredita ele, têm uma qualidade “eclética – milhares de pequenas coisas. Nós também estamos fazendo isso; museus têm tudo a ver com detalhes”.

Três anos atrás, vi alguns desses objetos espalhados no chão de seu escritório, nas imediações. Mas cada nicho, aqui, é composto como uma instalação de arte, surrealista, minimalista ou barroca. Pamuk, que elabora as capas de seus livros, esquematizou muitos dos nichos. “Está cada vez mais um museu de atmosfera”, diz. O efeito desejado é uma “aura ou sentimento do livro”. Felizmente, isso inclui seu humor. Um cartaz anatômico fornece uma “analogia de como começa a dor do amor”. Um surreal tubo com gravata borboleta evoca o psiquiatra que a noiva de Kemal insiste que ele consulte. As descascadas persianas verdes e um lampião, recuperados de uma mansão abandonada à beira do Bósforo, lembram Kemal das impotentes noites em que ele tentava apaziguar sua pretendida. Em “Streets that Remind Me of Her” (ruas que me fazem lembrar dela), um mapa de 1934 do bairro de Nisantasi – o bairro rico da família de Pamuk -, há áreas assinaladas com amarelo, laranja ou vermelho, dependendo do grau de angústia que suas associações despertam em Kemal.

O museu, como o romance, é em igual medida celebração da cidade natal de Pamuk, casa e lamentação por um amor perdido. “É, em parte, memória da cultura, como vamos a um piquenique como este” – Pamuk aponta para uma cesta repleta de frutas. Isso dá margem a um nicho pós-moderno de curiosidades que podem ser apreciadas sem conhecer o romance. Usando tecnologia museológica de ponta, ele mescla documentário e ficção, produzindo um efeito a um só tempo lúdico e profundo. Vídeos mostrando o Bósforo são exibidos em telas, enquanto luvas de boxe acima de uma máquina de escrever aludem ao ex-datilógrafo de Pamuk, que tinha um segundo emprego de boxeador. Pouca coisa é o que parece. Após testes com cigarros fumados por uma máquina de vácuo, as pontas de cigarro que estão sendo instaladas por uma mulher em uma escada são de autoria de um artista plástico. Até mesmo o comercial de TV para o refrigerante Meltem no estilo dos anos 1970 é uma campanha simulada por um dos maiores publicitários da Turquia em homenagem a um refrigerante fictício.

“É um museu nostálgico”, admite Pamuk. “Mas não apenas isso. O fato é que estamos preservando coisas que nunca foram representadas, evidenciando qualidades comuns, da vida cotidiana. Acreditamos fortemente em honrar essas efemérides”. Figurinhas de futebolistas que vêm com os chicletes comprados por Kemal custaram caro, porque “na Turquia, colecionadores também disputam a posse desses objetos”. Existem trenzinhos e bilhetes de viagem nas balsas. “As pessoas em Istambul, assim como em Veneza, são nostálgicas em relação às embarcações. Também serão ouvidos sons emitidos através de orifícios nas caixas” – ele imita uma sirene de nevoeiro. O relógio de parede levado escada acima (“Este é um momento importante”, anuncia Pamuk) está sendo regulado por um dos principais relojoeiros de Istambul, que se comprometeu a garantir que manterá a hora certa.

Kemal visita 1.743 museus em 15 anos, e Pamuk viu “perto desse número” durante viagens para lançamentos de livros na década de 1990, entre eles o Gustave-Moreau, em Paris, e a Casa de Thomas Mann, em Lübeck. Como escreveu no “Modest Manifesto”, havia poucos museus em Istambul, quando ele era criança, mas aqueles que ele visitou depois o convenceram de que, como os romances, podem falar em nome das pessoas e não de instituições.

Os museus, afirma agora, “deveriam ser mais como romances – menos sobre nações, tribos, instituições; mais sobre histórias pessoais”. Eles “sempre representaram o poder – um príncipe ou Estado, grupos institucionais. Bem, nós também temos um poder: esse sujeito loucamente apaixonado, chorando, colecionando cigarros. Afirmamos que sua experiência é universal, todo mundo, acreditamos, se apaixona e passa pelos estados de ânimo de Kemal”. Assim como Kemal se dá conta de que “eu também poderia ter algo digno de ser exibido orgulhosamente, e a noção me libertou”, diz Pamuk, “estamos dizendo: ‘Construa o seu museu e você terá poder’. Pelo menos você não se envergonhará de sua coleção ou de sua história”.

O romance contém um mapa de situação e um bilhete para entrada gratuita. Ele será carimbado pelos guardas em ternos de veludo “da cor de madeira escura”, como estipula Kemal. Pamuk tem um conjunto de ternos, “porque às vezes os usarei discretamente e montarei guarda aos objetos”. Assim, os visitantes não deverão se surpreender caso encontrem o agraciado com o Nobel à espreita, entre os nichos. “Vou trabalhar nisso durante 20 anos, até eu morrer; será divertido.”

O Museu da Inocência, em Istambul, será inaugurado no dia 27. (Tradução de Sergio Blum)

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