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Marcel Duchamp, Octavio Paz

Etant donnés: (1) la chute de l'eau; (2) le gaz d'éclairage, de Marcel Duchamp. Realizado entre 1946 e 1966. Encontra-se no museu da Filadélfia

Etant donnés: (1) la chute de l’eau; (2) le gaz d’éclairage, de Marcel Duchamp. Realizado entre 1946 e 1966. Encontra-se no museu da Filadélfia

 

“A dualidade magia/política não é mais que uma das oposições que habitam a poesia moderna. O par amor/humor é outra. Toda a obra de Marcel Duchamp gira sobre o eixo da afirmação erótica e da negação irônica. O resultado é a metaironia, uma espécie de suspensão da alma, um mais além da afirmação e da negação. O nu do Museu da Filadélfia, de pernas abertas, empunhando com uma mão (como uma estátua da Liberdade tombada) uma lâmpada de gás, recostada sobre feixes de raminhos como se fossem lenhas de uma fogueira, uma cascata ao fundo (dupla imagem da água do mito e da indústria elétrica) – nada mais é que a pin-up Artemisa vista pela fresta de uma porta por Acteón, o voyeur. Operação circular da metaironia: o ato de ver uma obra de arte transformado em um ato de voyeurismo. Olhar não é uma experiência neutra: é uma cumplicidade. O olhar ilumina o objeto, o contemplador é um observador. Duchamp demonstra a função criadora do olhar e, ao mesmo tempo, seu caráter irrisório. Olhar é uma transgressão, mas a transgressão é um jogo criador. Ao olhar por uma fresta da porta da censura estética e moral, entrevemos a relação ambígua entre contemplação artística e erotismo, entre ver e desejar. Vemos a imagem de nosso desejo e sua petrificação em um objeto: uma boneca nua.”

Os filhos do barro, Octavio Paz. Tradução de Olga Savary

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Nova edição de “O arco e a lira”, de Octavio Paz

Artigo de Marco Rodrigo Almeida publicado no site da Folha de S. Paulo:

Por si só a reedição do livro “O Arco e a Lira” já é uma das boas notícias do ano no mercado editorial, mas o livro de Octavio Paz (1914-1998) também sela o início de uma parceria entre Brasil e México.

Há anos fora de catálogo no Brasil, o livro publicado originalmente em 1956 é um dos principais trabalhos do poeta e ensaísta mexicano, vencedor do Nobel de Literatura.
O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) escreveu que trata-se de “o melhor ensaio sobre poética já escrito na América”.

O célebre ensaio de Paz é o primeiro fruto entre a editora brasileira Cosac Naify e a mexicana Fondo de Cultura Económica.

O lançamento do livro acontece nesta quarta (dia 12) e terá debate entre Celso Lafer, membro da Academia Brasileira de Letras, Danubio Torres Fierro, diretor da Fondo de Cultura Económica no Brasil, e Laura Greenhalgh, editora executiva do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Principal grupo editorial do México, a Fondo foi criada pelo governo do país em 1934. Tem cerca de 5.000 títulos de livros em seu catálogo, muitos voltados para a área acadêmica, e filiais na Espanha, nos EUA e na Argentina, entre outros países.

A editora aportou no Brasil no início dos anos 1990, com a Livraria Azteca. Agora pretende ampliar sua participação no mercado editorial brasileiro.

“Nós e a Cosac pretendemos firmar uma parceria cultural de longa duração. Queremos promover um casamento entre a literatura espanhola e a brasileira”, comenta Fierro.

Há dois anos o editor uruguaio mudou-se para São Paulo para estreitar os laços. Ele avalia que o mercado editorial brasileiro passa por um bom momento e deve se expandir nos próximos anos.

A relação da Fondo com o Brasil é antiga. Eles já traduziram para o espanhol “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis), “Canaã” (Graça Aranha), “Angústia” (Graciliano Ramos) e “Os Sertões” (Euclydes da Cunha).

O acordo com a Cosac prevê para 2013 outro livro de Paz, “Os Filhos do Lodo”, espécie de continuação de “O Arco e a Lira”. Já a Fondo vai traduzir para o espanhol “O Sonho de Vitório”, da Veridiana Scarpelli. Os próximos títulos ainda não foram definidos, mas “O Labirinto da Solidão”, outro famoso trabalho de Paz, deve ser um deles.

PARTICULAR E UNIVERSAL

Fierro conheceu Paz nos anos 1970, quando foi secretário de Redação de duas revistas fundadas pelo mexicano: “Plural” e “Vuelta”.

“Ele tinha uma vitalidade incrível, uma inteligência que assombrava a cada instante”, recorda.

Um reflexo disso está espalhado pelas 352 páginas de “O Arco e a Lira”. A densa reflexão serve de brecha para Paz abordar um tema que lhe era caro: o lugar da poesia hispano-americana na tradição poética do Ocidente.

Para Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, o livro é a prova da grandeza de Paz como poeta e ensaísta.

“Ele faz uma análise do significado da poesia em diversas sociedades. O livro é de abrangência impressionante”, diz.
Lafer foi aluno de Paz em um curso de poesia moderna na Universidade Cornell (EUA), em 1966.

“Foi uma convivência ótima. Tinha uma mente muito aberta, era muito reflexivo.”

O ARCO E A LIRA
AUTOR Octavio Paz
EDITORA Cosac Naify
TRADUÇÃO Ari Roitman, Paulina Wacht
QUANTO R$ 69 (352 págs.)
LANÇAMENTO dia 12, às 19h, no Instituto Cervantes (av. Paulista, 2.439; tel. 0/xx/11/3897-9609)

 

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