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“Historiadora alerta que é preciso investir no fortalecimento das instituições e se livrar do exotismo”

Entrevista com Lilia Moritz Schwarcz realizada por Mariana Timóteo da Costa. Publicada no jornal O Globo de 1 de setembro de 2012 [via Gustavo Sénéchal]:

Por que ainda é tão difícil o Brasil entender os vizinhos e vice-versa?
O Brasil ficou muito apartado da América Latina por conta de uma série de elementos. Primeiro, foi uma colônia portuguesa, a língua o distinguia dos demais e foi fundamental nesta divisão. Depois, enquanto os vizinhos buscavam a independência — e esta era basicamente moldada sob ideais republicanos, pensados sob a Doutrina Monroe (1823) —, o Brasil optou por uma saída conservadora, manteve a monarquia. E o Brasil ainda foi o último país a abolir a escravidão no Ocidente. O sistema político adotado, a manutenção da escravidão negra, as dimensões continentais e a vocação imperialista do país, intensificada com a Guerra do Paraguai (1864 a 1870), geraram muita desconfiança entre os vizinhos e foram nos isolando. Sempre houve muita suspeita de parte a parte. Só no último volume da coleção (que cobre de 1960 a 2010) é que a gente vai ver esta relação se construir, mesmo assim não de forma consolidada. Até hoje não é.
 
E o que mudou para esta aproximação começar?
Não há um fator específico, mas a própria mudança no cenário internacional. O Brasil surgiu como potência, como um modelo viável num momento em que as democracias consolidadas ocidentais enfrentam crises. O Richard Morse teve a ideia de pegar a América Latina não como um espelho invertido e cruel dos países metropolitanos, mas uma região que pudesse representar uma opção diferente para o mundo. Já vejo uma movimentação, especialmente na Europa e nos EUA, de pensadores começando a tratar o Brasil sem exotismo. Isso também é um exercício para os brasileiros, pensar os vizinhos dentro de suas realidades complexas, não exotizar e simplificar uma figura como o (presidente da Venezuela) Hugo Chávez, buscando entender o porquê do surgimento de um Chávez. Além disso, tratando de seus próprios males, enfrentando seus desafios que são muitos.
 
Por que integrar é importante?
Mais importante é entender, estudar. Há experiências que são comuns. Os países sul-americanos passaram por processos de independência num mesmo momento, por dificuldades parecidas, temos uma corrupção quase endêmica. Somos todos países com vocação para a mestiçagem como projeto nacional forte. Nossa historiografia foi, durante muito tempo, centrada em nossa própria experiência, um projeto comparativo ajudará a entendermos nossa realidade.
 
Como o Brasil era pensado antes?
A Academia americana, até o início dos anos 2000, só queria saber do Brasil exótico, do samba, do carnaval, da capoeira. Depois, veio o “efeito Cidade de Deus” (filme de 2002), o Brasil da violência social. São dois lados de uma mesma moeda, porque aí você também estetiza a violência. O lugar de um país como outro qualquer, com seus problemas, é um lugar bastante novo para o Brasil. Meu medo é que o Brasil não aproveite este momento, porque ao mesmo tempo em que se tornou a sexta economia do mundo, continua a ser um dos países mais desiguais de toda a América Latina. Os impasses são enormes.
 
Os processos da independência impopular, da abolição da escravidão de cima para baixo… Como a História pode explicar problemas enfrentados atualmente pelo país, como a corrupção e a desigualdade?
Acabei de ler uma peça de Tennessee Wlliams em que um personagem afirma: “O passado insiste em se apresentar no presente”. A experiência histórica insiste em se apresentar até hoje. Nossa independência não foi obtida por meio de um processo de luta. Somos uma República cujo Hino Nacional é o hino de um império, “ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. O Hino da República diz: “nós nem cremos que escravos de outrora tenha havido em tão nobre país”. A escravidão tinha acabado há somente um ano e meio e já queriam apagá-la totalmente do nosso passado? Quando você faz uma abolição da forma com que foi feita, como uma espécie de dádiva, e não prevê nenhum tipo de ressarcimento aos escravos… Hoje discutimos cotas raciais, mas isso era discutido lá atrás. O fato é que no Brasil não existiu muita luta popular, não tivemos processos revolucionários e ficamos carentes de lutas civis, de um processo maior de formação de cidadania. Nosso passado coronelista e escravocrata não surgiu gratuitamente, assim como não é sem motivo a predominância das elites nas tomadas de decisão, tudo isso se reflete no atual abismo social.
 
No volume que aborda a fase inicial da República, antes de Getúlio Vargas, ela é tratada como Primeira República e não como República Velha. Por que?
Apesar da carência de movimentos populares, a primeira fase da República contou com mobilizações ativas de luta pela cidadania, embaladas pelo abolicionismo, pela chegada dos imigrantes, pela urbanização, pela industrialização. Foi uma época vibrante que a historiografia oficial normalizou como República Velha, nome que a desmerece. O termo República Velha foi uma criação de Getúlio Vargas para colocar tudo na conta do Estado Novo, que era ele. Getúlio pensava o Brasil como República somente a partir dele, e os historiadores seguiram isso. A linguagem carrega convenções culturais poderosas. Primeira República é um nome mais adequado.
 
E o que ainda falta para a República brasileira se consolidar?
O Brasil tem se sofisticado consideravelmente e aumentado a inclusão, mas ainda falha muito na sua imagem republicana. Lá fora, quando eu falo que o Brasil não é um país de inclusão social, eles retrucam: “Como não? E o samba? O futebol?”. Não dá para negar que existem áreas de inclusão social, mas é só pegar o censo, é só analisar os recentes dados de desigualdade apresentados pelas Nações Unidas. O Brasil combina inclusão e exclusão de maneira perversa. Para reverter esta relação, temos que investir no fortalecimento de nossas instituições.

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“Uma nova ordem no mercado editorial brasileiro” – André Miranda

Texto do jornalista André Miranda sobre o novo perfil do mercado editorial brasileiro. Publicado no jornal O Globo:

RIO – Em 2012, a nova realidade do mercado editorial brasileiro vai permitir que um autor seja representado por um agente baseado em Nova York, tenha seu original aprovado por um executivo morando em Portugal, assine um contrato com uma empresa da Espanha e seja imediatamente traduzido para uma editora na Inglaterra. Com a iminente chegada de um gigante da venda de livros virtuais, a nova realidade do mercado pode permitir, ainda, que a obra daquele autor seja lida com facilidade em qualquer canto do país, com um simples toque num botão de um tal Kindle.

Como tem sido repetido por aí em outras áreas, o Brasil também se tornou a “bola da vez” nos livros. A última etapa desse movimento foi o anúncio, na última semana, de que a jornalista Luciana Villas-Boas deixará o poderoso cargo de diretora editorial do Grupo Record, um dos maiores do país, para se dedicar a uma nova agência literária, chamada Villas-Boas & Moss. Hoje, o mercado brasileiro conta apenas com uma agência de relevância para livros estrangeiros e nacionais, a Agência Riff, cujos autores incluem Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Zuenir Ventura.

— Não fazia sentido o Brasil ainda estar desprovido de mais agências — afirma Lucia Riff, fundadora da Agência Riff. — O fato é que as editoras brasileiras estão mais sólidas, com expectativa de crescimento. A estabilidade da economia, o edital da Biblioteca Nacional de apoio a traduções e o surgimento dos e-books favorecem o mercado. É curioso que, enquanto vemos uma Europa em crise, aqui temos uma meta a ser alcançada para os livros. Temos um público a conquistar, diferentemente de outros países.

Luciana Villas-Boas, por sua vez, prefere não revelar ainda quem serão os autores de sua agência (leia entrevista na página 2), mas é praticamente certo que Edney Silvestre, Alberto Mussa, Francisco Azevedo e Rafael Cardoso, todos escritores publicados pela Record, estarão entre eles. Ela admite que o bom momento do setor pesou em sua decisão de montar a empresa, mas faz um alerta quanto a comentários nacionalistas que vem ouvindo sobre o investimento de grupos estrangeiros no Brasil:

— O impacto de uma internacionalização da indústria brasileira do livro é positivo para aumentar a profissionalização das relações. Nos EUA, a maior parte da indústria editorial já está completamente desnacionalizada. Há poucas editoras de peso que não foram compradas por grupos estrangeiros. Isso não afeta a literatura americana — diz.

Editoras preparam reestruturação

A nova agente literária se refere às aquisições recentes de editoras brasileiras por grupos estrangeiros. No ano passado, a editora portuguesa Leya, que tem operações no Brasil desde setembro de 2009, comprou 59% das ações da editora carioca Casa da Palavra e ainda passou a cuidar dos lançamentos das obras da Barba Negra, empresa especializada em quadrinhos.

Em dezembro, a principal notícia que surpreendeu o mercado, porém, foi a compra de 45% das ações da Companhia das Letras pelo grupo britânico Penguin, num negócio que pode ter ficado na casa dos R$ 50 milhões. A própria Record, onde Luciana vai se manter como diretora até 31 de março, já sofreu investidas de editoras estrangeiras.

— Eu coloco várias condições para começar uma conversa. Quero saber qual o grau de interesse em comprar a empresa e se será um processo que vai somar. Já houve interesse, mas nunca percebi solidez nas ofertas — afirma Sergio Machado, presidente do Grupo Record. — Acontece que, hoje, qualquer analista internacional que esteja pensando estrategicamente no segmento editorial precisa ter um plano-Brasil. Se eles não estiverem dispostos a entender os ideogramas chineses ou o alfabeto russo, o Brasil é o país que apresenta as melhores opções para o mercado. A questão é que o crescimento da renda da classe média brasileira e as melhorias da educação têm começado a dar resultado no aumento do consumo de livros.

Os sinais de mudança, porém, não estão apenas nas boas relações sendo firmadas entre o mercado editorial do Brasil com o exterior. Por aqui, chamam atenção o fortalecimento de editoras jovens, como a Novo Conceito e a Intrínseca, e a reestruturação de antigas. Assim como aconteceu com a Record, a Objetiva — que, aliás, teve 75% de suas ações compradas pelo grupo espanhol Prisa-Santillana em 2005 — perdeu sua diretora editorial, Isa Pessoa, no fim do ano passado. Ela está na Itália e voltará a atuar no mercado em fevereiro de forma ainda não anunciada. Ambas as companhias estão fazendo reformulações e devem dividir as antigas funções de direção editorial entre mais de um profissional.

Na Companhia das Letras, as novidades vão além. Agora com quatro publishers respondendo a Luiz Schwarcz, a empresa planeja novas frentes editoriais para este ano, sobretudo nos ramos dos livros digitais e nos didáticos, e está reestruturando seu departamento de marketing. Já a Ediouro contratou em setembro Sandra Espilotro, ex-Globo Livros, para dar foco na prospecção internacional dos negócios.

— Sou casado com uma historiadora, então acho que as mudanças não acontecem de uma hora para outra. Nos últimos anos, surgiram novos participantes, novas empresas, algumas estrangeiras, outras nacionais. É um sinal de força que vem se construindo — afirma Schwarcz. — Já faz tempo, por exemplo, que o mercado brasileiro é um importante comprador de direitos. Compramos royalties em valores bastante altos e estamos na prioridade dos agentes literários.

Todos esses investimentos ocorrem, ainda, em meio às especulações sobre o início da operação da livraria virtual Amazon, líder em vendas no mundo, no Brasil. No início deste ano, a empresa americana contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu gerente de vendas para o Kindle. A Amazon já vem negociando com as editoras brasileiras há meses, mas o entrave tem sido o preço: a companhia teria pedido descontos de mais de 60% na venda de livros para lançar o serviço, o que desagradou as casas nacionais. Porém, recentemente a Amazon cedeu a percentuais menores, com a intenção de lançar seus serviços em até seis meses.

Venda de e-books ainda é insignificante

A Amazon também estuda como fará para vender seu leitor de e-books, o Kindle, no país. Hoje, o aparelho só pode ser importado de seu site internacional, mas a empresa estuda até fabricá-lo no Brasil. Se os acordos se concretizarem, o Kindle pode representar o maior incentivo até o momento para a popularização dos e-books — apesar do investimento recente das editoras e de livrarias como a Cultura e a Saraiva, a venda de livros virtuais ainda é quase insignificante frente a de obras físicas.

— A Amazon vai chegar, e a tendência é que os tablets como o Kindle comecem a ficar acessíveis ao grande público. A partir daí o mercado de e-books vai existir — afirma Pascoal Soto, diretor editorial da Leya no Brasil. — Antes mesmo desse período de vacas gordas da economia, o setor dos livros no Brasil já era atraente para o mundo. As pessoas começaram a perceber que existe um país interessantíssimo além do carnaval e do futebol.

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