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“Vidas opostas de Cristo e dum homem”, de Murilo Mendes

Senhor do mundo,
cada vez que ressuscitas um homem, me destruo a mim mesmo.
Enquanto o demônio te tenta no deserto
eu sonho com os corpos que a terra criou.
Enquanto passas fome e sede quarenta dias
os meus sentidos se desalteram.

Cada vez que cais ao peso da tua cruz
eu caio com uma mulher de última classe.

Enquanto te multiplicas na humanidade
não saio dos limites da minha pessoa.

Depois da morte voltas pra absolver o justo e o pecador,
eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo.

Senhor do mundo,
me tira de mim pra que eu possa olhar os outros e eu mesmo.

 

De Poemas, 1930

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“O avô descobre analogias”, de Murilo Mendes

A cabeça da minha nora que morreu
está no corpo da minha neta.
Às vezes meu filho olha pro corpo da sua filha
e revê a cabeça da mulher,
pensa na morte da mulher,
na vida dos dois,
no nascimento da filha,
na noite do casamento,
na marcha nupcial
e no primeiro encontro.

 

de Poemas, 1930

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“Alegria”, de Ribeiro Couto

Gosto destes redondos e pacíficos porcos
Que passam a correr pelo terreiro
Em disparada, balançando a gordura suja,
Com roncos de narinas entupidas,
Têm o focinho cheiradiço manchado de lama.

 

As galinhas, ao vê-los na carreira oscilante,
Desviam-se, espantadas, de pescoço alerta.
E eles passam sacudindo o rabinho ridículo,
No seu contentamento de redondos e pacíficos porcos.

 

Poesias reunidas, 1960

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“Versos de um cônsul”, de Raul Bopp

Coitado do meu filho!

Vai pra escola
Muda de escola

Sucedem-se mudanças para novos postos
Novos carimbos nos papéis de matrícula

No quadro negro
o professor mexe com algarismos:

Zwei mal zwei?
− Vier
− Zwei mal vier?
Ach…………….

A resposta se engasga. A voz se some
acabrunhado pela matemática

E lá se vai ele por essas manhãs friorentas
com uma mochila de livros às costas
(como quem vai pr’uma guerra)

Terras novas   Muito sol   Bandeira ao vento
No pátio del Colégio a professora rege o coro:

− …si mañana en tu solo sagrado…

 A almazinha do meu filho
vai se compondo e decompondo
com pedaços de pátrias misturadas

De noite
a gente recolhe os pensamentos
com um cansaço internacional

− Pai!
− O que é que tu queres meu filho?

Ele achega-se a mim com um abraço carinhoso:

− Pai!
Conta mais uma vez
como é que era mesmo o Brasil

 

Putirum, s/d.

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Roteiro modernista de São Paulo

No site do Estadão, conheça o roteiro modernista de São Paulo.

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