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“Pobres contra o aborto, ricos a favor das armas: as classes dividem os conservadores”, por Talita Bedinelli

Extraído do jornal El País [via Mídia Ninja]:

Para 57% dos brasileiros, uma mulher que pratica aborto deveria ir para a cadeia. A maconha deveria continuar proibida na opinião de 66%. Quase seis entre dez brasileiros acreditam que o país deveria adotar a pena de morte e oito de cada dez declaram que a maioridade penal deveria ser rebaixada para 16 anos. E há ainda 42% que creem que a posse de arma de fogo deveria ser legalizada no país. Estes são os resultados de uma pesquisa Datafolha sobre temas polêmicos realizada no final de novembro passado e divulgada na íntegra nesta semana. Se, por um lado, ela mostra que o apoio a temas conservadores é grande no Brasil, quando olhada mais de perto revela que nem todos os temas apelam aos mesmos perfis. Os conservadores brasileiros não são todos iguais. E esta ponderação é importante em um ano eleitoral.

A pesquisa mostra que temas conservadores relacionados aos costumes apelam mais a uma população mais pobre, menos escolarizada e mais velha. E muito menos aos estratos opostos. Quando os entrevistados foram questionados se, independentemente da situação, a mulher que interrompe a gravidez deveria ser processada e ir para a cadeia, tema bastante em voga no Congresso brasileiro, 57% declararam que sim. O apoio à criminalização do aborto é ainda maior entre os que estudaram apenas até o ensino fundamental (71%), têm renda familiar de até dois salários mínimos (67%) e entre 45 e 59 anos (61%). E é muito menor entre os que estudaram até o ensino superior (34%) e ganham mais de dez salários mínimos (26%).

Vê-se uma tendência similar quando o tema é a legalização do consumo de maconha. Se os dados globais mostram que 66% dos brasileiros acreditam que a droga deveria continuar proibida, os que estudaram até o fundamental são mais apoiadores disso (74%), assim como os que ganham até dois salários (71%) e os que têm mais de 60 anos (73%). Cai consideravelmente entre os que fizeram ensino superior (55%), os que ganham mais de dez salários mínimos (45%) e os que têm entre 16 e 24 anos (57%). “A população mais pobre é mais exposta a um conjunto maior de vulnerabilidades. O efeito das drogas é visto de forma mais negativa por elas, já que costumam viver mais perto do tráfico, por exemplo. Por isso, há uma diferença na maneira como as classes percebem essas questões”, afirma Carlos Savio Gomes Teixeira, chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.

Este abismo entre classes já não é visto de forma tão acentuada quando os temas conservadores se relacionam com a violência. Enquanto 57% das pessoas afirmaram que se houvesse uma consulta à população votariam favoravelmente à pena de morte, a taxa, a maior dos últimos anos, cresce um pouco entre os que cursaram ensino médio (60%) e entre os que ganham até dois salários (58%) ou de dois a cinco salários (58%). Ainda que seja menor entre os que cursaram o superior (50%) e os que ganham mais de dez salários (42%), a diferença entre os dois estratos sociais não é tão latente como nos temas relacionados aos costumes. Quando se trata de reduzir a maioridade penal para 16 anos, há um consenso mais bem distribuído. Para 84% da população, isso deveria acontecer. E aumenta mais entre os que têm ensino médio (88%) e os que ganham entre 2 e 5 salários mínimos (87%) —ainda que caia, mas não bruscamente, entre os de nível superior (79%) e entre os que ganham mais de 10 salários (73%).

E quando se questionou se possuir uma arma de fogo legalizada deveria ser um direito do cidadão para se defender, 42% concordam, mas a taxa aumenta justamente entre os mais escolarizados (43%, entre os que têm ensino médio e superior) e ricos (47%), algo que faz sentido por ser uma questão bastante interligada a posses patrimoniais.

Mas como esses posicionamentos influenciam as eleições? Para Teixeira, eles causam menos impacto nas campanhas majoritárias, como a de presidente da República, do que nas proporcionais, como a de deputados. “Na eleição majoritária, primeiro o eleitor faz um cálculo de se vale a pena participar. Se considera que sim, ativa muitas variáveis, como seus próprios interesses e valores, mas também o momento pelo qual passa o país. Neste ano, por exemplo, os componentes desta escolha devem girar especialmente em torno de dois grandes temas: a economia e a moral, por conta da corrupção”, aponta. “Já um voto de deputado é mais personalista. O cálculo é: quero eleger alguém que me represente e que dê atenção prioritária a temas que me parecem importantes. Se acho que violência é o que me afeta muito, voto no que fala de violência”, completa. E isso se reflete no grau de conservadorismo do Congresso. “Basta ver a Bancada da Bala, que a cada eleição cresce no Congresso Nacional”.

Para o professor, os dados da pesquisa também são importantes para que os candidatos reflitam sobre seus posicionamentos em relação à temática da violência. “Esse tema não pode ficar nas mãos da direita brucutu, que traz respostas simples, como armar as pessoas. É uma grande oportunidade para se tematizar isso. A esquerda precisa complementar a defesa dos direitos humanos com uma agenda prática que responda a essa ansiedade que boa parte da população brasileira tem com o tema da criminalidade, da violência, que é real.”

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“Brasil na rua (3): como os ninja vão sobreviver à convulsão” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Caloteira? Ditatorial? Seita? Quando a Mídia NINJA, canal online dos protestos no Brasil, teve destaque nos media brasileiros, a Fora do Eixo, sua base, foi alvo de denúncias. Segunda parte da história iniciada ontem

 São Paulo, 1 de Agosto. Sem aviso, a repórter vai à Casa Fora do Eixo (base da Mídia NINJA, fenómeno dos protestos no Brasil, 170 mil seguidores no Facebook). A porta está literalmente aberta. O líder Pablo Capilé foi em missão ao Rio de Janeiro. Quem fala em nome da casa é Gabriel Ruiz. No episódio de ontem, ele acabava a dizer que a eleição de Lula permitiu um colectivo como o Fora do Eixo (FdE), no começo dedicado à música alternativa. Mas “o advento” desse “governo popular” não foi factor único, a crise da indústria fonográfica e a massificação da Internet foram decisivos, ressalva. E sem Internet não haveria Mídia NINJA a transmitir as manifestações.

Já vamos ao quintal onde está a base-ninja. Antes, a ideia é ver algo da casa onde 25 pessoas de várias partes do Brasil vivem e trabalham, a mais nova com 20, a mais velha com 34 (Capilé). Há algumas vagas por concurso. “No último tivemos 400 inscritos, a gente seleccionou seis.” Existe um estágio em que se é “vivente”. Quem chega pode trazer móveis, objectos, roupas, para somar ao colectivo. “Menos a roupa interior, ou uma ou outra peça que a pessoa goste mais. Mas 95 por cento todo o mundo pode usar.” E os computadores? “A maioria já tem o seu.” Ninguém recebe salário, as despesas são pagas com a caixa colectiva dos projectos FdE.

Neste momento, 55 por cento dos moradores são homens, diz Gabriel. Houve nascimentos? “Sim, o Benjamim, nosso bebé colectivo.” Entretanto os pais “mudaram para a casa FdE de Brasília e não há outras crianças aqui”. Mas alguns moradores têm filhos de relações anteriores, há grávidas em outras casas FdE e por tudo isso foi criada “uma frente para a gurizada”.

Continuando, átrio com escada: em cima, quartos; em baixo, casa de banho e copa-cozinha. As casas de banho são unisexo, os quartos não — só quando recebem hóspedes ou há casais na casa. De resto, concluíram que era mais eficaz separar homens e mulheres. Não há gays na casa? Gabriel parece surpreendido, como se precisasse de pensar. “Tem, tem. Mas a maioria é hetero, com certeza. Tem… dois gays.”

A repórter pede para ver o guarda-roupa colectivo. Gabriel vai verificar se o espaço está livre. Nas escadas, um vitral. À direita, um quarto com armário de parede. Lá dentro, tudo organizado em cabides e gavetas. “Cada um escolhe o que quer.” Horários diferentes não são um problema? “Não, todo o mundo levanta entre 9h e 11h e vai dormir depois das 2h.” A vida amorosa e sexual não fica limitada? Surpresa de novo, como se a questão fosse remota: “Não.” Pausa. “Não é uma preocupação. Estou mais preocupado com o momento.” E não é passageiro, garante. “Encaro isto como a minha vida. Não me imagino fora do FdE. Todos os dias são ‘inputs’ novos. Isso me estimula.”

Descemos. Além dos graffiti, há intervenções artísticas pela casa, e a cozinha-copa está coberta de autocolantes, ímans, cartazes. Uma babel visual entre restos do almoço: arroz, feijão, carnes, farofa, lasagna. Dois cartazes por cima: “Lave os utensílios usados por você em cada refeição.” E “Antes de repetir certifique-se de que todos já comeram.”

Um grupo cuida de “logística, hospedagem, alimentação, manutenção”, mas existe um “cronograma de revezamento” e “todo o mundo cozinha, ou a maioria”. Além disso, “tem uma faxineira, duas vezes por semana, das 8h às 17h, para limpar, cozinhar”. Contíguas, ficam “a sala da TV e a sala do rap”, Gabriel abre as portas. “Tem vários rappers na casa.”

E a roupa? “Quando sai o sol a gente faz uma força-tarefa para lavar tudo, em turnos.” No pátio das traseiras estão duas máquinas, tão grafitadas como as paredes. O pátio abre para o quintal, plantinhas, espaço para o Domingo na Casa, com concertos e debates.

E, finalmente, num anexo, o “estúdio” base da Mídia NINJA: alto pé direito; uma parede branca com um sofá para cenário; uma parede coberta por fotos dos protestos; outra cheia de panfletos (“Não haverá retorno ao normal”, “Nossa confiança é explosiva”, “Estamos na rua porque os políticos estão no ar condicionado”); outra com um ninja pintado, máscara negra, olhos de fora; a agenda da semana num quadro; duas mesas-cavalete cobertas de cartazes, dois rapazes e uma rapariga de capuz iluminados pelo écrã dos portáteis, totalmente imersos. Reflexo da casa, onde a repórter só viu gente a trabalhar.

A FdE já fundara a Pós-TV, também online, quando criou a Mídia Fora do Eixo, depois Mídia NINJA, co-idealizada com um conhecido jornalista de São Paulo, Bruno Torturra, 34 anos. Tudo isso serviu os ninja, mas hoje é arqueologia, porque eles simplesmente ficaram maiores.

 

Fogo sobre o eixo

Dias depois, uma doutoranda de Columbia que pesquisou a FdE, Shannon Garland, escreve online que será “um erro muito grande” achar “que um jornalista ou qualquer um possa chegar lá, observar, até passar umas semanas, e sair conhecendo como funciona” a FdE. É um dos testemunhos críticos que “pipocam” nas redes desde que o “Roda Viva”, clássico da TV Cultura, convidou Pablo Capilé e Bruno Torturra para falarem da Mídia NINJA, a 5 de Agosto.

A maior parte das perguntas do programa incidia no financiamento e ligações políticas da FdE, e por inerência da Mídia NINJA. Não era novo: há músicos insatisfeitos com falta de pagamento da FdE há anos e, à direita, acusações de aparelhagem ao PT. Mas o que se segue ao “Roda Viva” é uma catarse, curto-circuito entre um Brasil em convulsão e a cacofonia global, nunca tendo sido tão verdade que uma verdade são muitas.

O primeiro depoimento com impacto no Facebook é o de Beatriz Seigner, autora de um filme que a FdE fez circular: acusa a rede de lhe dever dinheiro, absorver patrocínios sem dizer ao autor, estar obcecada em se alimentar como rede, não consumir cultura.

A jornalista Laís Bellini prossegue, também no Facebook, com um longo e vívido relato da sua experiência a viver com a FdE. Se o colectivo “fosse pagar tudo o que deve poderia fatalmente decretar falência”, diz. Mas o “escravismo” da FdE também é “mental”: “Quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo.” Os moradores, diz, são encorajados a cortar laços: “Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede.” A não ser como “ferramenta”, de “catar e cooptar”, porque acontecem reuniões “dentro da cúpula” para definir “quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”. O “sexismo” é “forte”: as meninas tratam da universidade, os meninos da política. A horizontalidade um mito: Laís nunca viu Pablo Capilé lavar um prato. A cobrança do trabalho é “24h”, tal como partilhar “o que o Pablo e mais outros por lá escrevem no facebook é demanda diária”. Entretanto, “ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo”. Em suma: “Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida, ditatorial diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem auto-intitulado rei-mor da bancada.” Noutra passagem ela usa mesmo o termo “seita”. E explica que não é tão fácil sair pela porta: “Tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia.”

Seguem-se outros testemunhos emotivos, a que se contrapõem moradores FdE. Entretanto, à esquerda, surgem críticas básicas de direito do trabalho na FdE: jornadas excessivas, ausência de salário, de contrato, de segurança social, de plano de saúde. Há quem aponte a FdE como novo modelo de negócio que extrai a mais-valia em vez de ser alternativa à exploração.

“Eles começaram a articular formas independentes e acabaram a criar um eixo paralelo, uma máquina de ganhar editais [concursos]”, resume André Aquino, 23 anos, finalista de Geografia da USP. A repórter entrevistou-o no bairro de Butantã, em São Paulo, onde André e camaradas têm no ar, em 107.1 FM, a rádio pirata Várzea Livre, exemplo de mídialivrismo que incentiva comunidades a fazerem a sua própria rádio. Simpatizante do Movimento Passe Livre, responsável pelos primeiros protestos de Junho, André é da “esquerda libertária”, cita o presidente Mujica do Uruguai como inspiração e não confia na FdE: “A [ministra da Cultura] Marta Suplicy tem gente da FdE como assessor. São eles que escrevem os editais e sabem como ganhá-los. Então, toda a grana para a mídia independente acabou centralizada na FdE.” Que pensa de Capilé? “Começou numa posição difícil por ser fora do eixo Rio-SP [do Mato Grosso], mas hoje tudo passa por ele. Então esse cara controla a arte independente.” E a Mídia NINJA? “Eles foram superimportantes nas manifestações”, reconhece André. “Mas se têm o aparato técnico é por causa da FdE. Sabem usar as redes sociais. Surgiram num momento carente de alternativa à grande mídia. Tinha um vácuo muito grande que souberam preencher.”

Quanto à direita brasileira, que alimenta a pior revista do mundo em português, a “Veja”, “catou e cooptou” as críticas da esquerda que convinham e arremessou contra o PT, manipulando fotos de Capilé com Dilma, Lula e Dirceu.

Defensores da FdE citaram esse aproveitamento para desqualificar as críticas, o que só irritou os críticos. Capilé reconheceu erros (pagamentos a acertar, falhas na horizontalidade, experiências individuais que não funcionaram), mas insistiu que não tem uma política de calote, que não é contra cachê para artistas, que a FdE é uma experiência inédita em processo, que dialoga com todos os partidos interessados em movimentos sociais, que nenhuma organização é tão transparente. Abriu um portal para mostrar contas. E garantiu que a Mídia NINJA vai caminhar pelo próprio pé.

 

A vida fora da FdE

Bruno Torturra, que é co-fundador da Mídia NINJA mas vive fora da FdE, já elencou os meios de autonomia para os ninja: crowdfunding (equipamento, estúdios, um site), assinatura mensal (custos do dia-a-dia), doações (reportagens específicas) e micro-doações (por texto, foto, vídeo). O momento é de despedimentos na imprensa brasileira. Há 1500 inscritos de mais de 150 cidades. Torturra vai montar equipas.

Entretanto, quem pesquisar sobre os últimos meses nas ruas já encontra nos ninja um arquivo crucial. Só estarem na rua fez diferença, revelando o quanto o jornalismo brasileiro está fora da rua. De resto, os ninja não visam a imparcialidade, antes “um mosaico de parcialidades”. Não há dúvida que fazem informação. Mas essa informação é jornalismo?

“É pré-jornalismo, é pós-jornalismo, é jornalismo militante”, atalha o decano Alberto Dines, director do Observatório da Imprensa. A repórter entrevistou-o por telefone no dia a seguir ao “Roda Viva”, em que ele, com os seus 81 anos, fez a Capilé e Torturra as perguntas mais interessantes. “É um uso muito inventivo das novas plataformas. E eles vêem isso não como um modelo de negócio mas de convivência, algo que me toca muito. Também participei de colectivos socialistas no Brasil e de repente encontro esses jovens, com esse projecto de viverem juntos, de uma nova relação com o trabalho, os meios de produção.”

Onde irá dar? “Acho que não se vão deixar levar pela ideologia, sabem que têm a perder. E o PT não vai querer se entregar a um grupo realmente autónomo. Eles [ninja] estão muito abertos. São um pouco marginais mas não são arrogantes. Querem ouvir, pedem conselhos, muitos. Nesses anos todos não vi surgir um projecto tão interesssante.”

Houve aquele momento em que o sistema se curvou: quando o “Jornal Nacional” da Globo “reproduziu informação que a Mídia NINJA tinha veiculado”, lembra Dines. “Isso é um dos saltos mais extraordinários. Um bando de Flintsones com um carrinho de supermercado [onde os ninja levam a estrutura mínima] consegue produzir informação que evitou uma tremenda injustiça.” A polícia detivera um manifestante, acusando-o de atirar “cocktails molotov”. As imagens fora do eixo mostravam outra verdade.

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“Brasil na rua (2): o canal que nasceu Fora do Eixo” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Ao transmitir os protestos pela Net, a Mídia NINJA tornou-se um fenómeno, mostrando como os media brasileiros estavam aquém da realidade. Entretanto, a sua base, a Fora do Eixo, ficou sob fogo. Hoje, a primeira parte da história.

Já não há uma cadeira livre quando o rapaz ao fundo começa a falar: “O momento que estamos vivendo é de mais perguntas que respostas. Nunca na história desse país tanta gente fez análise de conjuntura. Tem muita gente querendo produzir conteúdo e muita gente querendo absorver.” A voz é gutural, rápida, incisiva, e todo o corpo a reforça, braços, mãos, caracóis em desalinho, mancha vermelha na cara, algo singular na boca. Uma figura imediatamente magnética, mesmo avistada da última fila.

Os jovens mais próximos da repórter nem sabem como ele se chama mas parecem tão captados como os que enchem as filas da frente. Estamos em pleno Inverno carioca, noite de chuva e neblina no terreiro do palácio que já foi um hospício e hoje é campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um corropio de vultos continua a atravessar os portões oitocentistas, em busca deste pré-fabricado da Escola de Comunicação (ECO), porque é aqui que acontece a reunião aberta da Mídia NINJA, maior fenómeno mediático dos protestos no Brasil.

Quando o chão fica cheio ainda sobram caras na janela, lá fora: toda uma plateia de estudantes, pelo meio curiosos, activistas, membros da Ordem dos Advogados que acabam de conseguir a libertação de manifestantes. É terça-feira, 23 de Julho, noite seguinte à da carga policial contra o protesto junto ao palácio do governo do Rio, depois do Papa sair da recepção em sua homenagem.

“Se alguém perdeu a pouca credibilidade que tinha, foi a grande imprensa”, diz o orador. Está a sintetizar o que aconteceu desde Junho, quando as manifestações contra o aumento nos transportes explodiram em reivindicações pelo Brasil, levando um milhão à rua.

Em “streaming”, horas a fio na Net, a Mídia NINJA mostrou no chão, entre os manifestantes, o que não estava na grande media: a emoção em tempo real, o engrossar do levantamento, a repressão da polícia, as consequências. A esmagadora maioria da classe média nunca levara com gás lacrimogéneo, bala de borracha, cassetete e quem nem estava na rua nunca vira gente assim apanhar. Em geral concentrada sobre a favela e a periferia, a violência agora acontecia entre brancos, jovens, desarmados, com a polícia a lançar gás em becos, em bares, até dentro de hospitais.

 

Revolta contra os media

Ao longo das semanas, a página da Mídia NINJA no Facebook ganhou dezenas de milhares de seguidores, e a revolta contra o jornalismo tradicional, simbolizado pela Globo, associado a valores conservadores, com passado de apoio à ditadura, somou-se à revolta geral, incluindo cercos a jornais e televisões. Quando manifestações partiram lojas e bancos nas ruas chiques do Leblon — bairro do governador Sérgio Cabral, responsável pelo comando policial e por isso alvo de protestos —, os media relevaram os actos de vandalismo, o que reforçou a indignação dos manifestantes. É que entretanto nove moradores da favela da Maré eram mortos a eito pela polícia, que também levara um ajudante de pedreiro da Rocinha, Amarildo, nunca mais visto. A pergunta passou a ser: os vidros do Leblon valem mais do que as vidas dos Amarildos? Do ponto de vista de quem estava na rua, a media tradicional era o Leblon, a Mídia NINJA era o Amarildo.

E para muitos a reunião de hoje, convocada pelo Facebook, será a revelação do líder por trás dos ninja: Pablo Capilé. Ele está a explicar agora que a origem de tudo isto tem 10 anos, lá em Cuiabá, capital do Mato Grosso, centro geodésico da América Latina, o “lugar mais longe de tudo”, onde ele próprio nasceu, há 34 anos.

Só ouvi-lo uns minutos já dá um glossário, pontuado a cada frase pelo tique “saca?” Uma das novas palavras é mídialivrismo, ou seja, o exercício de meios independentes. Não é invenção dos ninja, tem anos de prática, mas nunca com o impacto que eles ganharam.

“Já não precisamos de veículos, somos os veículos”, dizia o manifesto inicial no Facebook, meses antes da grande convulsão, a 26 de Março de 2013. Uma “tropa de comunicadores independentes”, “reduzindo os filtros entre os fatos e o público”, “contrariando, na guerrilha, a narrativa oficial”, “transformando a audiência passiva em difusores de informação”. NINJA em caixa alta por ser uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. A primeira missão em directo pelo Facebook foi cobrir o Fórum Social Mundial na Tunísia, com os enviados Felipe Altenfelder e Bruno Torturra, também presentes na reunião desta noite.

Mas não há como contar a história dos ninja sem contar a da casa-mãe, que é a Fora do Eixo (FdE). E é o que Capilé está a fazer, dando ao Rio de Janeiro um contexto até agora mais conhecido noutros pontos do Brasil: a de um colectivo que começou como uma rede alternativa de festivais de música e hoje conta com 2000 pessoas no país, espalhadas por casas colectivas, mistura rara de vida e trabalho.

A FdE é a estrutura que permitiu o impacto da Mídia NINJA, base, meios e gente, e tornar-se-á o seu maior problema nas semanas que se seguem. No fecho desta edição, poucas figuras estarão a ser tão discutidas no Brasil urbano como Pablo Capilé.

 

Vida colectiva

São Paulo é a base central da FdE. As casas colectivas FdE definem-se como permanentemente abertas. Por isso, a 1 de Agosto a repórter atravessa o bairro paulistano da Liberdade sem ter marcado visita. A morada que estava na Net revela-se um casarão grafitado. No portão, um papel diz “Aqui tem amor”. Não há cão, alarme, nem porteiro. Pondo a mão na maçaneta, é simples: o portão abre.

Assim, sem pré-aviso, qualquer visitante desce o pátio, entra na porta, também aberta, que dá para uma sala de entrada cheia de cartazes e pinturas nas paredes. A estética é “hip hop”, mas a organização é de escritório criativo: estantes com CD’s e livros catalogados; um organigrama de post-its com a estrutura de funcionamento do FdE em vários círculos de cores, do núcleo para as radiais; um cartaz com a Universidade Fora do Eixo, projecto nacional do colectivo; uma mesa de trabalho com cadeiras avulso; um aviso a dizer que os vasos de flores não são cinzeiros; outro a pedir que cada um leve a loiça que trouxer e limpe o que sujar; uma rapariga a recortar papéis vestindo a t-shirt de um festival de cinema independente em Minas Gerais.

A repórter apresenta-se, ela vai chamar o líder que neste momento responde pela casa. Capilé e Altenfelder moram ambos aqui, mas continuam em missão no Rio de Janeiro. Na sala contígua, dezenas de post-its enumerando festivais de música alternativa no Brasil, mais mobiliário avulso, impressora e scanners junto à janela, cores alegres nas paredes, computadores portáteis com jovens a trabalhar, ao som do rapper Criolo, que se tornou conhecido nos festivais FdE.

O líder-no-momento é um rapaz de fato de treino e barba, casaco Adidas como Capilé na reunião do Rio. Chama-se Gabriel Ruiz, tem 29 anos, como todos deixou tudo para morar-trabalhar aqui. “Esta casa é o bunker da rede”, resume, a abrir. Porquê bunker? “A gente utiliza toda a linguagem que se aproxima da guerrilha. Já tinhamos experiência de colectivos em cidades de médio porte, e a gente sabia que se decifrasse São Paulo decifrava todas.”

Assim nasceu esta casa, em 2011, na sequência já de “15 ou 20 colectivos” FdE, incluindo o de Bauru, interior do estado de São Paulo, fundado por Gabriel. “Há uma política desterritorial, a gente entende que pode se formar e ir para outro lugar, então esta casa reuniu lideranças muito fortes: Cuiabá, Recife, Uberlândia, São Carlos, São Paulo.”

Gabriel estudou comunicação em Bauru. “Foi essa faculdade que me deu as bases para eu escolher uma vida alternativa. Conheci a rede [FdE] em festivais de música, comecei a mandar mensagens, dizendo que queria trabalhar com eles.” Um rapaz de calções, barba e caracóis vem tirar uma dúvida sobre como vai agir “no acto”. O acto é a manifestação desta noite (ver reportagem ontem).

“Num espaço muito curto a gente cresceu muito, começou a fazer parcerias com o poder público, no sector cultural, música, teatro, dança, artes, economia criativa, hip hop”, retoma Gabriel, que mora na casa de São Paulo há ano e meio. Por ela, pagam entre “quatro a cinco mil reais de renda”, o que seria o aluguer de um pequeno apartamento, não de um enorme casarão como este, com pátio e quintal. “O dono gosta da gente, vem sempre aqui, se identifica”, explica Gabriel. Não é um japonês, como se podia esperar neste bairro tradicionalmente japonês, mas um chinês.

“A gente se preparou durante um ano, cobrindo ocupações, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Passeata Gay, bicicletadas, sem saber que tudo isso eclodir.” Os protestos de Junho. E isso fez com que toda a casa passasse a trabalhar para isso. “Estamos exclusivamnente voltados para as ruas, acompanhando assembleias, movimentos, gente que está produzindo conteúdos.” Dito de outra forma: “Todo o mundo agora virou ninja. Eu que sou do núcleo da música comecei a montar som, estruturas, para que assembleias aconteçam. A gente vive como se fosse a equipe de produção da revolução.”

Então trata-se de uma revolução?

“Não no sentido de tomar o poder, mas no sentido de mudar as coisas, tomando consciência de que as ruas são para ser ocupadas, que têm um poder de negociação muito forte.” Uma nova etapa depois das ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, e da transição democrática que se seguiu. “Nos anos 90 houve um movimento muito grande de liberalização, de entrada do capital, de abertura do mercado. O Brasil vendeu tudo o que era nosso. Depois a partir dos anos 2000 temos o advento de governos populares. No Brasil isso é claro com Lula e o PT, que foi muito inteligente ao colocar o Gilberto Gil e o Juca Ferreira no Ministério da Cultura. Foi um avanço muito forte: o programa de cultura digital, colocar na mão das pessoas a maquinaria para fazerem elas, políticas com Pontos de Cultura. Foi isso que permitiu o surgimento do FdE.”

E no fogo cruzado que vai chover sobre o FdE, uma das questões é o quanto eles, e consequentemente a Mídia NINJA, são um braço do PT, sendo que eles negam qualquer filiação partidária, e têm diálogo com vários movimentos, dos pós-comunistas do PSOL à rede de Marina Silva.

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Entrevista de Pablo Capilé e Bruno Torturra para o programa Roda Viva

Muito já se escreveu, nas redes sociais, a respeito da entrevista concedida ontem, dia 5 de agosto de 2013, por Pablo Capilé e Bruno Torturra para o programa Roda Viva, da TV Cultura. De fato, a entrevista evidencia o quanto a imprensa “tradicional” está atrasada e desinformada acerca de quase tudo o que se passa. A entrevista deixa evidente a existência de dois mundos, separados por um abismo. Assuntos como moeda paralela deixaram os entrevistadores perdidos. Perguntas eram feitas a partir de um pensamento que não cabe mais em relação a movimentos que, inclusive, já se consolidaram e são uma realidade que já faz parte da vida de muitos brasileiros.

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Cenas do confronto entre policiais militares e…

Eis as cenas do confronto de ontem, durante o pronunciamento da presidente da República Dilma Rousseff e do papa, no palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. A imprensa, especialmente a rede Globo, tem destacado a ação de baderneiros nas manifestações. Por meio de registros feitos ontem – fotografia e audivisual -, foi possível constatar que os “baderneiros” são policiais infiltrados, que até os policiais militares desconheciam. E assim Sérgio Cabral e cia. justificam as ações mais violentas contra os manifestantes. A cada dia, a situação é mais nojenta. Não à toa, acredito, os repórteres do Mídia Ninja, que registram as manifestações, foram levados à delegacia. Acusação: incitam a violência, o que não se justifica. O motivo certamente é outro: tornar mais obscura ainda a ação do governo do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura.

PM

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