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Istambul, de Orhan Pamuk

Qualquer que seja a quantidade de carros que caíram no Bósforo ao longo dos anos, a história é sempre a mesma: os passageiros acabam arrastados para as profundezas, de onde não existe volta. Não só já ouvi e li essas histórias como já vi alguns carros caindo com meus próprios olhos! Não importa quem sejam os passageiros – crianças aos berros; um casal de amantes brigando; um bando de bêbados incovenientes; um marido que volta para casa às pressas; um velho que não enxerga bem no escuro; um motorista sonolento que parou no cais para tomar chá com os amigos e depois saiu de primeira em vez de engatar a marcha a ré; Sefik, o velho tesoureiro, com a sua linda secretária; policiais que contavam os navios singrando o Bósforo; um motorista aprendiz que saiu com a família no carro da fábrica sem permissão; um fabricante de meias de nylon que por acaso é conhecido de um parente distante; um pai e um filho usando capas de chuva idênticas; um famoso gângster de Beyoglu e a sua amante; uma família de Konya que estava vendo pela primeira vez as pontes do Bósforo – quando os carros voam para dentro d’água, nunca afundam direto como pedras. Por um momento oscilam, como que pousados na superfície. Pode ser à luz do dia, ou a única iluminação pode ver de uma meyhane próxima, mas quando as pessoas do lado vivo do Bósforo olham para o rosto daqueles que estão a ponto de afundar, veem um terror consciente. Um instante depois o carro afunda devagar no mar profundo, escuro e cortado por rápidas correntezas.

Istambul, de Orhan Pamuk, tradução de Sergio Flaksman

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