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“É”, de Eucanaã Ferraz

O Davi não nos vê. Poderia dizer que é divino
o modo como o Davi não nos vê. O olhar vara
um destino certo um infinito reto de onde pudesse vir
um barco um homem um cavalo e nele pousaria um jarro.
Olhamos o Davi sem descanso ponderamos ângulos
giramos ele não vê decerto se espantaria da ronda vulgar
em tantas línguas desencontradas quem sabe se enternecesse.
Mas o Davi tem a dádiva de não nos ver. Nu inteiro
perfeito não sabe o que é estar nu ou não estar nu.
Está em paz. Está onde está. Traz a medida
da certeza. E porque não existe nele
o que chamamos ele o Davi é absolutamente visível.

 

de Trenitalia, 7Letras, Megamíni, 2016

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“THE ACT OF KILLING – Joshua Oppenheimer (2012)”, de Luca Argel

THE ACT OF KILLING – Joshua Oppenheimer (2012)

 

I.

 

a primeira vítima da cadeira elétrica

foi um cão vira-lata chamado “Dash”.

sua morte ocorreu em nova iorque

no dia 30 de junho de 1888.[1]

primeiro, descarregaram 300 volts pelo corpo de Dash,

o que o fez uivar.

depois tentaram 400 volts, que também

não conseguiram matá-lo.

por fim subiu-se a corrente para 700 volts,

o que o deixou com a língua pendurada,

mas ainda respirando.

foi na quarta tentativa que o mataram,

comprovando, assim, a eficácia da invenção.[2]

 

 

II.

 

a primeira vítima humana da cadeira elétrica

foi um homem chamado William Francis Kemmler.

sua morte ocorreu em nova iorque

no dia 6 de agosto de 1890.

ao contrário de Dash,

Kemmler era um criminoso confesso.

supunha-se que a invenção daria uma morte tão rápida

que lhe passaria quase inadvertida.

os verdugos que prepararam a execução de Kemmler

eram engenheiros e eletricistas –

não eram figuras mascaradas, nem policiais.

uma vez sentado e amarrado,

deu-se a ordem para liberar 1.000 volts combinados.

segundo as testemunhas,

o corpo de Kemmler enrijeceu-se rapidamente,

saíram-lhe os olhos e a pele ficou branca.

depois de dezessete segundos,

um médico certificou-se da morte do réu.

nesse momento diz-se que o Dr. Alfred Southwick,

um dentista que estava presente,

levantou-se e declarou: “aqui está

a culminação de dez anos de estudos e de trabalho.

a partir deste dia vivemos numa civilização mais elevada.”[3]

 

[1] 17 dias após o nascimento de Fernando Pessoa.

[2] Durante os dois anos seguintes a comissão estatal norte-americana trataria de levantar trinta e quatro possibilidades diferentes para substituir a forca, das quais conhecemos apenas as quatro finalistas:o garrote vil; a guilhotina; injeções hipodérmicas (possibilidade logo rejeitada, pois “a morfina podia levar a eliminar o medo da morte nos réus”); e, é claro, a cadeira elétrica, que já havia sido aprimorada com a ajuda de outros cães além de Dash (e cavalos também).

[3] No entanto, Kemmler ainda não tinha morrido, e várias das testemunhas o fizeram notar. Então elevou-se imediatamente a corrente para 2.000 volts, e desde logo a saliva começou a correr pela sua boca, romperam-se-lhe as veias e as mãos encheram-se de sangue. Finalmente, o corpo ardeu em chamas por inteiro.

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