Arquivo da tag: Masp

Obras de Lucien Freud no MASP

Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no Estadão:

Em menos de duas semanas, a partir do dia 27, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) recebe uma exposição cujo título define o principal interesse do neto do criador da psicanálise, Lucian Freud – Corpos e Rostos. De fato, o que o avô Sigmund Freud fez pela mente, o neto Lucian fez pelo corpo, colocando-o literalmente numa posição desconfortável para examinar o que se passava, afinal, em seu interior. Inicialmente identificado como expressionista, rótulo que nunca aceitou, Lucian Freud (1922- 2011) passou a ser associado, em 1976, ao grupo figurativo batizado pelo pop Ronald Kitaj (1932-2007) como a “Escola de Londres”, que abrigou pintores tão diferentes entre si como seus amigos Francis Bacon, Frank Auerbach e Leon Kossoff.

Kitaj, assim como Freud, era descendente de judeus, o que fica claro nessa tentativa de abrigar numa mesma escola artistas que ele imaginava como recriadores da mítica figura do golem, um ser ligado à tradição mística do judaísmo. Freud, que partiu da Alemanha aos 10 anos, em 1932, fugindo do nazismo com a família, talvez tivesse outra coisa em mente – e não propriamente um Frankenstein informe criado a partir do barro para espantar inimigos. Kitaj exagerou, mas não ao associar o nome de Freud ao de Francis Bacon, seu mais perfeito interlocutor.

Assim como Bacon reduziu o corpo humano a uma massa disforme – carne de açougue mesmo -, Lucian Freud fez dele pouco mais que uma substância ainda sem vida à espera de que a pintura o animasse. Não por outra razão exigia de seus modelos – fosse ele o fotógrafo David Dawson, seu assistente, ou Elizabeth II, a rainha da Inglaterra – dedicação absoluta enquanto posavam para retratos em que seus corpos acumulam as marcas do tempo, como se retrocedessem à condição antropomórfica do monstruoso golem. Em outras palavras, ao puro barro humano. Sua última pintura, inacabada, Portrait of The Hound (2011), mostra Dawson ao lado de Eli, o cão pertencente ao artista, como figuras amalgamadas, ambos sujeitos à degradação física – tema de todos os seus retratos, em que buscava a verdade, e não a aparência.

Curador da exposição, que segue depois do Masp para o Paço Imperial, no Rio, em novembro, Richard Riley classifica a mostra como uma completa radiografia da obra de Freud, mesmo tendo apenas seis de suas pinturas de diferentes períodos – a atividade do artista atravessou nada menos do que seis décadas. O pintor não foi prolífico, mas a mostra reúne ao todo 78 peças, das quais 44 gravuras (a maior parte do Museu de Arte Contemporânea de Caracas), um desenho (autorretrato de juventude) e 28 fotografias do ateliê de Freud por seu assistente David Dawson, um dos dois únicos amigos (o outro foi Cecil Beaton) autorizados a registrar seu cotidiano no estúdio londrino de Notting Hill, herdado por Dawson.

Dawson, também pintor, conheceu Lucian Freud em 1990, um ano após formar-se no Royal College of Art. “Certo dia ele imaginou um grande retrato e convidou-me para posar com seu cachorro Pluto no sofá”, conta. Isso foi em 1997. A tela tem um título ambíguo, Manhã Ensolarada – Oito Pernas. Não está na mostra, mas o título insinua que Dawson também tinha quatro pernas, como Pluto, considerando os braços como membros inferiores dos hominídeos das cavernas. É essa redução à condição ancestral, de quadrúpede, que tanto incomoda nos nus de Freud. Eles escancaram a bizarrice de corpos pouco harmônicos, para dizer o mínimo.

Riley adianta que estará na mostra também o polêmico retrato da jovem nua deitada na cama ao lado de um ovo colocado sobre uma mesa lateral, assim como a figura de um pássaro morto e um autorretrato do artista em crayon. “O foco da exposição é a gravura, pois Freud foi, além de pintor, um desenhista meticuloso.” E metódico. Não passou um dia sem ir ao ateliê, exigindo pontualidade britânica de seus modelos.

Deixe um comentário

Arquivado em Exposição

“Anna Maria Maiolino é vencedora do 1º Prêmio Masp”

Extraído do site Folha de S. Paulo:

A artista Anna Maria Maiolino é a vencedora da primeira edição do Prêmio Masp/Mercedes-Benz de Artes Visuais 2012, e irá receber R$ 200 mil, um dos maiores valores para prêmios voltados à arte contemporânea.

“Esse prêmio é como a confirmação da afiliação pela qual optei, do meu desejo de ser adotada pelo Brasil. Afinal, estou aqui desde os anos 1960”, disse Maiolino à Folha, anteontem, pouco antes de embarcar para a Alemanha. Lá, participa da 13ª Documenta, em Kassel.

Nascida na Itália e tendo vivido na Venezuela, Maiolino foi desenvolver no Brasil a maior parte de sua carreira. “Minha obra é totalmente devedora da arte brasileira, foi aqui que ela germinou. Com esse prêmio, me reconcilio com a minha vida peregrina”, definiu ela, que completa 70 anos no domingo.

Também foi oferecido um prêmio de R$ 60 mil ao mineiro Paulo Nazareth, como “talento emergente”. Ele está em cartaz em São Paulo na mostra “Noticias de America”, na galeria Mendes Wood.

O que vai fazer com o dinheiro? “Investir em banana. Comprar uns três porcos e um lote para plantar banana”, brincou Nazareth.

O anúncio dos premiados representa uma alteração no projeto inicial do Museu de Arte de São Paulo (Masp), que seria relacionar três finalistas e dar a todos uma mostra na instituição. Somente então o júri escolheria um vencedor.

“Achamos que não teria sentido ter duas etapas. Seria mais correto indicar já o vencedor”, disse Chris Dercon, diretor da Tate Modern, em Londres, que compôs o comitê com o colombiano José Roca e os curadores brasileiros Moacir dos Anjos, Paulo Herkenhoff e Teixeira Coelho, do Masp.

Para dos Anjos, uma das razões que levaram à escolha de Maiolino foi o fato de haver, em sua obra, “uma afirmação da potência da ‘coisa’ e do ‘gesto’ comuns, da possibilidade de encontrar, no cotidiano, elementos que nos reposicionem diante da vida partilhada com os outros”.

Deixe um comentário

Arquivado em Artes plásticas