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“Manuel Bandeira: a vida inteira” – Elvia Bezerra

Reproduzido do blog do IMS:

Em 1976, quando Bandeira teria se tornado nonagenário, Carlos Drummond de Andrade, desafiando o silêncio da morte, escreveu:

Oi, poeta!

Do lado de lá, na moita, hein? fazendo seus novent’anos…

E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo,

de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável,

o vazio-repleto, o infinito onde seres e coisas

nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se,

com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica, chamamos de

[morte.

[…]

Hoje me sobe o desejo

de saber o que fazes, como,

onde:

em que verbo te exprimes, se há verbo?

em que forma de poesia, se há poesia,

versejas?

em que amor te agasalhas, se há amor?

em que deus te instalas, se há deus?

Neste 2014 faz 128 anos que Manuel Carneiro de Souza Bandeira veio ao mundo, na Capunga, arrabalde do Recife, e nada melhor do que dizer os versos de Drummond para homenagear o poeta de Pasárgada em mais um 19 de abril.

Treze dos 82 anos de vida de Manuel Bandeira foram vividos na rua do Curvelo, hoje Dias de Barros, no bairro carioca de Santa Teresa. Depois de ter perdido a mãe, a irmã e o pai, ele chegou à rua pacata em 1920 para morar sozinho pela primeira vez. Aos 34 anos de idade, certamente já não era mais cedo para começar a experiência de vida independente. Era o poeta de A cinza das horas e Carnaval,e não escondia sua vocação para o celibato.

A construção de porta e duas janelas era a sua “casinha”, como ele chamava o número 51 dessa rua, de onde, sobranceiro, gostava de ver a placidez da baía de Guanabara “como uma mesa posta”. Era essa a vista que desfrutava dos fundos daquele rés do chão, que, pela topografia, ocultava mais dois andares embaixo, ocupados por outros inquilinos.

Ali ele conviveu com “Irene preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor”, sua empregada, que o encantava pela devoção com que fazia o polimento dos metais da casa do poeta e por sua paixão pelo carnaval – guardava dinheiro durante todo o ano para se fantasiar e cair na folia no período carnavalesco. Irene era gorda e boa, dizia o morador. Por saber unir o sagrado e o profano com natural sabedoria, não precisou da autorização de São Pedro – bonachão ao vê-la – para entrar no céu: “Entra, Irene, você não precisa pedir licença”, como se lê num dos poemas mais populares de Bandeira: “Irene no céu”.

Além dela, outras personagens do Curvelo se consagrariam na obra bandeiriana. Em prosa, ele fixou Álvaro e Ernani, os meninos da crônica “A trinca do Curvelo”, que quebravam as vidraças de sua casa quando ele não lhes mostrava livros com figuras. Eram moleques da rua, seus amigos.  Ali também ele recebia dois talentos pernambucanos: o pintor Cícero Dias, morador do bairro, e o poeta Ascenso Ferreira, que, segundo o anfitrião, fazia “desarrumações tremendas” quando entrava. Ali recebeu Mário de Andrade e outros, o que levou o amigo e poeta Ribeiro Couto a chamar essa casa modesta de “pouso de poetas modernistas”. Naquele pedaço de morro Bandeira compôs grande parte dos poemas de Libertinagem, de que faz parte o antológico “Vou’me embora pra Pasárgada”. E foi nas tardes da mesma casinha que ele, solteirão apaziguado e tuberculoso vitalício, começou o romance com a holandesa Fréddy Blank, “toda a afeição de uma vida” do poema “A Moussy”, apelido de Fréddy Blank a partir de 1947 (Moussy significa avozinha, em holandês). Deixar tudo isso pungia – para usar um verbo que lhe era caro – a alma do poeta.

Mas, que jeito? O proprietário pedia a casa, a mudança de endereço se impunha. Ele trocaria “o silvo agudo do saguim”, do poema “Comentário musical”, “o sussurro sinfônico da vida civil”, metáfora do barulho que lhe chegava da Glória, do mesmo poema, pelo ruge-ruge da Lapa, onde alugaria um apartamento muito menor e sem vista. Feito o balanço de treze anos de vida como morador do Curvelo, e impregnado do que havia de mais franciscano em sua personalidade, ele escrevia a Mário de Andrade em 21 de janeiro de 1933:

“Tudo que está vivo e é essencial em mim está e continua comigo, sem ligação com casa, móveis ou paisagem. Foi a lição dessa mudança, que eu apreendia e ao contrário me deu um calor reconfortante de vida nova, de independência, de irresponsabilidade. Fiquei com vontade de não ter nada. Nada. Dar as poucas coisas bonitas que eu tenho a amigos seguros em cujas casas poderei vê-las quando quiser”.

Carta a Mário de 21 de janeiro de 1933. In: Correspondência MA & MB, pp. 548-549.

A tuberculose lhe ensinara a humildade, é ele mesmo quem reconhece na autobiografia literária Itinerário de Pasárgada. Humildade e resignação são próximas, e  foi com esse espírito que, em 16 de março de 1933, ele se instalou no número 57 da rua Morais e Vale, onde ocupou o modesto apartamento 12, de um quarto e sala. Nesse momento, compôs a quadrinha enigmática “O amor, a poesia, as viagens”, que Cecília Meireles, sem qualquer dificuldade para entendê-la, considerou-a “pura lágrima”.

Dali a um mês passou para o apartamento 54, que lhe possibilitava ver “as torres do convento da Lapa, os cocurutos dos arranha-céus da Avenida Rio Branco e um marzinho de telhados”, informava a Mário de Andrade em carta de 8 de abril de 1933. Mas estava acostumado à vista do mar. Sentia falta. Inquieto, conseguiria se mudar outra vez, no mesmo prédio, agora para o apto 73, de onde, ali sim, sentia “os ares oceânicos” novamente. No entanto, o desalento no “Poema do beco” deixa claro que a baía e a linha do horizonte não o confortavam: “O que eu vejo é o beco”, arremata ele o dístico contundente de que se compõe esse poema.

As moradias de Manuel Bandeira nunca deixaram de estar presentes em sua poesia. Na Lapa não seria diferente. A vida no meio do bairro boêmio, do barulho do bonde correndo os trilhos, das prostitutas, dos trabalhadores, lavadeiras, costureiras, daquela gente pobre e do beco sujo trazia o poeta para dentro do submundo urbano. Não mais o mundo que ele via do alto de Santa Teresa, onde se recolhia pacificamente depois das idas sempre parcimoniosas aos bares do Centro da cidade. Não mais a obediência ao horário regular do bonde de volta ao morro, onde encontrava o silêncio e a paisagem reconfortantes da baía. Devia se submeter apenas a seu horário pessoal, como tuberculoso comedido que era. E dentro de uma disciplina já lendária – os amigos riam de seus cuidados com a saúde – abriu espaço para se deixar contaminar livremente pela vida profana da Lapa, onde procurava a Estrela da Manhã, “pura ou degradada até a última baixeza”, como no poema de mesmo título. Na Lapa ele se identifica com o marinheiro que volta para o navio, para o mar alto, enquanto ele, o poeta, triste e desamparado, volta apenas para casa e para a estreiteza do beco:  ”Mas eu, marinheiro?”, pergunta no poema “Marinheiro triste”.

Há na poesia desse seu período de morador da Lapa, sobretudo, muito de erotismo, daquele erotismo ardente e delicado tão especialmente bandeiriano de “A Estrela e o anjo”, cujo primeiro verso é: “Vésper caiu cheia de pudor na minha cama”. A imagem não deixou dúvida a Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza no prefácio de Estrela da vida inteira: a recorrência à estrela Vésper “simboliza a plenitude carnal numa das mais belas metáforas do êxtase amoroso”.

O leitor me perdoe, estou impedida de reproduzir o poema por questão de direitos autorais, mas peço: não deixe de ler (ou reler) os mais que perfeitos cinco versos restantes de “A estrela e o anjo”, o último de Estrela da manhã. Verá aí, como chamou Edson Nery da Fonseca, a “síntese feliz” que há entre a atitude mental e o estado de excitação sexual na poesia de Bandeira.

Na verdade, misticismo e erotismo na poética bandeiriana são indissociáveis muito antes do período da Lapa – é o que se vê em “Toante”, de Carnaval, que é de 1919: “Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas./ O espasmo é como um êxtase religioso…”. Qualquer dúvida que possa existir com relação ao tipo de “espasmo” nesse verso se dissipa na carta que Bandeira escreveu a Mário de Andrade em 14 de agosto de 1923, em que confessa, na linguagem epistolar: “[…] o espasmo sexual é para mim um arroubo religioso. Sempre encontrei Deus no fundo das minhas volúpias”. Chamado de “o poeta da delicadeza”, Bandeira é, ao mesmo tempo, e talvez por isso, ardentemente sensual.

Ao lado do ambiente erotizado da Lapa não podia deixar de haver muito trabalho. O amigo que discasse 2-0399 certamente ouviria Bandeira contar, do outro lado, o quanto se divertia traduzindo Tarzan e as joias de Opar. Sim, não só Proust e grandes poetas que ele traduziu, mas até livros de aventuras. Esse trabalho ele fazia em casa, mas todo fim de tarde pegava o bonde para ir à United Press, onde era responsável pelas  traduções de telegramas. Não podia parar suas atividades, afinal, o “quinhentão do montepio” deixado pelo pai não cobria todas as suas despesas – dizia ele.

O poeta ia aceitando o bairro à medida que o tempo passava: “Dentro da noite/ No cerne duro da cidade/ Me sinto protegido”, lê-se em “O martelo”, escrito na Morais e Vale. Acostumava-se aos sons do bairro e já os recebia até mesmo com simpatia. Mais que isso, acolhia-os como lição de vida: […] “Sei que amanhã quando acordar/ Ouvirei o martelo do ferreiro/ Bater corajoso o seu cântico de certezas”, são versos do mesmo poema.

No arquivo de Mario Quintana, sob a guarda do Instituto Moreira Salles, há um mapa do endereço da Morais e Vale. O documento, sem data, provavelmente é de 1935, quando Quintana morou no Rio e trabalhou na Gazeta de Notícias. Os dois se encontraram nesse ano, e pelo traço do desenho vê-se que Bandeira quis explicar ao poeta gaúcho, solteiro de outra estirpe, como chegar à sua casa de morador sozinho.

Quintana não ficaria muito tempo; em 1936 estaria de volta a Porto Alegre. Nem esperou para ver de perto as homenagens ao amigo pelos seus cinquenta anos de vida, comemorados, entre tantos eventos, com o lançamento de Estrela da manhã, em 1936, ocasião em que Drummond escreveu a “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”:

[…]

Tua violenta ternura,

tua infinita polícia,

tua trágica existência

no entanto sem nenhum sulco

exterior – salvo tuas rugas,

tua gravidade simples,

a acidez e o carinho simples

que desbordam em teus retratos,

que capturo em teus poemas,

são razões por que te amamos

e por que nos fazes sofrer…

 

Certamente não sabias

que nos fazes sofrer.

[…]

Da Morais e Vale Bandeira só sairia em 1942, para morar no Edifício Maximus (não deixava por menos, dizia a Mário de Andrade), na praia do Flamengo 122, apto. 415. A mudança inspiraria a “Última canção do beco”, datada de 25 de março de 1942: “Beco das minhas tristezas,/ Das minhas perplexidades/ (Mas também dos meus amores,/ Dos meus beijos, dos meus sonhos),/ Adeus para nunca mais!”

Assim o poeta se despediu da Lapa. Quanto a nós, dele nos aproximamos mais a cada 19 de abril. De preferência, lendo em voz alta o eterno “Manuel Bandeira faz novent’anos”, de Drummond, que em outra ocasião escreveu:

Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira

Teu nome é para nós, Manuel, bandeira.

Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do IMS.

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Manuel Bandeira e o erro gramatical

Extraído da Folha de S. Paulo. Depoimento de Paulo Bonfim. [Via Armando Freitas Filho]

Manuel Bandeira (Paulo Bonfim)

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“Cicero, poeta do tempo”, por José Castello

Matéria de José Castello sobre o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero. Foi publicada no Valor Econômico de 18 de janeiro de 2013 [via Elizama Almeida]:

Nossa vida cotidiana tornou-se quase inteiramente regida por princípios utilitários, pragmáticos, instrumentais, lamenta o poeta e filósofo carioca Antonio Cicero, de 67 anos. “Sempre foi assim, porém hoje as novas tecnologias eletrônicas potencializaram essa subordinação da vida ao princípio do desempenho.” Ele reconhece que elas mudaram a vida de todos nós, que houve um avanço e uma transformação. Mas isso será apenas bom? “Ao invés de economizarem nosso tempo, as novas tecnologias o consomem.” A tecnologia do século XXI devora o tempo. Devora o próprio século XXI. Resta-nos pouco tempo para meditar e contemplar. Para viver.

Para escapar dessa armadilha, Cicero – que no dia 11 se inscreveu para concorrer à vaga deixada pelo poeta Ledo Ivo na Academia Brasileira de Letras – se impõe certas regras pessoais, que segue com abnegação. Só consulta seus e-mails duas vezes por dia. Acessa a internet, na maior parte das vezes, apenas para fazer pesquisas, usando-a, assim, como uma antiga enciclopédia. Mantém um blog, chamado Acontecimentos (antoniocicero.blogspot.com.br), mas só o alimenta, com textos seus ou alheios, a cada dois dias. Também não participa das redes sociais, como o Facebook e o Twitter. Mesmo o celular, só o utiliza no caso de emergências, embora nele carregue também alguns dicionários e outros textos, de que eventualmente se vale. “Para mim, é imprescindível ter tempo”, diz.

No mundo instrumentalizado e pragmático em que vivemos, ele admite, “é grande o pessimismo com que muitos consideram as artes tradicionais e, em particular, a poesia”. Nosso mundo é veloz, obcecado por índices e resultados, quer as coisas sempre “para ontem”. Tem como ideal, portanto, devorar o tempo, não usufruí-lo. “As artes tradicionais têm perdido sentido na medida em que deixaram de corresponder à exaltação contemporânea da atividade veloz, multifuncional, polivalente.” Ninguém pode ler poesia, Cicero lembra, como quem lê um e-mail ou uma bula. A poesia não se lê apressadamente, mas, ao contrário, exige lentidão e entrega, paciência e concentração, devaneio e tempo. A poesia exige de seu leitor uma entrega absoluta. “Para ler poesia, o leitor deve entregar-se incondicionalmente, por um tempo determinado, aos caprichos semânticos, sintáticos, sonoros do poema.” Mais uma vez: a leitura da poesia exige tempo. Dizendo de outra forma: a matéria da poesia é o próprio tempo.

O mais grave: essa entrega incondicional não oferece ao leitor garantia alguma de que ele terá, ao fim da leitura, um resultado palpável. A verdade é que não o terá. Em consequência, lembra Cicero, para a maioria das pessoas a poesia guarda um aspecto anacrônico. Extemporâneo, intempestivo, inoportuno. A poesia parece estar “fora do tempo” quando, ao contrário, ela é, por excelência, o lugar do tempo. Avisa Cicero, desde logo, que não partilha desse pessimismo em relação à poesia e às artes. “Ao contrário, penso que, ao abrir para o leitor uma dimensão do ser oposta à utilitária, pragmática, instrumental, uma dimensão do tempo que não é regida pelo princípio do desempenho, a literatura lhe oferece a possibilidade de um enorme enriquecimento vital.” A poesia é um sopro que nos desperta. Mas é também uma brisa lenta e sutil, que exige paciência e serenidade. Quem chega a ela, porém, se vitaliza.

Assim é Antonio Cicero em pleno terceiro milênio: um homem que, justamente porque tem como matéria o tempo, está, de certo modo, fora do tempo ou, pelo menos, contra o momentâneo. Sim: é preciso aqui distinguir tempo e instante. O tempo é um fio, o instante é um corte. O tempo é uma longa estrada, o instante um semáforo que nos leva a parar para, logo depois, partir em disparada. Precisamos reaprender a respirar. Tudo isso vem… com o tempo! O pai de Cicero tinha uma grande biblioteca. Desde adolescente, ele pôde ler muito. Os portugueses, os russos, os franceses, os ingleses, os alemães, os italianos. Admite: “Hoje leio muito pouca ficção”. Hoje lê, sobretudo, poesia e ensaio. Poesia e filosofia. “Acho que é uma questão de administração do tempo. Escrever sobre filosofia exige de mim um bom tempo de leitura, estudo e reflexão.” Outra vez, e mais uma vez, o tempo, que deve ser curtido, alongado, prorrogado – isso em um século regido pelo culto ao instantâneo e ao “tempo real”, que nada mais é que uma lasca do tempo, uma sucessão louca de fatias muito finas. E nos entulhamos dessas fatias finas e avulsas e ao fim (do tempo) estamos intoxicados, sem poder dizer o que engolimos. Não é assim nosso século?

Cicero lê também, é claro, muita poesia. E é a leitura da poesia, como em um círculo mágico, que o leva a escrever poesia. Que o empurra de volta a ela. Em seu livro mais recente, “Porventura” (Record), no poema “Auden e Yeats”, como se estivesse dialogando com o poeta irlandês William B. Yeats (1865-1939), ele escreve: “possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte”. Outra vez a respiração. Mais uma vez o tempo, com seu ritmo mais natural, o inspirar e expirar. “A grande poesia, como a de Yeats, funciona para mim como uma Musa, que me impele a escrever.” Logo: a poesia não é soprada desde fora, pelas filhas de Zeus, deusas distantes da Grécia antiga. É na própria poesia que a Musa habita. A poesia é a Musa da poesia, nos leva Cicero a pensar.

Entre todos os poetas, ele diz ainda, aquele com quem continua mais a aprender é Horácio (65 a.C.-8 a.C.), o poeta e filósofo da Roma antiga. “Cada vez que releio um de seus poemas, maravilho-me como se estivesse lendo pela primeira vez.” Surpreende-se, sobretudo, com o modo como, nos poemas de Horácio, cada palavra modifica e é modificada pelas demais. Como se o poema estivesse vivo. (E não está?) Com seu olhar exigente, Antonio Cicero – embora leia os poetas brasileiros contemporâneos – acredita que a melhor poesia brasileira foi produzida no século XX. “Sobretudo a partir do modernismo.” Pensa em Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Cecília Meireles, poetas que constituem uma base muito forte para a poesia contemporânea. “E penso que há poetas contemporâneos que fazem jus a essa tradição.” Discreto, prefere não citar nomes. Quanto a si mesmo, porém, não consegue se situar “em nenhum cenário literário”. E, na verdade, nem faz questão disso. “Parece-me que, para fazê-lo, seria preciso tentar ver-se como que pelos olhos dos outros, e desconfio que quem consegue fazer tal coisa diminui a própria espontaneidade e potência”. Um poeta deve contar apenas com o próprio olhar, ainda que esse olhar, a rigor, seja o da cegueira.

Cicero está cercado de livros. Lista que considera “nada original”: Shakespeare, Hölderlin, Leopardi, Baudelaire, Rilke, Brecht, Yeats, Pessoa, Bandeira, Drummond e tantos outros. “Com eles aprendi que um poema é um objeto de palavras que merece existir por si.” Adverte, porém, que essa afirmação não significa uma adesão ao formalismo. “Não é apenas a forma das palavras que interessa num poema, mas tudo aquilo de que ele é composto, inclusive os significados que ele suportar.” Apesar dessa ressalva, insiste: um poema merece existir por si. “Sua apreciação mobiliza e confunde, isto é, atualiza, num jogo singular, as nossas mais diversas faculdades.” Não apenas o intelecto, mas a imaginação, a razão, a sensibilidade, a sensualidade, a emoção – pensa Cicero – são afetadas pela leitura de um poema. O leitor se agita por inteiro. O poema (uma faca de palavras) o atravessa. A leitura do poema o interroga e transforma.

Ainda na adolescência, recorda-se, descobriu o conselho do russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930), considerado o maior poeta do futurismo, que recomendava aos jovens poetas carregarem sempre um caderninho de notas e uma caneta. Até recentemente, cumpriu-o à risca. Depois descobriu que podia usar o telefone celular não tanto como telefone, mas como bloco de notas. “Eu o uso mais para isso, e como dicionário, do que como telefone”.

Também abandonou o papel: hoje escreve já as primeiras versões de seus poemas no computador. Contudo, a sombra do papel permanece inalterável: não consegue ler bem um poema e corrigi-lo, se o conserva na tela do computador. Precisa imprimi-lo: só consegue mexer nele quando o deixa de volta deitado no papel. Depois, retorna ao computador, mais uma vez ao papel, outra ao computador etc., até o dia em que, por fim, dá o poema por terminado. É um processo longo e lento, em que, pouco a pouco, muitas palavras são abandonadas e muitas outras incorporadas, uma longa gestação que exige persistência e paciência. De fato, nos mostra Cicero, não existe poeta impaciente. Pelo menos, não para ele.

A poesia lhe surge de repente e em qualquer lugar. Pode surgir quando já está deitado, quase dormindo ou quase acordando, e nesses casos precisa se levantar correndo e anotá-la ou ela se perderá. “Caso não o faça, ela será, em 99% dos casos, esquecida. As palavras são, como dizia Homero, aladas, e voam para longe.” Nada disso, contudo, o afeta ou cansa. A poesia (mesmo o mais árduo dos poemas) sempre deu a Cicero grande prazer e alegria. Entende assim: “A escrita é uma forma de enfrentar e superar a dor ou o sofrimento”. Nesse caso, enfim, a poesia tem, sim, uma utilidade. Um uso íntimo, pessoal, secreto – que relação alguma estabelece com as vantagens de mercado ou com os objetivos da produção. Cada poema a seu tempo. Cada poeta com seu tempo. Matéria da poesia, o tempo é uma experiência singular e particular. Tempo de cada um, sempre assim.

Cicero prepara, no momento, uma coletânea de ensaios. Ao mesmo tempo, planeja escrever um livro sobre o niilismo. “Tento mostrar que a filosofia radicalmente ambiciosa, que é aquela em que a razão busca a verdade absoluta e universal, inevitavelmente conduz ao niilismo” (do latim “nihil”, isto é, nada). Hoje, apesar de seu apego à poesia, são, sobretudo, as preocupações filosóficas que o movem. Embora considere poesia e filosofia “atividades opostas”, apega-se às duas. Enquanto a filosofia depende de uma argumentação que a sustente, a poesia basta a si mesma. São duas paixões antagônicas que, no entanto, ele não consegue separar.

A preocupação central de Cicero, nos dois casos, é sempre com a passagem do tempo. Depois dos 60 anos de idade, começou a se preocupar cada vez mais – como é natural – com a idade, a velhice e a morte. O tempo, mais uma vez, está no coração do poeta. Em seu último livro, “Porventura”, ele aparece no centro de poemas como “Balanço”, “Palavras Aladas”, “Meio Fio” e “Presente”. Matéria da poesia, o tempo é também, no caso de Cicero, seu objeto. O tempo que, em seu caso, quase chega a ser um sinônimo de poesia.

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“Cecília Meireles e Manuel Bandeira de volta às estantes”

Extraído do blog do Prosa Online, do jornal O Globo:

Após um longo período longe das livrarias por conta de disputas judiciais entre familiares e impasses contratuais, obras de Cecília Meireles e Manuel Bandeira estão de volta pela Global Editora. Novas edições de “O itinerário de Pasárgada” e “Os sinos”, de Bandeira, e “Romanceiro da Inconfidência” e “Os pescadores e suas filhas”, de Cecília, já podem ser encontradas nas estantes. As reedições foram lançadas junto aos livros de poemas “Estrela da manhã” (com prefácio de Ferreira Gullar) e “Estrela da tarde”, de Bandeira, e “Viagem”, de Cecília, na Bienal do Livro de São Paulo, que terminou domingo passado.

Além dessas histórias, mais 120 publicações da escritora e outras 23 de Bandeira serão reeditadas a partir de agora — entre elas, “Ou isto ou aquilo”, um dos poemas mais conhecidos de Cecília, que deve ser relançado em setembro, com ilustrações de Odilon Moraes. O leitor sai ganhando com o retorno às prateleiras de obras e autores fundamentais para a literatura brasileira.

No poema “Romanceiro da Inconfidência”, publicado pela primeira vez em 1953, Cecília narra as angústias de um dos movimentos mais importantes da História do Brasil e de seus personagens, que foram influenciados pelos ecos dos pensadores iluministas no final do século XVIII. O perfil de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, traçado por Cecília no poema contribui até hoje para a reflexão sobre a identidade mítica do líder inconfidente. 

Da obra de Manuel Bandeira um dos primeiros a chegar às livrarias é o autobiográfico “Itinerário de Pasárgada” (1954). Escrito a pedido dos escritores e amigos Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, Bandeira faz o registro de uma época. Relembra sua infância no Recife, narra sua vida no Rio de Janeiro e tece comentários sobre autores e músicos de sua preferência.

Em outra reedição, escrita para crianças “entre entre 8 e 80 anos”, Cecília brinca com a melodia de seus versos em “Os pescadores e suas filhas”. Ilustrado por Cris Eich, a autora narra a breve história de três meninas que fazem travessuras na beira do rio, enquanto seus pais, pescadores, descansam nos barcos.

Também numa obra para crianças, Bandeira recorre à repetição de palavras como “bem-bem-bem” para reproduzir, em “Os sinos”, os sons das badaladas para os pequenos leitores.

Livros digitais estão no novo acordo

As obras de Cecília Meireles e Manuel Bandeira estavam sem reedições desde 2009, quando terminou o contrato entre a editora Nova Fronteira e a agência literária Solombra, que pertence ao advogado Alexandre Teixeira, neto de Cecília, representante dos dois autores, além de Orígenes Lessa (de quem a Global está relançando também o livro infantil “A arca de Noé”). No caso de Cecília, uma briga judicial travada há mais de dez anos entre as filhas da escritora — Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda — agravou o impasse. Em 2000, Maria Fernanda questionou as prestações de contas de Alexandre sobre os direitos autorais. Cansada da disputa, Maria Mathilde, mãe de Alexandre, passou a administração de sua parte para Ricardo Strang, filho de Maria Elvira.

Após a morte de Elvira em 2007, Strang acabou ficando com dois terços dos direitos sobre a obra e suas futuras edições. A Justiça validou esses direitos em dezembro de 2011 e, então, a Global Editora foi a casa escolhida, entre outras quatro, para reeditar as obras. O projeto editorial acordado prevê ainda a publicação de edições de bolso, digitais e audiolivros.

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“Elvia Bezerra é a mulher à frente da reserva técnica literária do Instituto Moreira Salles”

Matéria de Leonardo Aversa. Extraída do site d’O Globo:

RIO – Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) tinha como passatempo a caricatura. Fez algumas de Lygia Fagundes Telles. Rachel de Queiroz (1910-2003) gostava de colecionar santinhos de primeira comunhão e santinhos de morte. Acumulava caixas deles. Paulo Autran (1922-2007) guardava com esmero todas as entrevistas que concedia. E Clarice Lispector (1920-1977) — sabe-se lá se motivada por uma paixão ou pela rotineira vontade de testar a cor de um batom — deixou para a posteridade um guardanapo em que se vê sua boca gravada em vermelho.Desde 2009, a cearense Elvia Bezerra coordena e pinça raridades como essas nas centenas de caixas de cartão que compõem os 28 acervos reunidos na Reserva Técnica Literária do Instituto Moreira Salles (IMS), na Gávea.

Frequentadora dos ‘Sabadoyles’

Com 1,60 metro de altura e um olhar que nunca desprega de seu interlocutor, Elvia repete várias vezes que “sente um prazer danado” em ser a guardiã de boa parte da produção literária e de um verdadeiro arsenal de memorabilia referente a alguns dos maiores ícones da literatura brasileira. Fica tão confortável quando convidada a falar de seus protegidos que deixa vazar para o discurso uma intimidade ímpar:

— Hoje em dia eu cuido do Otto (Lara Resende), do (Carlos) Drummond, do Paulo (Mendes Campos), da Rachel (de Queiroz), do (Erico) Verissimo, do Mario (Quintana), do Francisco (Iglesias) e de muitos outros. É um trabalho lento, meticuloso, mas muito gostoso.

Em sua rotina profissional, o frio é uma constante. Pelo bem-estar do acervo que já lota a reserva técnica do IMS, conserva-se a temperatura do local a 19 graus centígrados. E todas as pessoas que circulam por suas estantes deslizantes e pretendem manusear as caixas de PH neutro que se sobrepõem devem usar luvas cirúrgicas.

No início de julho, Elvia falava com orgulho de seu mais recente achado: uma carta de 1945 em que Paulo Mendes Campos, então recém-chegado ao Rio, discorre sobre a solidão ao amigo Otto Lara Resende:

— É um texto sem a informalidade e o coloquialismo que marcaram a correspondência dos dois. Paulo mostra um nítido interesse pela literatura e ainda encerra o texto com um poema.

O IMS considerou o texto tão importante que decidiu encaderná-lo no libreto “Carta a Otto ou um coração em agosto” e distribuí-lo durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Elvia sorria ao falar disso.

Nascida em 1947 na pequena cidade de Mombaça, no sertão do Ceará, Elvia é a primogênita de uma família de quatro filhos e a única que, até os 12 anos, só estudou em casa.

Em 1959, por sugestão dos pais, foi passar férias em Fortaleza. Hospedou-se na mansão de um juiz amigo da família e, estimulada pela esposa dele, agarrou-se a um livro da antiga quarta série e resolveu todos os exercícios ao longo do verão. No fim da temporada, submeteu-se à seleção do Colégio Imaculada Conceição e entrou direto na antiga quinta série. Até acabar o ensino médio, morou longe dos pais — descaroçadores de algodão — e aprendeu a conviver com a “eterna saudade”.

Em 1972, já com um diploma de Letras Português-Inglês carimbado pela Universidade Federal do Ceará, mudou-se para o Rio. Apaixonada por William Shakespeare (sobre quem ainda é capaz de discursar horas a fio), matriculou-se num mestrado em Literatura Inglesa e, em pouco tempo, casou-se com o professor.

— O Rio era a central dos hippies… Eu vinha do Ceará, onde os professores ainda davam aula de terno! Claro que me apaixonei por aquele que usava boca de sino, né? — conta a pesquisadora, omitindo a todo custo o nome do atual ex-marido.

Para pagar as contas durante a juventude, Elvia dava aulas particulares de inglês, e foi graças a isso que se encantou com a literatura brasileira.

— Um dia, um aluno veio me dizer, todo acanhado, que não tinha dinheiro para me pagar. Em troca, me deu um exemplar da primeira edição da obra completa de Manuel Bandeira em prosa. Esse contato com Bandeira foi tão avassalador que até hoje carrego na bolsa pelo menos um livrinho dele. Bandeira vai comigo aonde quer que eu vá.

Seguindo instruções da psiquiatra Nise da Silveira, de quem foi datilógrafa e assistente voluntária por muitos anos, em 1995 Elvia publicou o livro “A trinca do Curvelo” (Topbooks). O assunto? Manuel Bandeira.

— Dediquei alguns anos da minha vida a reconstituir a vida dele em Santa Teresa, bairro onde moro e onde ele morou entre 1920 e 1933 — lembra. — Desse tempo, guardo cartas inéditas que ele escreveu para uma amiga e um maravilhoso santinho que era dele.

Quem visita a casa de Elvia encontra na estante de seu escritório uma figura de São Manuel talhada em aproximadamente 20 centímetros de madeira. E ela explica:

— Ele foi torturado e morto com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e outro atravessado na cabeça por não querer abandonar o cristianismo durante o império de Juliano.

Com “A trinca do Curvelo”, a pesquisadora de Mombaça entrou na alta roda cultural dos cariocas. Passou a frequentar os chamados “Sabadoyles”, encontros literários que aconteciam na casa do advogado e bibliófilo Plínio Doyle, e a se aproximar de escritores como Alexei Bueno e Antônio Carlos Secchin. Foi num dos réveillons organizados por este que conheceu o professor e poeta Eucanaã Ferraz, que a levou para o IMS.

Colega de Elvia no instituto, o editor da revista “serrote”, Paulo Roberto Pires, destaca seu cuidado com detalhes:

— Elvia é apaixonada pela pesquisa de miudezas que, na verdade, fazem toda a diferença. É rigorosa no detalhe sem abrir mão da leveza do estilo. Sente um prazer imenso em lidar com esses fragmentos de vida existentes nas cartas, nos manuscritos e, é claro, nas bibliotecas. É íntima de Clarice, Otto, Paulo e Rachel. O fato de não tê-los conhecido é irrelevante: ela os tem como amigos.

Apesar de ser a guardiã das sete mil cartas de Otto Lara Resende, dos únicos manuscritos de Clarice (“A hora da estrela”, de 1977, e “Um sopro de vida”, de 1978), do caderno em que Erico Verissimo esboçou seu último romance (que não chegou a definir se se chamaria “A hora do sétimo anjo”, “O dia do sétimo anjo” ou “A vez do sétimo anjo”) e de uma enormidade de artigos ainda desconhecidos, Elvia gosta mesmo é de destacar pequenas coisas de sua vida. Diz ser boa cozinheira e lembra que fez dezenas de verbetes na enciclopédia “Barsa”.

— Quase todo o S é meu! — ri alto. — Em Jovem Guarda, lutei para que fosse posta ao lado do Tremendão (Erasmo Carlos) uma referência à Ternurinha (Wanderléia). Como não? Mas meu auge foi mesmo com Bandeira. É de minha lavra a definição de Pasárgada!

Cruzamento de cartas

Nos próximos meses, Elvia conclui seu mais ambicioso projeto dentro do IMS desde a publicação de “Mandacaru”, livro em que reuniu poemas de Rachel de Queiroz anteriores ao romance “O quinze”.

— Já terminei o cruzamento das cartas de Otto Lara para Helio Pellegrino e vice-versa, e estou terminando o cruzamento das de Otto Lara para Paulo Mendes. Se o instituto quiser, poderemos lançar dois livros: um com umas 400 páginas e outro com mais de cem. Assim, teríamos as cartas dos quatro “cavaleiros do Apocalipse” trabalhadas (Recentemente, Humberto Werneck organizou o cruzamento das cartas de Otto Lara para Fernando Sabino e vice-versa).

Durante a pesquisa, Elvia descobriu (mais) uma curiosidade. Achou no acervo de Otto uma charge assinada por Millôr Fernandes. Na charge, aparece um noivo usando um terno fino.

— Conversando com a viúva de Otto dias depois de dar de cara com essa charge, entendi tudo: Otto casou usando um terno do Millôr.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/elvia-bezerra-a-mulher-frente-da-reserva-tecnica-literaria-do-instituto-moreira-salles-5542105#ixzz21JopXP3V
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Momento num café, de Manuel Bandeira

 

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

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