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“Ouvir histórias; contar histórias; estar no mundo” – Entrevista com Luiz Ruffato

Reproduzo entrevista realizada por Mirhiane Mendes de Abreu com Luiz Ruffato, publicada na revista Pessoa:

Naquela tarde, pensei no seu primeiro livro, O homem que tece. “Um desenho do seu perfil?”, eu me perguntava, ouvindo aquela prosa fluida, de um narrador que entra e sai de casos com a fluência dos que sabem narrar. O livro compunha-se por poemas e Luiz Ruffato me disse já não possuir nenhum exemplar, mas, como se vê, seguiu por aí, tecendo histórias de um mundo vivido e imaginado. Não foi diferente naquela conversa, em que falou de si, da sua escrita, do seu tempo. Quem lê e quem ouve esse mineiro logo ingressa no universo da escrita e da narração, e reconhece o discurso de quem sabe o que quer e para onde vai:

 “Quer dizer que você é brasileira?”, “Brasileiríssima. E você é mineiro”, “Ué, como é que você sabe?”, “Só mineiro fala ‘Aqui’, e gargalhou entre dentes alvos, bem-feitos, sem falhas, que revelavam uma origem de moça-de-família, como eu suspeitava, dificilmente erro nos julgamentos, e, impensado, apelei pro meu lado cavalheiresco convidando ela pra comer alguma coisa […]”

“Lisboa cheira a sardinha no calor e castanha assada no frio, descobri isso revirando a cidade de cabeça-pra-baixo, de metro, de eléctro, de autocarro, de combio, de a-pé, sozinho ou ladeado pela Sheila. Com ela de-guia, visitamos um monte de sítios bestiais, o Castelo de São Jorge, o Elevador de Santa Justa, Belém (pra comer pastel), o Padrão dos Descobrimentos e o Aquário, na estação Oriente […]”

 Esses dois fragmentos de Estive em Lisboa e lembrei de você são expressivos: convidado para integrar a coleção Amores expressos (um projeto de escrita literária que levou escritores para diversos lugares do mundo), Ruffato deixou claro o que queria. O seu destino seria Paris. “Não! Lisboa é mais interessante para o que queria narrar.” “Por quê? Você é muito lido em Portugal?” – eu quis saber. “Não é isso: meus livros vendem mais na Alemanha e na França. Os elementos temáticos e estilísticos que eu queria explorar funcionariam melhor em Portugal. Adoro Paris, mas Lisboa seria mais adequada ao projeto”. E o projeto consistia justamente em narrar as desventuras de Serginho, um mineiro que vai para Portugal em busca de melhores oportunidades de trabalho, após ininterruptos insucessos e uma grande frustração amorosa. Enquanto o narrador experimenta a linguagem, Serginho experimenta outros ângulos e sensações dessa mesma língua, tão comum e, paradoxalmente, tão estranha… Desterritorializado e estereotipado, Serginho busca o consolo em Sheila, gentil prostituta que interpreta bem a condição de quem “nem nome tem”.

Enquanto conversávamos, vi vários Ruffatos ali (o pai, o cronista, o mineiro-que-mora-em São-Paulo, o homem público, o leitor, o narrador, o viajante, o organizador de antologias e festivais literários, o polêmico) e todos sabem a extensão do seu trabalho, do seu papel como figura pública: “Minha pretensão é levar para a literatura a discussão do que ocorre no Brasil, por isso, quis fazer uma obra com base na representação do universo dos trabalhadores urbanos e a busca de uma forma de escrita diferente da imposta pelo romance burguês. O Estive em Lisboa… é parte dessa preocupação, que está também em Eles eram muito cavalos, em que tematizo o mosaico humano da cidade São Paulo.”

Eles eram muito cavalos dialoga diretamente com um fragmento de Cecília Meireles, citado na epígrafe do livro – “eles eram muito cavalos, mas ninguém mais sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem…” – e com um versículo bíblico extraído do Salmo 82: “Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios?”. A inquietante sensação de injustiça vivida por rostos apagados, por sujeitos despersonalizados na grande São Paulo, é narrada em 69 textos-curtos que são, de alguma forma, experimentais. Colando o conteúdo à forma para expressar a espiral de tipos e sotaques próprios do caos urbano dessa megalópole, o livro – premiado e muito discutido pela crítica pela sua experiência formal – reconfigura elementos significativos da sua visão de mundo e está diretamente relacionado aos seus anos de formação:

 

“O meu mundo foi o dos bairros operários de Cataguases. Meus amigos eram filhos de operários e muitos deles eram também operários. Minha educação se deu nos colégios públicos de Cataguases, destinados aos mais pobres. Eram escolas muito ruins. Meu pai era pipoqueiro e meu destino seria esse também: trabalhei em botequim, no setor de algodão hidrófilo, como balconista e também fui pipoqueiro, ajudante de meu pai. A minha educação formal se deu nessa circunstância. Foi em Juiz de Fora que tive meu primeiro encontro com a política. Estudei como um louco para o vestibular e passei em primeiro lugar no curso de Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalhava de dia e fazia cursinho à noite. Na época de fazer a inscrição para o vestibular, eu não sabia o que fazer e algumas pessoas falavam em Comunicação, foi o que fiz. Para me manter na cidade, arranjei um emprego no Diário Mercantil, comecei a escrever sistematicamente e a fazer política estudantil. Eu era interessante para uma certa esquerda por ser representante do proletariado.

Foi nesse momento que me dei conta que a literatura brasileira não tratava das pessoas pobres que eu conhecia e por uma razão muito simples: os escritores, em geral, vêm da classe média alta e não conhecem essa realidade. O bandido e o marginal podem ser personagens idealizadas pela classe média alta, mas o trabalhador, aquele que pega ônibus, bate cartão, não tem vez. Eu conheço essas pessoas e, como todo escritor, escrevo a partir das minhas experiências. Foi o que trouxe para Eles eram muito cavalos: o livro é um pouco da minha experiência de uma pessoa que gosta de caminhar pela cidade e ouvir as histórias dos outros.”

 Ouvir histórias; contar histórias; estar no mundo. Esse é o caminho de Ruffato ao escrever suas crônicas para El-País Brasil, falando sobre o que vê e percebe do seu tempo, sem fazer concessões a partido político algum. O olhar para o contemporâneo também estrutura o seu livro infantil, A história verdadeira do sapo Luiz. “Não é livro infantil”, posicionou-se: “é uma narrativa ilustrada.” Indaguei-lhe um pouco sobre literatura com destinatário (“literatura é boa ou má”, disse ele) e sobre a representação, tema inerente ao seu conjunto narrativo: “A minha escrita é parte de uma decisão política e uma decisão estética também. Não acredito que estética e política sejam coisas separadas”. E como, para se ter acesso à literatura é preciso aprender a ler, falamos sobre a escola brasileira e a responsabilidade de se formar leitores: “A minha formação foi muito errática. Não sei o que propor.” Mas eu insisti na pergunta, queria saber como ele agiria em sala de aula: “Acho que deve se oferecer o maior número possível de livros aos alunos, variedade de gêneros e épocas”. “Acredito piamente que a literatura seja capaz de mudar o mundo”, idealizou.

E foi assim que chegamos ao polêmico discurso proferido na Feira de Frankfurt, em 2013, quando o Brasil foi um dos homenageados. A análise aguda sobre os problemas que o país enfrenta causou incômodo à plateia brasileira que, na ocasião, desejava algo mais festivo. Muito se falou sobre esse discurso, que causou um debate acalorado. Para se obter uma ideia mais precisa a respeito dessas considerações que, no fim das contas, sustentam seu percurso narrativo e a boa discussão que tivemos sobre o tema, transcrevo aqui um trecho:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito entre as pessoas. […].

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas […]; ora como um lugar execrável, de violência urbana. […].

Volto então à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?”

Foi assim, entre política e literatura, que prosseguiu nossa conversa: “Até hoje não entendi o porquê de tanto barulho. Não falei nada de novo: falei da bruta desigualdade social, da violência contra negros e mulheres. Falei que a educação brasileira é um artigo de luxo. Onde está a novidade nisso? Onde seria o lugar para discutir essas questões? Eu pensei que fosse entre intelectuais…”.

Estive em Lisboa… voltou ao tema por esse caminho. Livro em que o jogo com a realidade se impõe de tal forma que, empregando recursos usados por escritores da narrativa tradicional, abre-se com uma nota, afirmando: “o que se segue é o depoimento, minimamente editado, de Sérgio de Souza Sampaio, nascido em Cataguases (MG) em 7 de agosto de 1969. […]”. Assim como a nota, a desventura amorosa vivida por Sergio e Sheila é transfiguração de um real imaginado. Amor deslocado no espaço e na própria condição amorosa, que movimenta esse simulacro do real. A obra de Ruffato, em síntese, expõe de forma simétrica o jogo e a experiência estética, de que a linguagem é parte indissociável.

Por falar em linguagem, tocamos aqui num ponto importante das ideias de Ruffato e sua concepção de escrita. “Literatura é fundamental”, insiste. E, ao afirmar isso, demonstra gosto pela leitura de José de Alencar e Mário de Andrade, autores que admira pelo projeto de linguagem. Discutimos sobre o modernismo brasileiro. E divergimos: “Oswald de Andrade é o grande escritor do nosso modernismo”, opinião controversa. Comentamos sobre a pluralidade dos escritores daquelas primeiras décadas do século XX , recuamos ainda mais no tempo até chegarmos a Machado de Assis: “leio tudo o que posso desse homem genial”, afirmou. “Machado decidiu que queria se tornar o grande escritor. E conseguiu.”

Pareceu-me que, para Ruffato, ser escritor é ser um intelectual público, significa intervir, ocupar os espaços para dar voz a quem não a tem. Esse depoimento vai ao encontro dos seus temas, das suas leituras, do seu projeto de escrita. Literatura e política ordenam seu olhar sobre o mundo. Os vários Ruffatos que vi ali, naquela tarde, compõem um homem fluente na sua prosa, tranquilo para falar da sua inaptidão para lidar com blogs, com trânsito e que, ainda assim, procura digerir o caos social. São nuances da mesma preocupação: um homem acompanhado por livros e que deseja tecer histórias que lutem contra a mesquinhez do mundo.

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“Brasil, o país das maravilhas” – Luiz Ruffato

Coluna de Luiz Ruffato publicada no El País:

O escritor e jornalista Juan Arias, comentando meu artigo “O nosso fundamentalismo”, indaga se o conservadorismo da sociedade brasileira não estaria fundamentado em nosso precário sistema educacional. Talvez esse seja o ponto essencial para podermos refletir sobre esse colosso territorial chamado Brasil, não só em relação ao reacionarismo da população em geral, mas também à nossa incapacidade de concebermo-nos como nação, ou seja, conjunto de pessoas que se vinculam visando a atingir um objetivo comum.

Em entrevista ao jornal Zero Hora do dia 1º de março, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), especialista no assunto, faz uma série de considerações a respeito do estado da educação no Brasil e diagnostica: se começássemos um trabalho sério nas escolas de base hoje, o país alcançaria um ponto de excelência apenas daqui a 20, 30 anos… No entanto, do jeito que vamos, conclui, estamos ficando para trás. Permanece no ar um questionamento singelo, como devem ser as indagações mais profundas: se eu sei, se você sabe, se todos sabemos que não iremos a lugar algum sem uma radical transformação do sistema educacional, por que nos contentamos em afundar no pântano da ignorância?

Cristovam Buarque constata, desolado, que “por algum motivo” não damos importância à educação. “Ninguém é considerado rico no Brasil por ser culto. Você é considerado rico pela casa, pela conta bancária, pelo tamanho do carro, mas não pelo grau de cultura e educação. Mesmo quem gasta dinheiro para estudar não está em busca de cultura, está em busca do emprego que a educação lhe dá”. Infelizmente, essa assertiva é verdadeira e crucial para tentarmos entender o nosso desprezo pela cultura letrada.

O Brasil sempre aparece nos últimos lugares do ranking de avaliação de educação. Convivemos com um atraso atávico neste setor. Até 1808, quando a família real portuguesa se refugia no Brasil, sequer possuíamos imprensa e a entrada de livros esbarrava num rigoroso crivo da censura.

Enquanto nossos vizinhos latino-americanos contavam com universidades desde os primórdios da colonização (séculos XVI e XVII), as nossas primeiras instituições de ensino superior datam do começo do século XX.

Até a década de 1950, metade da população adulta era analfabeta – índice que encontra-se hoje em torno de 9%, embora o analfabetismo funcional, ou seja, a incapacidade de interpretar textos simples e de fazer operações matemáticas corriqueiras, ainda atinja um em cada cinco brasileiros.

O quadro mudou, certamente, por conta do compromisso do Estado em ofertar ensino gratuito obrigatório a todos os brasileiros entre 4 e 17 anos (alicerçado na Lei de Diretrizes e Bases de 1996) e de garantir cotas raciais e sociais em universidades públicas para afrodescendentes, indígenas e alunos oriundos de escolas públicas (baseado na Lei de Cotas, de 2012). Mas se melhorou em relação à possibilidade de acesso, e isso é um ganho inegável e indiscutível, piorou bastante no que concerne à qualidade da educação disponível.

Infelizmente, nosso sistema educacional continua sendo um instrumento de segregação social e, por consequência, de manutenção no poder de uma elite econômica, que é também política e cultural. A alfabetização e os ensino fundamental e médio, essenciais para a formação do aluno para o resto da vida, definem a que classe você pertence e na qual permanecerá. Segundo dados do IBGE, metade da população com mais de 25 anos não concluiu sequer o ensino fundamental; 15% não concluíram o ensino médio; e apenas 11% concluíram o universitário – desenho nítido da pirâmide social brasileira.

As famílias pobres, sem opção, matriculam os filhos em escolas públicas, que funcionam em prédios obsoletos, com infraestrutura mínima, sem segurança, sem biblioteca, administrados por professores, em geral, mal formados e sem incentivo, acossados pela baixa remuneração e falta de segurança e desrespeitados por pais e alunos. O resultado é que, segundo relatório da Unesco, o estudante está na sala de aula, mas não aprende – 22% se formam sem capacidades elementares de leitura e 39% não têm conhecimentos básicos de matemática. Por outro lado, a maioria dos pais não se sente responsável pelo desempenho dos filhos na escola, ignorando assim que a educação, embora inclua a instrução, a ultrapassa. Essa visão utilitária e limitada impede que a comunidade interfira na resolução dos problemas da escola.

Já as famílias ricas conduzem seus filhos para escolas privadas, que contam com boa infraestrutura, regimes pedagógicos diferenciados, bibliotecas, ambiente adequado, professores bem remunerados, etc. Mais tarde, esses alunos ocuparão a maioria das vagas das melhores universidades públicas – aos alunos pobres restam as universidades privadas, de duvidosa reputação. Em suma: os alunos ricos estudam de graça em boas instituições, sem nenhuma contrapartida social, enquanto os pobres pagam para assistir aulas em estabelecimentos deficientes.

Somos um país, mas não somos uma nação. A ignorância é o terreno fértil para a propagação de ideias conservadoras – o escritor sérvio Danilo Kis, em seu romance Um túmulo para Boris Davidovich, afirma que quem lê vários livros busca a sabedoria, quem lê um único, busca a ignorância. O desdém pela cultura, que atinge o Brasil de alto a baixo, envenena nossa percepção: aqui, o que é de todos, não é de ninguém. Todos nos aferramos às nossas pequenas conquistas e, para não perdê-las, abraçamo-nos a qualquer discurso reacionário, que ao fim e ao cabo, prega sempre o egoísmo, o cinismo, a mediocridade.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista

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Discurso de Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt – 2013

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“Literatura gay para quê?” – Alexandre Vidal Porto

Texto de Alexandre Vidal Porto publicado no site da revista Bravo!:

Quando morava nos Estados Unidos, percebia que toda livraria tinha uma seção de “gay literature”. Eu não conseguia entender a lógica dessa classificação. Para mim, “gay” era quem sentia atração física por pessoas do mesmo sexo. Como literatura não tem atração sexual por ninguém, ficava difícil imaginar aqueles livros todos na estante transando entre si para poder caracterizá-los como homossexuais.

Há, no entanto, quem defenda a existência de uma chamada “literatura homossexual” como gênero específico. Acho que a base desse entendimento está vinculada à orientação sexual do autor (“se o autor é gay, sua literatura é gay“) e à dos personagens (“literatura com personagens gays é gay também“).  Essa ideia de classificar literatura como “gay” provavelmente decorreu do fato de que neste século, mais do que em qualquer outro período da história, autores e personagens passaram a evitar eufemismos ou disfarces para sua homossexualidade.

E a literatura imita a vida. Assim, a maior visibilidade de autores e persoangens abertamente homossexuais na literatura é apenas a projeção de um fenômeno social que tem a ver com vários elementos da contemporaneidade, entre eles a revolução sexual, o enfraquecimento da moral religiosa e o surgimento da AIDS. Em suma: vêem-se mais gays nos livros porque, hoje, os gays são mais visíveis no mundo.

Um branco pode se identificar com uma história escrita por um negro. Um poema composto por um homossexual pode falar ao coração de um heterossexual. E vice-versa. A literatura é um exercício de comunhão. Sua mágica consiste justamente em revelar a humanidade comum que vincula pessoas diferentes. Nesse processo de identificação humana, sinceridade vale muito mais do que gênero, nacionalidade, raça ou orientação sexual.

Acerca de contos homoeróticos, fica aqui recomendada a antologia Entre nós, organizada por Luiz Ruffato e publicada pela editora Língua Geral.

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