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“Saudades da Lisboa desaparecida”

Sem Título

Extraído do jornal Público. Texto de Catarina Moura, Andrea Espadinha e Eduardo Ribeiro [ver imagens no site]:

Uma pintura do Terreiro do Paço, uma do Rossio, outra do Mosteiro dos Jerónimos e uma quarta do Convento de Mafra. No incío do ano, Álvaro Roquette e Pedro Aguiar-Branco, do Antiquário AR-PAB, compraram a um antiquário internacional – preferem não revelar nem o nome nem a nacionalidade – quatro óleos que mostram como eram estes lugares antes do terramoto de 1755. Desde Abril à venda, ainda não os conseguiram “encontrar o comprador certo”, diz ao PÚBLICO Pedro Aguiar-Branco – querem vendê-los juntos por 390 mil euros.

Álvaro Roquette e Pedro Aguiar-Branco não conseguiram descobrir o percurso destas obras – há quanto tempo estão longe de Portugal? São de autoria portuguesa? São perguntas que não conseguiram esclarecer no acto da compra, nem até agora. Além disso as pinturas não estão datadas nem assinadas.

Apesar de mostrarem vistas anteriores ao grande terramoto, podem ter sido pintadas posteriormente com base noutras fontes iconográficas, analisa Miguel Soromenho do Museu Nacional de Arte Antiga, no catálogo das pinturas produzido pelo antiquário. O historiador de arte explica aí como é possível perceber que as obras têm a mesma autoria: há “afinidades no tratamentos dos céus e na definição da paleta cromática” e “semelhanças na forma de dispor as figuras na composição”.

António Miranda, coordenador do Museu da Cidade, conheceu estas obras em Madrid, em Outubro de 2013 – antes de serem adquiridas pelos portugueses –, quando foram a leilão por 90 mil euros. Para o responsável do museu lisboeta, as pinturas são importantes “não pela sua qualidade pictórica”, diz, mas como “documento iconográfico dos costumes e da relação das pessoas com a cidade”.

Mais que novos pormenores sobre a Lisboa anterior ao terramoto de 1755, as pinturas do Antiquário AR-PAB são exemplo de como se reproduziam as vistas de uma cidade nos séculos XVIII e XIX: muitas vezes a partir de outras obras anteriores a que o artista tinha acesso – o que torna possível que representações da capital antes do sismo tenham sido pintadas quando essa cidade já não existia.

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Fechamento da Poesia Incompleta

No site do jornal Público de Lisboa, notícia sobre o lamentável fechamento da livraria Poesia Incompleta.

“Está a respirar-se mal neste país. Este país não é para velhos, nem para novos, nem para os do meio. Estou a pensar emigrar, como sugeriu um ministro qualquer”, afirma ao PÚBLICO, num tom irónico que o leva a dizer que vai “doar” os volumes de poesia que sobraram na livraria ao ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas.

O que é dizer muito. A Poesia Incompleta tem um fundo de oito a dez mil volumes de e sobre poesia, em mais de 30 línguas, e com mais de 260 editoras, segundo a Lusa. A livraria, que estava aberta ao público desde Novembro de 2008, tinha três salas por onde se espalhava todo este espólio, que incluía raridades e antiguidades.

Mário Guerra partilhou os títulos que foram chegando à livraria ao longo destes quase três anos e meio no blogue onde, nesta segunda-feira, anunciou o fim da linha para a Poesia Incompleta. A curtíssima nota acabava com a possibilidade de abrir num outro espaço: “Amanhã, a PI fechará portas. Espera-se que as reabra em breve, num novo local.”

Questionado pelo PÚBLICO sobre a eventual reabertura, volta a ironizar: “Vamos reabrir no estádio nacional”. O que Mário Guerra enfatiza é que a Poesia Incompleta chega ao fim “sem uma única dívida”. “A Poesia Incompleta fecha sem ninguém poder dizer que temos sequer uma dívida. E isso é óptimo. E raro.”

“Não quero relacionar de maneira nenhuma o fecho da minha livraria com o fecho das outras. A Poesia Incompleta fecha porque tem de fechar”, acrescenta. “Não me queixo de nada. A crise é espiritual.”

Já no Jornal de Notícias, o poeta Manuel António Pina, prêmio Camões, escreveu sobre “O livreiro insolente”:

A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se “ser poeta é” o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a “dizê-lo, cantando, a toda a gente”, compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado “país de poetas”, um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria “Poesia Incompleta” fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que “poeta”.

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário “Changuito” Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como “assustar um notário com um lírio branco”, pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.

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