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“Por que estudos literários?” – Mirhiane Mendes de Abreu

Mirhiane Mendes de Abreu é professora de Literatura Brasileira da Unifesp. Publicou Ao pé da página – A dupla narrativa em José de Alencar, que sem dúvida alguma é uma das obras mais importantes sobre o mais notável romancista do romantismo brasileiro. Na revista Pessoa, ela inaugura uma coluna, que aqui reproduzo:

O título deste artigo é um pretexto para iniciar uma série na revista Pessoa sobre questões literárias. E, para começá-la, decidi ir ao início. O meu início.

Eu estava com 17 anos quando, ao se aproximar o período de inscrição do vestibular, escolhi o curso de Letras, provocando certo alvoroço no ambiente familiar. Talvez por ser de uma família de professores, de vida espartana, sugeriam-me profissões de retorno financeiro mais provável quando comparadas com as carreiras ligadas ao magistério. Entretanto, movia-me por uma exclusiva razão: gostava de literatura e do universo dos livros e queria me especializar nisso. É provável que esse gosto tenha se desenvolvido justamente por ser de família de professores e ter vivido numa casa cercada por livros, que iam da Bíblia até as Mil e uma noites, passando por inúmeros clássicos. Educação e cultura, assim, construíram os pilares da minha formação e talvez tenha sido isso que me levou a bater o martelo de forma definitiva e assinalar o X no curso de Letras.

Bem, nem tão definitiva assim…

Estudar literatura é estar sempre às voltas com o anúncio do fim. Profetas do caos a todo o tempo anunciam a agonia da literatura. O incrível é reconhecer que, muitas vezes, os portadores das más notícias sejam… críticos literários! De início, na universidade, deparei-me com um desajuste: não havia lugar para os desafios mentais tais como eu havia vivenciado com O homem que calculava, de Malba Tahan; nem mesmo para a experiência com o ritmo envolvente dos poemas de Cecília Meireles. As aventuras propostas por Lewis Carrol e sua Alice, por Huckleberry Finn e até pela Coleção Vaga-Lume, da Ática, soavam pueris. Comecei a reconhecer, no interior dos Estudos Literários, que a literatura é revestida de outras propostas e perspectivas, o que torna a crítica algumas vezes imprescindível e, outras, dispensável, especialmente quando muito atada quer às fórmulas da moda, quer à nostalgia nociva.

Não quero propor um meio de facilitação, nem estimular um simples impressionismo subjetivo. Nada disso. Trata-se de chamar a atenção para o fato de que, do ponto de vista de quem produz e consome literatura, uma crítica obscura e/ou com chaves prévias parece um contra-senso. A complexidade crítica, que conjuga elementos objetivos e subjetivos, não pode ser reduzida a atos estéreis, seja tudo aceitando, seja tudo negando.

De todo modo, a questão da abordagem é sempre exposta à pessoa dedicada profissionalmente à literatura, tanto ao professor da Educação Básica, quanto ao professor universitário. Assim, retomamos com frequência o problema do ensino da literatura (que, diga-se de passagem, está sempre envolto por preconceitos), o qual incide diretamente sobre vivências subjetivas como as que relatei, mas que também apresenta questões de escopo teórico, como o conceito e a função do texto e o problema do cânone. Some-se à docência o autor contemporâneo. Alvo preferencial dos mais raivosos e, simultaneamente, rodeado por festivais e premiações, o escritor se envolve com editores, professores e críticos a quem anseia por agradar, embora seu objeto seja exigente e, algumas vezes, impopular.

O professor – sempre o professor – vê-se às voltas com novos parâmetros curriculares e conteúdos que a ele cabe rotinizar. Movimenta-se entre o obsoletismo metodológico e as missões salvíficas que lhe imputam. Afinal, a literatura – seu objeto de estudo e ensino – é portadora de um capital simbólico, linguístico e afetivo. E cabe a ele o papel de levar o aluno a concluir isso, aferir seu conhecimento por meio de avaliações e perpetuar o estudo desse objeto-fetiche. Se também aspirante a crítico, o indivíduo se depara com múltiplos impasses, dentre os quais a própria tarefa da crítica e sua funcionalidade, bem como a operacionalidade da interpretação da obra literária, atividades que dissocia da sala de aula.

Há ainda outro ingrediente. A literatura, partícipe da cultura que é, se espalha por vários outros campos. Isto não é exatamente uma novidade, basta mencionarmos a relação intrínseca entre o romance e o jornal fortemente alimentada no século XIX. Debate para outra ocasião, limito-me a um exemplo para nos fazer lembrar que a literatura coaduna-se com um conjunto maior da produção cultural e da produção do belo e hoje se alimenta muito das redes sociais, particularmente dos blogs e dos perfis de Facebook. Nesses veículos, ela se desveste do caráter escolar e se apresenta de forma amigável, direta e dinâmica.

Se a literatura pode enriquecer a vida e o pensamento, estimulando forças expressivas no leitor e se ela se imiscui por múltiplos canais de circulação, não seria bom nos despirmos por um instante dos jargões acadêmicos e enfrentarmos as questões diretamente com os envolvidos? Não tenho respostas prontas, nem quero trazer para esse espaço receitas, menos ainda teorias mirabolantes. O objetivo desta coluna é sair da esfera universitária e, erguendo pontes, convidar a todos a construirmos aqui um debate público sobre o tema, através de ensaios e entrevistas, aproveitando a abertura que a Revista Pessoa nos concede para isso.

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Porque nos relacionamos com personagens de ficção – Will Self

Extraído do Blogtailors:

“Embora tenham as suas vidas determinadas pelos escritores, os personagens de ficção são frequentemente retratados como donos do seu destino. Talvez seja por esse motivo que os leitores gostam tanto deles.” O autor Will Self reflete sobre as personagens de ficção e a sua relação com os leitores, aqui.

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Entrevista de Roland Barthes

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“Hábito de leitura cai no Brasil, revela pesquisa”

Matéria de Nathalia Goulart publicada na revista Veja:

O brasileiro está lendo menos. É isso que revela a pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência. De acordo com o levantamento nacional, o número de brasileiros considerados leitores – aqueles que haviam lido ao menos uma obra nos três meses que antecederam a pesquisa – caiu de 95,6 milhões (55% da população estimada), em 2007, para 88,2 milhões (50%), em 2011.

A redução da leitura foi medida até entre crianças e adolescentes, que leem por dever escolar. Em 2011, crianças com idades entre 5 e 10 anos leram 5,4 livros, ante 6,9 registrados no levantamento de 2007. O mesmo ocorreu entre os pré-adolescentes de 11 a 13 anos (6,9 ante 8,5) e entre adolescente de 14 a 17 (5,9 ante 6,6 livros).

Para Marina Carvalho, supervisora da Fundação Educar DPaschoal, que trabalha com programas de incentivo à leitura, uma das razões para a queda no hábito de leitura entre o público infanto-juvenil é a falta de estímulos vindos da família. “Se em casa as crianças não encontram pais leitores, reforça-se a ideia de que ler é uma obrigação escolar. Se existe uma queda no número de leitores adultos, isso se reflete no público infantil”, diz a especialista. “As crianças precisam estar expostas aos livros antes mesmo de aprender a ler. Assim, elas criam uma relação afetuosa com as publicações e encontram uma atividade que lhes dá prazer.”

O levantamento reforça um traço já conhecido entre os brasileiros: o vínculo entre leitura e escolaridade. Entre os entrevistados que estudam, o percentual de leitores é três vezes superior ao de não leitores (48% vs. 16%). Já entre aqueles que não estão na escola, a parcela de não leitores é cerca de 50% superior ao de leitores: 84% vs. 52%.

Outro indicador revela a queda do apreço do brasileiro pela leitura como hobby. Em 2007, ler era a quarta atividade mais apreciada no tempo livre; quatro anos depois, o hábito caiu para sétimo lugar. Antes, 36% declaravam enxergar a leitura como forma de lazer, parcela reduzida a 28%.

À frente dos livros, apareceram na sondagem assistir à TV (85% em 2011 vs. 77% em 2007), escutar música ou rádio (52% vs. 54%), descansar (51% vs. 50%), reunir-se com amigos e família (44% vs. 31%), assistir a vídeos/filmes em DVD (38% vs. 29%) e sair com amigos (34% vs. 33%). “No século XXI, o livro disputa o interesse dos cidadãos com uma série de entretenimentos que podem parecer mais sedutores. Ou despertamos o interesse pela leitura, ou perderemos a batalha”, diz Christine Castilho Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, que há 13 anos promove ações de incentivo a leitura.

Um levantamento recente do Ecofuturo revelou a influência das bibliotecas sobre os potenciais leitores. De acordo com o levantamento, estudantes de escolas próximas a bibliotecas comunitárias obtêm desempenho superior ao de alunos que frequentam regiões sem biblioteca. Nesses casos, o índice de aprovação chega a ser 156% superior, e a taxa de abandono cai até 46%. “Ainda temos uma desafio grande a ser enfrentado, já que grande parte das escolas da rede pública não contam com biblioteca.” Uma lei aprovada em 2010 obriga todas as escolas a ter uma biblioteca até 2020. Na época, o movimento independente Todos Pela Educação estimou que, para cumprir com a exigência, o país teria de erguer 24 bibliotecas por dia.

A pesquisa Retrato da Leitura no Brasil foi realizada entre 11 de junho e 3 de julho de 2011 e ouviu 5.012 pessoas, com idade superior a 5 anos de idade, em 315 municípios. A margem de erro é de 1,4 ponto percentual.

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