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David Copperfield, de Charles Dickens

Trecho do prefácio à edição de 1867 de David Copperfield, de Charles Dickens (edição Cosac & Naify, com tradução de José Rubens Siqueira):

Pouco interessaria ao leitor, talvez, saber como senti pena de deixar a caneta de lado ao encerrar uma tarefa imaginativa de dois anos; ou como um autor se sente ao lançar uma parte de si mesmo no mundo de sombras quando uma multidão de criaturas de sua cabeça sai dele para sempre. No entanto, eu nada mais tinha a dizer; a menos, de fato, que fosse confessar (o que pode ser ainda menos importante) que ninguém jamais poderá acreditar nesta narrativa, ao lê-la, mais do que eu acreditei ao escrevê-la.

Tão verdadeiros são esses sentimentos no presente que agora só posso fazer ao leitor mais uma confidência. De todos os meus livros, este é o de que gosto mais. É fácil acreditar que sou pai afetuoso de todos os filhos de minha fantasia, e que ninguém jamais amará essa família mais do que eu. Mas, assim como muitos pais afetuosos, tenho no fundo do meu coração um filho predileto. E seu nome é DAVID COPPERFIELD.

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“Dez (possíveis) razões para a tristeza do pensamento”, de George Steiner

Trecho do ensaio “Dez (possíveis) razões para a tristeza do pensamento”, de George Steiner, com tradução de José Rubens Siqueira. Foi publicado na revista Serrote n. 12:

“O pensamento é mais legível, menos encoberto, durante explosões de energia desencadeada, compacta. Como no medo e no ódio. Essas dinâmicas, particularmente no instante, são difíceis de falsificar, embora virtuoses de duplicidade e autocontrole consigam obter maior ou menor eficácia. Os animais com que convivemos mostram que nossos medos emitem um odor nítido. Talvez haja um odor de raiva. Se arrolarmos todos os níveis de impulsão cerebral e instintiva, o ódio pode ser o mais vívido e mais carregado dos gestos mentais. É mais forte, mais coeso que o amor (como Blake intuiu). Muitas vezes está muito mais próximo da verdade do que qualquer outra revelação do self. A outra classe de experimento de pensamento em que o véu se rompe é a do riso espontâneo. No instante em que ‘sacamos’ uma piada ou vemos o cômico por acaso, a mentalidade é desnudada. Momentaneamente, não há ‘interpretações’. Mas essa abertura para o mundo e para os outros é muito breve e tem a dinâmica do involuntário. Nesse aspecto, o sorriso é quase a antítese do riso. Shakespeare tinha um grande interesse no sorriso dos vilões.

“No geral, o escândalo permanece. Nenhuma luz final, nenhuma empatia amorosa desvenda o labirinto íntimo de outro ser humano. (Serão os gêmeos idênticos, com sua linguagem particular, verdadeiramente uma exceção?) Em última análise, o pensamento pode nos tornar estranhos uns aos outros. O amor mais intenso, talvez mais fraco que o ódio, é uma negociação, nunca conclusiva, entre solidões.

“Uma oitava razão para a tristeza.”

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