Arquivo da tag: jornal o globo

“Uma nova ordem no mercado editorial brasileiro” – André Miranda

Texto do jornalista André Miranda sobre o novo perfil do mercado editorial brasileiro. Publicado no jornal O Globo:

RIO – Em 2012, a nova realidade do mercado editorial brasileiro vai permitir que um autor seja representado por um agente baseado em Nova York, tenha seu original aprovado por um executivo morando em Portugal, assine um contrato com uma empresa da Espanha e seja imediatamente traduzido para uma editora na Inglaterra. Com a iminente chegada de um gigante da venda de livros virtuais, a nova realidade do mercado pode permitir, ainda, que a obra daquele autor seja lida com facilidade em qualquer canto do país, com um simples toque num botão de um tal Kindle.

Como tem sido repetido por aí em outras áreas, o Brasil também se tornou a “bola da vez” nos livros. A última etapa desse movimento foi o anúncio, na última semana, de que a jornalista Luciana Villas-Boas deixará o poderoso cargo de diretora editorial do Grupo Record, um dos maiores do país, para se dedicar a uma nova agência literária, chamada Villas-Boas & Moss. Hoje, o mercado brasileiro conta apenas com uma agência de relevância para livros estrangeiros e nacionais, a Agência Riff, cujos autores incluem Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft e Zuenir Ventura.

— Não fazia sentido o Brasil ainda estar desprovido de mais agências — afirma Lucia Riff, fundadora da Agência Riff. — O fato é que as editoras brasileiras estão mais sólidas, com expectativa de crescimento. A estabilidade da economia, o edital da Biblioteca Nacional de apoio a traduções e o surgimento dos e-books favorecem o mercado. É curioso que, enquanto vemos uma Europa em crise, aqui temos uma meta a ser alcançada para os livros. Temos um público a conquistar, diferentemente de outros países.

Luciana Villas-Boas, por sua vez, prefere não revelar ainda quem serão os autores de sua agência (leia entrevista na página 2), mas é praticamente certo que Edney Silvestre, Alberto Mussa, Francisco Azevedo e Rafael Cardoso, todos escritores publicados pela Record, estarão entre eles. Ela admite que o bom momento do setor pesou em sua decisão de montar a empresa, mas faz um alerta quanto a comentários nacionalistas que vem ouvindo sobre o investimento de grupos estrangeiros no Brasil:

— O impacto de uma internacionalização da indústria brasileira do livro é positivo para aumentar a profissionalização das relações. Nos EUA, a maior parte da indústria editorial já está completamente desnacionalizada. Há poucas editoras de peso que não foram compradas por grupos estrangeiros. Isso não afeta a literatura americana — diz.

Editoras preparam reestruturação

A nova agente literária se refere às aquisições recentes de editoras brasileiras por grupos estrangeiros. No ano passado, a editora portuguesa Leya, que tem operações no Brasil desde setembro de 2009, comprou 59% das ações da editora carioca Casa da Palavra e ainda passou a cuidar dos lançamentos das obras da Barba Negra, empresa especializada em quadrinhos.

Em dezembro, a principal notícia que surpreendeu o mercado, porém, foi a compra de 45% das ações da Companhia das Letras pelo grupo britânico Penguin, num negócio que pode ter ficado na casa dos R$ 50 milhões. A própria Record, onde Luciana vai se manter como diretora até 31 de março, já sofreu investidas de editoras estrangeiras.

— Eu coloco várias condições para começar uma conversa. Quero saber qual o grau de interesse em comprar a empresa e se será um processo que vai somar. Já houve interesse, mas nunca percebi solidez nas ofertas — afirma Sergio Machado, presidente do Grupo Record. — Acontece que, hoje, qualquer analista internacional que esteja pensando estrategicamente no segmento editorial precisa ter um plano-Brasil. Se eles não estiverem dispostos a entender os ideogramas chineses ou o alfabeto russo, o Brasil é o país que apresenta as melhores opções para o mercado. A questão é que o crescimento da renda da classe média brasileira e as melhorias da educação têm começado a dar resultado no aumento do consumo de livros.

Os sinais de mudança, porém, não estão apenas nas boas relações sendo firmadas entre o mercado editorial do Brasil com o exterior. Por aqui, chamam atenção o fortalecimento de editoras jovens, como a Novo Conceito e a Intrínseca, e a reestruturação de antigas. Assim como aconteceu com a Record, a Objetiva — que, aliás, teve 75% de suas ações compradas pelo grupo espanhol Prisa-Santillana em 2005 — perdeu sua diretora editorial, Isa Pessoa, no fim do ano passado. Ela está na Itália e voltará a atuar no mercado em fevereiro de forma ainda não anunciada. Ambas as companhias estão fazendo reformulações e devem dividir as antigas funções de direção editorial entre mais de um profissional.

Na Companhia das Letras, as novidades vão além. Agora com quatro publishers respondendo a Luiz Schwarcz, a empresa planeja novas frentes editoriais para este ano, sobretudo nos ramos dos livros digitais e nos didáticos, e está reestruturando seu departamento de marketing. Já a Ediouro contratou em setembro Sandra Espilotro, ex-Globo Livros, para dar foco na prospecção internacional dos negócios.

— Sou casado com uma historiadora, então acho que as mudanças não acontecem de uma hora para outra. Nos últimos anos, surgiram novos participantes, novas empresas, algumas estrangeiras, outras nacionais. É um sinal de força que vem se construindo — afirma Schwarcz. — Já faz tempo, por exemplo, que o mercado brasileiro é um importante comprador de direitos. Compramos royalties em valores bastante altos e estamos na prioridade dos agentes literários.

Todos esses investimentos ocorrem, ainda, em meio às especulações sobre o início da operação da livraria virtual Amazon, líder em vendas no mundo, no Brasil. No início deste ano, a empresa americana contratou Mauro Widman, ex-executivo da Livraria Cultura, como seu gerente de vendas para o Kindle. A Amazon já vem negociando com as editoras brasileiras há meses, mas o entrave tem sido o preço: a companhia teria pedido descontos de mais de 60% na venda de livros para lançar o serviço, o que desagradou as casas nacionais. Porém, recentemente a Amazon cedeu a percentuais menores, com a intenção de lançar seus serviços em até seis meses.

Venda de e-books ainda é insignificante

A Amazon também estuda como fará para vender seu leitor de e-books, o Kindle, no país. Hoje, o aparelho só pode ser importado de seu site internacional, mas a empresa estuda até fabricá-lo no Brasil. Se os acordos se concretizarem, o Kindle pode representar o maior incentivo até o momento para a popularização dos e-books — apesar do investimento recente das editoras e de livrarias como a Cultura e a Saraiva, a venda de livros virtuais ainda é quase insignificante frente a de obras físicas.

— A Amazon vai chegar, e a tendência é que os tablets como o Kindle comecem a ficar acessíveis ao grande público. A partir daí o mercado de e-books vai existir — afirma Pascoal Soto, diretor editorial da Leya no Brasil. — Antes mesmo desse período de vacas gordas da economia, o setor dos livros no Brasil já era atraente para o mundo. As pessoas começaram a perceber que existe um país interessantíssimo além do carnaval e do futebol.

1 comentário

Arquivado em Mercado editorial

Prêmio Faz Diferença 2011

Reproduzido do site do jornal O Globo:

Ítalo Moriconi

Suzana Velasco – suzana.velasco@oglobo.com.br

O trabalho de Italo Moriconi na Bienal do Livro – ele foi curador do Café Literário pela segunda vez – foi mais um dos esforços desse professor de literatura brasileira da Uerj em empreender uma mediação entre universidade, autores, grande público e mercado.

– Minha preocupação era garantir um lugar para a literatura brasileira, pôr em contato com o público uma geração muito ativa nos últimos 15 anos. É a concretização de um perfil que venho construindo há muito tempo – diz Moriconi.

Um dos momentos cruciais nessa construção foi a organização, no início dos anos 2000, de duas coletâneas para a editora Objetiva, em que o crítico selecionou os cem melhores contos e os cem melhores poemas do século XX. Sucesso de público, o projeto – que não escapou de críticas no meio universitário – foi, para Moriconi, o primeiro passo para romper as barreiras da academia.

– Atravessei os muros da universidade na organização desses livros, tendo contato com a nova realidade do mercado. Já estava cansado de ficar só no cânone das obras universitárias – diz ele, cujos projetos de pesquisa sempre se relacionaram à prosa e à poesia contemporâneas. – Quero pensar como o conhecimento acadêmico pode interagir com os movimentos literários contemporâneos.

Outro passo importante nessa trajetória foi assumir, em 2008, a direção da editora da Uerj. O objetivo de Moriconi é atingir o mercado do livro universitário – que no exterior é em grande parte abastecido pelas editoras ligadas a essas instituições. Pela EdUerj, ele organizou a coleção Ciranda da Poesia, dedicada à crítica da produção contemporânea, sempre acompanhada de uma antologia de poemas do autor em questão. Para ele, essa é uma forma de o leitor se familiarizar com uma linguagem com a qual nem sempre tem intimidade. Em abril e maio, a coleção publicará poetas estrangeiros.

A pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, editora da Aeroplano – que publicou uma seleção de cartas de Caio Fernando Abreu feita por Moriconi -, ressalta a qualidade do crítico de correr riscos.

– Ele sempre mostrou uma curiosidade enorme pelo contemporâneo e pelos assuntos que a academia considera menores. Mas a História já demonstrou que as formações discursivas emergentes vão se consolidar como as novas séries literárias bem mais rápido do que se pensa. E o Italo trabalha muito bem essa zona de risco – diz Heloisa.

O professor e poeta lembra que hoje as universidades são muito mais abertas à pesquisa sobre a produção literária contemporânea, citando a Uerj e a PUC-Rio, além de núcleos em Minas Gerais e Brasília. Mas ainda vê outras possibilidades no futuro:

– Em certo sentido, a separação entre Letras e Comunicação foi ruim para o estudo da literatura contemporânea. Estou preocupado com a formação de quadros para o novo tipo de comunicação dos blogs, da internet, e com a redefinição do jornalismo impresso. A faculdade de Letras pode contribuir para isso.

Este ano, Moriconi participa da comissão de seleção de 20 escritores para o primeiro número da prestigiada revista americana “Granta” dedicado à literatura contemporânea nacional. Editado pela Objetiva, “Os melhores jovens autores brasileiros” será lançado em julho, durante a décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty.

Deixe um comentário

Arquivado em Prêmio

“Após 40 anos, livraria Camões anuncia fim das atividades”

Matéria publicada no jornal O Globo [via Luciana Salles]:

RIO – São apenas 75 metros quadrados, mas suficientes para abrigar Portugal. Ou, pelo menos, uma parte representativa de Portugal. É a Livraria Camões, no Shopping Avenida Central, no Centro do Rio, aberta em novembro de 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa.

Agora, quase 40 anos depois, ela vai fechar as portas no dia 31. O anúncio vem mobilizando intelectuais no Brasil e em Portugal, que, por meio do Facebook (com a comunidade “A Livraria Camões é patrimônio do Rio de Janeiro”), do YouTube e de um abaixo-assinado, lutam para impedir a decisão.

Perplexidade em Portugal

Escritores como Maria Teresa Horta, Manuel Alegre e José Manuel Mendes criticam o “ato deplorável” que atinge “o valor estratégico que é a difusão da língua e cultura portuguesas”. O secretário-geral do Partido Socialista português, António Jose Seguro, demonstrou “perplexidade”. O partido, por sua vez, insurgiu-se contra a medida na Assembleia da República.

Gerente da livraria, José Estrela foi comunicado da determinação no dia 6 por uma carta assinada por Estêvão de Moura, presidente da Imprensa Nacional (INCM), editora que mantém a Camões.

— Estou vivendo minha segunda viuvez — lamenta Estrela, que há 25 anos perdeu a mulher num acidente de carro. — Mas jamais imaginaria que tanta gente admirasse o trabalho que fiz nesses 40 anos. Tenho recebido mensagens de carinho de todas as partes. Isso me dá uma alegria que paga todo o sofrimento que eu possa ter agora.

Na carta, Estêvão de Moura diz que a “evolução tecnológica, social e cultural verificada ao longo deste tempo, com especial evidência nas duas últimas décadas, fez evoluir o contexto em que se inscreve a missão com que a Livraria Camões foi inicialmente constituída”. Além disso, os obstáculos “associados ao transporte e comercialização de livros e a representação da INCM numa única livraria no vasto território brasileiro limitaram fortemente a divulgação das nossas obras no Brasil e comprometeram irremediavelmente a situação econômico-financeira” da Camões.

À agência Lusa, o diretor de marketing estratégico da INCM, Alcides Gama, acrescentou que hoje é possível para a livraria prestar o mesmo serviço, de forma mais eficaz, por meio das novas tecnologias. A professora Gilda Santos, da UFRJ, rebate:

— Nosso pasmo é que, enquanto as editoras Leya e Babel estão entrando com toda força no Brasil, a Imprensa Nacional diz que a Camões está obsoleta. Por que então não a transformam num centro de encomendas via internet? Por que não manter o espaço e reinventar formas de o dinamizar?

Maior especialista em literatura portuguesa do país, a acadêmica Cleonice Berardinelli escreveu para Estêvão lamentando o fechamento do “último reduto, no Rio, da aquisição de livros de Portugal” e buscando a possibilidade de se revogar “tão drástica decisão”.

Acordo cultural

A Camões foi aberta como parte de um acordo cultural entre os dois países. De lá para cá, virou ponto de referência.

— Chegamos a ter 114 editoras portuguesas representadas. Ela é o pedacinho de Portugal mais perto dos brasileiros. É aqui que se viam as produções mais recentes, que as pessoas bebiam as novidades — diz Estrela. — Importamos dois milhões de livros portugueses. E, somente de 1984 a 1986, vendemos 200 mil exemplares. Ela é pequena, mas era daqui que atingíamos o Brasil inteiro.

Estrela percorreu todos os estados com os vendedores.

— Saíamos de ônibus e andávamos horas até, por exemplo, Belém do Pará. Chegávamos de madrugada e tínhamos que esperar o comércio abrir. Dormíamos nas estações rodoviárias com as malas amarradas às pernas para ninguém levar.

Essa espécie de pequena Portugal era palco de lançamentos de autores como Lídia Jorge e Augustina Bessa. Foi lá que a sobrinha-neta de Ofélia, namorada de Fernando Pessoa, lançou “Cartas de amor”, do poeta.

— Foi aqui que José Saramago lançou seu primeiro livro no Brasil — lembra Estrela, nascido na aldeia de Pardilhó, no distrito português de Aveiro.

No Facebook, a ensaísta, crítica literária e professora portuguesa Maria Alzira Seixo lembra o que Saramago dizia do gerente: “O Estrela é Portugal no Brasil. Instiga os brasileiros a comprarem os nossos livros — mas a nós, que sabe que os lemos e temos, quer é nos mostrar a maravilha que é o Brasil. Este homem é um achado, um grande divulgador da cultura portuguesa através do livro, e um cultor das relações Portugal-Brasil.”

Nos últimos tempos, a Camões vinha enfrentando prejuízos. Em 2011, ela não importou um único livro.

— Lisboa não mandava — explica ele. — As vendas então caíram muito.

De cinco anos para cá, o que era comercializado não dava para pagar as despesas de 35 mil mensais. Os 18 empregados diminuíram para cinco.

Com o iminente fechamento, ele ainda não sabe o que fazer.

— Vou viver meus últimos anos. Talvez continue com livros — diz, aos 76 anos.

Sobre os livros da Camões, vai vendê-los “para quem quiser” comprar, sejam particulares, bibliotecas, livrarias ou universidades.

Deixe um comentário

Arquivado em Notícia