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“O Senhor Cogito e a imaginação”, de Zbigniew Herbert

 

1.

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialética

as selvas de quadros convulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é um pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha reta
a atração exercida pela terra

 

2.

o Senhor Cogito será arrumado
na categoria minores

acolherá com indiferença o veredito
dos homens de letras

utilizava a imaginação
para outros fins
queria fazer dela
um instrumento de compaixão

desejava compreender a fundo

– a noite de Pascal
– a natureza do diamante
– a melancolia dos profetas
– a cólera de Aquiles
– a loucura dos assassinos em massa
– os sonhos de Maria Stuart
– o medo neandertaliano
– o desespero dos últimos Aztecas
– a longa agonia de Nietzsche
– a alegria do pintor de Lascaux
– a ascensão e a queda do carvalho
– a ascensão e a queda de Roma

de forma a ressuscitar os mortos
e a manter a aliança

a imaginação do Senhor Cogito
segue um movimento pendular

passa com precisão
de sofrimento para sofrimento

não tem lugar
para fogos de artifício poéticos

o Senhor Cogito quer permanecer fiel
a uma incerta claridade

 

[Escolhido pelas estrelas, Tradução de Jorge Sousa Braga,
Lisboa, Assírio & Alvim]

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“Porquê ler os clássicos”, de Zbigniew Herbert

 

1.

no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colônia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

 

2.

os generais das guerras mais recentes
se algo de semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

 

3.

se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

 

Do livro Escolhido pelas estrelas, antologia poética, de Zbigniew Herbert
Tradução de Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim

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“Jonas”, de Zbigniew Herbert

E Deus fez que aparecesse um grande peixe que engoliu Jonas

Jonas filho de Amitai
fugindo de uma missão perigosa
embarcou num navio que se dirigia
de Jopa para Tarquish

toda a gente conhece o que aconteceu depois
um tufão uma tempestade
a tripulação atira Jonas ao abismo
o mar de súbito fica calmo
o peixe previsto aproxima-se nadando
durante três dias e três noites
Jonas reza nas entrenhas do peixe
que por fim o vomita na terra seca

o Jonas moderno
afunda-se como uma pedra
se encontra uma baleia
nem tempo tem de suspirar

uma vez salvo
age com mais astúcia
que o seu colega bíblico
não volta a envolver-se
em missões perigosas
deixa crescer a barba

e longe do mar
longe de Nínive
sob um nome falso
lança-se no comércio
de gado e antiguidades

os agentes de Leviatã
são venais
não têm o sentido do destino
são funcionários da fortuna

num hospital limpo
Jonas morre de cancro
sem mesmo ele saber
quem era na realidade

a parabólica
aplicada na sua cabeça
expira
e o bálsamo da lenda
não se agarra à sua carne

(Escolhido pelas estrela. Tradução de Jorge Sousa Braga. Lisboa: Assírio & Alvim)

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“Escolhido pelas estrelas”, de Zbigniew Herbert

 

Ele não é um anjo
é um poeta

não tem asas
tem apenas a mão
direita coberta de penas

agita o ar com ela
levita durante três segundos
e cai de seguida

quando está quase pousado
ganha de novo impulso com as pernas
paira por um instante
agitando a mão coberta de penas

oh se só ele pudesse vencer a atração
da terra
poderia viver num ninho de estrelas
poderia saltar de raio em raio
poderia –

mas as estrelas
à simples ideia
de serem a sua terra
quase morrem de medo

o poeta cobre os olhos
com a mão coberta de penas
não sonha mais com voar
sonha com uma queda
aquela que como um relâmpago desenha
o perfil do infinito

Escolhido pelas estrelas. Tradução de Jorge Sousa Braga. Lisboa: Assírio & Alvim

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