
Texto de Kelvin Falcão Klein para o blog da Cosac:
Introdução aos estudos literários, que Erich Auerbach escreve em francês, durante a II Guerra, em seu exílio na Turquia, é um livro que impressiona por conta de dois fatores que raramente vão juntos: a vastidão e complexidade de seu conteúdo e a clareza e objetividade de sua exposição. Auerbach vai da cultura greco-romana a Marcel Proust num único fôlego, mas o faz pacientemente, salientando pontos de contato, frisando aspectos técnicos, da formação de palavras a partir do latim vulgar até o encontro entre arte e sociedade durante a “civilização burguesa”. Assim como em A novela no início do Renascimento, nessa Introdução Auerbach nunca fala “apenas” de literatura, mas de um contexto cultural de apoio que pode ser definido em quatro esferas: a esfera divina (práticas e discursos da religiosidade), a esfera terrena (práticas, discursos e condutas referentes à convivência em comunidade), a esfera da técnica (uso, transmissão e transformação da linguagem) e, finalmente, a da sociedade (aspectos econômicos e históricos considerados na passagem do tempo).
As quatro esferas estão em constante contato e permutação, e é precisamente essa dinâmica de relacionamento que Auerbach se propõe a esclarecer. Nesse ponto é possível perceber, na argumentação do autor, a importância do conhecimento íntimo dos textos literários da tradição ocidental – pois é esse conhecimento que permite a seleção e o ajuste dos melhores exemplos para cada situação. Introdução aos estudos literários apresenta um fluxo argumentativo coeso e teleológico – da Idade Média ao século XIX – , reforçado e enriquecido por uma série de “estudos de caso”. No que diz respeito ao seu livro anterior, A novela no início do Renascimento, título que marca sua estreia na crítica literária, o foco está restrito ao Decameron de Giovanni Boccaccio; mas na Introdução, por outro lado, vemos Auerbach buscar cenas de análise em autores como Goethe, Racine, Cervantes e Camões (método que alcança seu ápice em Mimesis).
Em geral, cada caso leva a uma reflexão referente tanto à condição específica de produção de tal texto quanto ao contexto posterior, ou seja, um trajeto histórico de leitura e interpretação dentro do qual Auerbach é o último elemento. Sobre a Canção de Rolando – um poema épico francês do século XI –, por exemplo, Auerbach fala do desnível de intenções e percepções que existe entre o período histórico retratado no poema (uma batalha dos exércitos de Carlos Magno ocorrida em agosto de 778) e o período em que foi escrito, auge das Cruzadas. A expedição de 778, escreve ele, foi enviada “não contra os muçulmanos, mas contra os bascos cristãos que assaltaram a retaguarda dos francos”, “não foi, de modo algum, uma espécie de Cruzada tal como a pinta a Canção de Rolando; Carlos Magno manteve excelentes relações com os príncipes muçulmanos, e a ideia da guerra santa contra os infiéis não é de seu tempo”. E conclui: “a Canção de Rolando introduz, na história dos séculos passados, o espírito de sua própria época, o espírito da época das Cruzadas; ele narra uma história antiga, mas com os costumes e as concepções de seu próprio tempo”.
Com isso, Auerbach mostra que toda tática de escritura pode levar, potencialmente, a uma ampla gama de táticas de leitura – mais ou menos atentas aos processos velados de configuração do sentido. Trata-se, portanto, de um procedimento de leitura crítica que permita a exploração das camadas temporais que constituem todo texto literário, que às vezes miram o passado, mas revelam, no processo, muito mais sobre o presente que ainda lhes é invisível.
*Kelvin Falcão Klein é crítico, autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve em falcaoklein.blogspot.com.br
