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Dois poemas de Eucanaã Ferraz

Publicados no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo:

 

Eucanaã 1

 

Eucanaã 2

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“Em defesa da sociedade” – Renato Sérgio de Lima

Mais um, agora de Renato Sérgio de Lima, publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo de 23 de junho de 2013:

A forma como governos e forças policiais reagiram à onda de manifestações sociais, com mais de 1 milhão de pessoas protestando nas ruas do país, é evidência cabal não só da falência do atual modelo de segurança pública brasileiro mas, infelizmente e de modo preocupante, da fragilidade das instituições democráticas no Brasil.

As polícias brasileiras, à semelhança do que ocorre na Turquia e em outras partes do mundo, estão estruturadas a partir da lógica de defesa dos interesses do Estado e não sabem lidar com a defesa dos interesses da sociedade, ainda mais quando diferentes direitos são contrapostos e elas são chamadas para administrar conflitos.

O país foi tomado por um forte sentimento difuso de insatisfação e, em não existindo uma doutrina nacional de uso da força que balize governos e polícias sobre como atuar para geri-lo, não há certeza sobre como e quando devem agir.

E isso é ainda mais grave quando as manifestações começam a dar pistas de que esta insatisfação difusa vem associada ao crescimento do desprezo pela política e pelas instituições, como na repulsa a governos e partidos, ou ao desrespeito às diferenças.

Os governos ficaram atônitos, e o efeito é que há um desproporcional (para mais e para menos) emprego dos recursos de força hoje disponíveis, que paradoxalmente foram modernizados por pesados investimentos em tecnologia e gestão feitos nos últimos 20 anos.

Numa análise jurídica do atual quadro do país, nota-se que segurança pública é um conceito frouxamente formulado e recepcionado na legislação e nas normas que regulam o funcionamento das instituições encarregadas de garantir direitos, ordem e tranquilidade.

Não existe projeto político dos governos para a área, e o debate sobre segurança pública ficou restrito a quem responde melhor aos dramas da opinião pública e investe mais em armas e viaturas. E, em segurança pública, prioridade política não se traduz apenas em mais recursos financeiros.

Slogans são criados e investimentos são feitos, mas sem discutir os ruídos, no pacto federativo, do modelo bipartido de organização policial (civil e militar), do papel desempenhado pelas Polícias Civil, Militar e Federal; pelo Ministério Público; e pelos Três Poderes.

Na incapacidade de definir um protocolo transparente de intervenção, os governos abrem margem para a violência eclodir e fortalecem a tendência de homogeneização do comportamento de organizações de um mesmo campo.

Esta tendência é chamada de isomorfismo, entendido como um processo de constrangimento organizacional que, sob as mesmas condições, força as organizações à assemelharem-se a organizações que reconhecem como referência.

Uma das forças desse isomorfismo é a incerteza. Quando as organizações são pouco transparentes, seus objetivos são ambíguos ou o ambiente social gera incertezas simbólicas, as polícias tendem a incorporar soluções adotadas por essas outras organizações. No caso das PMs, as soluções encontradas ainda estão sob forte identidade das Forças Armadas. Mesmo reconhecendo o esforço, nas últimas décadas, para mudar padrões, por trás das balas de borracha e do tratamento de busca e captura de manifestantes há a ideia de que existe um inimigo.

Isso não é exclusividade das polícias militares. O enquadramento dos manifestantes no crime de “formação de quadrilha” é outro exemplo de que estamos despreparados para administrar conflitos, pois ele repete o tratamento penalizante dispensado ao crime organizado.

Por maior que seja a disposição de segmentos importantes das forças policiais para se adaptarem à ordem democrática, a falta de prioridade política e a força do isomorfismo das organizações impedem que mudanças significativas ocorram sem envolvimento da sociedade.

Ou radicalizamos na transformação das instituições responsáveis por prover segurança pública ou continuaremos reféns das crises e das eclosões de violência. A violência e a insatisfação que surgem das manifestações e da forma como governos e polícias a ela reagem são sintomas de profundo mal-estar da sociedade com o modelo de organização do Estado. Ou compreendemos esse mal-estar e saímos da zona de conforto do senso comum e do cálculo eleitoral ou corremos riscos de retrocesso institucional. As conquistas sociais são fundamentais, mas não são suficientes para mudar o país.

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“Letras em números”, de Luís Augusto Fischer

Texto sobre a revista Granta dedicada a jovens autores brasileiros. Foi publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo de 2 de setembro de 2012:

RESUMO Numa análise quantitativa e comparativa com duas antologias publicadas na década passada, a seleção da “Granta” permite identificar mudanças no cenário literário brasileiro. Entre elas, mais autores nascidos nas metrópoles e mais enredos autorreferentes -terá o leitor mais interesse hoje na vida dos escritores?

Fez bastante barulho a antologia “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros”, da revista britânica “Granta”, lançada em julho pelo selo Alfaguara. A repercussão foi pesada a ponto de Francisco Bosco, no jornal “O Globo”, ter armado uma defesa da existência de antologias. Aqui na Folha, Marcelo Coelho percebeu novidades num relance: saíram de cena os pobres e os desajustados, assim como a prosa regionalista viciosa, dando lugar a personagens requintados, vivendo experiências na Europa.

A recepção crítica demonstra a força da iniciativa, que merece ainda outra apreciação, que busque detectar tendências de conjunto.

O júri tinha só leitores hábeis: Beatriz Bracher, Cristovão Tezza, Samuel Titan Jr., Manuel da Costa Pinto, Italo Moriconi, Benjamin Moser e Marcelo Ferroni, editor. Vamos contar com o pressuposto elementar de que elegeram o melhor entre os possíveis, sem pressão de qualquer outra natureza.

Por isso, vamos tomar a seleção como representativa do quadro atual no Brasil. Foram 247 inscrições, das quais saíram os 20 publicados; apresentaram-se candidatos de 17 Estados brasileiros, além de quatro que vivem fora do país, mas aqui nascidos.

Pelos currículos, vê-se que os selecionados nasceram entre as classes confortáveis e vivem como escritores, editores, colunistas, críticos, tradutores, roteiristas -em suma, gente do meio letrado, em larguíssima maioria.

Pode-se perceber também uma outra similaridade: dos 20, apenas um não publicou por (nem trabalha para) editora carioca ou paulista, mesmo que alguns tenham estreado em editoras de outros Estados. Nada mais eloquente em matéria de concentração espacial: um filtro invisível opera o tempo todo na seleção.

Essa seleção brasileira sub-40 tem dominâncias. Muitos dos autores têm de fato sólida vivência do exterior, na condição de estudantes ou por laços familiares. Há três filhos de imigrantes que vieram ao Brasil no ciclo das ditaduras militares recentes, matéria explícita de três dos contos; isso é praticamente tudo que há de política no volume.

Aliás, em 60% dos contos da “Granta” há, no centro do enredo, relações entre filhos e pais, talvez uma marca de geração e de classe. Em 55%, aparecem citações ou alusões “cult” (a mais notória é a reiteração da palavra alemã “Weltanschauung”, visão de mundo, no texto de Luísa Geisler), a dar conta do registro letrado em que operam.

Na mão inversa, não há empenho em aproximar do escrito as modalidades de fala popular.

INTERNET Pela idade, é gente que na infância ou na adolescência passou a conviver com o computador e a internet; não estava ainda na universidade quando a URSS encerrou sua vida e Fernando Collor foi eleito, marcas ambas da enorme abertura de mercados experimentada mundo afora; aprendeu o sexo já com a sombra da Aids; terá sido assaltada uma ou mais vezes na rotina das cidades brasileiras.

Quanto à qualidade estética, bem: para este leitor aqui, dos 20, uns cinco ou seis pegariam titularidade pelo texto apresentado na antologia -pela ordem na publicação, Michel Laub, Daniel Galera, Antonio Prata, Julián Fuks, Leandro Sarmatz. Alguns não comprometem, mas não têm força.

E há contos com inconsistências mais e menos grosseiras, como anacronismos (Antônio Xerxenesky supõe consumo de maconha como comum no início dos anos 60), cosmopolitismo “à outrance” (Laura Erber, pelo exótico chique, e Luísa Geisler, pelo deslumbramento), erro factual puro e simples (Vinícius Jatobá, num texto verista, pôs pombas pousadas em fios de luz), além de clichês sobre a rotina da classe média trivial (Vanessa Barbara), sobre realismo mágico (Cristhiano Aguiar) e até sobre o Rio (Tatiana Levy, uma caricatura de si mesma).

A antologia rende mais. Como um exercício à moda de Franco Moretti, o criativo teórico italiano que tem posto em relevo modalidades de análise quantitativa da literatura (como em “A Literatura Vista de Longe”, ed. Arquipélago), comparamos três antologias de grande impacto na opinião pública, em anos recentes.

Além da “Granta”, com seus 20 autores, entraram na conta outras duas: “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, organizada pelo mesmo Italo Moriconi (Objetiva, 2000), e “Geração 90: Manuscritos de Computador”, com organização de Nelson de Oliveira (Boitempo Editorial, 2001).

Da primeira, foi considerada a última seção, “Anos 90: Estranhos e Intrusos”, que contém um total de 17 contos, de 17 diferentes autores. A segunda compilou textos de 17 autores, em número desigual de contos para cada um.

Primeiro, vamos ver traços da vida dos autores. O grupo de escritores da “Granta” é o mais metropolitano dos três, com 90% de nascidos em capitais, enquanto o “Geração 90” é o mais marcado pela presença de gente nascida no interior (41%) -mas, ao mesmo tempo, é o único conjunto sem ninguém nascido fora do Brasil.

Em nenhuma das três antologias há alguém nascido no Centro-Oeste ou no Norte. A tendência notável é de concentração na região Sudeste (64% na antologia de “Os Cem Melhores”, 59% na “Geração 90”, 50% em “Granta”).

Chama a atenção, nesta última, a presença forte de gaúchos (25%, ou 30%, se considerarmos Daniel Galera, nascido em São Paulo, mas criado em Porto Alegre,) e a ausência de mineiros, um daqueles silêncios eloquentes, sabendo todos da longa tradição de Minas na revelação de levas de escritores.

A “Granta” dá mostras do avanço da luta feminista: há 30% de mulheres no grupo, contra 12% e 6%, respectivamente, nas duas antologias anteriores.

Contando pela idade dominante dos grupos, considerado o ano do lançamento de cada coletânea como critério, em “Os Cem Melhores” havia 63% com mais de 55 anos, plena maturidade, contra os 100% com até 45 anos no “Geração 90”, enquanto na “Granta” todos estão, pelas regras da publicação, abaixo dos 40 anos -mas, atenção, 65% deles acima dos 30.

PROCEDIMENTOS Agora vejamos o material mais interessante, os dados colhidos nos enredos e nos procedimentos narrativos.

Entre 20 contos da “Granta”, seis ou sete podem ser enquadrados no campo da autoficção, esta espécie de onda que se pode definir pelo aproveitamento ficcional de dados empíricos reais da vida do autor (o exemplo mais notável no país é o romance “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza).

Onze deles têm narradores em primeira pessoa, testemunhais, e em 15 contos predomina o tempo presente nas ações (mas há dois contos situados no futuro imediato, daqui a um par de anos).

Esses dados, que botam luz no “eu” mais do que em um “outro”, ficam realçados quando se constata que nada menos de 50% dos contos apresentam personagens escritores, marca clara deste tempo -na antologia de “Os Cem Melhores”, nenhum dos enredos era assim autorreferente, e, na “Geração 90”, apenas 18% das histórias envolviam personagens escritores.

O leitor terá de fato mais interesse hoje que há dez anos na vida dos escritores, nessa proporção?

Numa contagem de incidências do cenário rural em contraste com o urbano, acentua-se levemente na “Granta” uma tendência das outras duas antologias: agora, 95% dos enredos têm como cenário a cidade (em “Os Cem Melhores” esse número era de 88%, no “Geração 90”, de 94%).

Mas a “Granta” se afasta de outra curva regular: nela, 90% dos personagens relevantes se encontram nas classes confortáveis (da classe média-média para cima, gente que não passa por apertos significativos de vida). Na antologia de Moriconi, a divisão era bem outra: 59% de gente confortável; na antologia de Nelson de Oliveira, apenas e tão somente 35%, a maioria sendo de gente das classes carentes.

Em contrapartida, a “Granta” ostenta, em 55% dos contos, cenas passadas fora do Brasil. Isso representa uma mudança de impacto, na tradição local: em “Os Cem Melhores”, apenas 18% das histórias tratam do mundo não brasileiro, e no “Geração 90” simplesmente não aparece o exterior, sendo esta a mais rente à matéria direta da vida local, com autores empenhados na indagação sobre as mazelas sociais, como Luiz Ruffato, Rubens Figueiredo e Marçal Aquino.

COSMOPOLITIZANTE Na literatura brasileira, valerá lembrar que o maior, Machado de Assis, nunca concebeu cenas relevantes passadas fora do Brasil.

Erico Verissimo desenvolveu dois romances no exterior, e na geração seguinte isso se tornou menos raro, com Moacyr Scliar, João Ubaldo, Ignácio de Loyola, Caio Fernando Abreu. Em anos bem recentes, o exterior ganhou as manchetes, os títulos: João Gilberto Noll publicou “Berkeley em Bellaggio”; Bernardo Carvalho, “Mongólia”; Chico Buarque, “Budapeste”.

A “Granta” parece ter fotografado um momento cosmopolitizante, antipovo e autorreferente, na geração mais nova, que surfa num mercado muito mais maduro do que jamais foi, em todos os níveis, na renda, nos circuitos de difusão, no consenso da importância da leitura.

Olhando panoramicamente, duas linhas se mostram. Uma convergente: a economia brasileira de fato se volta para fora, como um “global player”, e a nova geração se afina com isso. Outra divergente: a nação segue chafurdada em mazelas, como por exemplo a corrupção sistêmica, para não mencionar as enormes desigualdades sociais já quase invisíveis de tão antigas, mas a nova geração parece passar ao largo disso.

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Três poemas de Antonio Cicero

Estes poemas de Antonio Cicero foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, a 24 de junho:

DESEJO

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
enfrentando um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

 

VALEU

Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.

 

APARÊNCIAS

Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes e arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais revelassem
mais eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.

SOBRE OS POEMAS Os textos inéditos aqui publicados pertencem à coletânea “Porventura”, que Antonio Cicero lança em julho, pela editora Record.

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