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“Milagres do povo” – Caetano Veloso

No dia 22 de abril, a história pode ser cantada e contada por Caetano Veloso [via Chico Alencar]:

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“Brasil: uma biografia”, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa M. Starling

Extraído do blog da Companhia das Letras:

No começo de maio, a Companhia das Letras lança Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Com acesso a documentação inédita e vasta pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país. Nessa viagem de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais.

Inaugurando esta nova seção no blog, que apresentará com mais profundidade os futuros lançamentos da editora, entrevistamos Lilia e Heloisa sobre o livro, que já está em pré-venda. Leia o que elas dizem sobre o método escolhido, o recorte temporal, as inspirações e afiliações na historiografia e a necessidade de uma nova obra acessível ao público geral sobre a história do Brasil.

Por que fazer uma nova história geral do Brasil em 2015?

Existem muito boas histórias gerais do Brasil, mas poucas delas, arriscamos dizer, carregam as características que queremos perseguir nesse livro, como um todo.

Em primeiro lugar, mais do que apenas cronológico, o livro sustenta um argumento geral. Procura entender como o caminho para a democracia foi difícil e singular num país marcado pelo sistema escravocrata. Aliás, é bom lembrar que o Brasil contou com o mais duradouro sistema escravista da era moderna; aquele que absorveu a maior diáspora compulsória de africanos, e o único que tomou o território todo. Isso sem esquecer que o país foi o último a abolir a escravidão e sente suas consequências até hoje nas práticas clientelísticas, nos paternalismos, no preconceito ao trabalho, na corrupção interna.

Também cabe insistir em outra marca que encontramos no caminho e decidimos sublinhar. Ao longo da nossa história, a palavra liberdade foi expressa em épocas diferentes nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes personagens. Compreender o poder da palavra liberdade e o modo como ela se manifesta na origem dos caminhos da democracia brasileira ajuda a entender a longa jornada das lutas sociais do povo brasileiro. A democracia é hoje um dos mais fortes consensos no Brasil e sua consolidação constitui um dos nossos maiores legados para as próximas gerações de brasileiros. Mas de tanto ser banalizada, a ideia de democracia, e o longo processo de lutas que garantiu sua construção no país, é hoje mal conhecida por nosso povo, sobretudo pelos jovens.

Vale destacar, ainda, que recuamos ao período anterior à chegada dos portugueses, incorporando as novas teorias e pesquisas da etnologia, da história e da antropologia, que mostram as riquezas das sociedades ameríndias, em termos de mitologia e filosofias.

Outra novidade é o uso crítico das imagens, não como ilustrações, mas como documentos. Nós tentamos ressaltar a importância das narrativas contidas nas imagens, os significados que elas trazem e os efeitos que podem produzir sobre a realidade. Por exemplo: a fotografia de um treinamento de tortura realizado por um batalhão da Guarda Presidencial do Exército, em Brasília, afeta o curso da história oficial sobre o período da ditadura militar — revela que a versão das Forças Armadas não corresponde ao que aconteceu. Nós gostaríamos de convidar o leitor a também ler as imagens e descobrir junto conosco que elas falam de maneira eloquente sobre as circunstâncias e os motivos que fazem do Brasil, Brasil. Foi realizada, também, uma ampla pesquisa iconográfica, de maneira a ampliar o nosso acervo visual e não apenas devolver o que se conhece.

Quem sabe vale a pena destacar a relevância dessa escrita em diálogo. Nossa formação é comum, e também distinta (aliando história, mas também antropologia e ciência política), e nos especializamos em períodos e abordagens bastante diferentes. Heloisa é especialista na história de Minas, nas concepções de república e do republicanismo e no período contemporâneo: em particular a ditadura militar. Lilia trabalha com temas do final do período colonial, do império e primeira república. Também especializou-se em discutir a imagem como linguagem visual. Além do mais, se ambas trafegam pelos mesmos mares, Lilia sempre acentua a questão cultural e a antropologia, e Heloisa não se esquece da ciência política. Por conta dessa escrita mestiça (não como acomodação, mas sim diálogo) o livro introduz sempre cultura e política; política e cultura.

Por fim, é explícito no projeto a ideia de que não há como contar “a” história, mas, sim, “uma” história sobre o Brasil; ou melhor, algumas histórias sobre o Brasil. Ou ainda: tentamos fazer do Brasil uma história. Um projeto como esse é um convite ao leitor para embarcar conosco numa aventura, mas essa é uma viagem com roteiro explícito. Afinal, não se consegue escrever uma história exaustiva do Brasil — e é possível escrever um número interminável de histórias sobre o Brasil.

Qual é o recorte temporal?

O livro segue sistematicamente até a primeira eleição de FHC, a despeito de na sua conclusão avançar até o momento presente — o governo Dilma Rousseff —, alcançando as manifestações de junho de 2014, o processo de consolidação da nossa experiência democrática e os riscos que ela corre — daí as referências ao mensalão ou ao escândalo da Petrobrás. A ideia é que os governos de FHC e Lula, de alguma maneira, ainda estão em curso, até porque os dois líderes continuam atuantes e suas políticas permanecem presentes na nossa agenda. A primeira eleição de FHC e sua posse em 1995 marcam o fim do período de redemocratização e daqui para frente está tudo em aberto. Nossa aposta é que uma novíssima história do Brasil está — ou deveria estar — começando, e nós brasileiros temos grandes tarefas pela frente: recuperar a República, sustentar o desenvolvimento, ampliar a igualdade, acentuar a democracia… O tempo presente e os homens do presente são um pouco de cada um de nós e essa nova história ainda está em seu início.

Quais foram as principais inspirações para este livro?

Há muitas boas histórias gerais do Brasil e citamos apenas algumas. O grande projeto em vários volumes — História Geral das Civilizações —, organizado por Sergio Buarque de Holanda e depois por Boris Fausto, é sem dúvida um grande modelo ao unir os maiores estudiosos brasileiros e recortar temas gerais da nossa agenda. Mas a coleção, como toda coletânea de ensaios, tem altos e baixos, e os diferentes capítulos não obrigatoriamente dialogam entre si. Há também o livro de História do Brasil, de Boris Fausto, da Edusp, que representou um avanço imenso em termos de documentação, de crítica e de coerência historiográfica. Não há como se esquecer dos bons livros de colegas e jornalistas — Laurentino Gomes, Eduardo Bueno — que têm nos ajudado a refletir e aceitar o desafio de alcançar um público mais amplo.  No nosso caso, porém, o desafio era, igualmente, incluir pesquisa original e documental. É preciso destacar, ainda, que um livro como esse só poderia ser feito por conta da excelente qualidade e maturidade da historiografia brasileira, internacionalmente reconhecida, que tem produzido investigação de ponta acerca dos mais diversos períodos da nossa formação nacional. Sem ela esse livro não existiria e a produção está toda referenciada nas notas e na bibliografia em anexo.

Não há como esquecer das coleções estrangeiras — História da vida privadaHistória da família —, por autores como Eric Hobsbawm, Jacques Le Goff, Georges Duby, Robert Darnton, Simon Schama, Carlo Ginzburg que vêm mostrando como é possível narrar a história com charme, saber e diversão. Tudo isso sem perder o rigor

Vale destacar ainda que Lilia, particularmente, se valeu de sua experiência em alguns projetos. Um deles, a coleção História da vida privada no Brasil, que reuniu uma grande equipe de historiadores brasileiros buscando reconstituir aspectos da vida cotidiana no processo histórico de nossa formação nacional. O outro, na coleção Virando os séculos — ambas editadas pela Companhia das Letras. Mais recentemente, Lilia foi diretora da coleção em 6 volumes História do Brasil Nação, pela Mapfre/Objetiva. Essa é uma coleção que conta com os mais importantes especialistas em história do Brasil moderno, faz um amplo levantamento documental e de imagens fundamental e perseguiu um público mais amplo, aliás como esse livro que lançamos agora. Lilia também está preparando para a Ducke University Press (junto com James Green e Victoria Langland) um novo Brazil reader: coletânea cronológica de documentos e respectivos comentários.

Podem comentar a escolha do subtítulo do livro, “uma biografia”?

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Até porque não há nação que possa ser contada de forma linear, progressiva ou mesmo de uma só maneira. Sendo assim, este livro não pretende contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Ao contar uma história, tanto o historiador quanto o leitor aprendem a “treinar a imaginação para que ela faça uma visita”, como diria Hannah Arendt. E é por levar a sério essa noção de “visita” que este livro deixará de lado a meta de construir uma espécie de “história geral dos brasileiros” para se concentrar na ideia de que a biografia talvez seja outro bom caminho para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica: conhecer os muitos eventos que afetaram nossas vidas, e, de tal maneira, que continuam presentes na agenda atual.

Uma biografia é a evidência mais elementar da profunda conexão entre as esferas pública e privada — somente quando estão articuladas, essas esferas conseguem compor o tecido de uma vida, tornando-a real para sempre. Escrever sobre a vida do nosso país implica interrogar os episódios que formam sua trajetória no tempo, e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil onde vivemos — para compreendermos os brasileiros que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser.

A imaginação e a multiplicidade das fontes são dois predicados importantes na composição da biografia. Nela, cabem os grandes tipos, os homens públicos, as celebridades; cabem igualmente personagens miúdos, quase anônimos. Em todos os casos, porém, não cabe tarefa fácil: é muito difícil reconstituir o momento que inspirou o gesto. É preciso calçar os sapatos do morto, na definição preciosa de Evaldo Cabral, conectar o público ao privado, para penetrar num tempo que não é o seu, abrir portas que não lhe pertencem, sentir com sentimentos de outras pessoas e tentar compreender a trajetória dos protagonistas dessa biografia — os brasileiros — no tempo que lhes foi dado viver; as intervenções que protagonizaram no mundo público de cada época com os recursos de que dispunham; a disposição de viverem segundo as exigências de seu tempo e não de acordo com as exigências do nosso tempo. É também não ser indiferente à dor ou à alegria do brasileiro comum, invadir o espaço da intimidade de personagens importantes e escutar o som das vozes sem fama. O historiador anda sempre às voltas com a linha difusa entre resgatar a experiência daqueles que viveram os fatos, reconhecer nessa experiência seu caráter quebradiço e inconcluso, interpelar seu sentido e, por estar atenta a tudo isso, a biografia é, também, um gênero da historiografia.

Brasil: uma biografia será lançado no dia 4 de maio e já está em pré-venda nas principais livrarias.

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Universidade Virtual do Estado de São Paulo: 1964, por Boris Fausto

A UNIVESPTV foi criada em 2008 e faz parte das atividades da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Em seu canal no Youtube, encontram-se excelentes aulas de antropologia, física, história, literatura, entre outros assuntos. Destaco aqui a aula sobre 1964, conduzida pelo professor Boris Fausto, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Boris Fausto é historiador e autor dos livros Memórias de um historiador de domingo, A revolução de 1930, Negócios e ócios: histórias da imigração, O crime do restaurante chinês: carnaval, futebol e justiça na São Paulo dos anos 1930Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo, além de suas indispensáveis História do Brasil e História concisa do Brasil.

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História do Brasil – Colônia (parte 1) – por Bóris Fausto

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“Historiadora alerta que é preciso investir no fortalecimento das instituições e se livrar do exotismo”

Entrevista com Lilia Moritz Schwarcz realizada por Mariana Timóteo da Costa. Publicada no jornal O Globo de 1 de setembro de 2012 [via Gustavo Sénéchal]:

Por que ainda é tão difícil o Brasil entender os vizinhos e vice-versa?
O Brasil ficou muito apartado da América Latina por conta de uma série de elementos. Primeiro, foi uma colônia portuguesa, a língua o distinguia dos demais e foi fundamental nesta divisão. Depois, enquanto os vizinhos buscavam a independência — e esta era basicamente moldada sob ideais republicanos, pensados sob a Doutrina Monroe (1823) —, o Brasil optou por uma saída conservadora, manteve a monarquia. E o Brasil ainda foi o último país a abolir a escravidão no Ocidente. O sistema político adotado, a manutenção da escravidão negra, as dimensões continentais e a vocação imperialista do país, intensificada com a Guerra do Paraguai (1864 a 1870), geraram muita desconfiança entre os vizinhos e foram nos isolando. Sempre houve muita suspeita de parte a parte. Só no último volume da coleção (que cobre de 1960 a 2010) é que a gente vai ver esta relação se construir, mesmo assim não de forma consolidada. Até hoje não é.
 
E o que mudou para esta aproximação começar?
Não há um fator específico, mas a própria mudança no cenário internacional. O Brasil surgiu como potência, como um modelo viável num momento em que as democracias consolidadas ocidentais enfrentam crises. O Richard Morse teve a ideia de pegar a América Latina não como um espelho invertido e cruel dos países metropolitanos, mas uma região que pudesse representar uma opção diferente para o mundo. Já vejo uma movimentação, especialmente na Europa e nos EUA, de pensadores começando a tratar o Brasil sem exotismo. Isso também é um exercício para os brasileiros, pensar os vizinhos dentro de suas realidades complexas, não exotizar e simplificar uma figura como o (presidente da Venezuela) Hugo Chávez, buscando entender o porquê do surgimento de um Chávez. Além disso, tratando de seus próprios males, enfrentando seus desafios que são muitos.
 
Por que integrar é importante?
Mais importante é entender, estudar. Há experiências que são comuns. Os países sul-americanos passaram por processos de independência num mesmo momento, por dificuldades parecidas, temos uma corrupção quase endêmica. Somos todos países com vocação para a mestiçagem como projeto nacional forte. Nossa historiografia foi, durante muito tempo, centrada em nossa própria experiência, um projeto comparativo ajudará a entendermos nossa realidade.
 
Como o Brasil era pensado antes?
A Academia americana, até o início dos anos 2000, só queria saber do Brasil exótico, do samba, do carnaval, da capoeira. Depois, veio o “efeito Cidade de Deus” (filme de 2002), o Brasil da violência social. São dois lados de uma mesma moeda, porque aí você também estetiza a violência. O lugar de um país como outro qualquer, com seus problemas, é um lugar bastante novo para o Brasil. Meu medo é que o Brasil não aproveite este momento, porque ao mesmo tempo em que se tornou a sexta economia do mundo, continua a ser um dos países mais desiguais de toda a América Latina. Os impasses são enormes.
 
Os processos da independência impopular, da abolição da escravidão de cima para baixo… Como a História pode explicar problemas enfrentados atualmente pelo país, como a corrupção e a desigualdade?
Acabei de ler uma peça de Tennessee Wlliams em que um personagem afirma: “O passado insiste em se apresentar no presente”. A experiência histórica insiste em se apresentar até hoje. Nossa independência não foi obtida por meio de um processo de luta. Somos uma República cujo Hino Nacional é o hino de um império, “ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. O Hino da República diz: “nós nem cremos que escravos de outrora tenha havido em tão nobre país”. A escravidão tinha acabado há somente um ano e meio e já queriam apagá-la totalmente do nosso passado? Quando você faz uma abolição da forma com que foi feita, como uma espécie de dádiva, e não prevê nenhum tipo de ressarcimento aos escravos… Hoje discutimos cotas raciais, mas isso era discutido lá atrás. O fato é que no Brasil não existiu muita luta popular, não tivemos processos revolucionários e ficamos carentes de lutas civis, de um processo maior de formação de cidadania. Nosso passado coronelista e escravocrata não surgiu gratuitamente, assim como não é sem motivo a predominância das elites nas tomadas de decisão, tudo isso se reflete no atual abismo social.
 
No volume que aborda a fase inicial da República, antes de Getúlio Vargas, ela é tratada como Primeira República e não como República Velha. Por que?
Apesar da carência de movimentos populares, a primeira fase da República contou com mobilizações ativas de luta pela cidadania, embaladas pelo abolicionismo, pela chegada dos imigrantes, pela urbanização, pela industrialização. Foi uma época vibrante que a historiografia oficial normalizou como República Velha, nome que a desmerece. O termo República Velha foi uma criação de Getúlio Vargas para colocar tudo na conta do Estado Novo, que era ele. Getúlio pensava o Brasil como República somente a partir dele, e os historiadores seguiram isso. A linguagem carrega convenções culturais poderosas. Primeira República é um nome mais adequado.
 
E o que ainda falta para a República brasileira se consolidar?
O Brasil tem se sofisticado consideravelmente e aumentado a inclusão, mas ainda falha muito na sua imagem republicana. Lá fora, quando eu falo que o Brasil não é um país de inclusão social, eles retrucam: “Como não? E o samba? O futebol?”. Não dá para negar que existem áreas de inclusão social, mas é só pegar o censo, é só analisar os recentes dados de desigualdade apresentados pelas Nações Unidas. O Brasil combina inclusão e exclusão de maneira perversa. Para reverter esta relação, temos que investir no fortalecimento de nossas instituições.

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