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Poéticas do menos – Curso no Instituto Moreira Salles

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11/09/2014 · 20:29

O fim, o resto, o começo – Colóquio sobre o contemporâneo

O fim o resto

Alberto Pucheu, Antonio Cicero Oficial, Eduardo Viveiros De Castro, Francisco Bosco, Ivana Bentes, João Camillo Penna, Zé Miguel Wisnik, Laymert dos Santos, Lorenzo Mammì, Roberto Cossan falam no colóquio sobre o contemporâneo, “O fim, o resto, o começo”, que acontece entre os dias 18 e 19/11, das 10h às 17h, no auditório da Faculdade de Letras da UFRJ.

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“O avesso do imaginário”, de Francisco Bosco

Texto publicado ontem, 28 de agosto de 2013, na coluna de Francisco Bosco, no Segundo Caderno do jornal O Globo:

Evito dedicar colunas a apresentações de livros, por razões estratégicas (não desejar que este espaço tenha um tom de resenha) e idiossincráticas (sinto mais esforço que prazer ao expor o pensamento alheio, tanto quanto me é possível, em seus próprios termos). Mas volta e meia, quando tenho a oportunidade de ler um livro excepcional — sobretudo de autor brasileiro e contemporâneo —, abro uma exceção. Nesses casos, considero o louvor e a disseminação um dever público. É esse dever que pretendo cumprir hoje, escrevendo sobre o livro “O avesso do imaginário — arte contemporânea e psicanálise”, de Tania Rivera. Trata-se de um conjunto de ensaios notáveis, entre outras virtudes, pelo rigor e pela clareza teóricos, e talvez sobretudo pelo método: refiro-me à habilidade incomum de pôr em relação “dois campos bem delimitados culturalmente” (a arte contemporânea e a psicanálise), sem que um deles se converta em mero instrumento de ilustração de um saber já cristalizado pelo outro. O núcleo do livro — retomado, reposicionado e expandido a cada ensaio — é a tentativa de compreensão da transformação nas noções e práticas do sujeito e do objeto, da imagem e do real, desde o advento da psicanálise e da arte moderna, nos primórdios do século XX, passando pela sua reformulação nas décadas de 1950/60/70, que marcam o surgimento da arte contemporânea e do pensamento lacaniano.

Vou propor aqui um esqueleto narrativo para fins de clareza da exposição. “A psicanálise”, observa a autora, “partilha com a arte do século XX — e continua hoje compartilhando — questões fundamentais a respeito da própria natureza da imagem”. A arte da Renascença, com a invenção da perspectiva, pressupunha ideias estáveis de sujeito e de realidade: o sujeito é aquele cujo olhar, fixamente situado no espaço, organiza a realidade, que por sua vez é aquela que se deixa ver, no campo da representação, como um duplo do que existe. A arte moderna, como se sabe, viria rasurar essa confiança na representação, quebrando a ilusão representativa, multiplicando as perspectivas (e assim fragmentando o sujeito) e conquistando uma linguagem autônoma. Contemporânea a ela, a psicanálise faria sua própria crítica da imagem, a seu modo instaurando também uma distância entre a representação e o referente, a fantasia e a vivência. Para Freud, o sujeito nunca tem acesso direto às cenas originárias — logo traumáticas — de sua infância; a memória é antes “uma construção que encobre a verdade, mas de alguma maneira a deixa entrever”. A imagem é a um tempo o que perde o real para sempre, e aquilo em que (e somente no que) ele pode, modificado, sobreviver. O real da vivência traumática fura a imagem, pois ela não consegue contê-lo; por outro lado, esse furo permanece sendo a única via de acesso à recordação e elaboração do que, tendo ocorrido uma vez, continua a produzir efeitos de repetição na história do sujeito. Como diz Didi-Huberman, “há um trabalho do negativo na imagem” em Freud.

A partir dos anos 1950/60/70, essas noções de sujeito, objeto, imagem e real sofreriam outra transformação, que configura a arte contemporânea, por sua vez contemporânea ao pensamento de Lacan. Num conhecido livro dos anos 1990, Hal Foster estabeleceu a ligação dessa arte com o que Lacan chama de real: o registro da experiência humana irredutível à representação, ao simbólico e ao imaginário. Tania Rivera avança essa leitura, mobilizando o aparato conceitual lacaniano e obras de arte contemporânea. Se, em Freud, a imagem é negativa, em Lacan o imaginário é o lugar onde o eu constrói sua identidade — sua autoimagem “conformadora, ortopédica e alienante” — e as relações especulares com o outro e o mundo. Rompendo tanto com as ilusões expressivas e representacionais quanto com o formalismo da arte moderna, a arte contemporânea sai do espaço representativo, propõe o corpo como lugar da experiência artística, afirma um sujeito sem substância, experimenta arriscadas passagens à condição de objeto e instaura espaços que não correspondem à organização especular do imaginário, lançando o sujeito para fora do eu.

Nem preciso reler o parágrafo acima para saber que minha tentativa de concentrar detalhadas e rigorosas argumentações, concretamente elucidadas pela análise de obras, em uma única, sinuosa, abstrata e hiperconcentrada frase provavelmente terá afastado do livro em questão os improváveis leitores que chegaram até aqui. Não tendo podido fazer melhor, só o que me resta é garantir que a incapacidade é toda do expositor, e esperar que essa minha imagem-muro do livro seja também uma imagem-furo, capaz de atrair para os claros e brilhantes enigmas desses ensaios.

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O silêncio e a prosa do mundo

Extraído do site do projeto Mutações, coordenado por Adauto Novaes:

Programação

RIO DE JANEIRO
O evento ocorrerá de 14 de agosto a 9 de outubro no Espaço Cultural Eliseu Visconti (Auditório Machado de Assis na Fundação Biblioteca Nacional) com conferências às segundas, terças e quartas às 19h. O curso completo contará com a presença dos seguintes palestrantes: Francis Wolff, Pedro Duarte, Olgária Matos, Franklin Leopoldo e Silva, Oswaldo Giacoia Jr, Jean-Pierre Dupuy, Marcelo Coelho, Renato Lessa, Pascal Dibie, Eugenio Bucci, Eugene Enriquez, Newton Bignotto, José Miguel Wisnik, Elie During, Jorge Coli, Guilherme Wisnik, João Carlos Salles, David Lapoujade, Romain Graziani, Frédéric Gros, Vladimir Safatle, Marcelo Jasmin, Luis Alberto Oliveira, Antonio Cicero e Francisco bosco.
VEJA A PROGRAMAÇÃO

Inscrições a partir de 1/08
Mediateca da Maison de France
Av. Presidente Antonio Carlos, 58 / 11 andar
Telefone: 3974-6688

SÃO PAULO
O evento ocorrerá de 15 de agosto a 11 de outubro no Sesc Vila Mariana com conferências às quartas, quintas e sextas (apenas duas datas em terças), sempre às 19h30. O curso completo contará com a presença dos seguintes palestrantes: Francis Wolff, Pedro Duarte, Olgária Matos, Franklin Leopoldo e Silva, Oswaldo Giacoia Jr, Jean-Pierre Dupuy, Marcelo Coelho, Renato Lessa, Pascal Dibie, Eugenio Bucci, Eugene Enriquez, Newton Bignotto, José Miguel Wisnik, Elie During, Jorge Coli, Guilherme Wisnik, João Carlos Salles, David Lapoujade, Romain Graziani, Frédéric Gros, Vladimir Safatle, Marcelo Jasmin, Luis Alberto Oliveira, Antonio Cicero e Francisco bosco.
VEJA A PROGRAMAÇÃO

Inscrições a partir de 10/07
http://www.sescsp.org.br
ou nas unidades do SESC SP

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“Odeio o Brasil” – Francisco Bosco

Excelente a crônica de Francisco Bosco publicada no jornal O Globo, a 13 de junho de 2013:

Nunca pensei que fosse escrever isso. Fui formado principalmente por uma tradição de intérpretes do Brasil que enxergava na singularidade de nossa formação um vasto tesouro e um enorme potencial. A cultura popular em Mário de Andrade, a criatividade antropofágica em Oswald, a glória e a tragédia da miscigenação em Freyre, até chegar em intérpretes contemporâneos, como Risério, Caetano, Wisnik, Antonio Cicero, entre outros que, sem baratear nossos impasses e mazelas, permaneceram afirmativos da nossa singularidade e capazes até mesmo, como no caso de Caetano, de vislumbrar uma civilização brasileira com lições a oferecer ao mundo. Infelizmente, sinto-me cada vez mais afastado de um pensamento amoroso e afirmativo de nossa história, de nosso presente e, consequentemente, de nosso futuro.

Um dos traços mais positivos de nossa formação é o fato de que aqui o concreto prevaleceu sobre o abstrato. É claro que o reverso da moeda, como soube ver de modo seminal Sérgio Buarque de Holanda, é a incapacidade de regularmos as relações sociais pelos princípios abstratos e impessoais da lei. Mas o privilégio do concreto sempre foi um antídoto poderoso, um desmentido da realidade contra as ideologias totalitárias, da eugenia racista aos monoteísmos perseguidores. Continuo considerando, por causa disso, o Brasil um país especialmente apto a erradicar o legado da escravidão, mas para isso precisamos de uma massa de ações afirmativas, o que por sua vez esbarra no reacionarismo de classe e no negacionismo interessado (talvez seja a mesma coisa). Continuamos sendo, por um lado, uma cultura livre dos terrorismos étnicos e religiosos que assolam boa parte do mundo, mas, por outro lado, o crescimento do poder dos monoteísmos ameaça essa que é uma de nossas poucas virtudes civilizatórias. Os evangélicos paranoicos, os cristãos obscurantistas e a direita monossexual à Bolsonaro vão ganhando terreno cada vez mais perigosamente. A PEC 99/11, que possibilita a entidades religiosas questionarem decisões judiciais, elevando os valores da fé a argumentos jurídicos, pode, se passar, ser um marco terrível da reação.

E tudo isso acontece, pasmem, num governo supostamente de esquerda, que muitas vezes facilita essas manobras e se esquiva o quanto pode de se pronunciar com clareza sobre temas civis fundamentais. À presidente Dilma parecem interessar apenas as questões relativas à economia; os posicionamentos do governo quanto a temas como casamento entre homossexuais e descriminalização das drogas são omissos ou conservadores.

Mas o mais grave ainda está por vir. Num momento em que a Humanidade precisa modificar sua intervenção no ecossistema, sob pena de não haver mais espécie humana, o Brasil aprova um Código Florestal catastrófico, os ruralistas mandam e desmandam no legislativo, a esquerda desenvolvimentista do PT insiste em construir Belo Monte — e os índios vão sendo assasinados, torturados ou relegados à mendicância (ou emparedados até o suicídio). Em uma manifestação contra o fim da Aldeia Maracanã, o poeta Ramon Mello carregava um cartaz onde se lia a precisa pergunta: “O que se teme no índio?” Não é difícil responder. O índio é para a nossa sociedade o objeto que impossibilita o recalque de uma verdade dura demais: a verdade de que o “progresso” humano está nos conduzindo dialeticamente à morte, à morte de tudo e todos. Os desenvolvimentistas querem acabar com o índio pela mesma razão que nós enterramos um cadáver: porque ele nos lembra da nossa própria morte. É isso o que se teme no índio. Não encarar agora a verdade simbólica do índio implicará em ter que encarar a verdade real que o seu extermínio anuncia.

E enquanto essas grandes questões vão regredindo em nome do progresso, a vida ao rés-do-chão não apresenta sinal de melhoras. Sim, o país cresceu; milhões de pessoas saíram da linha da miséria (embora uma matéria recente da “Folha” tenha mostrado que os números são controversos). E isso não é pouco. É de condições básicas que estamos tratando, de justiça social mínima. Viva o bolsa família. Viva o emprego. Viva a PEC das domésticas. Mas é incrível como permanece a incapacidade da sociedade brasileira de se pensar como um organismo interdependente, onde as ações de cada sujeito devem seguir critérios de justiça para o bom funcionamento do todo. Aqui é cada um por si e todos contra todos. Isso degrada a confiança no respeito às leis, sem a qual os cidadãos não conseguem deixar de reproduzir o comportamento de violação dos pincípios públicos, e produz um desgaste insuportável na vida cotidiana.

Feito o desabafo, resta seguir lutando.

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Livros que amei – Guerra e paz, de Tolstói

No programa Livros que amei, o ensaísta Francisco Bosco fala sobre Guerra e paz, de Tolstói. É lindo o seu depoimento, sua análise do vigor das personagens desse romance.

Reproduzo um trecho do romance (edição da Cosac & Naify, com tradução de Rubens Figueiredo) em que o narrador descreve a reação da condessa ao receber uma carta de seu filho, Nikóluchka, que estava participando da guerra contra Napoleão. Trata-se de um trecho de rara beleza, de uma precisão de sentimentos comovente:

Como para ela era estranho, extraordinário e alegre o fato de seu filho – o filho que ela mal sentia mexer os braços e as pernas dentro do seu corpo vinte anos antes, o filho por causa de quem ela tanto discutia com o conde que o mimava, o filho que primeiro aprendeu a falar ‘pera’ e depois ‘mulher’, que aquele filho estivesse agora lá, numa terra estranha, num ambiente estranho, numa guerra de homens, sozinho, sem ajuda e orientação, cumprindo alguma tarefa de homem. A experiência universal dos séculos, que mostrou que as crianças partem do berço e se tornam homens por um caminho imperceptível, não existia para a condessa. O amadurecimento do filho, em cada uma de suas fases, era para ela algo tão extraordinário como se nunca tivessem existido milhões e milhões de pessoas que amadureceram exatamente da mesma forma. Assim como vinte anos antes não acreditava que a criatura pequena que vivia em algum lugar dentro dela, embaixo do seu coração, iria gritar, começaria a mamar em seu peito, começaria a falar, também agora ela não acreditava que essa mesma criatura pudesse ser aquele homem forte e corajoso, o filho e a pessoa exemplar que ele era agora, a julgar por aquela carta.

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