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“Sentimental”, de Eucanaã Ferraz

Reproduzo resenha sobre Sentimental, de Eucanaã Ferraz, publicada em minha coluna da revista Ler de novembro:
Eucanaã Ferraz é autor de Desassombro (2002), Rua do Mundo (2004), Cinemateca (2008), entre outros. Neste ano lançou Sentimental sob a chancela da Companhia das Letras. Trata-se sem dúvida alguma de um livro ousado, que se destaca tanto pelo trabalho formal quanto pela sua carga emotiva de rara intensidade.
“O coração”, poema que abre Sentimental, funciona como alerta:
Quase só músculo a carne dura.
É preciso morder com força.
Apenas isto! Contudo, em relação ao título do livro, seu primeiro verso já cria alguma perturbação nos leitores, pois espera-se, dos sentimentais, um coração mole (“de manteiga”, conforme o uso popular). De que “carne dura” então se trata?
A descrição sumária do primeiro verso é realista. O coração, de fato, constitui-se de músculos (cerca de 90% dele). Gradativamente, porém, também pode-se associar a “carne dura” à própria lírica do autor: seus recursos criativos tornaram-se menos prosaicos, a sintaxe em muitos períodos é longa e tortuosa, há nonsenses que escapam da compreensão lógico-racional e o trabalho melódico – inusitado e refinadíssimo – às vezes cria ecos entre substantivos e pronomes que rimam imperfeitamente, como “café” e “qualquer”, “karaokê” e “você”. Tais rimas, de certo modo, reproduzem o vazio de sentido a que o sujeito está submetido em quase todo o livro. As rimas aqui, como em “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, não resolvem nada.
É bom esclarecer desde já que sua dureza não leva ao hermetismo: ao contrário, as questões engendradas nos poemas de Sentimental ligam-se absolutamente ao que há de mais humano. Por causa da gravidade de seus temas, que a mordida precisa ser forte, como recomenda o segundo verso de “O coração”, já sob pinceladas sentimentais. A “carne dura” e a poesia dura refletem, dessa maneira, uma compreensão arrasadora do sujeito em crise.
Nesse sentido, é importante observar que os motivos de seus poemas não estão mais atrelados, como estiveram em alguns volumes anteriores de Eucanaã, à alegria, à leveza e à suavidade, com busca de beleza, perfeição e sublimação. Agora, essa busca parece ineficaz e o sujeito lírico até mesmo a recusa, embora também não abandone a beleza nos momentos mais desoladores, como em “Melancolia”:
[…] imagens não me sirvam de consolo mas
quando sejam o horror guardem alguma beleza.
O caráter apolíneo da poesia não é capaz de lançar o sujeito fora de sua condição mais dura. Logo, o verso bem-feito não fornece conforto suficiente. Nesse aspecto, vale destacar as repetições de palavras em diversos poemas, que deixa à mostra uma sobra atípica em sua geração, surgida nos anos 1990. Não se identifica nesse livro, tanto em relação à forma quanto aos sentimentos, a economia e a impessoalidade tão perseguida pelos herdeiros de João Cabral de Melo Neto.
A beleza talvez seja um mero capricho, pois a maior parte de Sentimental está marcada pela falta e pela perda − e, obviamente, pela morte. Um livro que por meio de vários personagens, como o viúvo, a velha Natalia Sangana e o astronauta Yuri Gagarin, manifesta a solidão. São muitas as imagens em torno disso: “deixar a solidão crescer no vento” (de “Vem”); “dos balões pode-se ver minha solidão” (de “Acima de tudo o boi”); “tudo abate e rebaixa o homem só” (de “Quem roubou o rubi do chapéu do mandarim?”); “Um leão é só distância” (de “Sob a luz feroz do teu rosto”); “Eu, sozinho, / era um mandarim triste e frio” (de “Papel tesoura e cola”); “El labirinto de la soledad” e “astronauta solitário” (do poema com título homônimo ao livro de Octávio Paz); “O homem só, a bordo do seu silêncio” (de “Senhor Capitão”).
Sentimental está todo ele infiltrado da mais profunda solidão, que constitui a psicologia de seus personagens e do próprio eu, e os conserva num permanente e agudo estado de tristeza antecipador da morte. No viúvo, do poema “Explicação de Miguel de José de João”,
o espinho é o mais fundo e tudo é prenúncio da morte,
de seu triunfo.
Como esse espinho, no mais novo livro de Eucanaã todos os sentimentos atingem o mais fundo do sujeito, pois a condição do sentimental está ligada à impossibilidade de transitar pela superfície das coisas.
Acerca disso, os poemas vêm muitas vezes acompanhados do luto ou da melancolia, motivados por razões diversas, mas relacionados entre si pela manifestação da mesma sensação de isolamento. Natalia Sangana, “viúva de tudo”, a única falante de chamicuro em Pampa Hermosa, se encontra na mesma condição do viúvo de “Explicação de Miguel de José de João”: entre eles e “tudo em volta haverá para sempre / um muro”. Mas, sem dúvida alguma, é por meio da melancolia que desponta o muro mais espesso e rugoso.
No poema “Melancolia”, há uma lista de cópias: “do nosso quarto, cada coisa, e pedaços da paisagem lá fora”; “cópia da minha alegria”; “uma cópia das suas mãos abertas, paradas, uma cópia do seu carinho”, entre tantas outras, em que a repetição da palavra “cópia” sugere uma ação intermitente, infinita. Uma ação que se aproxima da melancolia do despertar, da melancolia da eternidade. A nobreza se esfacela. O príncipe está “estragado” em seu reino de insônias, conforme outro poema, “Recebei as nossas homenagens”. Mais do que não se identificar com o outro, o outro parece ter se perdido em “Melancolia”: a cópia é o que pode restar, numa luta contra o apagamento de todas as coisas. Afinal, “Todos estão cegos. Todos estão loucos. Todos estão mortos.” A cópia é o muro de proteção e de isolamento; o muro resguarda mas também aniquila o que está dentro. O sujeito, lúcido, se opõe à cegueira, à loucura e a qualquer ilusão em torno da morte, mas sabe que a luta é vã. Só resta a sua agitação feroz e sem finalidade de reproduzir tudo aquilo que ama.
Constata-se, por fim, que em “Melancolia” há duas faltas ativas: a falta de quem teme a morte e já sofreu dessa perda, e por causa disso copia todas as coisas, num processo opressivo, mas as cópias, em si mesmas, estão fraturadas também pela ausência de autenticidade. Trata-se de um poema-tese sobre a melancolia. Um poema que faz lembrar da afirmação freudiana de que na melancolia a sombra do objeto recai sobre o sujeito. As cópias de “cada coisa” são algumas das sombras – e das sobras de vida, por que não? − que recaem sobre os sentimentais de Eucanaã Ferraz.
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Outra hora da estrela
Extraído do blog do IMS:
Durante as celebrações do aniversário de 92 anos da escritora Clarice Lispector, o IMS lançou um site especial em homenagem à escritora e preparou uma apresentação musical baseada no livro A hora da estrela, realizada no dia 11 de dezembro. O concerto, intitulado Outra hora da estrela, teve direção de Eucanaã Ferraz e contou com a performance de Jussara Silveira (cantora), Marcelo Costa (percussão), Muri Costa (violão) e Bebe Kramer (acordeon). A narração foi de João Miguel.
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Hora de Clarice

Reproduzido do site do Instituto Moreira Salles:
No dia 10 de dezembro Clarice Lispector completaria 92 anos. O Instituto Moreira Salles participa da Hora de Clarice, evento que comemora o aniversário da escritora, lançando um site e realizando o concerto Outra hora da estrela, com direção musical de Eucanaã Ferraz. Na apresentação, baseada no livro A Hora da Estrela (1977), serão apresentadas canções relacionadas tematicamente com a obra, como por exemplo, Luz negra, de Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso, Tudo dói, de Caetano Veloso, e O nome da cidade, de Chico Buarque. Os músicos Jussara Silveira (voz), Bebê Kramer (acordeom), Marcelo Costa (percussão) e Muri Costa (violão) tocarão 19 canções acompanhados pela narração do ator João Miguel, que lerá trechos do livro de Clarice. A venda de ingressos (R$ 30/inteira e R$ 15/meia) para o concerto começa no dia 4 de dezembro, na recepção do IMS-RJ.
Veja abaixo a programação completa da Hora de Clarice no IMS:
Sábado | 8 de dezembro | 17h | IMS-RJ
Clarice para crianças: Apresentação do espetáculo O mistério do coelho pensante, obra de Clarice Lispector, e contos do livro Como nasceram as estrelas, por meio do teatro de bonecos e da música. Entrada gratuita, com distribuição de senhas 30 minutos antes. Idade mínima: 3 anos.
Segunda-feira | 10 de dezembro
No dia do aniversário de Clarice Lispector, o IMS coloca no ar um site especial sobre a escritora. Ao criar a página, o IMS proporciona um ambiente de pesquisa bastante completo, rigoroso quanto ao mapeamento de informações, que servirá não apenas para estudantes do nível médio, mas também para graduandos, pós-graduandos e admiradores da obra de Clarice. “Há, sobre a escritora, muitas informações dispersas, por exemplo, quanto às bibliografias, traduções. No site conseguimos reunir praticamente tudo”, explica o organizador Eucanaã Ferraz. Na página, poderá ser encontrada, por exemplo, uma listagem bibliográfica com todos os livros sobre Clarice. Cada obra da autora é comentada por um especialista convidado, como Martha Alkmin e Rosa Gens, da professoras da UFRJ, e Clarisse Fukelman, da PUC-Rio. O site vai apresentar também comparações de traduções em diferentes línguas de um mesmo trecho de um determinado livro, além de publicar uma cronologia ilustrada de vida e obra de Clarice feita por Nadia Gotlib, professora de literatura brasileira e estudos comparados de literaturas de língua portuguesa da USP. Gotlib é também autora de uma apresentação em áudio com comentários de fotos de família de Clarice.
José Miguel Wisnik, ensaísta, professor de literatura brasileira na USP e compositor, concebeu uma aula sobre Clarice especialmente para o site, que também permitirá aos visitantes o download gratuito de dois ebooks de Roberto Corrêa dos Santos, um dos maiores especialistas em Clarice Lispector no Brasil: Ela, Clarice, publicação esgotada, e Na cavidade do Rochedo – A pós-filosofia de Clarice Lispector, livro inédito que deverá entrar no ar no site até o final do ano. Ainda no âmbito editorial, os visitantes terão acesso ao conteúdo integral dos Cadernos de Literatura Brasileira – Clarice Lispector (2004), também esgotado, e a um capítulo de Clarice Lispector – Figuras da escrita, livro do português Carlos Mendes de Sousa, publicado pelo IMS no ano passado.
Do acervo IMS serão publicados documentos inéditos fundamentais para a compreensão de aspectos da escrita de Clarice: notas manuscritas de A hora da estrela (1977) e um caderno de viagem em que Clarice registra sua passagem por cidades como Natal, Libéria, Casablanca e Lisboa (1944).
O site disponibiliza ainda um mapa do Rio de Janeiro, assinalando lugares citados pela escritora em diversas obras (como Leme e Jardim Botânico) e relacionando esses locais a trechos de livros de Clarice.
Consta do site um blog no qual serão atualizadas informações sobre a escritora, como eventos, peças, filmes.
De 10 a 16 de dezembro
O livro Clarice Lispector – Figuras da escrita, do crítico literário português e professor de literatura brasileira Carlos Mendes de Sousa, será vendido nas lojas dos centros culturais do IMS (Poços de Caldas, Rio de Janeiro e São Paulo) e na loja Instituto Moreira Salles por Livraria Cultura (no Conjunto Nacional, em São Paulo) com desconto, no valor de R$ 50.
Terça-feira | 11 de dezembro | 20h | IMS-RJ
Concerto Outra hora da estrela
Apresentação musical baseada no livro A hora da estrela
Com Jussara Silveira (voz), Bebê Kramer (acordeom), Marcelo Costa (percussão) e Muri Costa (violão).
Direção: Eucanaã Ferraz
Narração: João Miguel
R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia) – venda de ingressos apenas na recepção do IMS-RJ, a partir de 4 de dezembro (terça-feira). Venda limitada a dois ingressos por pessoa.
Outras instituições
A editora Rocco também participa da programação da Hora de Clarice, conforme abaixo:
SÃO PAULO
– 10/12, às 19h, Livraria da Vila: “O narrador na obra infantil de Clarice Lispector em texto e imagem”, com o ilustrador Odilon Moraes e a professora doutora da PUC-SP, especialista em Literatura Infantil, Juliana Silva Loyola (R. Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena).
– 10/12, às 19h, Livraria Cultura Conjunto Nacional: “Laços de família e A legião estrangeira”, com o músico, compositor e professor de Literatura Brasileira da USP, José Miguel Wisnik (Av. Paulista, 2073, Bela Vista).
– 10/12, às 19h, Livraria Cultura Shopping Bourbon: “Clarice jornalista”, com Aparecida Nunes, organizadora do lançamento Clarice na cabeceira – Jornalismo, e a professora e biógrafa Nadia Batella Gotlib (R. Turiassu, 2100, Perdizes).
Atividades infantis
– 8/12, às 16h, Livraria da Vila Shopping Pátio Higienópolis: Contação de história infantil Como nasceram as estrelas, com Julio Cesar (Av. Higienópolis, 618).
– 9/12, às 16h, Livraria da Vila Shopping JK Iguatemi: Contação de história infantil A vida íntima de Laura, com Julio Cesar (Av. Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi).
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Shopping Morumbi: Contação de história infantil a vida íntima de Laura, com Marinela Muto (Av. Roque Petroni Jr, 1089).
RIO DE JANEIRO
– 8/12, às 18h30min, Livraria da Travessa Shopping Leblon: Bate-papo e leitura dramatizada de textos, com a atriz Beth Goulart, a biógrafa Teresa Montero e a psicanalista Daisy Justus (R. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A, Leblon).
– 10/12, às 19h30min, Livraria da Travessa Shopping Leblon: “Encantamento e sedução na arte de contar histórias de Clarice Lispector”, com a diretora da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio, Eliana Yunes, e a doutora em Letras pela UFRJ, Regina Michelli, com mediação do subeditor da Rocco Jovens Leitores, Pedro Vasquez (R. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A, Leblon).
– 10/12, às 19h, Midrash Centro Cultural: Peça Silêncios claros, com Clarice Niskier e Esther Jablonsky, seguida de debate com Clarisse Fukelman, professora da PUC-Rio e doutora em Literatura Brasileira, e o acadêmico Arnaldo Niskier (R. Gal. Venâncio Flores, 182, Leblon).
– 9/12 Programação Jardim Botânico (Entrada principal – Rua Jardim Botânico, 1008 – Junto ao Largo das Tartarugas)
10h Sarau de Clarice com crônicas do livro A Descoberta Do Mundo, direção Delson Antunes, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.
11h Passeio pelo arboreto guiado pela biógrafa Teresa Montero, idealizadora do projeto O Rio de Clarice, com chegada no lago Frei Leandro e inauguração dos bancos com frases da escritora produzidos pelo designer Antonio Bernardo.
11h Oficina de livros de pano com Beth Araujo e Martha Loureiro, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.
15h Contação de história infantil A vida íntima de Laura, com Flavia Reis.
16h Oficina de livros de pano com Beth Araujo e Martha Loureiro, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.
Atividades infantis
– 8/12, às 11h30, Livraria da Travessa de Ipanema: Contação de história infantil A vida íntima de Laura, com Kika Farias (R. Visconde de Pirajá, 572).
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Shopping Rio Sul: Contação de história infantil A vida íntima de Laura, com Flavia Reis (R. Lauro Müller, 116).
RECIFE
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Shopping Recife: Contação de história infantil Como nasceram as estrelas, com Clécio Ernandes (R. Padre Carapuceiro, 777, Boa Viagem).
– 10/12, às 19h, Livraria Cultura Paço Alfândega: “As crônicas de Clarice Lispector”, com a escritora Geórgia Alves, o jornalista e escritor Samarone Lima e a escritora e professora da UFPE Luzilá Gonçalves (R. Madre de Deus, s/nº).
PORTO ALEGRE
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Praia de Belas: Contação de história infantil Quase de verdade, com Gabriela Araujo (Av. Praia de Belas, 1181, 2º Piso).
– 10/12, às 19h, Livraria Saraiva Praia de Belas: “A obra infantil de Clarice Lispector”, com Ana Mariza Filipouski, doutora em Letras, professora de Crítica Literária e formadora de professores (FAPA-RS) (Av. Praia de Belas, 1181, 2º Piso).
– 10/12, às 17h, Palavraria Livros & Cafés: “As personagens de Clarice Lispector”, com a socióloga e escritora Hilda Simões Lopes Costa (R. Vasco da Gama, 165, Bom Fim).
BELO HORIZONTE
– 9/12, às 16h, Saraiva Diamond Mall: Contação de história infantil O mistério do coelho pensante, com Aline Cantia (Av. Olegário Maciel, 1600).
– 10/12, às 19h, FNAC: “Os contos de Clarice Lispector”, com Wander Melo Miranda, professor titular de teoria da literatura da UFMG (Rodovia BR-356, 3049, Belvedere).
CURITIBA
– 8/12, das 10h às 16h, Livraria da Casa Vilanova Artigas: Leitura de textos de Clarice Lispector e oficinas, com a escritora e tradutora Claudia Borio (R. da Paz, 479).
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Crystal Plaza Shopping: Contação de história infantil A mulher que matou os peixes, com Larissa Lima (R. Comendador Araújo, 731, Batel).
FLORIANÓPOLIS
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Shopping Iguatemi: Contação de história infantil Como nasceram as estrelas, com Felícia Fleck (Av. Madre Benvenuta, 687, Santa Mônica).
BRASÍLIA
– 9/12, às 16h, Livraria Saraiva Shopping Patio Brasil: Contação de história infantil A mulher que matou os peixes, com Grupo Três Porquinhos (SCS/B – Lote A, Nível 1).
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“Os irmãos”, de Eucanaã Ferraz

Felicidade, era o que era.
Após uns poucos dias fora
de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo
como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.
E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,
e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,
ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude
daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,
lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo
que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora
fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,
porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,
eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto
e viam
a copa derramar-se convexa
em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.
A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés
esmagavam os morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos
em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens
eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,
o sol
muito azul de Friburgo.
De Cinemateca
Arquivado em Poesia
“Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade, por Caetano Veloso
E o Dia D – Dia Drummond está chegando. Reproduzo, aqui, Caetano Veloso lendo “Elegia 1938”. Trata-se de um trecho do filme Consideração do poema, dirigido por Daniela Thomas e Eucanaã Ferraz:
Arquivado em Poesia


