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Entrevista com Alice Sant’Anna

No Rioetc, matéria de Tiago Petrik com a poeta Alice Sant’Anna:

Alice Sant’Anna é geminiana. E esta seria a pior maneira de começar a descrevê-la. “Não entendo nada disso, nem tenho vontade de entender”, reconhece.

Então vamos começar de novo, porque existem outras possibilidades, várias outras possibilidades, que a deixariam mais à vontade. Alice Sant’Anna é jornalista e mestranda em Letras. Colaboradora da revista Serrote e do jornal O Globo. Gaveana dos quatro costados (jamais morou em outro lugar; atualmente também trabalha e estuda no bairro, onde ainda pratica yoga, no Nirvana, e toma chope, no Baixo). Ex-tecladista da banda Os Subterrâneos, diversão dos 16 aos 20 anos (idade com que publicou seu primeiro livro, “Dobradura”). Uma poeta ultracontemporânea, segundo Heloísa Buarque de Hollanda. Interessada em todo tipo de manifestação cultural, aí incluídas viagens e aventuras gastronômicas, moda (a mãe é a produtora Zizi Ribeiro) e artes visuais (o pai é o fotógrafo Alexandre Sant’Anna). Amiga e devota de Gregório Duvivier, Armando Freitas Filho e Marília Garcia. Mulher do músico Mariano Marovatto. Parceira de Adriana Calcanhotto. E certamente mais uma penca de outras coisas. “Gosto da coisa multidisciplinar, tenho várias janelas abertas, muitos interesses”, resume Alice.

Praticamente a definição retirada de uma página aleatória sobre o Zodíaco, sugerida pelo Google: “A geminiana equivale a várias mulheres, todas diferentes, que variam conforme seu estado de espírito”.

Alice é madura para seus 25 anos, mas não nega alguns cacoetes de sua geração – por exemplo, tantos interesses simultâneos. Ela é capaz de bater papo via Facebook com cinco pessoas ao mesmo tempo. “Nascemos com esse parafuso a menos. Ou a mais, não sei”. Mas é igualmente capaz de se concentrar num assunto só. “Não sou tão tecnológica, talvez”.

Mas é direto no computador que Alice costuma escrever seus poemas. “Tem gente que escreve todos os dias, tem quem escreva num único caderno. Eu passo longos períodos sem escrever, o que me angustia um pouco. Mas acho que se forçar a barra vai sair ruim. Basicamente, escrevo quando tenho uma ideia. Uma coisa que muita gente acha boa é ver o processo do poema. Ele não nasce limpo, pronto. Eu movo frases no computador, então esse processo não é registrado por mim”, conta. “Armando Freitas Filho gosta de ver esse trabalho. Eu não gosto, porque senão acho que eles são ruins de nascença. Acho bonito ver o dos outros, mas não o meu.” Se dependesse de autores como Alice, as casas de leilão que fazem fortunas com originais de poemas, letras e partituras iriam à falência, portanto. “No futuro vão leiloar senha do Gmail”, brinca.

As referências a Armando não são poucas à toa. Para Alice, ele é “quase um farol, um guru”. Ela cita também Chacal e Paulo Henriques Britto como referências. “É uma honra ter contato com esses caras e ver que eles têm interesse em conhecer o que a nova geração está produzindo. A generosidade existe”, declara-se. Ela e Armando fizeram um livrinho sanfonado chamado “Pingue-pongue”, do qual foram produzidas apenas 150 unidades. Quando o amigo ligou, Alice estava há seis meses sem escrever – talvez seu maior período de seca (“E o Armando é daqueles que param numa padaria e escrevem no guardanapo”). Ele sugeriu que os dois trocassem correspondência em forma de poema, com um mandando, o outro rebatendo, como num repente. “O resultado ficou muito divertido. Mas demoramos quase um ano para ter cinco poemas de cada. A gente não identificou os poemas. Eu achei que ficaria óbvio para todo mundo que os dele eram os bons, e os meus, os de uma poeta iniciante. Mas muita gente não descobriu”, diverte-se.

Outras parcerias que têm surgido são igualmente prazerosas. Com Adriana Calcanhotto aconteceu assim: “Quando recebi o telefonema dela, pedindo autorização para musicar um poema meu, parecia que eu estava sonhando. Olho praquele poema [o que abre seu segundo livro, “Rabo de Baleia”] e não consigo imaginar onde ela conseguiu ver melodia. Mas sendo ela, sei que vai ficar maravilhoso”. Também no campo musical, sua própria casa é um terreno promissor: o casal já produziu três músicas juntos. Mariano, que apresenta o programa “Segue o som”, na TV Brasil, tem um estúdio em casa, e o primeiro filho deles pode sair em formato de CD, embora isso ainda não passe de um plano sem data.

Mês que vem, Alice vai para a Universidade de Brown, nos Estados Unidos, fazer um mestrado-sanduíche. “É um mestrado muito amplo, pode fazer qualquer coisa. A dissertação poderia ser um romance, por exemplo. Então resolvi fazer sobre uma ideia: a sombra. Meio vago falar assim. Mas estou escrevendo a partir de um livro, que se chama “O Elogio da Sombra”, do japonês Junichiro Tanizaki, fundamental para entender a cultura japonesa. Fala sobre como a chegada da luz elétrica acabou com certas tradições”, explica Alice, fissurada pela terra do Sol nascente, que ainda não conhece. “A sombra natural, do sol, do fogo ou da vela, é instável, e a da luz elétrica é estável. Isso modifica totalmente a forma dos japoneses viverem. Achei muito interessante, e comecei a trabalhar com a sombra”, diz a filha de fotógrafo.

Enquanto estiver fora do país, segue colaborando à distância tanto com a Serrote, a revista do Instituto Moreira Salles, quanto com a coluna Transcultura, do Segundo Caderno do Globo. Lá, ela divide uma página semanal com Bruno Natal, Carol Luck e Fabiano Moreira. Todos os seus domingos são dedicados a pesquisar os temas de cada semana. Começou em 2010, substituindo o velho amigo Gregório Duvivier, de quem se declara fã: “Ele também é poeta, e dos bons. Cursou Letras e escreve até soneto”.

Tá achando séria, a Alice? Pois também de frivolidades é feita a rotina da ex-vendedora da livraria Argumento. Atualmente, está revendo a série “The 70s Show” – “muito boba”, segundo ela. E se aflige por estar completamente por fora de “The Newsroom”, a série da HBO a que os colegas de IMS têm se dedicado. Não dá tempo: Alice é geminiana, mas não é duas.

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Resenha sobre “Rabo de baleia”, de Alice Sant’Anna

Resenha sobre Rabo de baleia, de Alice Sant’Anna, que publiquei na revista portuguesa Ler de junho de 2013:

OS DIAS AGITADOS

            Quando publicou seu livro de estreia, Dobradura (7Letras), em 2008, a designação jovem poeta cabia muito bem a Alice Sant’Anna, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Afinal, trata-se de uma obra onde a inocência pueril se revela como uma de suas principais características. Desponta assim um frescor inquestionável, o que é uma de suas qualidades, embora também se apresentem alguns conflitos encapsulados.

            Contudo, por meio do recém-lançado Rabo de baleia (Cosac & Naify), a perspectiva do sujeito torna-se mais madura – mais sofrida, consequentemente – e seus poemas excluem quase de todo a docilidade predominante nos versos de estreia. Agora, encontra-se uma poética muitas vezes até mesmo violenta, refletindo de maneira contundente o desconcerto das relações do sujeito com o mundo e com o outro. Diante disso, a classificação jovem poeta não é mais conveniente: Alice Sant’Anna, em seu novo título, mostra-se uma poeta madura e consolida-se como uma das principais autoras de sua geração.

            As diferenças entre Rabo de baleia e Dobradura já podem ser observadas no corte do verso e na estrutura sintática das frases. No livro recém-lançado, os períodos foram construídos com imensa economia de pontuação, o que em diversos momentos concede mobilidade de leitura: há sequências de versos que podem ser lidas ao menos de duas maneiras. Porém, tais características de composição dos poemas – antes de tornarem-nos mais fluidos – conduz o leitor à percepção de diversas fraturas textuais e sugerem um universo pessoal desconcertado e tortuoso. Nesse sentido, versos fragmentados auxiliam na configuração desse cenário. Mesmo recorrendo à fantasia para escapar da rotina esmagadora, o sujeito não encontra na válvula de escape uma fuga plena em torno “da exaustão dos dias/ o corpo que chega exausto em casa/ com a mão esticada em busca/ de um copo d’água/ a urgência de seguir para um terça/ ou quarta boia, e a vontade/ é de abraçar um enorme/ rabo de baleia seguir com ela” (p. 7). A necessidade de outras boias mostra ao leitor a insuficiência da fuga como via de dissolvição do “tédio pavoroso” (p. 7).

            Em Rabo de baleia, é notável a investigação acerca das fraturas e a posterior constatação da fragilidade das coisas: “dente que bate na louça e trinca/ a língua apalpa por detrás/ procurando indício de rachadura/ na porcelana/ desliza na borda da gengiva/ o chá ainda quente na boca/ incisivos erguidos como prédios/ mas frágeis feito xícara/ casca de ovo/ a asa não se firma entre os dedos/ quer escorregar e se colar à sombra” (p. 36). Geralmente associado ao conforto, a hora do chá torna-se um momento do despontar da aflição e da angústia, sentimentos que recuperam o medo da sombra que havia em sua infância: “quando criança chorava ao ver a sombra/ jurava que era alguém insistente/ que apareceu sem ser convidado” (p. 36). O simples chá torna-se, portanto, um momento de investigação do humano, escapando, no entanto, do caráter confessional típico da lírica: a investigação se desenvolve da louça trincada à sombra, da concretude à abstração. O paralelismo entre os dois momentos – da adulta com a língua sobre a rachadura e da criança observando a sombra – firma uma carga dramática intensa no poema, mas ao mesmo tempo o objetiva parcialmente. É a partir da porcelana trincada que o temor emerge: o elemento externo, a xícara, estimula o tom memorialístico, remetendo-nos ao movimento dos fragmentos da madaleine no chá de tília proustiano. A imagem de Alice Sant’Anna, contudo, é mais antilírica.

            Além dessas questões, há sintomas evidentes de melancolia, como em “Winnipeg, mon amour” (“não acordo nunca/ desse mesmo sono […]”, p. 17), ou de um sentimento indefinido entre a exaustão – um traço recorrente no livro – e o desejo (“não é bem vontade o que tenho/ mas tampouco é falta de vontade”, p. 45). Há também nessa suspensão da dúvida alguma marca melancólica, algum indício de desgaste frente à incerteza. E dessa indefinição, dessa incerteza instabilizadora, nascem muitos fantasmas que nem mesmo um rabo de baleia é capaz de afastar.

 

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