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A voz do Brasil (coluna de junho de 2010)

AS ÚLTIMAS PALAVRAS

Carola Saavedra nasceu em 1973, em Santiago do Chile; mudou-se para o Brasil, com sua família, aos três anos de idade. Em 2005, estreou na literatura com a publicação do livro de contos Do lado de fora (7Letras), mas recebeu mais atenção da crítica especializada a partir dos romances Toda terça, de 2007, e Flores azuis, de 2008, ambos publicados pela Companhia das Letras. Flores azuisPaisagem com dromedário, que, pela beleza e qualidade, consolida de vez a sua obra entre as mais substanciais da ficção brasileira contemporânea. ganhou o prêmio da Academia Paulista de Críticos de Arte, um dos mais importantes do Brasil, e recebeu muitas resenhas elogiosas dos cadernos de cultura do país. Acaba de ser lançado, pela mesma editora, o romance

O fato de seu último romance ser ambientado em uma ilha vulcânica, não nomeada, representa alegoricamente sintomas comuns em suas narrativas, que vêm sendo trabalhados de distintas maneiras, sempre com muita habilidade: a experiência de um trauma e o consequente isolamento do sujeito. Contudo, não se trata de uma “lesão” psicológica que conduz seus personagens a um isolamento mudo. Ao contrário, o discurso parece ebolir em função da atividade que decorre dessas fraturas. No caso de Paisagem com dromedário, elas nascem de um triângulo amoroso, formado pelos artistas Érica e Alex, além da peça de problematização da narrativa, Karen. Esta vai ganhando corpo no monólogo de Érica, que, na ilha vulcânica, na casa de “amigos”, grava relatos destinados a Alex.


Nas gravações, Karen torna-se o ponto central que desencadeia reflexões e, ao mesmo tempo, estabelece um vínculo impossível de ser desfeito entre os dois artistas, conforme deixa claro a narradora: “É que as relações só existem assim. A três. É sempre necessário um terceiro, que, ao ser excluído, possa, através da sua ausência, estabelecer um elo entre os outros dois. Sempre alguém tinha que ser excluído. No nosso caso, era Karen, eu pensava, mas agora não tenho mais tanta certeza.” A incerteza nasce justamente de uma ausência que está presente em todas as coisas.

É muito bem engendrado o fluxo que Saavedra consegue impor ao romance. O ritmo de seu texto aproxima-se da fala numa adequação à estratégia narrativa selecionada – o monólogo, constituído de uma grande plasticidade discursiva, belamente moldada, com trechos intercalados por rubricas, como as de uma peça teatral. São elas que dispõem ao leitor um instrumental a mais para a compreensão da personalidade de Érika, num lance criativo condensado que faz lembrar, em muitos momentos, a habilidade de um Arthur Miller. Aliás, em Paisagem com dromedário Carola Saavedra parece estabelecer um laço estreito com autores ligados à dramaturgia: o tom confessional e erótico do discurso da personagem-narradora remete-nos, por exemplo, A doença da morte, de Marguerite Duras. É a imagem da falta, representada por Karen – a peça excluída do jogo –, quem fará da morte uma presença a infiltrar o cotidiano de Érika.

Foi Oto Lara Resende quem afirmou que a literatura é uma tentativa de falarmos as nossas últimas palavras. Desde a primeira página, é o que o monólogo parece buscar.

QUE CONTINUE ASSIM

A José Olympio vem relançando muitos dos clássicos que fizeram o nome dessa grande editora. Entre eles, Fogo morto e Menino de engenho, de José Lins do Rego; A estrela sobe, de Marques Rebelo; O quinze, de Rachel de Queiroz, e Cobra Norato, de Raul Bopp. A editora anuncia mais uma bela novidade: os relançamentos dos livros do tradutor Paulo Rónai.

DRUMMOND EM FAC-SÍMILE

O poeta e professor de literatura brasileira Eucanaã Ferraz finalizou a organização da edição fac-similar de Alguma poesia, que completou 80 anos de publicação em maio de 2010. A edição fac-similar reúne ainda uma série de artigos sobre o primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade e será publicada pelo Instituto Moreira Salles.

CÂMERA-AÇÃO EM LISBOA

Márcio Debellian esteve em Lisboa para exibir Palavra (en)cantada na Casa de Fernando Pessoa. Debellian foi coprodutor e autor do argumento desse documentário sobre o casamento entre letra de música e poesia. Mas não só: acompanhado do jornalista e poeta Ramon Mello, vários autores foram entrevistados. Entre eles, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa e Gonçalo M. Tavares. As entrevistas estarão disponíveis no portal Saraiva Conteúdo (http://www.saraivaconteudo.com.br/). Acompanhem!

FALÊNCIA DA CRÍTICA?

No caderno Prosa & Verso do jornal O Globo de 24 de abril deste ano, a crítica da literatura, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa e professora de teoria do teatro da UNI-Rio Flora Süssekin declarou, no artigo “A crítica como papel de bala”, que as “reações de ressentimento nostálgico” em torno da morte de Wilson Martins, a 30 de janeiro, “parecem evidenciar […] o apequenamento e a perda de conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”. A partir dessa constatação, a autora do excelente O Brasil não é longe daqui avalia, entre outros índices de enfraquecimento da crítica, “o retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito inter-institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos mini-cursos e palestras-espetáculo”, além da “glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas”. Acusa ainda o exercício “automimético” de certos autores contemporâneos, como Marcelino Freire e Patrícia, e os textos postados em blogs e sites. O artigo de Flora Süssekin lança farpas então a uma grande parcela da crítica da literatura e da própria literatura contemporânea do Brasil, sobretudo em se tratando do beletrismo e do conservadorismo. No mesmo dia da publicação de seu artigo, desencadeou-se uma polêmica em que críticos, jornalistas e produtores culturais se manifestaram pró ou contra as suas ideias.

Um dos autores nomeadamente criticados, o jornalista Sérgio Rodrigues, publicou uma resposta no próprio Prosa & Verso, uma semana depois, com o título “A crítica de mal com a literatura”. Para ele, “Süssekind parece sincera ao deixar de perceber que o grande elemento faltante nesse ambiente, a crítica universitária de fôlego que ela própria representa, retirou-se do debate porque quis”. Uma crítica que, segundo Rodrigues, tem um estilo “árido e calibrado para afugentar leigos”. Acerca da literatura brasileira contemporânea, avalia: “Bem ou mal, ela tem tido força suficiente para movimentar a tal roda de festivais, prêmios, blogs, oficinas etc. que Süssekind menospreza.”

Reações na internet

“Os elogios a Martins revelam mais uma disputa velada entre críticos do que propriamente um reconhecimento de seu legado. É nesse sentido que as reações à morte do crítico podem servir de mote para um diagnóstico da crítica literária contemporânea.”

Flávio Moura, diretor de programação da Flip, blog <www.flaviomoura.wordpress.com>

“O que fica deste artigo é a chocante constatação da desimportância da crítica literária nos dias de hoje, contaminados pela lógica da celebridade. De como essas e outras brigas e polêmicas do mundinho, com essas exaltações vazias e disputa por prestígio, giram em torno de carniça, como miseráveis lutando por um pedaço de carne que sobrou no lixão.”

Cristiane Costa, coordenadora do curso de jornalismo da UFRJ, no Facebook

No texto de Flora, em que tantos leitores já acusaram estílística e retoricamente um pensamento tortuoso e mal formulado, é possível, com mais paciência, desentranhar  vestígios de questões que poderiam ser mais claramente  expostas.”

Affonso Romano de Sant’Anna, crítico da literatura, blog <http://www.affonsoromano.com.br/blog/>

Para quem o lê de cabo a rabo, fica a impressão de uma dissonância entre o tom apaixonado, de ‘manifesto’, e o tom afinal meio esmaecido de suas propostas.”

Marcelo Coelho, jornalista, blog <http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br>

LANÇAMENTOS DO MÊS

Jogo de damas, de Myriam Campello. Rio de Janeiro: Língua Geral, p. 248


Myriam Campello é ficcionista e tradutora brasileira de vasta experiência. Neste romance, a história de um crime conduz o leitor ao questionamento da legitimidade da vingança. Um livro em que o suspense e o terror são impulsionados por uma perda irreversível.

Rimbaud – A vida dupla de um rebelde, de Edmund White. São Paulo: Companhia das Letras, 192 p.

Edmund White subverte o gênero biográfico, analisando não apenas a vida conturbada de Rimbaud, mas também a influência negativa e positiva que ela exerceu sobre decisões importantes do próprio biografado.

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No dia 1 de fevereiro, Lula Arraes, amigo, contista e leitor sempre atento, sugeriu: “Não seria interessante contar a nossos amigos portugueses a história do título de sua coluna?” Lula referia-se então à coluna “A voz do Brasil”, onde escrevo mensalmente na revista portuguesa Ler, dando notícias, resenhando livros de autores brasileiros e tratando de questões num viés temático, como a literatura na web, a cultura da periferia, os posicionamentos da crítica.

Quando convidado para escrever na Ler, apareceu de imediato o problema: título. É sempre difícil. Por um lado, eu precisava deixar bem claro que se tratava de uma coluna dedicada à literatura brasileira; por outro, era necessário que houvesse pegada, que chamasse a atenção. Após alguns dias de dúvidas, cheguei ao título nada criativo “A voz do Brasil”, mas pensei em algumas implicações que ele trazia: manifestava a finalidade da coluna e ao mesmo tempo fazia uma brincadeira com o programa de rádio mais antigo do mundo, que pela sua longevidade entrou para o livro dos recordes, o Guiness Book.

No Brasil, o programa tem um aspecto que ainda hoje me chama a atenção: O Guarani, de Carlos Gomes, abre o noticiário, em tom épico, e achei que a identificação com a música era muito significativa do movimento de levar informações nossas para o público português. Atravessar o Atlântico – de qualquer modo, ainda com a tecnologia – sempre nos traz um ar épico. Havia também a ironia, porque a literatura no Brasil tem poucos leitores, assim como o programa tem poucos ouvintes. Além disso, havia outro aspecto: ao se levar nossa arte para fora – mesmo para um país amigo, historicamente ligado ao Brasil, com a mesma língua, com características sociais em comum etc. -, busca-se sempre levar o que há de melhor, e o O Guarani foi usado para iniciar o programa da rádio porque havia um intento ufanista, de modo que nesse sentido o título se revelava como uma autoironia. Claro, a autoironia elimina o caráter político negativo que o surgimento do programa teve – e ainda tem – para muitos.

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A voz do Brasil – janeiro de 2010

Reproduzo aqui a coluna de janeiro publicada na revista Ler:

Que mistérios tem Clarice?

Benjamin Moser nasceu em Houston, nos Estados Unidos da América, em 1976. Formado em história, é colunista da Harper’s Magazine e colaborador do The New York Review of Books. Tradutor, são dele as versões para o inglês de Nove noites, de Bernardo Carvalho, e de romances policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Sua biografia sobre Clarice Lispector, Why This World, originalmente publicada pela Oxford University Press, foi traduzida por José Geraldo Couto para a editora Cosac & Naify, com o título Clarice,.

Com boa recepção crítica no exterior, sua biografia chegou ao Brasil fazendo barulho: artigos, entrevistas com o autor, reprodução de trechos do livro puderam ser encontrados em praticamente todos os principais jornais e revistas do Rio de Janeiro e São Paulo, o que revela mais uma vez o crescente interesse acerca da literatura e da vida de Clarice Lispector.

A melhor característica do livro de Benjamin Moser é mesmo sua habilidade narrativa. Através de um texto leve e claro, mas também apaixonado, o leitor deslancha pelas 648 páginas. Trata-se sem qualquer dúvida de um excelente escritor, que desenvolveu uma fonte imprescindível para divulgar, sobretudo nos países de língua inglesa, a obra de uma das maiores prosadoras da literatura brasileira.

Contudo, para quem conhece a fortuna crítica em torno da ficção e da vida dessa autora, sobressaltam alguns problemas, entre os quais a aderência cega da biografia de Moser ao já consagrado Esboço para um possível retrato, de Olga Borelli, publicado em 1981 pela Nova Fronteira. Não há qualquer intenção crítica em relação a tal livro, reproduzindo-se dele até mesmo os pontos negativos que já foram analisados por Carlos Mendes de Sousa em Clarice Lispector. Figuras da escrita, lançado em 2000. Afirma com propriedade esse professor da Universidade do Minho: “Contaminados pelo texto [de Clarice Lispector], os biógrafos ficcionalizam a vida e a morte. As páginas apresentadas por Olga Borelli no seu livro fazem vir ao de cima as marcas da montagem que caracterizam o volume” (p. 424). Enfim, Carlos Mendes de Sousa sinalizou a manipulação do ficcional a serviço do biográfico no livro de Borelli, orientação que foi seguida não apenas por Benjamin Moser, mas por todas as demais obras desse gênero a respeito da personagem em questão.

Essa contaminação pode ser observada igualmente em Clarice, quando se destaca a aura de “mistério” da autora, o que o próprio título da edição brasileira sugere, com a vírgula em suspenso, representando dessa forma a incapacidade de explicar-se, de todo, os pontos “incompreensíveis” à volta de sua vida. O mesmo pode ser observado em relação ao aproveitamento dos livros de Elisa Lispector, irmã de Clarice, para retratar a perseguição sofrida pela família durante a Primeira Guerra Mundial. Perseguição supervalorizada por meio de uma tentativa de explicar quase todo o desconcerto do mundo da narrativa clariciana a partir desse acontecimento. Nesse sentido, destaco que Benjamin Moser dá pouca importância ao fato de o desconceto do mundo nser uma característica comum aos ficcionistas brasileiros da época de Clarice, como Cornélio Pena e Lúcio Cardoso, seus contemporâneos.

Apesar das falhas, Clarice, é uma boa biografia, que pode arregimentar, no exterior, muitos novos leitores para a obra de Clarice Lispector. E espero que o sucesso desse livro no Brasil venha a trazer, pelo menos, o interesse das editoras na publicação de outras obras de estudiosos estrangeiros, como o indispensável Clarice Lispector. Figuras da escrita, de Carlos Mendes de Sousa, um dos melhores livros de crítica da literatura brasileira escritos nos últimos anos.

Os espiões, de Luis Fernando Verissimo

O selo Alfaguara publicou em novembro Os espiões, romance policial de Luis Fernando Verissimo. Com enredo envolvente e muito humor, o livro traz personagens pitorescos, como o professor Fortuna, frequentador do bar do Espanhol que parece não ter lido qualquer dos autores sobre os quais emite opiniões definitivas.

Nietzsche? “– O homem é Nietzsche. O resto é lixo.” “– E Heidegger, professor?” “– Enganador.” Marx? “– Já deu o que tinha que dar.” E Camus? “– Veado.” E John le Carré, ele leu? “– Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa”, vai afirmando categoricamente o professor Fortuna, um “primor” na defesa de suas teses. Entre elas, a mais exaltada garante que literatura, como estiva e Fórmula 1, não é coisa de mulher. Para ele, “mulheres escritoras já arruinaram a vida de mais homens do que as putas e as cartas”. Diante disso, tem dúvidas sobre a conveniência de ensinar mulheres a escrever e se põe a favor de ações corretivas contra a primeira manifestação de ambição literária em meninas. Com a literatura, diz o professor, as mulheres só conseguem enlouquecer a si próprias e quem está por perto.

Os espiões é um romance muito bem composto em todos os sentidos, em que o leitor pode se deliciar com a arguta mistura de características fundamentais do policial e a descontração do melhor humor. Contudo, sua mistura não está passível de conflitos: o que Verissimo faz nesse livro, assim como havia feito em Ed Mort e outras histórias, de 1979, é de certa maneira satirizar de viés o romance noir, sem contudo abrir mão de seus recursos mais típicos. O humor explora, por fim, o ridículo para dar autenticidade ao enredo policial e aos personagens da intriga – e com eles Verissimo confirma um fato que ainda parece estar à margem dos críticos da literatura: trata-se de um nome central das letras contemporâneas no Brasil. Contudo, fora as suas crônicas, bem recebidas por todos, pouca atenção se dá à sua ficção. Quais seriam as razões disso?

Parece-me que o melhor da crítica da literatura brasileira está geralmente relacionado a duas perspectivas, também as mais difundidas: a que se atém às obras de ruptura, em diálogo com as vanguardas, e a que tem como base crítico-teórica o marxismo. A recepção da obra de Luis Fernando Verissimo sofre então de um certo descaso por uma impossibilidade de ser enquadrada em qualquer das duas orientações. Embora brinque com o policial, ele brinca justamente com um gênero consagradamente “menor” ou, conforme alguns, mero entretenimento.

Seus livros parecem construídos por meio de um fundamento determinante ao prazer da leitura de ficção: contar uma boa história. E nesse sentido é possível observar o quanto de seus contos, novelas e romances estão sob a chancela da atividade do cronista.

Para mim, Os espiões é o melhor livro do ano. E que a literatura sempre tenha autores comprometidos com a diversão.

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