AS ÚLTIMAS PALAVRAS
Carola Saavedra nasceu em 1973, em Santiago do Chile; mudou-se para o Brasil, com sua família, aos três anos de idade. Em 2005, estreou na literatura com a publicação do livro de contos Do lado de fora (7Letras), mas recebeu mais atenção da crítica especializada a partir dos romances Toda terça, de 2007, e Flores azuis, de 2008, ambos publicados pela Companhia das Letras. Flores azuisPaisagem com dromedário, que, pela beleza e qualidade, consolida de vez a sua obra entre as mais substanciais da ficção brasileira contemporânea. ganhou o prêmio da Academia Paulista de Críticos de Arte, um dos mais importantes do Brasil, e recebeu muitas resenhas elogiosas dos cadernos de cultura do país. Acaba de ser lançado, pela mesma editora, o romance
O fato de seu último romance ser ambientado em uma ilha vulcânica, não nomeada, representa alegoricamente sintomas comuns em suas narrativas, que vêm sendo trabalhados de distintas maneiras, sempre com muita habilidade: a experiência de um trauma e o consequente isolamento do sujeito. Contudo, não se trata de uma “lesão” psicológica que conduz seus personagens a um isolamento mudo. Ao contrário, o discurso parece ebolir em função da atividade que decorre dessas fraturas. No caso de Paisagem com dromedário, elas nascem de um triângulo amoroso, formado pelos artistas Érica e Alex, além da peça de problematização da narrativa, Karen. Esta vai ganhando corpo no monólogo de Érica, que, na ilha vulcânica, na casa de “amigos”, grava relatos destinados a Alex.

Nas gravações, Karen torna-se o ponto central que desencadeia reflexões e, ao mesmo tempo, estabelece um vínculo impossível de ser desfeito entre os dois artistas, conforme deixa claro a narradora: “É que as relações só existem assim. A três. É sempre necessário um terceiro, que, ao ser excluído, possa, através da sua ausência, estabelecer um elo entre os outros dois. Sempre alguém tinha que ser excluído. No nosso caso, era Karen, eu pensava, mas agora não tenho mais tanta certeza.” A incerteza nasce justamente de uma ausência que está presente em todas as coisas.
É muito bem engendrado o fluxo que Saavedra consegue impor ao romance. O ritmo de seu texto aproxima-se da fala numa adequação à estratégia narrativa selecionada – o monólogo, constituído de uma grande plasticidade discursiva, belamente moldada, com trechos intercalados por rubricas, como as de uma peça teatral. São elas que dispõem ao leitor um instrumental a mais para a compreensão da personalidade de Érika, num lance criativo condensado que faz lembrar, em muitos momentos, a habilidade de um Arthur Miller. Aliás, em Paisagem com dromedário Carola Saavedra parece estabelecer um laço estreito com autores ligados à dramaturgia: o tom confessional e erótico do discurso da personagem-narradora remete-nos, por exemplo, A doença da morte, de Marguerite Duras. É a imagem da falta, representada por Karen – a peça excluída do jogo –, quem fará da morte uma presença a infiltrar o cotidiano de Érika.
Foi Oto Lara Resende quem afirmou que a literatura é uma tentativa de falarmos as nossas últimas palavras. Desde a primeira página, é o que o monólogo parece buscar.
QUE CONTINUE ASSIM
A José Olympio vem relançando muitos dos clássicos que fizeram o nome dessa grande editora. Entre eles, Fogo morto e Menino de engenho, de José Lins do Rego; A estrela sobe, de Marques Rebelo; O quinze, de Rachel de Queiroz, e Cobra Norato, de Raul Bopp. A editora anuncia mais uma bela novidade: os relançamentos dos livros do tradutor Paulo Rónai.
DRUMMOND EM FAC-SÍMILE
O poeta e professor de literatura brasileira Eucanaã Ferraz finalizou a organização da edição fac-similar de Alguma poesia, que completou 80 anos de publicação em maio de 2010. A edição fac-similar reúne ainda uma série de artigos sobre o primeiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade e será publicada pelo Instituto Moreira Salles.
CÂMERA-AÇÃO EM LISBOA
Márcio Debellian esteve em Lisboa para exibir Palavra (en)cantada na Casa de Fernando Pessoa. Debellian foi coprodutor e autor do argumento desse documentário sobre o casamento entre letra de música e poesia. Mas não só: acompanhado do jornalista e poeta Ramon Mello, vários autores foram entrevistados. Entre eles, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa e Gonçalo M. Tavares. As entrevistas estarão disponíveis no portal Saraiva Conteúdo (http://www.saraivaconteudo.com.br/). Acompanhem!
FALÊNCIA DA CRÍTICA?
No caderno Prosa & Verso do jornal O Globo de 24 de abril deste ano, a crítica da literatura, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa e professora de teoria do teatro da UNI-Rio Flora Süssekin declarou, no artigo “A crítica como papel de bala”, que as “reações de ressentimento nostálgico” em torno da morte de Wilson Martins, a 30 de janeiro, “parecem evidenciar […] o apequenamento e a perda de conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”. A partir dessa constatação, a autora do excelente O Brasil não é longe daqui avalia, entre outros índices de enfraquecimento da crítica, “o retorno às figuras todo-poderosas do especialista monotemático, do agenciador com capacidade de trânsito inter-institucional e do colecionador de miudezas, às interlocuções preferencialmente de baixa densidade dos mini-cursos e palestras-espetáculo”, além da “glamorização midiática de instituições autocomplacentes como a Academia Brasileira de Letras e correlatas”. Acusa ainda o exercício “automimético” de certos autores contemporâneos, como Marcelino Freire e Patrícia, e os textos postados em blogs e sites. O artigo de Flora Süssekin lança farpas então a uma grande parcela da crítica da literatura e da própria literatura contemporânea do Brasil, sobretudo em se tratando do beletrismo e do conservadorismo. No mesmo dia da publicação de seu artigo, desencadeou-se uma polêmica em que críticos, jornalistas e produtores culturais se manifestaram pró ou contra as suas ideias.
Um dos autores nomeadamente criticados, o jornalista Sérgio Rodrigues, publicou uma resposta no próprio Prosa & Verso, uma semana depois, com o título “A crítica de mal com a literatura”. Para ele, “Süssekind parece sincera ao deixar de perceber que o grande elemento faltante nesse ambiente, a crítica universitária de fôlego que ela própria representa, retirou-se do debate porque quis”. Uma crítica que, segundo Rodrigues, tem um estilo “árido e calibrado para afugentar leigos”. Acerca da literatura brasileira contemporânea, avalia: “Bem ou mal, ela tem tido força suficiente para movimentar a tal roda de festivais, prêmios, blogs, oficinas etc. que Süssekind menospreza.”
Reações na internet
“Os elogios a Martins revelam mais uma disputa velada entre críticos do que propriamente um reconhecimento de seu legado. É nesse sentido que as reações à morte do crítico podem servir de mote para um diagnóstico da crítica literária contemporânea.”
Flávio Moura, diretor de programação da Flip, blog <www.flaviomoura.wordpress.com>
“O que fica deste artigo é a chocante constatação da desimportância da crítica literária nos dias de hoje, contaminados pela lógica da celebridade. De como essas e outras brigas e polêmicas do mundinho, com essas exaltações vazias e disputa por prestígio, giram em torno de carniça, como miseráveis lutando por um pedaço de carne que sobrou no lixão.”
Cristiane Costa, coordenadora do curso de jornalismo da UFRJ, no Facebook
“No texto de Flora, em que tantos leitores já acusaram estílística e retoricamente um pensamento tortuoso e mal formulado, é possível, com mais paciência, desentranhar vestígios de questões que poderiam ser mais claramente expostas.”
Affonso Romano de Sant’Anna, crítico da literatura, blog <http://www.affonsoromano.com.br/blog/>
“Para quem o lê de cabo a rabo, fica a impressão de uma dissonância entre o tom apaixonado, de ‘manifesto’, e o tom afinal meio esmaecido de suas propostas.”
Marcelo Coelho, jornalista, blog <http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br>
LANÇAMENTOS DO MÊS
Jogo de damas, de Myriam Campello. Rio de Janeiro: Língua Geral, p. 248
Myriam Campello é ficcionista e tradutora brasileira de vasta experiência. Neste romance, a história de um crime conduz o leitor ao questionamento da legitimidade da vingança. Um livro em que o suspense e o terror são impulsionados por uma perda irreversível.
Rimbaud – A vida dupla de um rebelde, de Edmund White. São Paulo: Companhia das Letras, 192 p.
Edmund White subverte o gênero biográfico, analisando não apenas a vida conturbada de Rimbaud, mas também a influência negativa e positiva que ela exerceu sobre decisões importantes do próprio biografado.


