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“Entre todas as presenças, eu esperei”, de Fiama Hasse Pais Brandão

O livro Cenas vivas, de Fiama Hasse Pais Brandão, é um dos mais belos livros de poesia que já li. Agradeço aos professores e amigos Jorge Fernandes da Silveira, especialista entre especialistas em sua obra, e Carlos Mendes de Sousa, que me ofereceu o referido livro. A eles devo esta forma eterna de alegria, a beleza, como descreveu John Keats. Abaixo, um fragmento da seção “Elegíacos”:

 

Entre todas as presenças, eu esperei
a do leitor. Quis ver-lhe os cílios
tremerem com a mancha poética.
Na cena doméstica que hoje vi,
a pequena cria abocanhada pelo cachaço,
levada pela gata, se puder, até ao Infinito,
é como o poema que o autor prende na boca.
Mas quem até aqui virá condoído da tortura
de ter um peso morto entre os meus dedos,
poemas que não existem, autor sem som?

 

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“Metáfora viva”, de Fiama Hasse Pais Brandão

Quando eu oiço
as três vozes rodeadas
de pontos brancos cintilantes,
como se estivessem à entrada
do palácio viscoso das metáforas,
sei que é a sua beleza tripla,
desatando e atando o nó das gargantas
que vence a viscosidade
e dá respiração aos meus poemas.

De Cenas vivas, Lisboa, Relógio d’Água

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“Os filhos perdem-se na neve”, de Fiama Hasse Pais Brandão

 

Terrível sobre as montanhas de neve e névoa,
quando de súbito cai num excesso de branco opaco.
Perdi as figuras e mesmo todos os ruídos,
e estava só, na berma de um caminho fictício.
Os nomes, gritei-os sem som. Nem a minha voz
me fazia ouvir que era eu quem chamava.
Então, sem linhas ou volumes, concebi
o haver nenhum lugar. Sem voz, imaginei
que não sentia ao tempo. Somente foi
a morte das crianças longínquas,
e elas voltaram sem corpo, a sussurrar.

 

De Cenas vivas, Lisboa, Relógio d’Água.

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