Arquivo da tag: Carlos de Oliveira

“[Outra mulher: o susto]”, de Carlos de Oliveira

 

VIII

 

Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;oprime-a o ar; e cada passo
é apenas o peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.

 

Do livro Entre duas memórias, que se encontra na poesia reunida de
Carlos de Oliveira,
Trabalho poético, Lisboa, Assírio & Alvim

1 comentário

Arquivado em Poesia

“Cinema”, de Carlos de Oliveira

Raros são os textos que definem tão bem o que é a poesia. Do livro Sobre o lado esquerdo, reunido em Trabalho poético (Lisboa, Assírio & Alvim), no Rio de Janeiro esse volume pode ser comprado na Poesia Incompleta:

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escapa,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

2 Comentários

Arquivado em Poesia

“Salmo”, de Carlos de Oliveira

 

A vida
é o bago de uva
macerado
nos lagares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.

 

De Cantata, na edição Trabalho poética,
Lisboa, Assírio & Alvim

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

“Elegia em chamas”, de Carlos de Oliveira

 

Arde no lar o fogo antigo
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:

Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.

 

Do livro Terra de harmonia, na edição Trabalho poético,
Lisboa, Assírio & Alvim

1 comentário

Arquivado em Poesia

“Sobre o lado esquerdo”, de Carlos de Oliveira

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu coração, esmagar o coração.”

Do livro Sobre o lado esquerdo, na edição Trabalho poético,
Lisboa, Assírio & Alvim

1 comentário

Arquivado em Poesia