Arquivo da tag: Carlos Augusto Calil

Semana de 22: olhares críticos – Projeto 3 x 22

Seminário “Semana de 22: olhares críticos”, via Emily Fonseca:

Programa

A Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, configura-se como um dos mais importantes “lugares de memória” (Pierre Nora) da história cultural brasileira. Momento (estratégico) de convergência de intelectuais e artistas, para legitimar, no país, a experiência da vanguarda europeia do início do século XX, permaneceu como ícone de embate estético, por empenho de seus principais participantes.

Ao longo dos anos, foi sendo ressignificada, reinventada, mitificada, apropriada para atender aos mais diversos interesses pessoais ou coletivos. Este seminário pretende reavaliar criticamente o legado da Semana de 22, a partir de múltiplos ângulos interpretativos: artístico, histórico, memorialístico, sociológico, político etc.

O seminário compõe o projeto 3 vezes 22, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP.

21/02 – 14h às 16h
Memorialismo: história da semana de arte moderna
Em uma visada retrospectiva, pretende-se deslindar as diversas estratégias de construção do sentido e valores culturais da Semana de 22, a partir de relato testemunhal paradigmático de Mário de Andrade, assim como da modelagem memorialística levada a termo por seus mais conceituados historiadores (Mário da Silva Brito e Brito Broca).
Convidados:
Marcos Antonio de Moraes (IEB-USP) –
“Mário de Andrade”;
Maria Augusta Fonseca (USP) –
“Mário da Silva Brito”;
João Fábio Bittencourt –
“Brito Broca”.

21/02 – 16h às 18h
Personagens, sociabilidades
Tenciona-se colocar em cena personalidades ligadas à Semana de 1922 (artistas, letrados e empreendedores), para se compreender o papel que representaram na configuração da sociabilidade modernista em seus primórdios.
Convidados:
Carlos Augusto Calil (ECA-USP) –
“Paulo Prado, fautor da Semana de Arte Moderna”;
Eduardo Coelho (UFRJ) –
“Bandeira”;
Mauricio Trindade (Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo)
– “O grupo dos cinco”.

22/02 – 14h às 16h
Revisitar (criticamente) a Semana de 22
Estudiosos partilham relatos de pesquisas devotadas a apreender a complexidade do momento histórico no qual estava inserida a Semana de 22, a partir da análise de diversas fontes documentais.
Convidados:
Maria Eugênia Boaventura (Unicamp) –
“22 por 22”;
Frederico Coelho (PUC-RJ) –
“Semana sem fim”;
Marcos Augusto Gonçalves –
“A semana que não terminou”.

22/02 – 16h às 18h
Repercussões regionais da Semana de 22
Evento paulistano, a Semana de 22 repercutiu, ao longo do tempo, em outras regiões do Brasil. Cabe indagar qual a natureza dessa recepção contemporânea (e extemporânea), como se deu o processo de (re)interpretação local dos valores e ideários apregoados pelo movimento modernista?
Convidados:
Sérgio Micelli (USP)  – “Modernismo mineiro”;
Humberto Hermenegildo de Araújo (UFRN) –
“O modernismo no Rio Grande do Norte”;
Maria Arminda N. Arruda (USP) –
“Literatura de Lucio Cardoso”.

23/02 – 14h às 16h
Artes visuais, espaços
Abordagem crítica da produção artística exibida na Semana de 22, considerando suas raízes e posteriores desdobramentos criativos. Colocam-se em relevo os vínculos entre questões estéticas e de gênero, assim como o tensionamento entre tradição e ruptura, tendo em vista o espaço simbólico no qual teve lugar o evento.
Convidados:
Fernanda Pitta (Pinacoteca) –
“Outras modernidades: as artes antes da semana de 22”;
Aracy Amaral (USP) –
“Artes plásticas na Semana de 22”;
Paulo Cesar Garcez Marins (Museu Paulista – USP) –
“O lugar da Semana esquecido: o Teatro Municipal no patrimônio nacional”.

23/02 – 16h às 18h
Literatura
Avaliação crítica da produção literária no tempo da Semana de 22, bem como a discussão sobre os sentidos da formação dos leitores da literatura de vanguarda. Amplia-se o debate, levando-se em conta a reverberação na atualidade do ideário contestador do movimento.
Convidados:
João Cezar de Castro Rocha (UERJ) –
“Leituras, leitores”;
Telê Ancona Lopez (IEB-USP) –
“Pauliceia desvairada, um livro moderno”;
Ferréz –
“Semana viva, ampliada, em toda parte”.

24/02 – 14h às 16h
Música
Pretende-se discutir o lugar da expressão musical na Semana de 22, no que tange aos diálogos entre a produção europeia de vanguarda e as raízes nacionais. Coloca-se em evidência a organização dos espetáculos e a atuação dos músicos participantes neles, valendo-se de documentação conservada em arquivos.
Convidados:
Flávia Toni (IEB-USP)
– “Música e modernismo na documentação de arquivo”;
Manoel Aranha  Corrêa do Lago – “Modernismo no pré-modernismo”;
Pedro Fragelli – “Mario de Andrade e a música”;

24/02 – 16h
Músicas apresentadas para piano solo na Semana de Arte de 1922 (Claude Debussy, Erik Satie e Villa-Lobos)
Convidado:
Cristian Budu

As inscrições pela internet podem ser realizadas até um dia antes do início da atividade. Após esse período, caso ainda haja vagas, é possível se inscrever pessoalmente em todas as unidades. Após o início da atividade não é possível realizar inscrição.

Condições especiais de atendimento, como tradução em libras, devem ser informadas por email ou telefone, com até 48 horas de antecedência do início da atividade.
centrodepesquisaeformacao@sescsp.org.br / 11 3254-5600

1 comentário

Arquivado em Seminário

“A Grécia e a Europa” – Mario Vargas Llosa

O artigo de Mario Vargas Llosa foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo, a 10 de junho de 2012, com tradução de Carlos Augusto Calil [via Conteúdo Livre]:

Naquela cena, ocorrida anos atrás, indicaram-me a cadeira ao lado de uma senhora de idade que cobria os olhos com grandes óculos escuros. Era amável, elegante, falava um francês primoroso e, apesar dos grandes esforços para dissimulá-lo, em tudo aquilo que dizia e opinava transparecia sua vasta cultura. Foi somente na metade do encontro que reparei, pela grande precaução dela no manejo dos óculos, que era cega ou, na melhor das hipóteses, tinha uma visão limitada. Depois de nos despedirmos, averiguei que Jacqueline de Romilly era uma grande helenista, catedrática de grego clássico na École Normale e em Sorbonne, primeira mulher a ser eleita membro do Colégio da França e uma das poucas representantes do gênero feminino na Academia Francesa.

O primeiro livro de autoria dela que li, Pourquoi la Grèce?, me deslumbrou tanto quanto sua pessoa. Por mais que aquilo que ela diga e conte no livro tenha ocorrido há 25 séculos, sua atualidade é tão extraordinária que a leitura da obra deveria ser obrigatória hoje.

O livro passa em revista o milagroso século 5 antes da nossa era, no qual a história, a filosofia, a tragédia, a política, a retórica, a medicina e a escultura alcançam na Grécia seu apogeu, assentando as bases daquilo que, com o tempo, passaríamos a chamar de cultura ocidental.

Homero e Hesíodo são muito anteriores ao século 5 a.C. e há muitos artistas, pensadores e autores de comédias posteriores a esse marco temporal. O ensaio não hesita em retroceder ou avançar para incluí-los no legado grego, ainda que a maior parte daquilo que é chamado de “visita guiada através dos textos” se concentre nesse pequeno período de cem anos no qual o reduzido espaço do mundo helênico vive uma espécie de eclosão frenética, enlouquecida, de criatividade em todos os domínios do espírito, com ideias, modelos estéticos, padrões intelectuais, invenções e descobrimentos, graças aos quais a civilização do logos se distanciaria decisivamente de todas as demais culturas do passado e de sua época e, sem ter tal intenção nem tal consciência, transformaria para sempre a história do mundo.

Desenvolvimento. Jacqueline de Romilly mostra que na Grécia nasceram, ou ganharam uma realidade e um dinamismo nunca antes observado na vida social de povo nenhum, os fatores determinantes do progresso humano, como a democracia, a liberdade, o direito, a razão e a arte emancipados da religião, as ideias de igualdade, de soberania individual, de cidadania, e uma maneira absolutamente nova de relacionamento entre o homem e o além, e os deuses, bem como uma ideia de beleza e fealdade, de bondade e maldade, de felicidade e infortúnio que, apesar dos inevitáveis matizes e adaptações que lhes foram impostos pela história, seguem vigentes.

Ficamos maravilhados ao ver que um povo tão pequeno e tão pouco coeso politicamente, cheio de numerosas cidades e colônias distribuídas pela Europa e a Ásia Menor, que conservavam entre si uma imensa margem de autonomia, um povo tão instintivamente reticente em formar um império, em praticar o imperialismo e em submeter-se à prepotência de um tirano tenha sido capaz de deixar na história da humanidade uma marca tão profunda. Isso não foi um acidente nem obra do acaso. Houve razões para esse desenvolvimento e o livro de Jacqueline as faz desfilar diante de nossos olhos. Além de uma maneira de filosofar, explica ela, os diálogos socráticos e platônicos ensinaram aos seres humanos que conversar, falar em grupo, é uma maneira mais civilizada e ética de conviver do que dar ordens e obedecê-las, uma forma de comunicação que reconhece ou estabelece desde o início uma igualdade elementar. Assim foi surgindo a liberdade, domando o lado animal do ser humano e permitindo o nascimento de sua verdadeira humanidade.

Em Pourquoi la Grèce?, essa demonstração não aparece como um discurso abstrato, e sim por meio de comentários e citações literárias, porque, como sua autora não se cansa de repetir, tudo aquilo que constitui uma cultura clássica está essencialmente representado nas suas obras literárias, e a verdadeira crítica é aquela que examina a poesia, a narrativa, o teatro, os ensaios que uma sociedade produz na busca das verdades recônditas que alimentam sua imaginação e impregnam as aventuras e os personagens aos quais seus artistas deram vida para aplacar a sede do absoluto, de viver outras vidas, de seus povos.

É verdade que a Grécia de nossos dias é muito diferente. Nos 25 séculos transcorridos desde então seu povo vivenciou mais infortúnios e catástrofes do que a maioria dos demais: guerras externas e internas, ocupações, tiranias e segregações que várias vezes ameaçaram desintegrá-la.

Li no International Herald Tribune uma chocante descrição do estado da economia do país, dos grotescos privilégios desfrutados durante todos esses anos pelos seus armadores, banqueiros e empresários mais prósperos, enquanto o povo grego segue empobrecendo.

Diante desse panorama, o surpreendente não deveria ser o fato de muitos gregos terem votado em nazistas e extremistas de esquerda nas últimas eleições, e sim que ainda haja um número tão grande de gregos que creem na democracia, e também que as pesquisas de opinião para a próxima votação indiquem que os partidos de centro-esquerda, centro e centro-direita, que defendem a opção europeia, possam obter uma maioria e formar o novo governo.

Torço para que assim seja, porque, simplesmente, a Grécia não pode deixar de formar uma parte integral da Europa sem que esta se converta numa caricatura grotesca de si mesma, condenada ao mais retumbante fracasso.

A Europa nasceu ali, no pé da Acrópole, 25 séculos atrás, e tudo que ela tem de melhor, aquilo que ela mais aprecia e admira em si mesma, assim como as instituições democráticas, a liberdade e os direitos humanos têm sua distante raiz nesse pequeno rincão do velho continente, às margens do Egeu, onde a luz do sol é mais potente e o mar é mais azul.

A Grécia é o símbolo da Europa e os símbolos não podem desaparecer sem que aquilo que eles encarnam desmorone e se desfaça nessa confusão bárbara de irracionalidade e violência da qual a civilização grega nos tirou.

1 comentário

Arquivado em Artigo