Arquivo da tag: Brasil

“Ouvir histórias; contar histórias; estar no mundo” – Entrevista com Luiz Ruffato

Reproduzo entrevista realizada por Mirhiane Mendes de Abreu com Luiz Ruffato, publicada na revista Pessoa:

Naquela tarde, pensei no seu primeiro livro, O homem que tece. “Um desenho do seu perfil?”, eu me perguntava, ouvindo aquela prosa fluida, de um narrador que entra e sai de casos com a fluência dos que sabem narrar. O livro compunha-se por poemas e Luiz Ruffato me disse já não possuir nenhum exemplar, mas, como se vê, seguiu por aí, tecendo histórias de um mundo vivido e imaginado. Não foi diferente naquela conversa, em que falou de si, da sua escrita, do seu tempo. Quem lê e quem ouve esse mineiro logo ingressa no universo da escrita e da narração, e reconhece o discurso de quem sabe o que quer e para onde vai:

 “Quer dizer que você é brasileira?”, “Brasileiríssima. E você é mineiro”, “Ué, como é que você sabe?”, “Só mineiro fala ‘Aqui’, e gargalhou entre dentes alvos, bem-feitos, sem falhas, que revelavam uma origem de moça-de-família, como eu suspeitava, dificilmente erro nos julgamentos, e, impensado, apelei pro meu lado cavalheiresco convidando ela pra comer alguma coisa […]”

“Lisboa cheira a sardinha no calor e castanha assada no frio, descobri isso revirando a cidade de cabeça-pra-baixo, de metro, de eléctro, de autocarro, de combio, de a-pé, sozinho ou ladeado pela Sheila. Com ela de-guia, visitamos um monte de sítios bestiais, o Castelo de São Jorge, o Elevador de Santa Justa, Belém (pra comer pastel), o Padrão dos Descobrimentos e o Aquário, na estação Oriente […]”

 Esses dois fragmentos de Estive em Lisboa e lembrei de você são expressivos: convidado para integrar a coleção Amores expressos (um projeto de escrita literária que levou escritores para diversos lugares do mundo), Ruffato deixou claro o que queria. O seu destino seria Paris. “Não! Lisboa é mais interessante para o que queria narrar.” “Por quê? Você é muito lido em Portugal?” – eu quis saber. “Não é isso: meus livros vendem mais na Alemanha e na França. Os elementos temáticos e estilísticos que eu queria explorar funcionariam melhor em Portugal. Adoro Paris, mas Lisboa seria mais adequada ao projeto”. E o projeto consistia justamente em narrar as desventuras de Serginho, um mineiro que vai para Portugal em busca de melhores oportunidades de trabalho, após ininterruptos insucessos e uma grande frustração amorosa. Enquanto o narrador experimenta a linguagem, Serginho experimenta outros ângulos e sensações dessa mesma língua, tão comum e, paradoxalmente, tão estranha… Desterritorializado e estereotipado, Serginho busca o consolo em Sheila, gentil prostituta que interpreta bem a condição de quem “nem nome tem”.

Enquanto conversávamos, vi vários Ruffatos ali (o pai, o cronista, o mineiro-que-mora-em São-Paulo, o homem público, o leitor, o narrador, o viajante, o organizador de antologias e festivais literários, o polêmico) e todos sabem a extensão do seu trabalho, do seu papel como figura pública: “Minha pretensão é levar para a literatura a discussão do que ocorre no Brasil, por isso, quis fazer uma obra com base na representação do universo dos trabalhadores urbanos e a busca de uma forma de escrita diferente da imposta pelo romance burguês. O Estive em Lisboa… é parte dessa preocupação, que está também em Eles eram muito cavalos, em que tematizo o mosaico humano da cidade São Paulo.”

Eles eram muito cavalos dialoga diretamente com um fragmento de Cecília Meireles, citado na epígrafe do livro – “eles eram muito cavalos, mas ninguém mais sabe os seus nomes, sua pelagem, sua origem…” – e com um versículo bíblico extraído do Salmo 82: “Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios?”. A inquietante sensação de injustiça vivida por rostos apagados, por sujeitos despersonalizados na grande São Paulo, é narrada em 69 textos-curtos que são, de alguma forma, experimentais. Colando o conteúdo à forma para expressar a espiral de tipos e sotaques próprios do caos urbano dessa megalópole, o livro – premiado e muito discutido pela crítica pela sua experiência formal – reconfigura elementos significativos da sua visão de mundo e está diretamente relacionado aos seus anos de formação:

 

“O meu mundo foi o dos bairros operários de Cataguases. Meus amigos eram filhos de operários e muitos deles eram também operários. Minha educação se deu nos colégios públicos de Cataguases, destinados aos mais pobres. Eram escolas muito ruins. Meu pai era pipoqueiro e meu destino seria esse também: trabalhei em botequim, no setor de algodão hidrófilo, como balconista e também fui pipoqueiro, ajudante de meu pai. A minha educação formal se deu nessa circunstância. Foi em Juiz de Fora que tive meu primeiro encontro com a política. Estudei como um louco para o vestibular e passei em primeiro lugar no curso de Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalhava de dia e fazia cursinho à noite. Na época de fazer a inscrição para o vestibular, eu não sabia o que fazer e algumas pessoas falavam em Comunicação, foi o que fiz. Para me manter na cidade, arranjei um emprego no Diário Mercantil, comecei a escrever sistematicamente e a fazer política estudantil. Eu era interessante para uma certa esquerda por ser representante do proletariado.

Foi nesse momento que me dei conta que a literatura brasileira não tratava das pessoas pobres que eu conhecia e por uma razão muito simples: os escritores, em geral, vêm da classe média alta e não conhecem essa realidade. O bandido e o marginal podem ser personagens idealizadas pela classe média alta, mas o trabalhador, aquele que pega ônibus, bate cartão, não tem vez. Eu conheço essas pessoas e, como todo escritor, escrevo a partir das minhas experiências. Foi o que trouxe para Eles eram muito cavalos: o livro é um pouco da minha experiência de uma pessoa que gosta de caminhar pela cidade e ouvir as histórias dos outros.”

 Ouvir histórias; contar histórias; estar no mundo. Esse é o caminho de Ruffato ao escrever suas crônicas para El-País Brasil, falando sobre o que vê e percebe do seu tempo, sem fazer concessões a partido político algum. O olhar para o contemporâneo também estrutura o seu livro infantil, A história verdadeira do sapo Luiz. “Não é livro infantil”, posicionou-se: “é uma narrativa ilustrada.” Indaguei-lhe um pouco sobre literatura com destinatário (“literatura é boa ou má”, disse ele) e sobre a representação, tema inerente ao seu conjunto narrativo: “A minha escrita é parte de uma decisão política e uma decisão estética também. Não acredito que estética e política sejam coisas separadas”. E como, para se ter acesso à literatura é preciso aprender a ler, falamos sobre a escola brasileira e a responsabilidade de se formar leitores: “A minha formação foi muito errática. Não sei o que propor.” Mas eu insisti na pergunta, queria saber como ele agiria em sala de aula: “Acho que deve se oferecer o maior número possível de livros aos alunos, variedade de gêneros e épocas”. “Acredito piamente que a literatura seja capaz de mudar o mundo”, idealizou.

E foi assim que chegamos ao polêmico discurso proferido na Feira de Frankfurt, em 2013, quando o Brasil foi um dos homenageados. A análise aguda sobre os problemas que o país enfrenta causou incômodo à plateia brasileira que, na ocasião, desejava algo mais festivo. Muito se falou sobre esse discurso, que causou um debate acalorado. Para se obter uma ideia mais precisa a respeito dessas considerações que, no fim das contas, sustentam seu percurso narrativo e a boa discussão que tivemos sobre o tema, transcrevo aqui um trecho:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito entre as pessoas. […].

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas […]; ora como um lugar execrável, de violência urbana. […].

Volto então à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?”

Foi assim, entre política e literatura, que prosseguiu nossa conversa: “Até hoje não entendi o porquê de tanto barulho. Não falei nada de novo: falei da bruta desigualdade social, da violência contra negros e mulheres. Falei que a educação brasileira é um artigo de luxo. Onde está a novidade nisso? Onde seria o lugar para discutir essas questões? Eu pensei que fosse entre intelectuais…”.

Estive em Lisboa… voltou ao tema por esse caminho. Livro em que o jogo com a realidade se impõe de tal forma que, empregando recursos usados por escritores da narrativa tradicional, abre-se com uma nota, afirmando: “o que se segue é o depoimento, minimamente editado, de Sérgio de Souza Sampaio, nascido em Cataguases (MG) em 7 de agosto de 1969. […]”. Assim como a nota, a desventura amorosa vivida por Sergio e Sheila é transfiguração de um real imaginado. Amor deslocado no espaço e na própria condição amorosa, que movimenta esse simulacro do real. A obra de Ruffato, em síntese, expõe de forma simétrica o jogo e a experiência estética, de que a linguagem é parte indissociável.

Por falar em linguagem, tocamos aqui num ponto importante das ideias de Ruffato e sua concepção de escrita. “Literatura é fundamental”, insiste. E, ao afirmar isso, demonstra gosto pela leitura de José de Alencar e Mário de Andrade, autores que admira pelo projeto de linguagem. Discutimos sobre o modernismo brasileiro. E divergimos: “Oswald de Andrade é o grande escritor do nosso modernismo”, opinião controversa. Comentamos sobre a pluralidade dos escritores daquelas primeiras décadas do século XX , recuamos ainda mais no tempo até chegarmos a Machado de Assis: “leio tudo o que posso desse homem genial”, afirmou. “Machado decidiu que queria se tornar o grande escritor. E conseguiu.”

Pareceu-me que, para Ruffato, ser escritor é ser um intelectual público, significa intervir, ocupar os espaços para dar voz a quem não a tem. Esse depoimento vai ao encontro dos seus temas, das suas leituras, do seu projeto de escrita. Literatura e política ordenam seu olhar sobre o mundo. Os vários Ruffatos que vi ali, naquela tarde, compõem um homem fluente na sua prosa, tranquilo para falar da sua inaptidão para lidar com blogs, com trânsito e que, ainda assim, procura digerir o caos social. São nuances da mesma preocupação: um homem acompanhado por livros e que deseja tecer histórias que lutem contra a mesquinhez do mundo.

1 comentário

Arquivado em Entrevista

“Universidades federais têm um terço dos recursos bloqueados pelo MEC”

Extraído do site G1 [via André Vallias]:

As universidades federais começaram o ano com um corte de 30% no orçamento, e está faltando dinheiro para pagar serviços terceirizados e para programas para os estudantes.

O Bom Dia Brasil [vídeo] tem mostrado que a falta de recursos atinge a educação de várias formas. Agora as instituições vão cobrar uma resposta do governo esta semana. Isso porque a educação foi apontada como prioridade do governo.

A explicação do Ministério da Educação é que o orçamento de 2015 ainda não foi aprovado pelo Congresso e, por isso, o governo tem que segurar os gastos.

Esta semana, reitores se preparam para ir a Brasília e cobrar providências do MEC. O principal argumento de reitores é que a educação é um serviço essencial para os brasileiros. Portanto, não deve receber cortes de verbas.

Mais um ano letivo, um novo orçamento – só que desfalcado – e alunos preocupados. “Se começar assim sem verba é complicado”, afirma um estudante.

“Tem prejuízo, claro que tem”, diz outro estudante.

Não é só na Universidade de Brasília, mas todas as universidades federais receberam neste início de ano 30% a menos do que estava previsto. “Já tem afetado várias universidades. Os serviços terceirizados, muitos não estão sendo pagos, assistência estudantil, problema de bolsa que começam a afetar academicamente as universidades”, afirma o presidente do Andes, Paulo Rizzo.

Na Federal da Paraíba, estudantes fizeram protesto, como mostram imagens de celular, em frente a reitoria para pedir o pagamento do auxílio alimentação.

Na Universidade de Campina Grande, também na Paraíba, não estão em dia água, luz, telefone, e falta dinheiro para pagar os alunos bolsistas. “Se nós estamos devendo bolsa de janeiro, isso nos preocupa. Significa dizer que nós podemos encerrar o segundo mês do ano sem pagar o primeiro”, afirma o reitor, José Edilson Amorim.

A Universidade Federal de São Paulo divulgou nota dizendo que com a redução dos repasses do governo, ‘a situação financeira das universidades federais, que em 2014 foi sofrida, passa a ser ainda mais difícil’. Afirma ainda que: ‘a reitoria e diretorias acadêmicas estão trabalhando para a manutenção dos serviços essenciais enquanto a política de contingenciamento vigorar. Mas não sabem ainda quais impactos isso produzirá sobre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, incluindo também o hospital universitário’.

Algumas já vinham com contas atrasadas desde o ano passado. Caso da UFRJ: o Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, administrado pela universidade, chegou a fechar por alguns dias porque as empresas que fazem serviço de limpeza e conservação estavam sem receber há três meses.

Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, o Andifes, os reitores já estão refazendo o planejamento. “Estamos estudando cuidadosamente nosso orçamento para ver onde que seria possível ter algum corte”, afirma o presidente da associação, Targino de Araújo.

Ninguém do Ministério da Educação quis gravar entrevista. A assessoria informou que o MEC está em diálogo constante com as universidades e que a redução de 30% nos repasses é uma das medidas de ajuste fiscal. Segundo o governo, o corte será mantido até a aprovação do orçamento da União, que depende do Congresso.

Reitores têm uma reunião esta semana para discutir o problema e organizar uma vinda a Brasília. “A primeira iniciativa será solicitar, pela segunda vez, uma reunião com o novo ministro. Nossa ideia principal é que saúde e educação não pode entrar no contingenciamento orçamentário do Governo Federal, porque são atividades essenciais”, ressalta o reitor da UFPB.

O MEC afirmou que a previsão de investimentos na educação neste ano será maior que no ano passado, um aumento de R$ 900 milhões.

3 Comentários

Arquivado em Notícia

O maior banco de dados sobre o tráfico negreiro

Extraído do Facebook, mural da Fundação Casa de Rui Barbosa:

FCRB na mídia:
“Foi pior do que se pensava”: o maior banco de dados sobre o tráfico negreiro no mundo estará disponível em português. Uma iniciativa da Fundação Casa de Rui Barbosa. revista VEJA, 4 de fevereiro de 2015 – 1ª parte.

Link para matéria completa em PDF: http://www.casaruibarbosa.gov.br/arquivos/file/Noticias/Fcrb_Midia_pdf/veja_Historia_040215.pdf

Deixe um comentário

Arquivado em Arquivos

“Brasil na rua (3): como os ninja vão sobreviver à convulsão” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Caloteira? Ditatorial? Seita? Quando a Mídia NINJA, canal online dos protestos no Brasil, teve destaque nos media brasileiros, a Fora do Eixo, sua base, foi alvo de denúncias. Segunda parte da história iniciada ontem

 São Paulo, 1 de Agosto. Sem aviso, a repórter vai à Casa Fora do Eixo (base da Mídia NINJA, fenómeno dos protestos no Brasil, 170 mil seguidores no Facebook). A porta está literalmente aberta. O líder Pablo Capilé foi em missão ao Rio de Janeiro. Quem fala em nome da casa é Gabriel Ruiz. No episódio de ontem, ele acabava a dizer que a eleição de Lula permitiu um colectivo como o Fora do Eixo (FdE), no começo dedicado à música alternativa. Mas “o advento” desse “governo popular” não foi factor único, a crise da indústria fonográfica e a massificação da Internet foram decisivos, ressalva. E sem Internet não haveria Mídia NINJA a transmitir as manifestações.

Já vamos ao quintal onde está a base-ninja. Antes, a ideia é ver algo da casa onde 25 pessoas de várias partes do Brasil vivem e trabalham, a mais nova com 20, a mais velha com 34 (Capilé). Há algumas vagas por concurso. “No último tivemos 400 inscritos, a gente seleccionou seis.” Existe um estágio em que se é “vivente”. Quem chega pode trazer móveis, objectos, roupas, para somar ao colectivo. “Menos a roupa interior, ou uma ou outra peça que a pessoa goste mais. Mas 95 por cento todo o mundo pode usar.” E os computadores? “A maioria já tem o seu.” Ninguém recebe salário, as despesas são pagas com a caixa colectiva dos projectos FdE.

Neste momento, 55 por cento dos moradores são homens, diz Gabriel. Houve nascimentos? “Sim, o Benjamim, nosso bebé colectivo.” Entretanto os pais “mudaram para a casa FdE de Brasília e não há outras crianças aqui”. Mas alguns moradores têm filhos de relações anteriores, há grávidas em outras casas FdE e por tudo isso foi criada “uma frente para a gurizada”.

Continuando, átrio com escada: em cima, quartos; em baixo, casa de banho e copa-cozinha. As casas de banho são unisexo, os quartos não — só quando recebem hóspedes ou há casais na casa. De resto, concluíram que era mais eficaz separar homens e mulheres. Não há gays na casa? Gabriel parece surpreendido, como se precisasse de pensar. “Tem, tem. Mas a maioria é hetero, com certeza. Tem… dois gays.”

A repórter pede para ver o guarda-roupa colectivo. Gabriel vai verificar se o espaço está livre. Nas escadas, um vitral. À direita, um quarto com armário de parede. Lá dentro, tudo organizado em cabides e gavetas. “Cada um escolhe o que quer.” Horários diferentes não são um problema? “Não, todo o mundo levanta entre 9h e 11h e vai dormir depois das 2h.” A vida amorosa e sexual não fica limitada? Surpresa de novo, como se a questão fosse remota: “Não.” Pausa. “Não é uma preocupação. Estou mais preocupado com o momento.” E não é passageiro, garante. “Encaro isto como a minha vida. Não me imagino fora do FdE. Todos os dias são ‘inputs’ novos. Isso me estimula.”

Descemos. Além dos graffiti, há intervenções artísticas pela casa, e a cozinha-copa está coberta de autocolantes, ímans, cartazes. Uma babel visual entre restos do almoço: arroz, feijão, carnes, farofa, lasagna. Dois cartazes por cima: “Lave os utensílios usados por você em cada refeição.” E “Antes de repetir certifique-se de que todos já comeram.”

Um grupo cuida de “logística, hospedagem, alimentação, manutenção”, mas existe um “cronograma de revezamento” e “todo o mundo cozinha, ou a maioria”. Além disso, “tem uma faxineira, duas vezes por semana, das 8h às 17h, para limpar, cozinhar”. Contíguas, ficam “a sala da TV e a sala do rap”, Gabriel abre as portas. “Tem vários rappers na casa.”

E a roupa? “Quando sai o sol a gente faz uma força-tarefa para lavar tudo, em turnos.” No pátio das traseiras estão duas máquinas, tão grafitadas como as paredes. O pátio abre para o quintal, plantinhas, espaço para o Domingo na Casa, com concertos e debates.

E, finalmente, num anexo, o “estúdio” base da Mídia NINJA: alto pé direito; uma parede branca com um sofá para cenário; uma parede coberta por fotos dos protestos; outra cheia de panfletos (“Não haverá retorno ao normal”, “Nossa confiança é explosiva”, “Estamos na rua porque os políticos estão no ar condicionado”); outra com um ninja pintado, máscara negra, olhos de fora; a agenda da semana num quadro; duas mesas-cavalete cobertas de cartazes, dois rapazes e uma rapariga de capuz iluminados pelo écrã dos portáteis, totalmente imersos. Reflexo da casa, onde a repórter só viu gente a trabalhar.

A FdE já fundara a Pós-TV, também online, quando criou a Mídia Fora do Eixo, depois Mídia NINJA, co-idealizada com um conhecido jornalista de São Paulo, Bruno Torturra, 34 anos. Tudo isso serviu os ninja, mas hoje é arqueologia, porque eles simplesmente ficaram maiores.

 

Fogo sobre o eixo

Dias depois, uma doutoranda de Columbia que pesquisou a FdE, Shannon Garland, escreve online que será “um erro muito grande” achar “que um jornalista ou qualquer um possa chegar lá, observar, até passar umas semanas, e sair conhecendo como funciona” a FdE. É um dos testemunhos críticos que “pipocam” nas redes desde que o “Roda Viva”, clássico da TV Cultura, convidou Pablo Capilé e Bruno Torturra para falarem da Mídia NINJA, a 5 de Agosto.

A maior parte das perguntas do programa incidia no financiamento e ligações políticas da FdE, e por inerência da Mídia NINJA. Não era novo: há músicos insatisfeitos com falta de pagamento da FdE há anos e, à direita, acusações de aparelhagem ao PT. Mas o que se segue ao “Roda Viva” é uma catarse, curto-circuito entre um Brasil em convulsão e a cacofonia global, nunca tendo sido tão verdade que uma verdade são muitas.

O primeiro depoimento com impacto no Facebook é o de Beatriz Seigner, autora de um filme que a FdE fez circular: acusa a rede de lhe dever dinheiro, absorver patrocínios sem dizer ao autor, estar obcecada em se alimentar como rede, não consumir cultura.

A jornalista Laís Bellini prossegue, também no Facebook, com um longo e vívido relato da sua experiência a viver com a FdE. Se o colectivo “fosse pagar tudo o que deve poderia fatalmente decretar falência”, diz. Mas o “escravismo” da FdE também é “mental”: “Quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo.” Os moradores, diz, são encorajados a cortar laços: “Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede.” A não ser como “ferramenta”, de “catar e cooptar”, porque acontecem reuniões “dentro da cúpula” para definir “quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”. O “sexismo” é “forte”: as meninas tratam da universidade, os meninos da política. A horizontalidade um mito: Laís nunca viu Pablo Capilé lavar um prato. A cobrança do trabalho é “24h”, tal como partilhar “o que o Pablo e mais outros por lá escrevem no facebook é demanda diária”. Entretanto, “ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo”. Em suma: “Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida, ditatorial diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem auto-intitulado rei-mor da bancada.” Noutra passagem ela usa mesmo o termo “seita”. E explica que não é tão fácil sair pela porta: “Tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia.”

Seguem-se outros testemunhos emotivos, a que se contrapõem moradores FdE. Entretanto, à esquerda, surgem críticas básicas de direito do trabalho na FdE: jornadas excessivas, ausência de salário, de contrato, de segurança social, de plano de saúde. Há quem aponte a FdE como novo modelo de negócio que extrai a mais-valia em vez de ser alternativa à exploração.

“Eles começaram a articular formas independentes e acabaram a criar um eixo paralelo, uma máquina de ganhar editais [concursos]”, resume André Aquino, 23 anos, finalista de Geografia da USP. A repórter entrevistou-o no bairro de Butantã, em São Paulo, onde André e camaradas têm no ar, em 107.1 FM, a rádio pirata Várzea Livre, exemplo de mídialivrismo que incentiva comunidades a fazerem a sua própria rádio. Simpatizante do Movimento Passe Livre, responsável pelos primeiros protestos de Junho, André é da “esquerda libertária”, cita o presidente Mujica do Uruguai como inspiração e não confia na FdE: “A [ministra da Cultura] Marta Suplicy tem gente da FdE como assessor. São eles que escrevem os editais e sabem como ganhá-los. Então, toda a grana para a mídia independente acabou centralizada na FdE.” Que pensa de Capilé? “Começou numa posição difícil por ser fora do eixo Rio-SP [do Mato Grosso], mas hoje tudo passa por ele. Então esse cara controla a arte independente.” E a Mídia NINJA? “Eles foram superimportantes nas manifestações”, reconhece André. “Mas se têm o aparato técnico é por causa da FdE. Sabem usar as redes sociais. Surgiram num momento carente de alternativa à grande mídia. Tinha um vácuo muito grande que souberam preencher.”

Quanto à direita brasileira, que alimenta a pior revista do mundo em português, a “Veja”, “catou e cooptou” as críticas da esquerda que convinham e arremessou contra o PT, manipulando fotos de Capilé com Dilma, Lula e Dirceu.

Defensores da FdE citaram esse aproveitamento para desqualificar as críticas, o que só irritou os críticos. Capilé reconheceu erros (pagamentos a acertar, falhas na horizontalidade, experiências individuais que não funcionaram), mas insistiu que não tem uma política de calote, que não é contra cachê para artistas, que a FdE é uma experiência inédita em processo, que dialoga com todos os partidos interessados em movimentos sociais, que nenhuma organização é tão transparente. Abriu um portal para mostrar contas. E garantiu que a Mídia NINJA vai caminhar pelo próprio pé.

 

A vida fora da FdE

Bruno Torturra, que é co-fundador da Mídia NINJA mas vive fora da FdE, já elencou os meios de autonomia para os ninja: crowdfunding (equipamento, estúdios, um site), assinatura mensal (custos do dia-a-dia), doações (reportagens específicas) e micro-doações (por texto, foto, vídeo). O momento é de despedimentos na imprensa brasileira. Há 1500 inscritos de mais de 150 cidades. Torturra vai montar equipas.

Entretanto, quem pesquisar sobre os últimos meses nas ruas já encontra nos ninja um arquivo crucial. Só estarem na rua fez diferença, revelando o quanto o jornalismo brasileiro está fora da rua. De resto, os ninja não visam a imparcialidade, antes “um mosaico de parcialidades”. Não há dúvida que fazem informação. Mas essa informação é jornalismo?

“É pré-jornalismo, é pós-jornalismo, é jornalismo militante”, atalha o decano Alberto Dines, director do Observatório da Imprensa. A repórter entrevistou-o por telefone no dia a seguir ao “Roda Viva”, em que ele, com os seus 81 anos, fez a Capilé e Torturra as perguntas mais interessantes. “É um uso muito inventivo das novas plataformas. E eles vêem isso não como um modelo de negócio mas de convivência, algo que me toca muito. Também participei de colectivos socialistas no Brasil e de repente encontro esses jovens, com esse projecto de viverem juntos, de uma nova relação com o trabalho, os meios de produção.”

Onde irá dar? “Acho que não se vão deixar levar pela ideologia, sabem que têm a perder. E o PT não vai querer se entregar a um grupo realmente autónomo. Eles [ninja] estão muito abertos. São um pouco marginais mas não são arrogantes. Querem ouvir, pedem conselhos, muitos. Nesses anos todos não vi surgir um projecto tão interesssante.”

Houve aquele momento em que o sistema se curvou: quando o “Jornal Nacional” da Globo “reproduziu informação que a Mídia NINJA tinha veiculado”, lembra Dines. “Isso é um dos saltos mais extraordinários. Um bando de Flintsones com um carrinho de supermercado [onde os ninja levam a estrutura mínima] consegue produzir informação que evitou uma tremenda injustiça.” A polícia detivera um manifestante, acusando-o de atirar “cocktails molotov”. As imagens fora do eixo mostravam outra verdade.

1 comentário

Arquivado em Manifestações

“Brasil na rua (2): o canal que nasceu Fora do Eixo” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

Ao transmitir os protestos pela Net, a Mídia NINJA tornou-se um fenómeno, mostrando como os media brasileiros estavam aquém da realidade. Entretanto, a sua base, a Fora do Eixo, ficou sob fogo. Hoje, a primeira parte da história.

Já não há uma cadeira livre quando o rapaz ao fundo começa a falar: “O momento que estamos vivendo é de mais perguntas que respostas. Nunca na história desse país tanta gente fez análise de conjuntura. Tem muita gente querendo produzir conteúdo e muita gente querendo absorver.” A voz é gutural, rápida, incisiva, e todo o corpo a reforça, braços, mãos, caracóis em desalinho, mancha vermelha na cara, algo singular na boca. Uma figura imediatamente magnética, mesmo avistada da última fila.

Os jovens mais próximos da repórter nem sabem como ele se chama mas parecem tão captados como os que enchem as filas da frente. Estamos em pleno Inverno carioca, noite de chuva e neblina no terreiro do palácio que já foi um hospício e hoje é campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um corropio de vultos continua a atravessar os portões oitocentistas, em busca deste pré-fabricado da Escola de Comunicação (ECO), porque é aqui que acontece a reunião aberta da Mídia NINJA, maior fenómeno mediático dos protestos no Brasil.

Quando o chão fica cheio ainda sobram caras na janela, lá fora: toda uma plateia de estudantes, pelo meio curiosos, activistas, membros da Ordem dos Advogados que acabam de conseguir a libertação de manifestantes. É terça-feira, 23 de Julho, noite seguinte à da carga policial contra o protesto junto ao palácio do governo do Rio, depois do Papa sair da recepção em sua homenagem.

“Se alguém perdeu a pouca credibilidade que tinha, foi a grande imprensa”, diz o orador. Está a sintetizar o que aconteceu desde Junho, quando as manifestações contra o aumento nos transportes explodiram em reivindicações pelo Brasil, levando um milhão à rua.

Em “streaming”, horas a fio na Net, a Mídia NINJA mostrou no chão, entre os manifestantes, o que não estava na grande media: a emoção em tempo real, o engrossar do levantamento, a repressão da polícia, as consequências. A esmagadora maioria da classe média nunca levara com gás lacrimogéneo, bala de borracha, cassetete e quem nem estava na rua nunca vira gente assim apanhar. Em geral concentrada sobre a favela e a periferia, a violência agora acontecia entre brancos, jovens, desarmados, com a polícia a lançar gás em becos, em bares, até dentro de hospitais.

 

Revolta contra os media

Ao longo das semanas, a página da Mídia NINJA no Facebook ganhou dezenas de milhares de seguidores, e a revolta contra o jornalismo tradicional, simbolizado pela Globo, associado a valores conservadores, com passado de apoio à ditadura, somou-se à revolta geral, incluindo cercos a jornais e televisões. Quando manifestações partiram lojas e bancos nas ruas chiques do Leblon — bairro do governador Sérgio Cabral, responsável pelo comando policial e por isso alvo de protestos —, os media relevaram os actos de vandalismo, o que reforçou a indignação dos manifestantes. É que entretanto nove moradores da favela da Maré eram mortos a eito pela polícia, que também levara um ajudante de pedreiro da Rocinha, Amarildo, nunca mais visto. A pergunta passou a ser: os vidros do Leblon valem mais do que as vidas dos Amarildos? Do ponto de vista de quem estava na rua, a media tradicional era o Leblon, a Mídia NINJA era o Amarildo.

E para muitos a reunião de hoje, convocada pelo Facebook, será a revelação do líder por trás dos ninja: Pablo Capilé. Ele está a explicar agora que a origem de tudo isto tem 10 anos, lá em Cuiabá, capital do Mato Grosso, centro geodésico da América Latina, o “lugar mais longe de tudo”, onde ele próprio nasceu, há 34 anos.

Só ouvi-lo uns minutos já dá um glossário, pontuado a cada frase pelo tique “saca?” Uma das novas palavras é mídialivrismo, ou seja, o exercício de meios independentes. Não é invenção dos ninja, tem anos de prática, mas nunca com o impacto que eles ganharam.

“Já não precisamos de veículos, somos os veículos”, dizia o manifesto inicial no Facebook, meses antes da grande convulsão, a 26 de Março de 2013. Uma “tropa de comunicadores independentes”, “reduzindo os filtros entre os fatos e o público”, “contrariando, na guerrilha, a narrativa oficial”, “transformando a audiência passiva em difusores de informação”. NINJA em caixa alta por ser uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. A primeira missão em directo pelo Facebook foi cobrir o Fórum Social Mundial na Tunísia, com os enviados Felipe Altenfelder e Bruno Torturra, também presentes na reunião desta noite.

Mas não há como contar a história dos ninja sem contar a da casa-mãe, que é a Fora do Eixo (FdE). E é o que Capilé está a fazer, dando ao Rio de Janeiro um contexto até agora mais conhecido noutros pontos do Brasil: a de um colectivo que começou como uma rede alternativa de festivais de música e hoje conta com 2000 pessoas no país, espalhadas por casas colectivas, mistura rara de vida e trabalho.

A FdE é a estrutura que permitiu o impacto da Mídia NINJA, base, meios e gente, e tornar-se-á o seu maior problema nas semanas que se seguem. No fecho desta edição, poucas figuras estarão a ser tão discutidas no Brasil urbano como Pablo Capilé.

 

Vida colectiva

São Paulo é a base central da FdE. As casas colectivas FdE definem-se como permanentemente abertas. Por isso, a 1 de Agosto a repórter atravessa o bairro paulistano da Liberdade sem ter marcado visita. A morada que estava na Net revela-se um casarão grafitado. No portão, um papel diz “Aqui tem amor”. Não há cão, alarme, nem porteiro. Pondo a mão na maçaneta, é simples: o portão abre.

Assim, sem pré-aviso, qualquer visitante desce o pátio, entra na porta, também aberta, que dá para uma sala de entrada cheia de cartazes e pinturas nas paredes. A estética é “hip hop”, mas a organização é de escritório criativo: estantes com CD’s e livros catalogados; um organigrama de post-its com a estrutura de funcionamento do FdE em vários círculos de cores, do núcleo para as radiais; um cartaz com a Universidade Fora do Eixo, projecto nacional do colectivo; uma mesa de trabalho com cadeiras avulso; um aviso a dizer que os vasos de flores não são cinzeiros; outro a pedir que cada um leve a loiça que trouxer e limpe o que sujar; uma rapariga a recortar papéis vestindo a t-shirt de um festival de cinema independente em Minas Gerais.

A repórter apresenta-se, ela vai chamar o líder que neste momento responde pela casa. Capilé e Altenfelder moram ambos aqui, mas continuam em missão no Rio de Janeiro. Na sala contígua, dezenas de post-its enumerando festivais de música alternativa no Brasil, mais mobiliário avulso, impressora e scanners junto à janela, cores alegres nas paredes, computadores portáteis com jovens a trabalhar, ao som do rapper Criolo, que se tornou conhecido nos festivais FdE.

O líder-no-momento é um rapaz de fato de treino e barba, casaco Adidas como Capilé na reunião do Rio. Chama-se Gabriel Ruiz, tem 29 anos, como todos deixou tudo para morar-trabalhar aqui. “Esta casa é o bunker da rede”, resume, a abrir. Porquê bunker? “A gente utiliza toda a linguagem que se aproxima da guerrilha. Já tinhamos experiência de colectivos em cidades de médio porte, e a gente sabia que se decifrasse São Paulo decifrava todas.”

Assim nasceu esta casa, em 2011, na sequência já de “15 ou 20 colectivos” FdE, incluindo o de Bauru, interior do estado de São Paulo, fundado por Gabriel. “Há uma política desterritorial, a gente entende que pode se formar e ir para outro lugar, então esta casa reuniu lideranças muito fortes: Cuiabá, Recife, Uberlândia, São Carlos, São Paulo.”

Gabriel estudou comunicação em Bauru. “Foi essa faculdade que me deu as bases para eu escolher uma vida alternativa. Conheci a rede [FdE] em festivais de música, comecei a mandar mensagens, dizendo que queria trabalhar com eles.” Um rapaz de calções, barba e caracóis vem tirar uma dúvida sobre como vai agir “no acto”. O acto é a manifestação desta noite (ver reportagem ontem).

“Num espaço muito curto a gente cresceu muito, começou a fazer parcerias com o poder público, no sector cultural, música, teatro, dança, artes, economia criativa, hip hop”, retoma Gabriel, que mora na casa de São Paulo há ano e meio. Por ela, pagam entre “quatro a cinco mil reais de renda”, o que seria o aluguer de um pequeno apartamento, não de um enorme casarão como este, com pátio e quintal. “O dono gosta da gente, vem sempre aqui, se identifica”, explica Gabriel. Não é um japonês, como se podia esperar neste bairro tradicionalmente japonês, mas um chinês.

“A gente se preparou durante um ano, cobrindo ocupações, Marcha da Maconha, Marcha das Vadias, Passeata Gay, bicicletadas, sem saber que tudo isso eclodir.” Os protestos de Junho. E isso fez com que toda a casa passasse a trabalhar para isso. “Estamos exclusivamnente voltados para as ruas, acompanhando assembleias, movimentos, gente que está produzindo conteúdos.” Dito de outra forma: “Todo o mundo agora virou ninja. Eu que sou do núcleo da música comecei a montar som, estruturas, para que assembleias aconteçam. A gente vive como se fosse a equipe de produção da revolução.”

Então trata-se de uma revolução?

“Não no sentido de tomar o poder, mas no sentido de mudar as coisas, tomando consciência de que as ruas são para ser ocupadas, que têm um poder de negociação muito forte.” Uma nova etapa depois das ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, e da transição democrática que se seguiu. “Nos anos 90 houve um movimento muito grande de liberalização, de entrada do capital, de abertura do mercado. O Brasil vendeu tudo o que era nosso. Depois a partir dos anos 2000 temos o advento de governos populares. No Brasil isso é claro com Lula e o PT, que foi muito inteligente ao colocar o Gilberto Gil e o Juca Ferreira no Ministério da Cultura. Foi um avanço muito forte: o programa de cultura digital, colocar na mão das pessoas a maquinaria para fazerem elas, políticas com Pontos de Cultura. Foi isso que permitiu o surgimento do FdE.”

E no fogo cruzado que vai chover sobre o FdE, uma das questões é o quanto eles, e consequentemente a Mídia NINJA, são um braço do PT, sendo que eles negam qualquer filiação partidária, e têm diálogo com vários movimentos, dos pós-comunistas do PSOL à rede de Marina Silva.

Deixe um comentário

Arquivado em Manifestações

“Brasil na rua (1): do Movimento Passe Livre aos anarquistas do Black Bloc” – Alexandra Lucas Coelho

Texto de Alexandra Lucas Coelho extraído de seu blog, Atlântico-Sul:

No começo era a luta pelo transporte público, depois explodiu. O Brasil está há dois meses em convulsão, com protestos diários. Anuncia-se um “badernaço” para 7 de Setembro, Dia da Independência. Primeira de quatro reportagens.

Uma massa avança pela Avenida Paulista, vitrine do capitalismo no Brasil. Muitos vestem roupa escura e têm a cara tapada: máscara, capuz, lenço, pano. Na frente, a bandeira vermelha e negra que une anarquistas e socialistas libertários. Atrás, polícia de choque com escudos, espingardas, cassetetes. Por cima, helicópteros varrendo a noite com um foco de luz.

De repente, a massa corre para o átrio de um Santander e é o tumulto contra as paredes de vidro, até que um dos manifestantes avisa: “Tem gente dentro! Tem gente dentro!” Pessoas a levantarem dinheiro nos caixas automáticos. O alerta multiplica-se, nada chega a ser partido, todos voltam à pista central.

É quinta-feira, 1 de Agosto. Há menos de uma semana, uma manifestação maior, também com bandeira vermelha e negra e gente de cara tapada, atingiu 13 agências bancárias na Paulista. Esta noite são apenas várias centenas de pessoas, mas claramente focadas nos princípios do movimento pró-anarquista Black Bloc: acção directa contra coisas, não pessoas, que representem o capitalismo.

Os manifestantes caminham para o fim da avenida. Há cartazes pelo “Poder Popular”, convocatórias para um acampamento contra o governador paulista Geraldo Alckmin, faixas perguntando “Cadê o Amarildo?”, o ajudante de pedreiro da favela da Rocinha desaparecido há semanas que se tornou símbolo de luta: a última vez que foi visto estava a ser levado pela polícia militar do Rio de Janeiro.

Então, a tropa de choque concentra-se no asfalto, reforço de carros atrás, polícia militar dos lados. Compasso de espera e um manifestante de preto avança, braços erguidos na diagonal, punhos fechados, em desafio silencioso. A seguir outro, cabeça coberta com pano negro, tronco nu. E outro, cabeça coberta com pano verde. Até que se cria um cordão de punhos encostados uns aos outros, erguidos perante os escudos e as espingardas: sobretudo homens mas também mulheres, sobretudo jovens, alguns mesmo adolescentes, vários de cara descoberta.

Com o resto da manifestação nas costas, o cordão aproxima-se dos polícias de choque: “Assassinos! Fascistas!” Os insultos alternam com incitações: “Recua! Recua!” E urros ritmados: “Hu! Hu! Hu! Hu!” Uma tensão que é a soma de mês e meio de protestos, por vezes violentamente reprimidos, o maior levantamento popular no Brasil desde as manifestações que derrubaram o presidente Collor de Mello em 1992.

Depois o cordão transforma-se numa massa de braços levantados, aos gritos: o nome dos desaparecidos, dos desalojados à força. Rapazes de cabeça coberta ajoelham-se de punhos erguidos, dando as costas à polícia, que se mantém quieta. Tudo indica que, esta noite, o batalhão de choque tem ordens para não carregar se nada for partido.

Entretanto, no tumulto em volta, manifestantes são detidos, e a massa vai até à carrinha policial: “Solta! Solta! Luta não é crime!” Entre os que gritam está Felipe, estudante de História na Universidade de São Paulo (USP) e porta-bandeira vermelho e negro. “A nossa bandeira é o anarco-sindicalismo, a gente quer uma sociedade organizada pelos trabalhadores”, diz, cara descoberta, aparelho nos dentes. “Só esse trimestre [passado] o banco Itaú lucrou mais de três bilhões de reais.” Para atalhar a questão do quebra-quebra, como dizem os brasileiros.

 

No vão da História

 Indo ao começo desta convulsão no Brasil, um dos eixos será justamente a Faculdade de Geografia e História da USP, bastião da universidade pública com longa tradição de esquerda.

Estamos na véspera da manifestação na Paulista e o vão do edifício está cheio de bandeiras, cartazes, palavras de ordem. Encontro marcado ao começo da noite com Luísa Mandetta, 19 anos, estudante de Ciências Sociais, uma das militantes do Movimento Passe Livre (MPL), onde não há líderes nem porta-vozes, todos são militantes.

O MPL foi o rastilho, em Junho, ao convocar manifestações contra o aumento dos ônibus na cidade, de 3 para 3,20 reais. Transporte é um drama central em São Paulo, megalópole engarrafada, com um metro pequeno e atulhado, maus ônibus e cheios, além da corrupção associada a empresas de transportes. Tudo isto começa a ser também o drama de muitas cidades brasileiras em crescimento, e uma resposta policial aos protestos com gás lacrimogéneo, balas de borracha, muitas dezenas de feridos e detidos ajudou a que o levantamento engrossasse, espalhando-se pelo país, multiplicando as razões de protesto. Tribos e movimentos que há anos tinham trabalho de base vieram ao de cima. Poderes públicos e privados ficaram perplexos: tudo eram perguntas tentando entender verdades múltiplas, muito além do aumento. Entretanto o MPL ganhou a etapa a que se propusera: por todo o Brasil as novas tarifas de ônibus caíram em dominó. Assim reforçada, a luta continua.

Argolinha no nariz, lenço na cabeça, Luísa senta-se com um recado escrito na mão: uma frique que podia estar neste momento a construir a Festa do Avante. Mas não pertence a nenhum partido, nem é filha de militantes. Toda a militância dela é o MPL, que na página do Facebook, com 300 mil seguidores, se define como “movimento social autónomo, apartidário, horizontal e independente”, em luta “por um transporte público de verdade, gratuito para o conjunto da população e fora da iniciativa privada”.

Baptizado com esse nome, o colectivo existe desde o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, mas a ideia inspira-se em lutas anteriores pelo transporte público em Florianópolis e Salvador. Não se trata de “ônibus de graça”, esclarece o manifesto: “Esse ônibus teria um custo, mas pago por impostos progressivos, não pela tarifa. O que a prefeitura precisa fazer é uma reforma tributária nos impostos progressivos, de modo que pague mais quem tem mais dinheiro, que pague menos quem tem menos e quem não tem não pague (impostos e taxas).” E ainda: “Distribuir melhor o orçamento público, separando uma parte para subsidiar o transporte, ao invés de gastar dinheiro em propaganda, corrupção e obras que não atendem às reais necessidades da população.”

Com a desenvoltura de quem dá o seu tempo livre ao MPL há dois anos, Luísa explica: “Vemos a mobilidade urbana como a questão que atravessa todo o direito à cidade. Para você ter saúde, educação, lazer, cultura, tem de conseguir chegar aos lugares. Então, transporte é luta de todo o mundo. Por isso o movimento tomou estas proporções.”

O aumento dos transportes tocou no bolso da população, foi o clique, mas muito trabalho já vinha a ser feito, na rua, em escolas, em campanhas, ressalva Luísa. E essa obstinação reflecte-se na firmeza com que ela e os colegas enfrentaram a polícia nos momentos violentos. “Nunca tive medo”, diz sobre a noite em que de repente se viu no meio de balas e gás. “Fui atrás, filmando tudo.”

 

Cultura de luta

 Junta-se à conversa Mayara Vivian, 23 anos, finalista de Geografia. Foi uma das enviadas do MPL a Brasília, quando a presidente Dilma Rousseff recebeu o movimento, já com a primeira batalha ganha. Fala das balas e do gás: “Cai uma bomba e a gente não sai. Ao invés de saírem correndo, as pessoas dispersam-se por grupos de 1000. Quem tem prática de manifestações diz: ‘Calma! Calma! Não corram!’ E isso foi sedimentado ao longo de anos.”

Mayara está no MPL desde a origem, ou seja, começou nisto aos 15. Brasília e o mundo podem ter sido apanhados de surpresa, mas o que rebentou em Junho não começou em Junho. “Construímos uma cultura de luta”, resume Luísa.

E no núcleo duro paulista não chegam a 50 pessoas. Tal como não têm líderes, não gostam de individualizar. Desconfiam da grande media brasileira, tradicionalmente conotada com interesses conservadores, políticos e económicos. Mayara não gostou de ser protagonista nos media e começa a responder de pé-atrás às perguntas do Público: onde cresceu, se conviveu com militância familiar. No máximo, diz que vem de uma periferia já na fronteira com o ABC paulista (a cintura industrial onde Lula foi operário), que os pais não têm ensino superior completo nem histórico de militância, que ela estudou sempre em escola pública.

Não fala sobre uma luta mais ampla. A “pauta” final do MPL — o objectivo — é a tarifa zero. E tem avançado, de batalha em batalha. “Há cinco anos a gente era chamado de maluco por falar em tarifa zero, mas agora conseguiu colocar isso na rua. Os 20 centavos eram a ponta do iceberg, por baixo tem os 3 reais.”

Acontece que a “pauta” explodiu em todas as direcções. E aí? O MPL vai continuar a falar só de tarifa zero? “Somos um movimento social anti-capitalista, portanto apoiamos todas as outras lutas para desconstruir a opressão generalizada”, ressalva Mayara. “A cidade é pautada pela lógica capitalista, expulsa pessoas, então a gente tem que ser solidária.” Por exemplo com ocupações ou resistência a despejos, de que São Paulo tem muitos exemplos no centro e na periferia.

Entretanto, uma das tendências nas manifestações foi a contestação generalizada aos partidos, abrindo todo um debate: a democracia representativa está a ser posta em causa?, a geração de 20 anos é anti-partidária? “O MPL não é anti-partidário, é apartidário”, distingue Mayara. A gente luta por um mundo em que caibam todos os mundos.” Vários partidos de esquerda se juntaram às primeiras manifestações e o MPL diz que são bem vindos todos os que reivindicam outra lógica de transporte público.

Ao mesmo tempo, o movimento cruza-se na rua com colectivos em que não se revê, como o Fora do Eixo, casa-mãe da Mídia Ninja, um fenómeno de transmissão dos protestos pela Internet (ver reportagem amanhã).

Exemplos exteriores em que os MPL se reveja? “Estamos inseridos num movimento histórico que tem a ver com os zapatistas”, diz Luísa. Ela própria esteve em Chiapas, num dos “caracóis” zapatistas, por coincidência aquele em que a repórter esperou à porta, enquanto viajantes de todo o mundo entravam, porque era jornalista, e os zapatistas tinham decidido que não iam falar a jornalistas.

Quando a repórter comenta que esse não foi um momento democrático, Mayara contrapõe: “Tem a democracia burguesa e tem a democracia das ruas.” Acha normal os zapatistas fecharem-se a jornalistas. “A reunião do MPL também é fechada. Se o Octávio Frias [director da “Folha de S. Paulo”] quiser vir numa reunião do MPL, não tem que vir mesmo.” Manifestações, acções em escolas, marchas, são abertas, “reuniões para discutir táctica são fechadas”. Parece vocabulário de guerra. “Mas a gente vive numa guerra de classes. E tem mídia de esquerda e mídia de direita. A gente chama de mídia de esquerda a que vai botar no jornal aquilo que a gente diz.” A outra mídia, dizem, manipula, acentua os actos de vandalismo. “A ‘Folha’ até inventou que a gente ia filmar os vândalos para ajudar a polícia.”

 

Zapata bloc

 Desde o encontro com Luísa e Mayara no vão da História, o MPL não parou: este segundo fim de semana de Agosto multiplicaram-se manifestações em Pernambuco e na Bahia, onde o governador os recebeu. Dia 14 de Agosto há uma manifestação convocada para o centro de São Paulo: “Chega de sufoco e corrupção: por um transporte público estatal de qualidade!”

E, na multiplicação das tribos, os militantes do movimento vão continuar a cruzar-se com o Black Bloc. Não usam a “acção directa” contra bancos ou multinacionais, mas coincidem em questões programáticas, como o anti-capitalismo ou a admiração por Zapata.

Na página do Black Bloc Brasil no Facebook, que no fecho desta edição estava com mais de 37 mil seguidores, o lema no topo vem de Emiliano Zapata: “É melhor morrer de pé do que viver de joelhos.” Percorrendo dias, semanas, meses, é possível encontrar tanto Einstein (“O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os olham e não fazem nada”) como clássicos do anarquismo e brasileiros contemporâneos.

Movimento-táctica com origem em grupos europeus desde os anos 80, o Black Bloc expõe, na sua página brasileira, um conjunto de princípios: não tem líderes; luta contra “grandes corporações, instituições e organizações opressoras”; protege os manifestantes da violência do estado; acredita que o pequeno empresário é vítima e também tenta protegê-lo; vê a polícia como inimiga “somente a partir do momento em que suas acções tomam carácter opressor”.

Está a crescer pelo país. Sexta-feira colocou a bandeira vermelha e negra na ocupação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Para 7 de Setembro, Dia da Independência, promete um “badernaço” nacional, sobretudo em Brasília.

Na noite de 1 de Agosto, os seus adeptos acabaram a descer pela Rua Augusta, rumo à delegacia para onde tinham sido levados os detidos. Novo frente-a-frente com o batalhão de choque, até a polícia militar lançar gás de pimenta. Fora essa tosse, não houve bancos partidos, nem gás ou balas. E nenhum cara-tapada se recusou a falar com a repórter, nem que fosse só para dizer: “Nossa acção é directa, não tem necessidade de explicação.”

Deixe um comentário

Arquivado em Manifestações

“Odeio o Brasil” – Francisco Bosco

Excelente a crônica de Francisco Bosco publicada no jornal O Globo, a 13 de junho de 2013:

Nunca pensei que fosse escrever isso. Fui formado principalmente por uma tradição de intérpretes do Brasil que enxergava na singularidade de nossa formação um vasto tesouro e um enorme potencial. A cultura popular em Mário de Andrade, a criatividade antropofágica em Oswald, a glória e a tragédia da miscigenação em Freyre, até chegar em intérpretes contemporâneos, como Risério, Caetano, Wisnik, Antonio Cicero, entre outros que, sem baratear nossos impasses e mazelas, permaneceram afirmativos da nossa singularidade e capazes até mesmo, como no caso de Caetano, de vislumbrar uma civilização brasileira com lições a oferecer ao mundo. Infelizmente, sinto-me cada vez mais afastado de um pensamento amoroso e afirmativo de nossa história, de nosso presente e, consequentemente, de nosso futuro.

Um dos traços mais positivos de nossa formação é o fato de que aqui o concreto prevaleceu sobre o abstrato. É claro que o reverso da moeda, como soube ver de modo seminal Sérgio Buarque de Holanda, é a incapacidade de regularmos as relações sociais pelos princípios abstratos e impessoais da lei. Mas o privilégio do concreto sempre foi um antídoto poderoso, um desmentido da realidade contra as ideologias totalitárias, da eugenia racista aos monoteísmos perseguidores. Continuo considerando, por causa disso, o Brasil um país especialmente apto a erradicar o legado da escravidão, mas para isso precisamos de uma massa de ações afirmativas, o que por sua vez esbarra no reacionarismo de classe e no negacionismo interessado (talvez seja a mesma coisa). Continuamos sendo, por um lado, uma cultura livre dos terrorismos étnicos e religiosos que assolam boa parte do mundo, mas, por outro lado, o crescimento do poder dos monoteísmos ameaça essa que é uma de nossas poucas virtudes civilizatórias. Os evangélicos paranoicos, os cristãos obscurantistas e a direita monossexual à Bolsonaro vão ganhando terreno cada vez mais perigosamente. A PEC 99/11, que possibilita a entidades religiosas questionarem decisões judiciais, elevando os valores da fé a argumentos jurídicos, pode, se passar, ser um marco terrível da reação.

E tudo isso acontece, pasmem, num governo supostamente de esquerda, que muitas vezes facilita essas manobras e se esquiva o quanto pode de se pronunciar com clareza sobre temas civis fundamentais. À presidente Dilma parecem interessar apenas as questões relativas à economia; os posicionamentos do governo quanto a temas como casamento entre homossexuais e descriminalização das drogas são omissos ou conservadores.

Mas o mais grave ainda está por vir. Num momento em que a Humanidade precisa modificar sua intervenção no ecossistema, sob pena de não haver mais espécie humana, o Brasil aprova um Código Florestal catastrófico, os ruralistas mandam e desmandam no legislativo, a esquerda desenvolvimentista do PT insiste em construir Belo Monte — e os índios vão sendo assasinados, torturados ou relegados à mendicância (ou emparedados até o suicídio). Em uma manifestação contra o fim da Aldeia Maracanã, o poeta Ramon Mello carregava um cartaz onde se lia a precisa pergunta: “O que se teme no índio?” Não é difícil responder. O índio é para a nossa sociedade o objeto que impossibilita o recalque de uma verdade dura demais: a verdade de que o “progresso” humano está nos conduzindo dialeticamente à morte, à morte de tudo e todos. Os desenvolvimentistas querem acabar com o índio pela mesma razão que nós enterramos um cadáver: porque ele nos lembra da nossa própria morte. É isso o que se teme no índio. Não encarar agora a verdade simbólica do índio implicará em ter que encarar a verdade real que o seu extermínio anuncia.

E enquanto essas grandes questões vão regredindo em nome do progresso, a vida ao rés-do-chão não apresenta sinal de melhoras. Sim, o país cresceu; milhões de pessoas saíram da linha da miséria (embora uma matéria recente da “Folha” tenha mostrado que os números são controversos). E isso não é pouco. É de condições básicas que estamos tratando, de justiça social mínima. Viva o bolsa família. Viva o emprego. Viva a PEC das domésticas. Mas é incrível como permanece a incapacidade da sociedade brasileira de se pensar como um organismo interdependente, onde as ações de cada sujeito devem seguir critérios de justiça para o bom funcionamento do todo. Aqui é cada um por si e todos contra todos. Isso degrada a confiança no respeito às leis, sem a qual os cidadãos não conseguem deixar de reproduzir o comportamento de violação dos pincípios públicos, e produz um desgaste insuportável na vida cotidiana.

Feito o desabafo, resta seguir lutando.

4 Comentários

Arquivado em Crônica